ir para o conteúdo
 • 

Patrocinado por

02.março.2012 15:17:18

“Quale allegria”*

O título da crônica de hoje tomo emprestado de Lucio Dalla, com emoção e luto. A tradução livre seria “Que alegria que nada!” e cabe como réquiem, a prece dos mortos, para um dos mais importantes compositores da música popular italiana e para o futebol de Ronaldinho Gaúcho. Ambos desapareceram, para desconsolo de quem curte arte.

O genial baixinho bolonhês, clarinetista, saxofonista, pianista, cantor, morreu de infarto ontem na Suíça, três dias antes de completar 69 anos. O mesmo país que na terça-feira viu circular no campo do estádio de Saint Gallen o espectro do talento de um brasileiro que até a metade da década passada fascinou o mundo com dribles, passes, gols hipnotizantes, quase inverossímeis.

Perdas incalculáveis e chocantes. A de Dalla foi inesperada, ocorreu entre um recital e outro, com prestígio intacto e no pleno vigor criativo de quem ama o que faz. A do futebol de Ronaldinho tem sido prevista há tempos, bola cantada desde as festivas noites de Barcelona. Veio num momento em que se tentou a reanimação, com a presença no time de Mano e a vaga esperança de resgatar o repertório outrora vasto e cativante, mas agora maçante e desinteressado.

O italiano sempre curtiu esporte, dedicou canções aos pilotos Ayrton Senna e Tazio Nuvolari, homenageou o craque Roberto Baggio. Ia a estádios torcer pelo Bologna e pela seleção de seu país. Em novembro de 1989, conversamos no intervalo do amistoso em que o Brasil de Sebastião Lazaroni derrotou a Squadra Azzurra, em Bolonha mesmo, por 1 a 0, gol de André Cruz. Barbudo, gorrinho na cabeça, afável, elogiava o estilo brasileiro. Era então fã de Careca, como havia sido antes de Amarildo, Altafini, Falcão. E, mais tarde, de Ronaldo e Ronaldinho. Dalla sabia das coisas.

Impossível olhar para o Gaúcho arrastar-se pelos gramados, indolente, e não lembrar de trechos de “Quale allegria”, que fala de desencanto e rotina. Para os fãs atordoados pelo sumiço daqueles toques mágicos, doem os versos: “Não consigo mais sequer recordar como você era. Não sei mais o que fazer, não sei se devo rastejar ou se voar. Enfim, não sei mais onde te procurar.”

Ronaldinho nos enganou, agiu como ilusionista. Por algumas temporadas nos fez acreditar fosse uma mistura de Garrincha, Pelé e Zico. Uma dádiva, a certeza da evolução da espécie também no joguinho de bola. Mas cansou, deixou-se sugar por outros interesses, não parece mais divertir-se com o futebol. O ritual de treinos, concentrações, viagens, jogos lhe é enfadonho. Faz aparições esporádicas, dá canjas cada vez menos inspiradas. Um fantasma.

Dalla e o futebol de Ronaldinho provocam aperto no coração. Por sorte, há registros em abundância do que ambos produziram. Toda hora em que bater saudade, resta o consolo de ouvir obras-primas como “4-3-1943″ (que Chico Buarque traduziu como “Minha história”), “Cara”, “Futura”, “Chissà se lo sai”, “Caruso”, “Piazza grande”, “L’anno che verrà”. Da mesma forma, se podem rever gols do gaúcho nos primeiros anos de Grêmio, PSG, Barcelona e seleção.

Grandes artistas têm o dom de modificar nossas vidas. Dalla cumpriu sua parte, o futebol de Ronaldinho também. Todo louvor a ambos, e não devemos ser egoístas de achar que nunca sairiam de cena. Fica a nostalgia, enquanto a ressurreição não vem.

Uma dúvida. Por que será que todo figurão que se enrosca, de uma hora para outra deixa de vender saúde, fica doente e cai fora de fininho?

*(Minha coluna no Estado de hoje, sexta-feira, dia 2/3/2012.)

Tags: , ,

Comentários (14) | comente

14 Comentários Comente também
  • 02/03/2012 - 16:03
    Enviado por: Pasquale

    Antero,
    A diferença entre os dois é que o italiano teve uma morte súbita, inesperada, quando ainda produzia artisticamente, e o brazileiro agoniza, com resultado decrescente, há anos.
    Abs..

    responder este comentário denunciar abuso

  • 02/03/2012 - 17:24
    Enviado por: Eduardo Fabrizzi

    Vendo o que o Ronaldo Gaúcho apresenta hoje em dia de futebol e mesmo assim ainda sendo convocado para a seleção, só posso visualizar um fim para esse negócio daqui um tempo: a situação vai se tornar tão insustentável que o Mano não terá mais condição de escalar esse cara, aí veremos novamente e merecidamente o velho e bom Zagallo repetindo sua célebre frase: “Vocês vão ter que me engolir!!!”. O Zagallo pode ter lá seus defeitos, mas ele alertou há muito tempo que esse cara não tem mais condições de jogar na seleção.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 02/03/2012 - 19:04
    Enviado por: Titi

    Esse cara poderia ter se tornado um dos mitos do futebol mundial. Mas ao invés disso, preferiu as farras e as noitadas, acabando com seu futebol. Dá raiva de ver isso. Uma piada de mau gosto.

    O pior é ver o Mano Menezes convocar esse “ex-jogador em atividade”. Alías, deve ser por isso mesmo que Mano o convoca, pensem comigo: Ronaldinho é uma piada, o trabalho do Mano também é uma piada! Então fica tudo certo! Vamos fazer o mundo inteiro dar risada com o nosso futebol em 2014!!

    Brasil sil sil sil sil!!! ¬¬

    responder este comentário denunciar abuso

  • 02/03/2012 - 21:13
    Enviado por: Adilson

    Prezado Antero,

    Muito bom o texto. A comparação com o cantor italiano é muito pertinente..De fato RG tirou um ‘doce da boca’ daqueles que amam esse esporte, nos privando dele mesmo.

    Peço desculpas (sinceras) por me estender, mas esse assunto me interessa muito. O caso Ronaldinho Gaúcho é singular, diferente de tudo que já se viu no futebol. Do futebol fantástico que chegou no topo do mundo a mais absoluta mediocridade. Jamais se viu uma decadência tão grande. É triste mas é verdade.

    Pensando no que vc fala, e compartilhando da sua, digamos “desilusão”, gostaria de acrescentar mais umas questões..

    Na minha opinião, no futebol moderno as características ligadas ao condicionamento físico -mobilidade, força e velocidade – foram tomando destaque e se colocando em pé de igualdade com as velhas características ‘técnica’ e ‘habilidade’ , quase que como uma imposição a sobrevivência do atleta profissional de futebol. Os jogadores de futebol, de trinta anos pra cá, foram gradativamente se vendo forçados a cuidar dessa parte como jamais ocorrera na história. Os que não se adaptaram foram naturalmente se apagando ou sumindo com o tempo. Trata-se de uma constatação. É só fazermos um esforço de reportagem que a lista será longa..

    Faço essa introdução para dizer que, no meu modo de ver, nos dias atuais não há espaço para o jogador somente habilidoso, ou mesmo somente técnico, ou mesmo para um que junte essas duas características. É necessário, eu diria até obrigatório, casar isso com algo ligado a parte física, qualquer característica que seja, mas principalmente a velocidade e a mobilidade. Podemos citar aqui inúmeros exemplos de sucesso pra ilustrar melhor essa equação. Pensei em alguns:

    Ronaldo só foi Fenômeno pois conseguiu juntar sua excelente técnica e boa habilidade a uma velocidade e força impressionante!

    Kaká, extremamente técnico teve que unir isso a velocidade e deslocamento pelo gramado pra jogar a bola que sempre jogou.

    Rivaldo e Zidane, o supra sumo da técnica, não desenvolveram a velocidade, é verdade, mas por outro lado a mobilidade que tinham, a capacidade de girar pelo gramado e tocar inúmeras vezes na bola, fez deles jogadores brilhantes.

    Cristiano Ronaldo é esse jogador sensacional, pois sua técnica extrema e habilidade incomum se combinam com arrancadas velozes em longa distância.

    Lionel Messi, é esse jogador excepcional, fora de série, pois é o único que possui todos esses quesitos em altíssimo nível: Técnica apuradíssima, muita habilidade, velocidade incomparável, força pra aguentar as pancadas e muito deslocamento pra receber a bola e partir pro gol. Um gênio da atualidade.

    E o que dizer de jogadores extremamente talentosos que remontam a épocas áureas do futebol, como Paulo Henrique Ganso? De fato, Ganso é um jogador fantástico, tecnicamente, sua linhagem é do mais alto nível, mas eu digo, sem medo de errar, que se quiser se estabelecer como o grande craque que tem potencial para ser no mundo do futebol, terá que buscar mais o jogo, se deslocar mais e ter mais rapidez na saída de bola. Sob pena de ser mais um jogador que tinha tudo pra “ser muito mais do que acabou sendo”; como exemplo máximo podemos citar o Alex (ex-Palmeiras).

    E quanto a Ronaldinho? Por que jogadores como Robinho e Ronaldinho Gaúcho não se estabeleceram como achávamos que aconteceria?

    A resposta , na minha opinião, existe, e não é só por desinteresse. O caso do Alex, que citei acima, é diferente do de Ronaldinho Gaúcho , por exemplo; embora as circunstâncias que não fizeram nem um nem outro se estabelecer na elite do futebol mundial sejam praticamente as mesmas.

    Alex é um jogador de técnica apurada, tem todos os fundamentos na ponta dos cascos, bom passe, excelente visão de jogo, passa a bola pelo alto da mesma forma que passa por baixo, tem também uma boa batida na bola na hora de concluir a gol. No seu caso, por mais que não corra e não procure jogo, jamais descerá de nível ponto de fazer jogadas pífias que saltam aos olhos

    Não é o caso de Ronaldinho Gaúcho. Acompanho cuidadosamente esse jogador há muito tempo e posso dizer. Ronaldinho se assemelha muito mais a Robinho, ou a Denílson, por exemplo . Explico: Se no caso de Alex temos um jogador com técnica apuradíssima, no caso de RG temos um jogador de habilidade apuradíssima, mas de técnica apenas razoável, nada de excepcional.

    RG tem dificuldade no passe vertical, não tem um bom chute como tem Kaká, Rivaldo ou Zico por exemplo (refiro-me ao chute do craque, com a parte de dentro do pé) Ele, Robinho e outros tantos não desenvolveram essa técnica típica dos grandes craques. É só a gente observar e veremos um festival de erros de passes e conclusões muito ruins a gol que nada tem a ver com falta de vontade ou desinteresse, mas sim competência. Esses fundamentos não foram desenvolvidos; até por que nunca precisaram deles pois, bagunçavam a turma a torto e a direito com seus dribles desconcertantes.

    Jogadores super habilidosos (RG talvez o maior de todos) mas com deficiências técnicas não aprimoradas durante a carreira, tem muito mais chances de se destacar apenas por um curto período de tempo; pois MAIS DO QUE QUALQUER OUTRO eles necessitam e muito da velocidade, da força física e da explosão – do ímpeto de partir pra cima em arrancada. Precisam jogar os 90 minutos quase que em um “estado de euforia” para poderem brilhar. Se fizerem isso, arrancarão aplausos de todas as plateias em todos os estádios. Mas quem aguentaria jogar 20 anos de futebol nesse ritmo?

    Ronaldinho, na temporada 03/04 assombrou o mundo, partia pra cima dos adversários, fazia gol e batia no peito gritando “ Eu sou f..” estava com a auto- estima elevada, vivendo um êxtase, e aí, ninguém segurou e não seguraria nunca! Trata-se, talvez do jogador mais habilidoso que já vimos (um super talento com diversos “coelhos na cartola”) ,mas que precisa correr, precisa estufar o peito e partir pra dentro rasgando o campo, pois não tem os fundamentos básicos na ponta dos cascos, como tinha Pelé, Zidane e Rivaldo.

    Quando a poeira baixou, o estado de excitação diminuiu, e RG foi recuando, indo cada vez menos a frente, arrancando cada vez menos, ele nunca mais encontrou seu espaço. E aí o que vimos foi um jogador com uma habilidade estrondosa, tentando dribles improdutivos longe do gol, engessado numa parte do campo dando toques pro lado, chuveiros sem parar na área adversária e errando muitos passes e conclusões a gol.

    Ronaldinho é uma locomotiva feita pra andar em alta velocidade. Parar de correr teve para ele o mesmo efeito da cachaça para Garrincha.

    abraços

    responder este comentário denunciar abuso

    • 02/03/2012 - 23:17
      Enviado por: Titi

      Nossa Adilson, boa análise a sua. Fiquei até com vergonha de falar mais alguma coisa. Acho até que você merece um blog aqui no Estadão!

      Abraço!

      responder este comentário denunciar abuso
    • 02/03/2012 - 23:18
      Enviado por: Titi

      Ah sim, mas você não acha que a festança e a cachaça também contribuíram pra ele parar de correr?

      responder este comentário denunciar abuso
    • 02/03/2012 - 23:50
      Enviado por: Marcos Bandeira

      Sua análise está perfeita, não fosse o último paragrafo,onde, a comparação não foi feliz.
      O grande Garrincha “Guardadas ás devidas proporções” era um gênio inigualável e nem a cachaça conseguia segurá-lo nas tardes de Domingos ou nas noites de quartas.

      responder este comentário denunciar abuso
    • 03/03/2012 - 00:26
      Enviado por: Adilson

      Pois é Titi, acho que isso é sempre difícil saber…Com certeza vida noturna e esporte profissional não combinam. Alguns, poucos jogadores conseguiram conciliar isso.. Mas acredito que as noiitadas, desde os tempos de Barcelona , como bem lembrou Antero, e outros fatores, como deslumbramento, talvez, encheção de saco, sei lá, podem ter contribuido para que perdesse o interesse.

      Seu caso chama tanta atenção assim, pois ele, danadamente, produziu sua arte num nível soberbo, como há muito não víamos..Acho que Antero foi no ponto, ele tocou fundo na nossa esperança de ver enfim uma jóia rara ressurgir no nosso futebol, como, acredito, acontece agora com Neymar.

      responder este comentário denunciar abuso
    • 03/03/2012 - 01:05
      Enviado por: Adilson

      cos, quis apenas dizer que o futebol de ambos foi interrompido por algum motivo, mas cada um, claro, teve seu tempo para realizar sua obra.

      Mas acho que vc está certo sim, lendo de novo a comparação não foi legal, pois Garrincha fez história no futebol e nada, nada nesse mundo se compara a Mané. Mesmo com sua cachacinha, a bacia desolocada, coluna invertida, as pernas tortas, e toda a excentricidade que tinha, Garrincha foi único. Além de tudo que fez no Botafogo, foi um monstro tb na seleção brasileira: – Bicampeão com a amarelinha, nunca fugiu a responsabilidade e “segurou a bronca”, e chamou a responsa pra si na ausência de ninguém menos que Pelé, em 62 . Acho essa fato incrível!

      ps:Minha homenagem a ele é uma camisa que mandei fazer com aquela foto histórica que tem do Mané passando pelo goleiro, que fica com cara de bobo, após o drible desconcertante. Em cima, a letra que iniciava o belo samba do Salgueiro de 91: ” Oooohh, vou daqui pra lá e de lá pra cá, ooooii, vou sorriiindo!”

      responder este comentário denunciar abuso
    • 03/03/2012 - 01:21
      Enviado por: Adilson

      ops, corrigindo: Marcos, quis apenas dizer..
      abs.

      responder este comentário denunciar abuso
  • 02/03/2012 - 22:53
    Enviado por: santista do jabaquara

    Uma dúvida. Por que será que todo figurão que se enrosca, de uma hora para outra deixa de vender saúde, fica doente e cai fora de fininho?
    por q nunca agradecem a DEUS, por tudo q conquistam
    fazem a diferença pelo talento, mas nao aproveitam, sao uns hipocritas

    responder este comentário denunciar abuso

  • 03/03/2012 - 03:16
    Enviado por: Helcio

    Hoje Ronaldinho não serve a seleção nem na função de coadjuvante. Neymar sim, é o nome principal desse ainda incipiente time de Mano Menezes. Mas como anda o desenvolvimento desse jogador? Convido os amigos a uma leitura sobre o assunto:
    http://futebologiabrasil.blogspot.com/2012/03/nos-vamos-criar-um-monstro.html

    Um abraço

    responder este comentário denunciar abuso

  • 03/03/2012 - 12:50
    Enviado por: Luiz Herzberg

    Caro Antero,
    escrevo, como tenho ensaiado cada dia que te ouço na rádio ou na TV… Também leio seus posts, coluna.
    Ensaio de escrever para reconhecer formalmente seu trabalho! Como jornalista, como comentarista, como amante do futebol, como cidadão consciente! A pertinência e coerência na sua postura são raros não apenas no meio do jornalismo esportivo, infelizmente para este nosso Brasil! Mas você também segue alfinetando, sendo imparcial e buscando expor outros lados que nossa cultura valoriza menos: da postura moral!

    Reconhecimentos não são constantes, geralmente. Mas deixo aqui meus PARABÉNS!
    Que tenhamos mais jornalistas como você, bem como cidadãos!
    VAI ANTERO!!!!
    Mostra para este Brasil com quantas canoas se faz um pau!

    responder este comentário denunciar abuso

    • 03/03/2012 - 12:56
      Enviado por: Antero Greco

      Luiz, muito obrigado. Trato de agir de acordo com princípios básicos e simples de respeito ao próximo. O resto é consequência. Abraço.

      responder este comentário denunciar abuso

Deixe um comentário:

Comentários recentes

  • Thiago: Era só o que faltava o Santos se preocupar com a seleção, o Santos que paga os salários, bichos e...
  • Neco: Anero, concordo totalmente com sua opinião pois para o torcedor brasileiro seu time sempre é prioridade,...
  • Malta: SELEÇÃO BRASILEIRA NÃO PASSA DA 2ª FASE DA COPA DE 2014, COM ESSES M…….. MASCARADOS QUE ESTAR...
  • Gustavo: Acho que só faltou salientar que o Santos ainda está emprestando dois de seus jogadores mais importantes...
  • reginaldo vinhedo: ta certo o santos mesmo..pois,quem poem dinheiro no clube sao os jogadores…e outra esses...

Arquivo

Seções

Blogs do Estadão