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Neymar e a interminável caçada ao craque

Antero Greco

27 março 2012 | 16:51

Muricy toda hora chama a atenção para as surras que Neymar leva nos jogos do Santos. O rapaz apanha mais do que boi ladrão, principalmente quando acorda espevitado. A pancadaria mais recente rolou solta nos 2 a 0 sobre o Bragantino, no fim de semana. Zagueiros e volantes gastaram as travas das chuteiras no corpo do moço e mesmo assim não evitaram a derrota. Neymar sofreu 10 faltas (a média dele, no Paulista, é de 7,6) e ainda tirou onda com Júnior Lopes, que lhe descia o sarrafo e dizia em seguida: “Deus te abençoe.”
 
A turma do Bragantino foi desalmada, saiu da linha? Um bocado. Usou de recursos iguais aos de qualquer um que alguma vez na vida apelou pra ignorância. A violência é a linguagem dos que não têm argumentos nem tolerância. No futebol, se manifesta em pontapés, empurrões, cotoveladas, divididas pra quebrar. Entre torcidas, se dá com insultos, emboscadas, tiros e mortes, como se viu no fim de semana em São Paulo.
 
Espanta como a força bruta nos gramados soa normal, corriqueira e até necessária. Mas não é, ou não deveria ser, já que anda livre por aí. Tão tosco quanto aceitá-la passivamente é engolir o argumento de que “futebol é jogo de contato”, “jogo pra homem”. Atividade pra ser humano, concordo. Não para cavalgaduras paramentadas. Violência avilta, tanto no esporte como no morro, nas favelas, na periferia, nos bairros de luxo. Não cabe em lugar nenhum.
 
Neymar muitas vezes tem de escapar de pernas que mais parecem ceifadeiras, de braços que pesam como bolas de guindaste, de mãos que tomam forma de gancho, de tórax que esmagam como tanques de guerra. Com frequência, o craque tromba com rinocerontes, hipopótamos, elefantes, touros, em vez de enfrentar homens como ele, você e eu.
 
O pragmático de plantão (e está assim, ó!) vai lembrar que Neymar não é o primeiro a tomar lambadas, assim como o ódio entre torcedores é fato universal. Óbvio. Nem por isso se deve deixar como está. É como reconhecer que corrupção sempre existiu por aqui e que nem vale a pena combatê-la. Igual achar que as guerras entre as gangues uniformizadas só atinge “bandidinhos”. Conformismo raso, que robustece a impunidade. Quem curte futebol apoia a sobrevivência do craque, independentemente da camisa que veste, e defende a vida. 
 
A defesa da integridade dos artistas da bola merece aplausos. Mas a campanha só vingará se for encampada pelos responsáveis pelo show. De cara, pelos próprios jogadores, quando tiverem consciência de que falta faz parte do jogo; truculência, jamais. Treinador também tem responsabilidade. Nenhum deles mais prega o “chegar junto”, “pega, pega, pega!”, “matar a jogada”? Já abriram mão de distribuir brucutus e volantes com generosidade nas equipes deles? Sei…
 
Juiz, então, nem se fala. Já vi apitador sacudir com ênfase o cartão amarelo na nariz do atleta que tira a camisa na hora do gol. Mas fecha os olhos para sapatadas de arrancar unha do dedinho, quando não decide punir o sujeito que apanhou pra burro, por considerar que simulou uma queda ou que perdeu o fair play ao revidar.
 
Assim como sou contra a extinção de qualquer espécie animal, sou a favor da preservação incondicional do craque. Onde assino o manifesto?