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E foi o toureiro quem levou o “olé!”*

Antero Greco

19 junho 2014 | 10:22

Pessoal, essa tal de Copa apronta cada uma que vou te contar. Não passa edição sem uma surpresa daquelas. A bola da vez aconteceu ontem, com a desclassificação pra lá de precoce da Espanha. Os campeões do mundo caíram pela segunda vez consecutiva, agora diante do Chile, e já estão de malas prontas para voltar pra casa.

Só não pegaram o primeiro avião para Madri, à noite mesmo, porque o protocolo os obriga a enfrentar a Austrália, na última rodada, segunda-feira, em Curitiba. Se pudessem, davam WO para não correr risco de novo vexame. O melhor a fazer é aproveitar o que lhes resta e curtir um pouco o Brasil. Que fiasco!

Na verdade, a contagem para o nocaute dos espanhóis foi aberta nos 5 a 1 diante da Holanda. No vareio da estreia, sentiram que o estilo envolvente dos últimos anos se esgotava. O tiki-taka, sistema de toques infindáveis para cansar rivais, ficou manjadíssimo. Há algum tempo não assusta, embora ainda apresentasse resultados satisfatórios e menos frequentes do que antes.

O trabalho dos chilenos no Rio se limitou a liquidar uma equipe que estava com autoestima bem abalada. Claro que a equipe do técnico Sampaoli teve méritos – e muitos –, pelo estilo seguro com que se apresenta. Na prática, o que se viu no Maracanã foi o toureiro tomando ‘olé!’ embaraçoso, do touro e da torcida.

A eliminação da Espanha surpreende, em parte, porém não é obra de forças do Além. Outros campeões passaram por humilhação semelhante – casos de Brasil em 1966 (vinha do bicampeonato no Chile), França em 2002 (após o título de 1998) e Itália em 2010 (depois do tetra em 2006). O desafio de La Roja (A Vermelha) concentra-se na reconstrução.

Há ciclo para tudo, e este chegou ao ponto final para a geração formidável, que tem em Xavi, Xabi Alonso, Piqué, Casillas, Sergio Ramos e Iniesta os principais representantes. Merecem aplausos e reverência, pelas duas Eurocopas e pelo Mundial na África do Sul. A questão é encontrar substitutos à altura. Os espanhóis evoluíram, sem dúvida. Mas terão capacidade de recriar-se, de produzir foras de série, como têm Brasil e Argentina?
Eis a dúvida atroz. “Chi, chi, chi, le, le, le. Viva Chile.”

Abre o olho, Felipão. O Brasil topará com obstáculo encardido nas oitavas. Sim, sim, acredito intensamente na classificação da seleção, apesar do futebol instável. Seria menosprezar demais a história canarinha imaginar a degola diante de Camarões. Calma, gente, não é assim!

Felipão deve ter visto os jogos de ontem e percebeu que tanto Holanda quanto Chile mostram credenciais para incomodar na etapa seguinte. Há quatro anos, a seleção se deu bem contra o Chile nas oitavas e se estrepou com os europeus. Com pequenas variações, a situação se inverteu: os sul-americanos estão mais consistentes do que os holandeses.

Ou seja, Scolari tem de fazer o time reagir, e logo, para não viver pesadelo em BH.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quinta-feira, dia 19/6/2014.)