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Bateu na trave*

Antero Greco

domingo 29/06/14

Caro amigo, acalmou? Baixou a adrenalina? Relaxou no restante do sábado? Não sonhou com pênaltis, cordilheiras, traves, tropas a invadir o palácio La Moneda? Ainda bem. Agora que o susto passou, vamos ter uma conversinha a respeito da seleção. A turma de Felipão segue, na sexta-feira volta a entrar em campo, de novo em Fortaleza, [...]

Caro amigo, acalmou? Baixou a adrenalina? Relaxou no restante do sábado? Não sonhou com pênaltis, cordilheiras, traves, tropas a invadir o palácio La Moneda? Ainda bem. Agora que o susto passou, vamos ter uma conversinha a respeito da seleção.

A turma de Felipão segue, na sexta-feira volta a entrar em campo, de novo em Fortaleza, na continuação dessas etapas de Copa América dentro do Mundial. A parada será com a Colômbia, time mais solto do que o Chile. Mas a verdade é soberana: que atuação destrambelhada no Mineirão. Foram duas horas de futebol preocupante, desengonçado, emocionalmente abalado, em que sobrou coração, mas faltaram pernas, inteligência, estratégia.

Quanto sofrimento para eliminar, nos pênaltis, o bem arrumado, embora nada excepcional, time do Chile. Que sufoco para superar as oitavas de final em casa. Por um fio – ou por uma bola no travessão e outra na trave –, o Brasil não apeia da competição logo após superar a fase de grupos. A última vez em que isso aconteceu foi em 1990, quando Maradona, Caniggia e cia., com ajuda de água batizada, se livraram da tropa de Lazaroni em Turim.

Você gostou da seleção? Eu, não. No começo, agradou a postura aguerrida, fora a atenção nas divididas, a disposição para não vacilar em nenhum momento, a tentativa de ir para cima. Imaginei que o coisa-ruim seria menos feio do que se pintou nos dias prévios ao duelo. A convicção aumentou com o gol de David Luiz. Se não fosse barbada, parecia ao menos tarefa sob controle.

Daí, veio a bobeira de Hulk e Marcelo, seguida do gol de empate. O Brasil ficou estupefato, mais até do que a torcida, que, do início ao fim, não se decidiu a respeito do que cantar nas arquibancadas. Ou apelava para o “Sou brasileiro, com muito orgulho”, ou “O campeão voltou”, ou até o Hino Nacional, ao bater desespero.

O Chile, com seu exército de baixinhos, cresceu, ganhou o meio-campo, botou pilha no nervosismo verde e amarelo. A toada se manteve no segundo tempo e durante toda a prorrogação. Além do cansaço dos dois lados, Julio Cesar e Bravo, com uma defesa maravilhosa por cabeça, tiveram parcela significativa para levar o tira-teima para os pênaltis.

Deu dó da rapaziada. Por extensão, também da bola, que apanhou como boi ladrão. O nível técnico despencou, e foi uma tortura geral. Mas, na hora em que Pinilla quase arrebenta o travessão no finalzinho do tempo extra, bateu a certeza de que o Brasil passaria. Depois, Julio Cesar voltou a fazer a parte dele, com outras duas defesas, e contou com a trave no chute final.

Alívio, festa e explosão. Agora, pausa para reflexão. A seleção carece de variação de jogadas, abusa da ligação direta entre defesa e ataque, depende muito de Neymar (que sumiu desde o segundo tempo e só reapareceu no pênalti decisivo) e não tem imaginação.

A vontade e a camisa pesam, mas é mais seguro contar com bom futebol. E ele não apareceu em BH.

PS. Será que agora some o papo de que a Copa “foi comprada”? Deu. Bom domingo.

*(Minha crônica publicada na segunda edição do Estado de hoje, domingo, dia 29/6/2014.)