O mundo está de cabeça para baixo. Pelo menos é o que dão a entender protestos de jogadores do Vasco e do Cruzeiro. Elencos dois times tradicionalíssimos andam irritados com atrasos nos salários e resolveram botar a boca no trombone. Os cariocas recusaram concentração para o jogo com o Bangu e os mineiros divulgaram carta em que lamentam declarações pouco sutis do presidente do clube ao falar de pagamentos.
O Cruzeiro está com rombo no caixa e não depositou o dinheiro da turma no dia combinado. Os atletas não interromperam a programação de treinos, mas um empresário fez a informação tornar-se pública. Daí aparece o presidente Gilvan de Pinho Tavares para explicar a situação. Para mostrar que o fato não seria tão grave ou preocupante, o cartola optou pela galhofa, em entrevista coletiva. Para tanto, observou que esses empregados estão preocupados porque “ganham uma miséria, que vai fazer falta”.
Salário é sagrado para quem trabalha. Não importa se as cifras são altas ou baixas. Sejam 100 reais, sejam 1 milhao, o que está acertado, o que consta em contrato, precisa ser honrado. O Cruzeiro tem o direito de não aceitar pretensões salarias, na hora de fazer o convite para um jogador integrar seu elenco. Mas, uma vez fechada a negociação, não pode descumprir sua parte. Muito menos pode fazer ironia a respeito do tema.
Ao agir dessa maneira, o dirigente dá a entender que o clube faz um favor ao pagar salários. Parece que administrar uma agremiação seria um passatempo e que todos os envolvidos estão a divertir-se. Uma grande brincadeira, em que o dinheiro é de mentirinha. Os jogadores reagiram e criticaram a postura. E reagiram com elegância.
O pessoal do Vasco foi um pouco mais duro, porque reclama vencimentos de dezembro, 13.º e parte dos direitos de imagem. Houve promessas de quitação, não cumpridas. Por isso, a decisão de se apresentarem apenas na manhã desta quarta-feira, para o jogo da noite com o Bangu pela primeira fase do Estadual do Rio.
A tomada de consciência dos jogadores é definitiva? Tomara. A época das senzalas acabou em 13 de maio de 1888. Ou pelo menos assim é o que diz a história do Brasil.
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A notícia mais importante do dia veio com a entrevista que Daniel Carvalho concedeu para a rádio Estadão/ESPN na hora do almoço. O meia do Palmeiras admitiu ter usado anabolizantes durante algum tempo, no período em que defendeu o CSKA Moscou. Ele alegou que no início ignorava os efeitos das injeções que tomava, para “encorpar”, e garante que, ao saber dos riscos, pediu para não mais ser submetido ao “tratamento”.
A facilidade de acessos aos anabolizantes, segundo Daniel, vinha do fato de não existir controle antidoping na Rússia. Também informou que, por aquelas bandas, isso é corriqueiro e normal. E observou que outros jogadores brasileiros saem de casa franzinos, embora atléticos, e, com algum tempo de Europa, ficam com corpanzil apropriado para quem pratica o futebol americano ou rúgbi.
O que Daniel disse é da maior gravidade – e muitas vezes a questão dos anabolizantes foi levatanda por aqui. Sobretudo quando se vê jogadores que ficam fortes da noite para o dia. Atletas negam qualquer ardil, negam de pés juntos que tenham tomado algum fortificante, digamos, inventado pelo Professor Pardal e que os faz virar gigantes. Creditam alterações evidentes para os métodos de preparação física.
Para leigos, dentre os quais me incluo, sempre fica aquela dúvida: mas será que o rapazinho de ontem, virou esse gladiador de agora só por ginástica e alimentação? Os ares da Europa, a água, a comida de lá são tão potentes assim? De onde veem tórax enorme, coxas portentosas e pescoço maciço? Puxa, por que aqui é tão diferente?
Daniel pode ter levantado o fio de uma discussão importante para o esporte. A questão, agora, é saber se levará adiante o que afirmou à emissora ou se, pressionado, recuará? A questão de anabolizantes é muito, muito delicada, e envolve interesses altos. A Fifa e as associações médicas, como a Wada (a agência internacional de controle antidoping), entrarão no tema? Pois se trata de questão esportiva e de saúde.
Ou será que logo aparecerão especialistas para atuarem como bombeiros e alegar que Daniel Carvalho falou sem conhecimento do tema? Que pode levar as pessoas a confundirem suplementos vitamínicos com anabolizantes e doping? Enfim, com a conversa fiada de sempre, quando alguém toca num tema tabu? Vamos aguardar.
*No final da tarde, a assessoria de imprensa do Palmeiras divulgou nota em que Daniel Carvalho volta atrás em suas declarações, afirma que não saberia dizer com exatidão se aquilo que tomou era anabolizante e ainda pediu desculpas ao CSKA. Bingo!
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Lembra do ditado que dizia “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza?” Pois é, lembrei dele ao ver vazia boa parte das arquibancadas do estádio de Catanduva. O time da casa recebeu o Palmeiras, na tarde deste domingo, o que em princípio seria uma atração e tanto, para a cidade e para a região. No entanto, o público pagante não chegou a 6 mil almas, quando a capacidade é para 14 mil.
O que houve? Falta de prestígio de Felipão e sua rapaziada? Não acho. Faltou mesmo dinheiro no bolso dos torcedores. O preço cheio dos ingressos para a partida ficou entre R$ 80 e 150 – cairia pela metade nos casos especiais de estudantes e idosos. Vamos falar sério: é muita grana. Não faz sentido cobrar tão caro. Entendo que os confrontos contra os grandes, em casa, é a chance de faturar mais. Mas não dessa maneira.
Com valores mais em conta, mais realistas e mais justos, a tendência era de lotação, ou bem perto disso. Haveria apoio dos fãs, divulgação do time local e seria demonstração de sensibilidade e tato da diretoria. Que nada. Parece que acharam suficiente que tivesse transmissão pela televisão – “Puxa, vai passar na Globo e na Band!” – e salgaram os preços. Resultado: aquela coisa feia de lugares à espera de gente.
O jogo também não foi lá grande coisa. Muita luta, alguns bons momentos de ambos os lados, um pênalti sonso de Leandro Amaro, que proporcionou o gol do Catanduvense (Osni cobrou e marcou), e Fernandão reaparecendo para o gol, depois de muito tempo. O Palmeiras demonstrou, mais uma vez, que ainda tem longo caminho a percorrer, se quiser brigar pelo título. Vai ficar entre os oitos, o mínimo que se espera. Mas tem de melhorar.
Faço justiça a Daniel Carvalho. O moço continua volumoso, conforme escrevi em minha crônica de sexta-feira noEstadão, depois de vê-lo em ação no clássico de meio de semana com a Lusa. Mas neste domingo aguentou o tranco por mais de uma hora e deu qualidade ao meio-campo. Além disso, surgiu como alternativa para as cobranças de falta, porque tem pé bem calibrado. Vai dar um descanso para Marcos Assunção.
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Todo começo de ano, a Federação Paulista de Futebol anuncia que os juízes farão exames num hospital para controlar a vista. Dessa forma, a entidade pretende mostrar que cuida de um aspecto fundamental para o sucesso do Campeonato Estadual. Mas, pelo visto (o trocadilho aqui é involuntário), precisa caprichar mais nos testes e arranjar umas boas lentes de contato para alguns de seus pupilos (outro trocadilho sem querer).
Só assim para entender por que Marcelo Rogério anulou gol de Fabão ainda no primeiro tempo do jogo em que o Corinthians derrotou o Linense por1 a0, na tarde deste domingo, no Pacaembu. O zagueiro grandalhão, com mais de dois metros, subiu bonito, para desviar bola que veio do lado esquerdo, em cobrança de escanteio. Na hora em que correu para o abraço, viu o juiz com o braço erguido. A alegação? Faltaem Danilo. Ocorintiano olhou meio espantado e saiu de fininho.
O lance foi embaraçoso, sem dúvida, e não sei se alteraria a história final do jogo. Os corintianos, por sua vez, reclamaram de pênalti sobre Fábio Santos um pouco depois. De qualquer forma, o campeão brasileiro foi melhor do que a equipe do interior. A superioridade sobressaiu porque Tite se mantém firme no propósito de colocar força máxima, que não é outra senão a formação que terminou 2011.
O treinador faz bem com essa opção. Dessa maneira, compensa o preparo físico ainda inadequado com o entrosamento do grupo que conquistou o pentacampeonato nacional. A diferença está no retorno de Chicão, em função da baixa de Paulo André. E, assim também, acelera preparação do time para a disputa da Libertadores deste ano.
O jogo não foi grande coisa, o Linense deu alguns sustos, como se esperava para quem atua como franco-atirador, mas não abalou o Corinthians. Mesmo emperrado, e com vários jogadores com fôlego curto e pernas doloridas, também criou chances e venceu com gol de Emerson na parte final do segundo tempo.
Três jogos, três vitórias, e acúmulo de pontos importante para garantir o mais rapidamente possível vaga na fase seguinte do Paulista. O que não é tarefa nada difícil, já que se classificam oito. Mas, quanto antes, melhor.
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John Lennon cantava o “poder para o povo”, nos anos 1970, e então havia quem torcesse o nariz ao ouvi-lo, por intuir apologia à subversão. Bobagem e delírio. O irrequieto inglês apenas expressava o permanente desejo de liberdade e ressaltava sensatamente que são as pessoas que fazem a história, para desespero de tiranos. A gente também estabelece usos e costumes, que vão de religião e sistemas políticos a simples gestos do cotidiano, como apelidos e consagração de mitos.
A força popular manifestou-se, nestes dias, no futebol. Por pressão dos torcedores, por exemplo, o Conselho do Palmeiras deu bola dentro, ao aprovar a confecção de um busto de bronze em homenagem a Marcos. O mimo em reconhecimento à forte ligação do ex-goleiro com o clube ocupará espaço de destaque, quando for inaugurado o novo campo. Justiça e delicadeza para o maior ídolo alviverde desde a aposentadoria de Ademir da Guia no final dos 1970.
Marcos pisou no calo de muito figurão da casa, sobretudo ao expor fragilidades da equipe. Mas a sinceridade no comportamento e a eficiência em campo lhe deram autoridade para desancar quem quisesse. Os fãs lhe deram respaldo e o transformaram em intocável. Até suas falhas foram relevadas, em nome do amor à camisa. Por isso, vai entrar em rol especialíssimo, que tem apenas outros três imortais palestrinos – Valdemar Fiúme, Junqueira e o divino Ademir. E ai de quem disser o contrário!
Reações populares também podem provocar transtornos e supostamente emperrar projetos de marketing. Que o diga a diretoria do Corinthians. Cartolas do Parque São Jorge se sentem incomodados com a disseminação de Itaquerão e Fielzão para designar a arena que se ergue na zona leste da cidade e que será sede da abertura do Mundial. Eles veem depreciação nos termos, sobretudo o primeiro, e temem que seu uso dificulte a venda dos naming rights.
A expressão em inglês é bacaninha, mas essencialmente significa ceder, por algum tempo ou para sempre, o direito de uma empresa associar o nome ao estádio e assim despejar uma grana nos cofres do clube. Uma tendência que se propaga pelo mundo. Estão aí a Allianz Arena, em Munique, e o Emirates Stadium, do Arsenal, em Londres. Pegaram. Embora eu veja estes dois casos como a prova das exceções à regra.
O batizado comercial é fonte de renda expressiva. Por isso, se justifica o esforço dos responsáveis pelo negócio alvinegro em combater a popularização de Itaquerão. Estão na deles, pois lidam com cifras relevantes. Só não faz sentido exigirem que a mídia se dobre a essa estratégia sob a alegação de que pratica mau jornalismo quem não aderir. Trata-se também de sofisma afirmar que Itaquerão é pejorativo ou denote preconceito com o bairro.
Não é verdade. Itaquerão (ou Fielzão) revela carinho e respeito, dá também dimensão de pompa e circunstância. Aqui, de novo, entram em cena usos e costumes. No Brasil, algo que cai no gosto popular é designado por diminutivo ou aumentativo, na maioria das vezes com sentido positivo. Daí Zezinho, Toninho, Joãozinho, Celsinho, ou Zezão, Tonhão, Jorjão, Alfredão, Betão. Note os estádios: Engenhão, Castelão, Mangueirão, Mineirão. Ou ainda os campeonatos: Robertão (o antigo “Roberto Gomes Pedrosa”), Paulistão, Gauchão, Brasileirão. E o que dizer dos clubes? Fluzão, Mengão, Fogão e… Timão!
O estádio do Corinthians terá um nome oficial. É de praxe, e que dê dinheiro. Mas o povo decidirá a maneira como vai chamá-lo. É fato.
*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 29/1/2012.)
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A largada do São Paulo no Campeonato Paulista continua impecável, pelo menos do ponto de vista prático. Até agora são três vitórias em três apresentações, as duas mais recentes com alguma dificuldade (os 3 a 2 sobre o Oeste no meio da semana e os 2 a 1 deste sábado diante do São Caetano). Ótimos resultados, para fazerem o time encorpar e para acumular pontos e facilitar a classificação – bem previsível, é verdade – para a próxima fase.
O que preocupa são as baixas logo de cara. Sem contar algumas periféricas, como Rodholfo e Fabrício, a primeira a assustar foi a de Rogério Ceni, que se machucou na pré-temporada, passou por cirurgia e fica de molho talvez por seis meses. Em seguida, é Luís Fabiano que sai de cena, não se sabe ainda por quanto tempo. O Fabuloso abriu o placar, no Morumbi, mandou uma bola na trave, mas aos 30 minutos deixou o campo por lesão muscular.
O atacante deixa um ponto de interrogação: é vítima de azar, do imponderável, que pode aprontar com qualquer um? Ou precisa passar por uma revisão caprichada? No ano passado, ao voltar para o Morumbi, em definitivo, teve problema grave, que também só foi resolvido com operação. A recuperação foi lenta e, quando se imaginava que estivesse zero-quilômetro, voltou a entrar na faca, para corrigir sequelas. E mais tempo se perdeu até a liberação.
Espero que seja uma maré ruim, apenas (o que não é pouco, por se tratar de um jogador menos jovem). E que o São Paulo, que zela tanto pelos check-ups de seus atletas, mapeie Luís Fabiano de fio de cabelo ao dedinho do pé. Trata-se de jogador importante, mas que na passagem atual pelo Morumbi marca mais pela permanência no estaleiro do que pelo aproveitamento. Que tenha melhor sorte daqui pra frente.
Sorte (e eficiência) não tem faltado ao time. Leão elegeu a base, tem repetido a equipe na medida do possível e faz experiências. Maicon, por exemplo, tem entrado sempre e dá sinais de que logo pode arrumar lugar. Cícero e Casemiro continuam sob a mira do treinador e vão se alternando nas substituições recíprocas. No jogo com o São Caetano, houve dificuldade, o líder levou um susto no gol de Moradei e desfez o nó na parte final do segundo tempo, com o gol decisivo de Lucas que contou com a inestimável colaboração do goleiro Luiz.
O ponto ideal de equilíbrio continua distante – o que é normal. Por enquanto, falhas precisam ser relevadas, pois a temporada mal iniciou e ninguém está tinindo. Mas, com vento a favor, diminuem cobranças da torcida e fica menos complicado o técnico fazer ajustes. E é disso que Leão tem de se valer, para tirar o máximo nas etapas decisivas do Estadual. Sem contar que logo mais começa outra tentativa de busca pelo título inédito da Copa do Brasil.
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A balança constrange e provoca crises de consciência. Em geral, quando nos vemos diante dela nos damos conta da pouca força de vontade que nos move – ou nos empaca. Afortunadas, e poucas, são as pessoas que não têm desentendimentos com esse estranho objeto, que teima em nos espreitar, prontos a nos condenar com seu ponteiro acusador a parar em números absurdos, ora essa! Para atletas, então, equivale a aparelho de tortura, a indicar-lhes a todo momento o quanto devem cuidar da forma.
Ronaldo deve ter jogado fora várias balanças, em seus idos de atleta profissional. Ou adulterá-las (por brincadeira, eu sei), como aquela que um dia levou ao CQC e que o mostrava fininho. Sentimento idêntico talvez tenham Adriano e Daniel Carvalho, hoje os dois maiores exemplos de ‘inimigos’ dessa espécia de grilo falante tecnológico.
O atacante exibe perfil de quem há muito parece ter jogado a toalha nessa batalha. Dia desses ouvi na Estadão/ESPN um educado, porém desalentado depoimento de um dos preparadores físicos do Corinthians. Ele não estabelecia prazo para o retorno e deixou bem claro que o sobrepeso emperra.
O Pacaembu viu, anteontem, um volumoso Daniel Carvalho fazer a primeira aparição no Palmeiras. O rapaz sabe jogar bola, participou do lance de empate, tem qualidade. Mas assustou com o corpito de peladeiro de churrasco de fim de semana. É um sacrifício não perder a linha. Para atleta profissional, é também obrigação cuidar da estampa. São ossos e músculos do ofício. Não adiposidade.
Estaduais. Juca Kfouri é um mestre. Suas crônicas na Folha de S. Paulo são indispensáveis lições de jornalismo e bom senso. Ídolo de minha infância, deu-me ontem a honra de reputar-me como romântico incorrigível pela defesa que faço dos Estaduais. Juca prefere os regionais (como Rio-S. Paulo) de tiro curto, como aperitivos para abrir temporadas.
A caduquice, ou a sobrevida, ou o revigoramento dos estaduais é tema polêmico e tendemos a ter postura rígida a respeito dele, a favor ou contra. No caso das copas regionais, vale lembrar que de fato algumas deram bom retorno, ao serem disputadas anos atrás. Valeria a pena ressuscitá-las? Quem sabe a resposta não esteja numa consulta popular séria?
Assim como poderia ser feito estudo independente sobre o rumo do torneio daqui. São Paulo é dos raros casos de estado que tem interior forte, com várias cidades com economia e população equivalentes a grandes centros europeus. Mercado a ser explorado com racionalidade e eficiência, mas desprezado pelo definhamento dos times locais e pela indiferença de grandes e cartolas.
A saída paulista talvez fosse um campeonato com dois meses e meio (ou menos) de duração; não com os quatro atuais. Mais enxuto e dinâmico. Em seguida, o calendário nacional se encarregaria de manter os times em atividade regular, com dignidade e lucro. Mas atenderia interesses dos empresários que os controlam?
O Brasil, com a história que tem no futebol, com população à beira dos 200 milhões e com território enorme, sustenta só 20 equipes na Série A, 20 na B e 20 na C, além de uma D mambembe? Uma grande discussão seria benéfica – e dela sairiam propostas que contemplariam argumentos ponderados dos que defendem o enterro dos estaduais e dos que acreditam na “reinvenção” dos mesmos, com o perdão desse termo horroroso.
Na essência (presunção à parte), Juca e eu somos românticos, pelos bons propósitos, apesar de opostos na aparência.
*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 27/1/2012.)
Rogério Ceni relutou, contestou os laudos médicos iniciais, resistiu o quanto pôde, mas terá de entrar na faca. A dor no ombro não cedeu com os métodos tradicionais, nem com reza e promessa, e a solução é bisturi ou congêneres. Justamente o que ele tentou evitar. E, cá entre nós, quem gosta de operação, fora o cirurgião, o anestesista e os assistentes?
Os médicos do São Paulo preferem não fazer prognósticos precisos a respeito do tempo de recuperação e, sobretudo, de data para retorno às atividades normais. Num primeiro momento, se falou em até seis meses para ficar novoem folha. Podeser menos, se tudo correr dentro do previsto; pode ser mais, se houver alguma complicação. (Tomara que não, bate na madeira três vezes: toc, toc, toc.)
Rogério Ceni tem 39 anos de idade, mais de 20 a segurar torpedos sob o gol tricolor. Sem contar os mais de 100 mísseis que ele acertou nos alvos adversários. Claro que o fim de carreira, naturalmente, se aproxima. É questão cronológica, inevitável. O tempo nos alcança a todos, dos cabeças de bagre aos ídolos como ele. Uma hora terá de pendurar as luvas, as chuteiras e seguir a vida em outra área.
Há quem se apresse em prever a saída de cena neste ano mesmo, por causa do infortúnio, provocado por contusão durante a pré-temporada. Não sei com base em que se faz vaticínio tão drástico. Por isso, também tendo como ponto de apoio apenas o feeling e o retrospecto da carreira de Rogério Ceni, fico do lado dos que o esperam revê-lo em campo bem antes do que se imagina.
Rogério é tinhoso, obstinado, um cdf, como se falava no meu tempo de colégio. (A turma ainda fala isso hoje em dia? Sabe o que significa a sigla?) A trajetória saudável, os cuidados com o físico e a rotina discreta provavelmente jogarão em seu favor. Por mais que os que não gostem dele – sejam lá quais forem os motivos – cruzem os dedos para que se estrepe. Bobagem, maldade, alma pequena, que infelizmente há em toda parte.
Parto do princípio de que não se deve desejar o mal de ninguém. E, como admirador do futebol, torço para que volte, jogue ainda mais algumas temporadas e saia por cima. Como merece, como merecem todos os que honram a profissão que abraçam.
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Quer tirar Pelé um pouco do prumo? Pergunte-lhe se este ou aquele astro do momento vai desalojá-lo do trono que ocupa desde o fim dos anos 1950. O Rei do Futebol tem a resposta na ponta da língua: “Se marcar mais de mil gols e ganhar três Copas do Mundo, conversamos.” A ironia serve para enquadrar súditos mais ousados e manter a Majestade Real em eterna evidência. Aliás, justa.
Nos últimos tempos, Pelé tem recorrido a essa argumentação para rebater projeções que se fazem em torno de Lionel Messi. O moço argentino acumula façanhas, encanta multidões, arrasa defesas adversárias, ganha prêmios e dinheiro a rodo. Com 24 anos, já levou três vezes o troféu de melhor do mundo oferecido pela Fifa e, na toada que segue, vai encher muitas prateleiras. E o bolso.
É normal, portanto, que atraia elogios e provoque comparações – com Pelé e com seu compatriota Diego Maradona. Os dois monstros sagrados, que há três décadas se cutucam mutuamente, nessa hora se unem e dão estocadas no ídolo do Barcelona. Ambos rasgam seda para o jovem, sem exageros, e dão um jeito de colocar um “mas, porém, contudo, todavia”, quando se trata de vê-lo como o maior de todos os tempos. Vacilam no louvor, porque no íntimo temem que apareceu alguém que possa ofuscá-los. E, mesmo extraordinários, os craques de ontem são seres humanos, têm inseguranças como todos nós. Sentem ciúme.
Não deveria ser assim. Pelé e Maradona pertencem a linhagem especial, no esporte e na vida, ocupam lugar de destaque na história do futebol. São dois gênios do fascinante jogo de bola. Sem desmerecer qualquer outra manifestação de refinamento humano, foram artistas incomuns. Pelé afirmou, para a France Football, que se vê como um Beethoven ou um Michelangelo. Dessa maneira, quis estabelecer limite entre ele e Messi. Pretendeu fixar distância do jovem herdeiro.
Pelé acertou e errou. Bola dentro, ao citar o músico alemão e o pintor italiano, dois milagres da natureza. Bola fora, pois não foram únicos em seus gêneros. Bach, Mozart, Chopin, Tchaikovski seriam o quê? Como classificar Rafael, Da Vinci, Van Gogh, Picasso? Enumero de cabeça, na base do senso comum e de meus parcos conhecimentos culturais. Imagino quantos mais merecessem lembrança.
Cada um foi notável em sua época, e a fama de todos perdura até hoje porque estavam além e acima dos demais nas respectivas áreas. Aproveitaram lições de outros mestres, entenderam o tempo em que viveram, utilizaram recursos que estavam disponíveis e, claro, contribuíram com criatividade, com inovações. Enfim, foram também símbolos de originalidade e aperfeiçoamento. Gênios.
Evolução técnica ajudou a mudanças no esporte. Jesse Owens deixou até Hitler embasbacado e enfurecido, ao correr os 100m em 10,2 segundos, em 1936. Marca incrível para aquele período e hoje inexpressiva diante dos 9,58 de Usain Bolt. Apesar do abismo, um e outro estão no olimpo dos maiorais do atletismo, por terem sido raros em seu tempo. Assim como Carl Lewis, ou na natação como Johnny Weissmüller, Mark Spitz, Ian Thorpe e outros que derrubaram recordes e provocaram estupefação. Épocas distintas, mas homens que realizaram maravilhas.
Não há razão para Pelé, Maradona, ou quem quer que seja, diminuírem Messi. O brilho deste não ofusca o daqueles, assim como não destronará Garrincha, Puskas, Zidane, Cruyjff, Beckenbauer, todos virtuoses. Portanto, bem-vindo ao clube o pequenino camisa 10 do Barça e que hoje dê novo recital diante do Real. Que venham, mais tarde, outros e outros gênios.
*(Minha coluna no Estado de hoje, dia 25/1/2012.)
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A moçada do Corinthians ganhou pela oitava vez a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Uma proeza e tanto, recorde na competição que se consolidou com os 2 a 1 sobre o Fluminense, no final da manhã desta quarta-feira. Um resultado festejado com euforia pelos quase 40 mil torcedores que foram ao estádio do Pacaembu, no dia do 458º aniversário da cidade. Para os supersticiosos, sinal de que outras alegrias devem vir em 2012. Que assim seja.
O título foi merecido, embora o Fluminense tenha feito também campanha digna e jogou muito na final. O Corinthians teve o melhor ataque do torneio (30 gols), a defesa levou só dois gols, foram oito vitórias. Em nenhum momento, foram necessários pênaltis nessa trajetória, ao contrário do que ocorreu com outros participantes. O “Timãozinho” se mostrou superior – e torço para que vários rapazes tenham oportunidade no time de cima, que recebam promoção e sigam carreira.
Tem uma coisa, no entanto, que me incomoda – e já falei e escrevi a respeito dela em diversas ocasiões. Alguns dos campeões saíram de campo dizendo que a conquista veio com a “cara de Corinthians”. E como seria essa cara? “Na base do sofrimento”, o sufoco, na angústia e outros lugares-comuns do gênero.
Isso é bobagem, é explorar o marketing do “sofrimento”, como se só esse sentimento fosse sinônimo de povo, e “Corinthians é povo”. Por aí vai… Uma forma de mostrar que se trata de time diferenciado. (Quando penso nisso, logo me vêm em mente o papo daquele dirigente que fala em clube “difereeeeente” ou daquela turma que não queria estação de metrô em Higienópolis por causa da gente “diferenciada”…)
Vamos, lá, então: o Corinthians é povo, como são povo o Fluminense, o Flamengo, o Santos, o São Paulo, o Palmeiras, o Náutico, o Sport…. acrescente a lista com os clubes que quiser. Alguns têm mais torcidas do que os outros. Mas todos são populares.
Em segundo lugar, sofrimento está associado a derrota, queda, frustração. E um time que conquista oito vezes a Copinha, que é pentacampeão brasileiro, que tem três Copas do Brasil e tantos outros troféus não deve falar em sofrimento. Antes, deve falar em alegria, eficiência, potência. Sofrimento é para perdedores. Não tem sentido esse papo de que “para o Corinthians tudo é mais sofrido.” Sofrido é para quem não chega a finais, para quem marca passo.
Que tal parar com essa bobagem de “sofrimento” e vender a de “alegria”?
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