Para os que creem, dentre os quais me incluo, esta é semana gloriosa, por recordar o martírio, a morte e a ressurreição de Jesus. Para os apaixonados pelo futebol, e faço parte desse grupo fervoroso, serão dias especiais, porque depois de amanhã Ademir da Guia, o Divino, a lenda, o mito, o ídolo eterno do Palmeiras, completa 70 anos. Cristo e o craque são duas manifestações estupendas do amor de Deus pela Humanidade.
Ademir da Guia pertence a uma geração abençoada de artistas dos gramados nacionais, que teve ainda Gerson, Rivellino, Dirceu Lopes, Tostão, Garrincha, para ficar em pequena amostragem e para não arrancar lágrimas de nostalgia. E Pelé, o supremo. Não me ponho a tocar violino lamentoso aqui nem vou alardear como era grandioso e inigualável o futebol de minha juventude. Sou um irremediável saudosista, mas não tonto.
Cada época tem seus astros – e aqueles que nos fizeram sonhar na infância nos acompanharão pela vida toda. Nada, ou muito pouco, supera o impacto das descobertas dos primeiros anos, sobretudo no que se refere à paixão incomparável pelo joguinho de bola. Para a moçada de hoje Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo serão os semideuses para jamais esquecer. E isso é muito justo.
Ademir deslizava em campo e enganava adversários com falsa lentidão. Suas passadas eram tão largas, elegantes e sutis que davam a impressão de que se movia em câmera lenta, nem parecia sacudir a camisa verde que vestiu por 17 anos. No entanto, num piscar d’olhos saía da defesa, superava o meio do campo e aparecia na área para chutar a gol.
A bola ficava aninhada nos pés de Ademir, mimetizava com o corpo esguio de mulato sarará, era uma extensão dele. E jamais foi maltratada pelo filho de Domingos da Guia, o primeiro Divino. Ademir não dava de bico. Não há registro, em duas décadas de carreira, de que tenha feito um arranhão em alguma bola.
Ademir não era espalhafatoso nem presunçoso nos passes, nos dribles, nos lançamentos longos, nos deslocamentos, na domínio, no cabeceio. Era apenas perfeito. Era onipresente. Onde seus companheiros das duas versões da Academia do Palmeiras – nos anos 60 e 70 – o procurassem lá ele se encontrava, para acalmar, para ajeitar, para comandar, para criar e reger. Era maestro.
Ademir não era falastrão, não era posudo, nem dentro nem fora de campo. A voz mansa, o jeito discreto e polido escondiam inteligência, bom humor, ironia fina. Ademir não precisava sair em coluna social, não tinha necessidade de marketing para apregoar seu valor. Ele sabia que era bom. Ou melhor, ótimo, excelente, extraordinário. O maior camisa 10 do Palmeiras. Não houve, antes, um melhor do que ele. Não houve depois. Ainda está por vir o Messias que o substitua no Palestra Itália.
Ademir era respeitado por rivais, que não tinham coragem de dar-lhe botinadas. Não recebia vaias dos torcedores inimigos. Corintianos, são-paulinos, santistas no mínimo mantinham postura digna diante daquele herói. Conheço muitos que chegaram a aplaudi-lo e que não se conformavam por ser esquecido na seleção. Ademir estava acima da seleção.
Ademir virou estátua no Palmeiras, que no entanto não lhe concedeu jogo de despedida. Foi tema de poesia de João Cabral de Melo Neto (“Ademir impõe com seu jogo o ritmo do chumbo…”), teve vida e glória cantadas em filme (e vi muito marmanjo emocionar-se no cinema).
Ademir chega a 70 anos – e isso é só um mero registro, um número. Porque Ademir é eterno. Ademir é divino.
*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, 1/4/2012.)
Da série provocações…..
Desculpe-me a comparação esdrúxula:
Ver o A.da Guia jogar é mais ou menos como fazer amor com a sogra. Tem seus méritos por ser mãe da nossa amada, mas….sem graça.
Foi um Valdívia de outras épocas…..
Abraços
Que horror! Você é um inconsequente ético! E pouco conhece de futebol! Deveria ter ficado calado! Isso não é uma provocação: é uma diatribe de um mal educado.
responder este comentário denunciar abusoEzequiel, tomo o que escreveu apenas como brincadeira. So pode ser isso. Tenho a impressao de que voce nao tem a minima nocao do valor do Ademir da Guia. No minimo por respeito, podia ter passado sem essa.
responder este comentário denunciar abusoCaro Greco-Romano, com essa resposta, você apenas confirmou ser uma das referências éticas do nosso jornalismo esportivo. Como diriam os italianos, grande caratter! Bravo!
responder este comentário denunciar abusoEzequiel, com certeza, vc deve estar brincando….
Ademir da Guia, foi um dos maiores jogadores q o Brasil teve..
quem nao se lembra daquele time do Palmeiras
Leao, Eurico, Luiz Pereira, Alfredo e Zeca, Dudu e o DIvino, Edu, Leivinha, Cesar e Ney
e o Fedato entrava sempre..
com todo respeito aos palmeirenses, o Valdivia, nao chegaria a reserva do reserva desse senhor
Comparar o Ademir com o Valkiria !!!!!!!???? Me desculpe , mas o senhor deve ter fumado um cigarrinho do diabo e temperado a comida com aquela farinha … faça-me o favor…
responder este comentário denunciar abusoEsse só pode ser corinthiano e, para ele, evidentemente, craque é o Marcelinho, ou talvez a Vampeta.
responder este comentário denunciar abusoPois é, Ezequiel. Eis uma da série provocações:
você sabe qual é o filme dos corinthianos?
Eu, robô.
responder este comentário denunciar abusoEsse filme é do malufão:
” Eu, robô. Mas faço…”
Abraços
responder este comentário denunciar abusoNão é do Maluf não. É do corinthiano. E os motivos são:
(1) por roubar, e (2) por errar na conjugação, grafia e pontuação.
Caro Greco-Romano, belíssimas palavras que nos emocionam. A entrevista do Divino para Geneton Moraes Neto na Globo News, parece ser feita de encomenda com o seu texto. Um personagem ímpar do esporte brasileiro, especialmente na ética. Abbracci!
Sou uma mulher que nunca assisti um jogo de futebol,mas hoje li esse texto com avidez,ansiedade e cumplicidade.Caro jornalista,você emocionou-me,foi também divino.Só não foi melhor que o ‘Divino”.
Obrigada.Parabéns!
Edna, bravo! Belas e justas palavras!
responder este comentário denunciar abusoBelíssimo texto, Antero! Justa homenagem ao grande Ademir da Guia, o craque divino.
Destaco a frase que mais me chamou atenção:
“Ademir estava acima da seleção.”
Antero:
Sou torcedor do Guarani. Vi várias vezes Ademir jogar contra nós no Brinco(sem o atual tobogã). Quando o via em campo antes do jogo já sentia medo(e não admiração), porque sabia que por trás daquela pretensa lentidão havia um jogador extremamente cerebral, e que era incrivelmente objetivo. mas há também que se dizer que, tal como Pelé, jogou sempre cercado de craques, o que não diminui de forma alguma minha admiração por ele.
Antero, o Divino Santíssimo brindou ao povo brasileiro futiboladistas com muitos craques inesquecíveis, além dos já citados por você, tais como, Luis Pereira, Roberto Dias, Nilton Santos, Falcão, Jairzinho 70, Pagão, Zito, Canhoteiro, Ronaldo, Renato Gaucho, Dario naturalizado Pereira, Leonidas da Dilva, Djalma Santos, Carlos Alberto, Daniel Alves, Zico, Socrates e outros quase esbarrando no nível. Ah,… e o Pelé de novo.
A bola chamava Ademir de senhor, tal a elegância com que jogava.
Clássico, elegante, inteligente, visão de jogo ímpar.
Diz a lenda que Brandão dizia aos jogadores: “Se não souber o que fazer com a bola, passa pro Ademir que ele sabe.”
Talvez alguém lembre de um gol primoroso que fez no Cejas, batendo de trivela do bico direito da área.
Antero, acredite: joguei contra essa fera algumas vezes. Você para pra vê-lo jogar. Parece que desliza na grama tamanha a leveza com que conduz a bola.
Coisa de 15 anos atrás, Ademir às vezes ia jogar no Clube Esperia, com uns amigos: Servílio, Leivinha (gordo, mais bebia que jogava), Dudu (cavalo, mais batia que jogava) Kaneko, Lalá (ex-goleiro do Santos), Namir da Guia, seu folho perna de pau. Mesmo contra aquele catado de amadores, homem era tão humilde quanto contra os profissionais.
Vi apenas uma vez, ao vivo Âdemir jogar, numa decisão S.Paulo x Palmeiras. Foi 0×0. Fiquei impressionado com isso que você escreveu: o senso de colocação dele. Estava na área de defesa do Palmeiras e num piscar de olho aparecia na área do adversário para receber a bola. Ditava o ritmo de jogo: onde a bola estava, ele estava do lado dela. Uma visão de jogo que nunca vi. Na tv seu jogo não tinha a mesma visão devido a visão restrita da telinha, mas ao vivo,um show de jogador. E não me lembro de ter levado algum cartão amarelo, vermelho então, nem pensar. E olha que sou corintiano roxo. Mas mérito a quem merece e Ademir merece sempre.
Belo texto, Antero. Uma justa homenagem. Você, como o Ademir, desliza pelas palavras. Parabéns!
Antero,
Como já te disse, pra mim, é uma honra ser leitor do teu blog. Muito legal o texto !
Deus abençoe você e sua família. Feliz Tríduo Pascal !
sds
Bem lembrado Antero.
Parabéns. Ademir é um dos eternos no futebol de hoje e de sempre.
Prezado Antero:
Para nós, que vimos o Divino jogar, fica difícil ver a bola ser tão maltratada pelo bando de botinudos que povoam as “meia-canchas” dos times de hoje em dia. Foi um jogador espetacular, inigualável. O atleta que mais me lembrou Ademir da Guia no estilo, no trato refinado da bola e na categoria com que desfilava no campo com a cabeça erguida foi o grande Zidane. Para os meninos de hoje que não sabem, vale lembrar que jogavam simultaneamente aqui no campeonato paulista Pelé (o maior de todos), Ademir da Guia, Rivellino, Gerson e Pedro Rocha. Se fosse feita uma lista com os dez ou, vá lá, vinte maiores jogadores da época todos estariam inclusos. Esse era o padrão do futebol jogado por aqui, que contava, além dos quatro grandes, com times como a Portuguesa (Enéias, Cabinho, Ratinho, Lourivai, Leivinha), Ferroviária (Bazanni, Bazaninho), Juventus (Brida e Brecha, Wilsinho), Ponte Preta (Manfrni, Marco Aurélio, Dicá) e tantos outros. O Juca Kfouri outro dia falou da comparação Pelé – Messi, e fez menção ao fato de que os times do interior à época do Rei eram superiores aos Sevilha ou aos Valencia da vida. Normalmente não costumo concordar o o que ele diz, mas nessa questão está absolutamente correto. Vale lembrar que o Verdão era o único time que se ombreava ao Santos da época, tendo impedido o Peixe de conquistar doze títulos paulistas consecutivos, quebrando a sequência em 59, 63 e 66, as duas últimas já com o genial mestre da Guia. Finalizando, lembro um jogo histórico na final do troféu Ramón di Carranza, acho que em 74 ou 75, no qual o Palmeiras bateu o Barcelona de Cruyff e Neeskens por três a um (dois de Edu Bala e um de Leivinha), e as manchetes dos jornais espanhóis do dia seguinte se rendiam ao talento incomparável do Divino, qualificando-o simplesmente de “Gênio”.
Obrigado pela coluna, Antero. Me fez lembrar de um tempo em que éramos os maiores entre os grandes.
Um abraço
Poxa, isso me dá vontade de trocar meus 27 anos por, incriveis, 55-60 anos!! Sim, assim eu poderia ter visto O Divino, Pelé, Gerson, Rivellino… ver a seleção de 70 e de quebra ter idade pra ver a de 82. Me contento por ter um craque: o Youtube! pq se depender de vida real… é marcio araujo, barcos…
responder este comentário denunciar abuso
2013
2012
2011
2010
Para continuar lendo o Estadão, faça já o seu cadastro. É rápido e fácil.
Seus dados serão guardados de forma segura e não serão compartilhados.
Quero me cadastrar Sou assinante Já sou cadastradoEm instantes, você receberá uma mensagem no e-mail .
Clique no link fornecido e crie sua senha.
Importante!
Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail está ativado.
Deixe um comentário: