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Muito choro e pouco siso*

Antero Greco

30 junho 2014 | 11:01

Felipão, certa vez, definiu Bernard como alguém que tem “alegria nas pernas”. Com aquela imagem, o treinador tentou resumir o que esperava do rapaz e, por extensão, da seleção sob seu comando. O sonho era ter grupo solto, leve, com equilíbrio perfeito entre descontração e concentração no desafio de disputar o Mundial em casa.

Pois bem, o Brasil enfrentou quatro adversários até agora, garantiu presença nas quartas de final, segue o percurso que pretende desembocar no sexto título. Porém, não conseguiu dosar ligeireza com tensão na medida certa. Os rapazes da amarelinha são emocionalmente instáveis. Muito chorões. Têm lágrimas demais e sorrisos de menos. Invertem o dito popular, que via falta de juízo (siso) em muito riso.

Longe de mim atitude machista, e preconceituosa, de que homem não chora. Marmanjo pode emocionar-se, debulhar-se em lágrimas, abrir o coração, dar um bico na repressão. Sem que, dessa maneira, tenha a masculinidade colocada em dúvida. É bonito ficar com os olhinhos vermelhos por uma paixão, por uma alegria intensa, por uma cena de filme tocante, por uma música delicada. Motivo a gosto.

Pode ser apenas psicologia barata que estou a desfiar aqui. E, de antemão, aceito colaboração, com reparos dos profissionais da área. Mas, puxa vida, tem algo que não consigo definir – e que, no entanto, perturba – no comportamento da moçada. Toda hora esse povo chora: ao entrar em campo, ao trocar flâmula, na execução do hino, antes dos pênaltis, durante os pênaltis, depois dos pênaltis. Quando o juiz apita o fim do jogo, na ida ao vestiário, nas entrevistas…

Nem é o choro que incomoda, mas o comportamento a ele atrelado. A sensibilidade aguçada se transfere para o desempenho em campo – e, em geral, pra baixo. Há instabilidade emocional, que se estende para o lado prático, ou seja, técnico, tático, estratégico.

Se o adversário aperta, os brasileiros acusam o golpe. Foi assim na estreia, contra a Croácia. Ah, mas lá, tudo bem, demos desconto, porque era abertura da competição. Só que se repetiu contra o México (empate de 0 e 0) e Chile, no sufoco danado de anteontem até a última penalidade. Chega um momento em que a gangorra vai dar um bode e tanto.

A Comissão Técnica fez trabalho de acompanhamento psicológico com todos. Talvez seja o caso de reforço, se ainda houver tempo. Outro desafio da pesada é fazer o time variar jogadas, criar, economizar nas ligações diretas entre sua defesa e seu ataque.

E não depender tremendamente de Neymar. Basta o rapaz apagar, como aconteceu a partir do segundo tempo no Mineirão, e o resto embarca junto. Vá lá que o garoto tenha talento, só que não é fonte inesgotável.

Tempo quente. Empolgantes e desgastantes duelos de ontem. A Holanda chega cansada e forte, após virada incrível sobre o México, em cima da hora. E Costa Rica, eufórica com a façanha inédita, alcançada só na série de pênaltis sobre a Grécia. A surpresa!

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 30/6/2014.)