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O Brasil tem de domar os Leões… e a bola*

Antero Greco

23 junho 2014 | 12:54

Há gente que gosta de agourar a seleção. Ou, no mínimo, tem satisfação de botar em dúvida a capacidade de o time nacional sair de enrascadas, reais ou imaginárias. Agora, por exemplo, corre por aí o temor de tropeço, hoje, contra Camarões, no Mané Garrincha, em Brasília. Na visão dos apocalípticos, seria a confirmação de fiasco anunciado e jamais vivido pela equipe canarinha nos 84 anos de disputa de Mundiais.

Calma lá. O Brasil não jogou grande coisa nos 3 a 1 na Croácia nem no 0 a 0 com o México. Quanto a isso, há consenso nas análises, exceto para Felipão, os próprios jogadores e alguns agregados, para os quais a evolução está na cara. Mas, daí a prever hecatombe no Distrito Federal, só coisa de secador por vocação, espírito de porco de nascença.

Para quem se apega a tradição, lembro que só em duas, das 20 edições da Copa, o Brasil não passou da etapa inicial: em 1934, ao perder da Espanha na estreia (os jogos eram todos eliminatórios), e em 1966, na Inglaterra, quando defendia o bi conquistado no Chile. Saltar do barco, em casa, no jogo 100 em Mundiais, nem por pesadelo de Freddy Krueger.

Opto por otimismo moderado. A seleção tem oportunidade excepcional de dar guinada no desempenho, desde que mantenha sob controle adversário batido, eliminado, desconcertado. Nesta Copa, os Leões são Indomáveis só no apelido. Contra México e Croácia puseram as garras para fora em brigas entre eles mesmos. No mais, se comportaram como mimados gatinhos de madame. Quer dizer, já foram meio domesticados; falta a estocada final. E outra: ganhar de Camarões é obrigação.

Mais complicado é amansar a bola. Não, meu amigo, Neymar e companheiros não apanharam da brazuca, tampouco a conduziram com o controle devido. Existe algum conflito entre estes e ela, só não vê quem não quer. Por culpa dos rapazes de Felipão. Pode reparar como a bola agiu com docilidade em muitos dos jogos da fase de grupos. Não é à toa que as goleadas se repetem, como os 4 a 2 da Argélia sobre a Coreia do Sul, no Beira Rio.

Para não fugir do script de situações semelhantes às que encontrará hoje, Felipão alerta pra armadilha que representa topar com rival liquidado. Vá lá, um tico de prudência não prejudica. Muita não faz bem.

A seleção tem de impor, ao menos uma vez nesta Copa, o ritmo alucinante – e eficiente – que deu tão certo na Copa das Confederações. Até agora, não se viu a blitz da amarelinha, que era mais aterradora do que incertas dos marronzinhos da CET.

Para tanto, jogadores fundamentais como Fred, Paulinho, Hulk têm de despertar, assim como se espera regularidade de Oscar e a genialidade de Neymar. E as descidas de Daniel Alves e Marcelo, porém com objetividade. Em uma frase: o Brasil tem de jogar bola, subjugá-la.

A chance é agora, para últimos erros e, por extensão, para a busca de acertos. A partir das oitavas de final, cochilos representarão desclassificação. Para a alegria das aves de mau agouro. E as há.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 23/6/2014.)