Francesco De Gregori é um compositor italiano que há décadas faz músicas que pegam na veia e no coração. Sujeito extraordinário, poeta de alta sensibilidade, infelizmente quase desconhecido por aqui. Um Chico Buarque daquelas bandas, pra você ter uma noção da importância dele. Em Cardiologia, uma de suas obras-primas mais ou menos recentes, canta dois versos estonteantes: “Há amores do passado sempre vivos na memória/Porque do amor nada se joga fora”. Isso serve para a vida e para o esporte.
Não tenho talento para falar de dor de cotovelo amorosa – essa até hoje só soube sentir. Escrever a respeito de sobressaltos do afeto é tarefa para cronistas de fina estampa, como o Loyola, o Marcelo Paiva, o Veríssimo, para citar uns bambas da casa. Mas consigo entender frustrações de torcedores com ídolos, sobretudo daqueles que vão embora e mais tarde voltam. Tentativas de reatar, no futebol assim como no cotidiano, não têm regras fixas, porém com frequência caem no vazio. Não dão mais liga.
Pegue o caso de Valdivia. O rapaz desembarcou no Palestra Itália em 2006 com boas referências do Colo-Colo, cativou o público, virou “El Mago”, foi campeão paulista. No momento em que era mais paparicado se mandou para o futebol árabe, com a desculpa de praxe: o bonde da oportunidade passava carregado de dinheiro e não queria perder a viagem. Foi, ficou um tempo no ostracismo bem pago, não aconteceu nada por lá e voltou em 2010. Regressou como o Dom Sebastião aguardado para a redenção do time. Ou como o príncipe encantado para despertar a Bela Adormecida verde.
Até agora não vingou. Em um ano, passou mais tempo na enfermaria do que em campo. Chamou mais a atenção por uma dor aqui, uma dor ali e por exames inconclusivos do que pelo futebol. Falou-se dele mais por dúvidas a respeito dos métodos de tratamento e de rusgas veladas ou nem tanto com Felipão do que por passes, dribles ousados e gols que outrora estimularam carinho da torcida e fizeram o clube lançar-se na aventura de investir alto no resgate.
Enfim, neste período apareceu pouco do Mago que estava na lembrança afetiva do palmeirense. E, como ocorre com desilusões amorosas, a mágoa deu o ar da desgraça. Não é por acaso que parte da torcida passou a pegar no pé. Ele se fechou, murchou e agora fica o impasse: vai embora de novo, e de vez, ou fica? Diz que não quer abandonar o barco, a diretoria finge que repensa, mas está doida para recuperar um pouco da dinheirama que buscou em bancos para satisfazer o desejo de tê-lo no elenco.
O exemplo de Valdivia não é único. O próprio Palmeiras viveu casos parecidos e se dividiu entre martírio e glória. Evair saiu em 1994 e voltou em 1999 mais maduro e mais útil, algo parecido com o que ocorreu com Zinho e César Sampaio, o capitão do título na Libertadores. Já com Edmundo não foi assim, em sua segunda passagem, em 2007.
Outros? Vamos lá. Zico foi incomparável, quando surgiu no Flamengo. Não era o mesmo, ao retornar da Itália, em 1985. Roberto Dinamite foi para o Barcelona, em 1980, ficou só alguns meses e voltou correndo para o aconchego do Vasco, numa união perfeita e duradoura. Raí foi soberbo na primeira etapa de sua relação com o São Paulo e nada além de razoável na segunda, até passar por cirurgia e encerrar carreira.
A gente gastaria horas de conversas aqui com casos de segunda chance que deram certo e os que resultaram em furo n’água. Uma polêmica sem fim, pois o problema é que se idealiza muito no amor e no futebol. Quando as expectativas não são correspondidas, o sentimento de perda tende a crescer e, se bobear, acaba com o que teve de bom. Machuca, a ponto de o Mago hoje sofrer rejeição – ou, no mínimo, desconfiança – de parcela de palestrinos desacorçoados.
Valdivia tuitou ontem para explicar que não é chinelinho – “Ele é chileninho”, respondeu gaiatamente o parmerista diagramador Nilson Pasquinelli – , afirma que abriu mão de uma grana alta para regressar e garante que vai calar quem duvida dele.
Vai reconquistar afeto com a intenção de ficar? Não sei. Quantos casais voltam e se separam de novo? Pode ser o caso dele com o Palmeiras. É da vida e o tempo dirá. Sei que há amores que deveriam ficar guardados para sempre na memória pelo que foram no passado. Retomar é dar murro em ponta de faca e se ferir.
O De Gregori conhece a alma humana.
*(Texto da minha coluna publicada na primeira edição do Estado de hoje, dia 9/9/2011)
Tags: Coluna Antero Greco, Palmeiras, Valdivia
É bem por ai, Antero. Podemos citar o caso do Vagner Love, também, que voltou e decepcionou. Mas eu ainda acredito no Valdivia, muito porque o Palmeiras encontra-se carente de jogadores para a posição.
Tinha esquecido do Vagner Love. Ele seria exemplo marcante para ilustrar a crônica. Obrigado.
responder este comentário denunciar abusocaro antero,
leao , eurico,luiz pereira , alfredo e zeca, dudu e ademir da guia, edu, leivinha, cesar e ney
e o saudoso fedato entrava no segundo tempo, lembra?????
esse valdivia? quem e valdivia??? meu DEUS
esse bosta nao serviria nem pra limpar a chuteira do reserva do reserva do DIVINO.
palmeirenses tem q se dar o valor,
o Palmeiras e muito grande pra kleber, valdivia, etc etc etc
Antero, vc se esqueceu também de Luis Fabiano, que voltou bichado para o sao paulo faz mais de 6 meses e não conseguiu nem treinar ainda, e também do Fernandão, que veio para o são paulo, deu um passe de calcanhar para o hernanes e sumiiiu, e do Ilsinho que voltou e já foi embora melancolicamente.
E do Danilo, que voltou do exterior para o corintians e se contunde mais que o Valdivia, e também do Adriano imperador que voltou do exterior com 150 kilos, peso que estourou o tornozelo e não tem data para estrear ( não ia ser contra o flamengo?), e até o Liedson que só não está sendo criticado porque quando joga faz gols, o problema é que joga 2 jogos e descansa 3.
A crônica esportiva paulista não tem nada para escrever e então usa o espaço para falar bobagem e invenções do palmeiras, senão vejamos um resumo de 2010, com os “furos” de reportagem que a imprensa escreveu sobre o palmeiras:
- maicon leite: ia romper pre contrato com o palmeiras e ficar no santos ( cumpriu e foi para o palmeiras)
- marcos assunção: já estava acertado para ir para o santos ( renovou com o palmeiras)
- felipão : ia voltar para portugal , depois já estava acertado com o flamengo e depois com o internacional ( renovou até o fim de 2012 com o palmeiras)
- obras da arena palestra vão parar ( esta notícia foi dada umas 10 vezes que eu me lembre)
(as obras continuam e tudo vai bem obrigado, apesar que a imprensa não noticia coisa boa do palmeiras mas gasta litros de tinta para falar da roubalheira perpetrada para construir o itaquerão, com dinheiro público ).
- Kleber: já estava treinando no Flamengo, contrato assinado e tudo ( continua no palmeiras)
- Henrique: Barcelona não vai liberar de jeito nenhum ( está no palmeiras e foi para a seleção)
- Valdivia: Já estava segundo a imprensa anunciado no site do Al não sei que lá das Arábias, só não divulgaram o link deste site pra podermos conferir ( Valdivia continua no palmeiras)
é isso aí, o lema da imprensa é aquele do rui barbosa, para os amigos tudo, para os inimigos, o rigor da lei.
Antero, estou enganado ou mais da metade dos jogadores brasileiros ao voltarem, principalmente da Europa, estão sempre “estourados”. É um caso atrás do outro! Geralmente joelho e ligamentos, será que a obsessão por fortalecer os magrelinhos brasileiros não forçam muito a barra?
2013
2012
2011
2010
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