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Imagina na Copa… Imagina na Copa… Eis aqui a Copa*

Antero Greco

12 junho 2014 | 10:41

Diga lá, de bate pronto, quantas vezes nos últimos anos você ouviu – senão falou – [/CAPITULAR]a frase “Imagina na Copa”? Difícil contar. Qualquer contratempo numa fila de banco, e lá aparecia o “Imagina na Copa”. Problemas no desembarque no aeroporto? “Imagina na Copa.” Trânsito ruim, metrô atrasado? “Imagina na Copa.” Casos de violência ou corrupção? “Imagina na Copa.” Preço alto na feira, no boteco ou no restaurante? Meu Deus! “Imagina na Copa.”

Virou lamento fúnebre, sinal de azar, senha de mau agouro. Uma espécie de esconjuro, sai pra lá! O Mundial a ser disputado pela segunda vez no país transformou-se no responsável por todas as nossas mazelas – passadas, presentes e futuras. E tome “Imagina na Copa” a antever catástrofes inomináveis.

Pois a Copa chegou. Não é preciso mais imaginá-la, e sim vê-la, senti-la, curti-la, apreciá-la e avaliá-la a partir de hoje, desde o momento em que a seleção entrar em campo para enfrentar a Croácia no Itaquerão. Ela se torna realidade, para os que nunca duvidaram, para os que acreditam em tudo e para os que sonharam com o “Não vai ter Copa.”

Não se deve abdicar do senso crítico em relação a cartolas e políticos. É necessário cobrar as promessas da presidente Dilma de que gastos estão sob análise e que deslizes (e respectivos irresponsáveis) não ficarão impunes. Sei lá, isso soa mais como conversa retórica. Em todo caso…

É justo que se manifestem as pessoas que não curtem o Mundial, assim como não se pode impedir que categorias profissionais façam reivindicações que considerem corretas. Democracia convive com diferenças e conflitos. A torcida fica para que não ocorram excessos na ação e na reação.

Mas o momento é também de liberdade para aquele que gosta de futebol conceder trégua nas exigências e festejar gols, cutucar rivais, saborear evento tão especial. Com intensidade, e sem o temor de levar o carimbo de cidadão de segunda classe por emocionar-se com o jogo de bola. Viver a Copa não equivale a esquecer do que houve de errado. Se quiser vibrar, vibre. Não dê trela para patrulhamento. E, se possível, evite ufanismo tosco.

A Copa virou instrumento político, para situação e oposição. Um lado e outro tentará tirar proveito de sucesso ou fiasco. Mas impossível cravar que este ou aquele resultado no campo influirá nas urnas. Não vem ao caso agora.

A seleção corre por fora nesse burburinho. Felipão em pouco tempo montou um time que obteve resultado expressivo, porém não definitivo, com a conquista da Copa das Confederações em 2013. A seleção hoje tem uma espinha dorsal (fora o astro Neymar) que permite projetar bom desempenho, assim como impede de cravar favoritismo total. Mundial é torneio de tiro curto, no qual não se permitem falhas.

Amigo, se der, abstraia idiossincrasias e deixe-se envolver pelo futebol. Por um mês, só. Depois, retomamos rotina e não daremos sossego aos que pisaram na bola.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quinta-feira, 12/6/2014.)