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A seleção não joga bem contra a Sérvia. Teste perfeito*

Antero Greco

sábado 07/06/14

Parte da torcida que enfrentou trânsito, frio e chuva no Morumbi na tarde de ontem vaiou a seleção. Direito inalienável de quem pagou ingresso e não gostou do espetáculo. Mas eu não assobiaria contra a rapaziada de Felipão, embora concorde que tenha feito apresentação bem aquém do desejado. Mas, justamente por não ter jogado legal, [...]

Parte da torcida que enfrentou trânsito, frio e chuva no Morumbi na tarde de ontem vaiou a seleção. Direito inalienável de quem pagou ingresso e não gostou do espetáculo. Mas eu não assobiaria contra a rapaziada de Felipão, embora concorde que tenha feito apresentação bem aquém do desejado.

Mas, justamente por não ter jogado legal, saí do estádio do São Paulo satisfeito. Muito. Você pode me achar contraditório – e sou mesmo, graças a Deus. Tenho uma coleção interminável de dúvidas e mantenho distância saudável de pessoas de convicções inabaláveis. Essas em geral são chatas, intolerantes e ostentam senso de humor zero. Não conversam; ensinam.

Mas eu dizia o que mesmo? Ah, sim. Fiquei feliz com as agruras pelas quais passou o Brasil, no último teste antes da estreia no Mundial. Mostrou problemas de cabo a rabo, da defesa ao ataque. Abusou dos erros, foi uma festival de trombadas e passes tortos.

De quebra, ainda bem que topou com a Sérvia, adversária que não alisou nem ficou a admirar a evolução de nossos moços pelo gramado. Ao contrário, abriu a caixa de ferramentas com três segundos – se ouvia até o som do apito inicial -, na primeira pancada sobre o Neymar. A vitória de 1 a 0 foi magrinha, apertada, chorada, sofrida, com gol de Fred caído – bola na rede na hora em que o público pegava no pé do camisa 9, mais abandonado lá na frente do que carcaça de aviões da Vasp.

A partida decepcionou quem queria outro recital de Neymar e companheiros, como na goleada sobre o Panamá (4 a 0). A seleção mal teve espaço para lances perigosos na primeira etapa, pouco chutou a gol e bateu cabeça, como numa bola em que David Luiz e Thiago Silva se chocaram e ela quase sobra para o sérvio. Fora a farra do boi em saídas de jogo malfeitas, na transição da defesa para o meio-campo. Vacilo após vacilo, coisa de preocupar, desde que fosse jogo oficial.

Atenuante: foi apenas etapa de preparação. Felipão, Murtosa, Parreira e colaboradores terão material farto para análise na volta à Granja Comary, neste fim de semana. Poderão ver e rever, em detalhes, pontos fortes e brechas na equipe que pegará a Croácia, dentro de cinco dias, no Itaquerão. Bom que tenham interrogações; havia certezas demais.

Felipão observou que Daniel Alves continua abaixo da média de atuações no Barcelona. A sombra de Maicon cresce (e ele esteve seguro, quanto entrou). David Luiz e Thiago Silva precisam ajustar a sintonia fina. Marcelo se solta mais, porém cochilou em algumas jogadas. Julio Cesar apareceu raramente, e sem complicações.

No meio, Paulinho esteve sem ritmo, Oscar idem (Willian entrou melhor, mas sem brilho). Luiz Gustavo ficou sobrecarregado. Fred continua largado, toca na bola esporadicamente. Salvou-o o gol. Hulk é útil, brigador. Neymar exagerou no individualismo. Desta vez, faltou generosidade e produziu pouco. Bacana. A seleção sai das nuvens e põe os pés no chão.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sábado, dia 7/6/2014.)