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Neymar, o bibelô de cristal da seleção*

Antero Greco

10 junho 2014 | 12:19

Meu amigo, graças aos céus temos Neymar. O rapaz é bom de bola e a maior esperança para a seleção se dar bem no Mundial. Torço para que estraçalhe já a partir de depois de amanhã. O hexa, se vier, passará muito pelos pés e pela inteligência da ex-joia santista, para alegria total dos simpatizantes e para desespero dos que não o suportam (e os há por aí).

Mas a dependência dele, no momento, mostra-se tão acentuada que, qualquer espirro mais forte que der, provoca corre-corre de colegas, médico, massagista, roupeiro, comissão técnica. E, claro, desperta frisson na imprensa, categoria da qual faço parte. Uma pisadinha em falso, e na hora se ouve o disparar voluptuoso de clics e as câmeras de tevê voltadas nele. Normal, só astros chamam a atenção.

Essa conversa toda para explicar que ontem, durante o treino, Neymar desencadeou onda de rumor ao cair e colocar a mão no tornozelo. O que foi?, o que não foi?, atividade interrompida, gente em volta, pega daqui, examina dali, até um pedido do Felipão (“Não vão se machucar, pelo amor de Deus!”). Sei que foi um ai-jesus de abalar a calmaria da tarde na Granja Comary.

Passado o susto, vida que segue e bola pra frente. Se bem que, no final, evitou contato com o público que se aglomera nas cercas em volta do campo e que fazem parte do condomínio em que está a concentração da CBF. Neymar recolheu-se e ficou uma fagulha de interrogação no ar.

Na prática, não acontecerá nada – e este é um prognóstico, não um diagnóstico. Neymar estará perfilado, no Itaquerão, na quinta-feira, para ouvir o Hino Nacional e depois ir pra cima dos croatas. Alarma, mesmo, saber que uma contusão, risco ao qual todo atleta está sujeito, pode mudar o rumo do Brasil.

Não é por nada, não. Mas, se o Neymar ficar fora de alguma partida, o caldo entorna pro lado da turma canarinho. Ele ganhou importância desmedida em pouco tempo. Ok, é uma bênção ter um craque no time, e só tonto iria lamentar. Dádiva maior seria ter vários, o que não é o caso, hoje em dia. Infelizmente. Então, vamos fazer uma fezinha para que não sofra nem um arranhão? Não custa acender uma velinha, espalhar um sal grosso, distribuir uns ramos de arruda. Ah, sei lá, veja aí qual o ritual mais adequado à sua crença e contribua para a felicidade geral da nação.

O lamento de Blatter. Ora, vejam só: os poderosos também têm temores. O presidente da Fifa queixou-se ontem de forças que tentam desmoralizar a entidade que dirige desde 1998. Na avaliação dele, há gente interessada em desmerecer as ações da grande família do futebol, sobretudo ao esmiuçar escândalos que cercam, por exemplo, escolha de sedes para Mundiais. O objetivo oculto seria apeá-lo do poder.

Mr. Blatter faria bem em dar olhadela em volta, porque o inimigo muitas vezes não é externo, mas íntimo. Basta conferir as atitudes de certos integrantes da família.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, terça-feira, dia 10/6/2014.)