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Seleção com muita certeza. Cairia bem pitada de dúvida*

Antero Greco

02 junho 2014 | 11:32

A seleção colocou ontem o pé na estrada. Depois de uma semana de convivência pacata e com certa discrição na Granja Comary, a tropa convocada por Luiz Felipe Scolari iniciou a fase de vaivém constante pelo país da Copa. A primeira etapa dos muitos milhares de quilômetros a rodar, especialmente se chegar à disputa do título, inclui esta passagem por Goiânia, com o amistoso de amanhã com o Panamá. Um gesto de agrado para uma cidade que merecia ser sede da competição e foi preterida pelo afago descomunal ao poder, com a escolha de Brasília. Bem, agora nem adianta discutir, virou papo bizantino.

A caravana abandonou por alguns dias o refúgio na serra fluminense com certezas na bagagem. Ao contrário de um ano atrás, na largada para a Copa das Confederações, não há pontos de interrogação em todos os setores, nem temores em torno deste ou daquele jogador. Muito menos clamor por possíveis injustiças nas escolhas do treinador. O torcedor médio, que acompanha o futebol com regularidade, sabe declinar o nome dos 11 titulares que, muito provavelmente, abrirão o Mundial diante da Croácia, na tarde do dia 12, no belo estádio Itaquerão.

Que bom, não é mesmo? Ficaria chato se a anfitriã estivesse atrasada na preparação, na mesma toada de diversos palcos da festa. Por isso, salvo imprevistos de última hora, como um mal-estar (bate na madeira, toc! toc!), a caminhada rumo ao hexa será puxada por Julio Cesar, Daniel Alves, Thiago Silva (fica fora nesta terça-feira), David Luiz, Marcelo, Luiz Gustavo, Paulinho, Oscar, Hulk, Fred, Neymar.

A escalação surge como desdobramento do trabalho e do sucesso parcial. A glória total, só virá com o título, como admitem integrantes da comissão técnica, jogadores, cartolas, torcida, presidente da República, bispo e até o papa. Se bem que Francisco é argentino, fã de Messi. Sabe-se lá…

O que eu queria dizer mesmo antes da digressão? Ah, sim. Convicção aos borbotões breca a sabedoria. Os antigos gregos – não o Greco aqui – recomendavam ao homem sempre levar na algibeira (hoje seria na mochila ou na bolsa) uma pitada de dúvida.

A incerteza, o questionamento, as avaliações de prós e contras de qualquer questão, nos colocam em alerta, estimulam o pensamento, levam à criatividade. E, por extensão, conduzem à luz. Bacana. Meus antepassados remotos eram bom de filosofia. Um deles advertia, num diálogo pelas praças atenienses: “Só os cretinos não têm dúvidas.” Ao que o discípulo perguntava: “Tem certeza?”. A resposta, irônica: “Não tenho dúvida alguma.”

Felipão é inteligente e espero que tenha pulguinha atrás da orelha a cutucar-lhe e impeça que ostente decisões irrevogáveis. Tomara fique a matutar, por exemplo, como recorrer a Willian, destaque nos treinos, pela velocidade e passes, ou como apelar para Hernanes, o reserva que mais entra. Ou como aproveitar da fase goleadora de Marcelo. Enfim, que não flerte com a inércia.

*(Minha crônica no Estado de hoje, segunda-feira, dia 2/6/2014.)