1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Não é feio nem pecado gostar do Mundial*

Antero Greco

05 junho 2014 | 12:51

Daqui a uma semana será aberto o segundo Mundial do Brasil. No dia do pontapé inicial, haverá pompa, circunstância, fanfarras, fanfarrões, figurinhas e figurões. Além de protestos, congestionamentos, segurança pra lá de reforçada, hinos, festa, discursos, dança, aplausos, vaias, selfies aos potes (se possível). E as arquibancadas do Itaquerão, fixas ou móveis, forradas de camisas amarelas. Enfim, uma farra.

Falta pouco para a largada do evento mais apaixonante do esporte (Olimpíada à parte). Porém vivemos, ainda, o fenômeno de sentir vergonha de admitir ansiedade para que a Copa comece. Quem curte o joguinho de bola – e é parte muito significativa do País – está na maior expectativa de ver Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo, Ribéry e outros astros em ação no quintal de casa. Jogadores badalados desfilarão por aqui, estarão quase ao alcance de simples torcedores que os veem só por televisão.

Tem gente já a roer as unhas só de imaginar o sufoco que a seleção possa enfrentar contra os gringos. Não falta quem tenha feito promessas, para ajudar na caminhada para o hexacampeonato. A busca por ingressos engasgou servidores da Fifa e desencadeou bronca dos milhares que ficaram a chupar dedo. Cambistas (como conseguem bilhetes?) calculam lucros fabulosos nas revendas.

Tudo isso ocorre com certo pudor, com um quê de clandestinidade. Há gente quase a pedir desculpas por extravasar a paixão, por permitir que ela mostre a cara, por emocionar-se. Por causa do turbilhão de manifestações de 2013, pelas críticas recorrentes a mau uso de verbas, disseminou-se sentimento contraditório: queremos curtir o Mundial, mas nos tolhemos de reconhecer o desejo.

Não é pecado nem crime gostar de futebol, não é atitude indigna admirar a seleção. Ninguém deve considerar-se cidadão menos consciente por, eventualmente, comemorar gol de Fred (se acordar até lá, claro). Nenhum de nós precisa esconder sensibilidade, para evitar o risco de levar carimbo de pacheco, o patriota incondicional, cego e alheio a tudo que não diga respeito à amarelinha.

Nada disso. Não há clima para “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Ótimo. Quem lembra dos anos 1970 sabe o quanto era nefasto. Agora, é diferente. Da mesma forma, não há necessidade de achar que tudo é porcaria e fingir indiferença com o Mundial. Cascata, conversa mole!

Críticas foram feitas ao planejamento torto da Copa – e me orgulho de ter usado este espaço para cutucar poderosos em inúmeras ocasiões. Devemos insistir nas cobranças, apertar responsáveis por gastos inúteis, em alguns casos dar-lhes a resposta nas urnas e exigir agilidade de tribunais de contas. Talvez o grande legado do Mundial seja uma tomada de consciência geral, não só no que se refere ao esporte, mas em todas as decisões que afetem nossa vida.

Pessoal, “é preciso estar atento e forte”, como cantaram Caetano e Gil. Sempre. Todavia, não carece jogarmos a toalha e nos privarmos da alegria do futebol. Nos roubaram muita coisa, não podem nos privar de gritarmos gol.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quinta-feira, 5/6/2014.)