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Dias do Divino*

Antero Greco

01 abril 2012 | 11:24

Para os que creem, dentre os quais me incluo, esta é semana gloriosa, por recordar o martírio, a morte e a ressurreição de Jesus. Para os apaixonados pelo futebol, e faço parte desse grupo fervoroso, serão dias especiais, porque depois de amanhã Ademir da Guia, o Divino, a lenda, o mito, o ídolo eterno do Palmeiras, completa 70 anos. Cristo e o craque são duas manifestações estupendas do amor de Deus pela Humanidade.

Ademir da Guia pertence a uma geração abençoada de artistas dos gramados nacionais, que teve ainda Gerson, Rivellino, Dirceu Lopes, Tostão, Garrincha, para ficar em pequena amostragem e para não arrancar lágrimas de nostalgia. E Pelé, o supremo. Não me ponho a tocar violino lamentoso aqui nem vou alardear como era grandioso e inigualável o futebol de minha juventude. Sou um irremediável saudosista, mas não tonto.

Cada época tem seus astros – e aqueles que nos fizeram sonhar na infância nos acompanharão pela vida toda. Nada, ou muito pouco, supera o impacto das descobertas dos primeiros anos, sobretudo no que se refere à paixão incomparável pelo joguinho de bola. Para a moçada de hoje Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo serão os semideuses para jamais esquecer. E isso é muito justo.

Ademir deslizava em campo e enganava adversários com falsa lentidão. Suas passadas eram tão largas, elegantes e sutis que davam a impressão de que se movia em câmera lenta, nem parecia sacudir a camisa verde que vestiu por 17 anos. No entanto, num piscar d’olhos saía da defesa, superava o meio do campo e aparecia na área para chutar a gol.

A bola ficava aninhada nos pés de Ademir, mimetizava com o corpo esguio de mulato sarará, era uma extensão dele. E jamais foi maltratada pelo filho de Domingos da Guia, o primeiro Divino. Ademir não dava de bico. Não há registro, em duas décadas de carreira, de que tenha feito um arranhão em alguma bola.

Ademir não era espalhafatoso nem presunçoso nos passes, nos dribles, nos lançamentos longos, nos deslocamentos, na domínio, no cabeceio. Era apenas perfeito. Era onipresente. Onde seus companheiros das duas versões da Academia do Palmeiras – nos anos 60 e 70 – o procurassem lá ele se encontrava, para acalmar, para ajeitar, para comandar, para criar e reger. Era maestro.

Ademir não era falastrão, não era posudo, nem dentro nem fora de campo. A voz mansa, o jeito discreto e polido escondiam inteligência, bom humor, ironia fina. Ademir não precisava sair em coluna social, não tinha necessidade de marketing para apregoar seu valor. Ele sabia que era bom. Ou melhor, ótimo, excelente, extraordinário. O maior camisa 10 do Palmeiras. Não houve, antes, um melhor do que ele. Não houve depois. Ainda está por vir o Messias que o substitua no Palestra Itália.

Ademir era respeitado por rivais, que não tinham coragem de dar-lhe botinadas. Não recebia vaias dos torcedores inimigos. Corintianos, são-paulinos, santistas no mínimo mantinham postura digna diante daquele herói. Conheço muitos que chegaram a aplaudi-lo e que não se conformavam por ser esquecido na seleção. Ademir estava acima da seleção.

Ademir virou estátua no Palmeiras, que no entanto não lhe concedeu jogo de despedida. Foi tema de poesia de João Cabral de Melo Neto (“Ademir impõe com seu jogo o ritmo do chumbo…”), teve vida e glória cantadas em filme (e vi muito marmanjo emocionar-se no cinema).

Ademir chega a 70 anos – e isso é só um mero registro, um número. Porque Ademir é eterno. Ademir é divino.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, 1/4/2012.)