Antero Greco - Estadao.com.br
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29.março.2011 20:30:21

Jobson, um caso delicado

Li no começo da noite que Jobson pediu para ir embora do Atlético Mineiro, clube que o havia levado, por empréstimo de uma temporada, depois de vê-lo perder espaço no Botafogo. O rapaz, de 23 anos, disse que não estava feliz em Belo Horizonte e, que por isso, pretende voltar para o Rio, depois de disputar apenas cinco partidas no Galo, com dois gols. Não se sabe, ainda, se o Botafogo, agora sob comando técnico de Caio Júnior, vai reintegrá-lo ao elenco ou se o deslocará para outro clube.

A carreira de Jobson está em xeque mais uma vez. Talento ele possui, a ponto de ter-lhe aberto portas de clubes de peso, como os dois alvinegros, e mesmo as do Cruzeiro, com o qual chegou a fazer acordo, posteriormente desfeito. As oscilações de sua vida fora de campo, no entanto, interferem – e muito – nas atividades profissionais. Jobson continua perdido.

Ele já enfrentou suspensão de dois anos, por positivos em antidoping, foi beneficiado com redução de pena para seis meses, e ganhou nova chance de refazer sua trajetória. Na época, em 2010, o tribunal esportivo levou em conta os apelos dos defensores de Jobson, sob a alegação de que se tratava de dar oportunidade de recuperar alguém que enfrentava problemas pessoais. O caso está sob investigação da Corte Arbitral do Esporte (CAS), que não viu com bons olhos a anistia parcial da suspensão, e pode julgá-lo mais uma vez.

O Botafogo, com Joel Santana, decidiu apostar na reação, após a nova sentença do tribunal brasileiro, e o acolheu. Só que a regularidade não se manteve. Depois de alguns atrasos e de dores de cabeça para a comissão técnica, foi afastado. O Atlético se dispôs a bancar a recuperação e agora se vê diante do impasse da devolução ao remetente.

Impasse maior, porém, é do próprio Jobson. Se ele não tiver força para ajudar-se – e gente confiável a lhe orientar –, vai transformar-se em mais uma das tantas histórias de promessas que não vingaram. E que, em pouco tempo, sumirão pelos campos da vida.

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Joseph Blatter caiu das nuvens, na entrevista a Jamil Chade, correspondente do Grupo Estado em Genebra. O presidente da Fifa reconhece que as obras para a Copa de 2014 no Brasil estão atrasadas, cobra mais agilidade e deixa no ar a possibilidade de intervir. Só não explicou que tipo de intervenção seria, e em que setores. O assombro do cartola-mor do futebol internacional é de espantar. Em que mundo ele vive? Será que pensa que todo lugar é a Suíça?

Os assessores da Fifa, vários dos quais já se instalaram no Rio, não avisaram herr Blatter há algum tempo a respeito da lentidão dos trabalhos por aqui? Nas visitas que já fez por estas bandas, não pôde ver como seguimos a passo de tartaruga para realizarmos “o maior Mundial de todos os tempos”, como gostam de apregoar dirigentes e políticos? Ou se deixou iludir pela recepção sempre calorosa e por discursos otimistas?

O Brasil sabe oficialmente desde 2007 que seria o anfitrião da Copa de 14. Informalmente, porém, se falava a respeito disso muito antes, já que nos bastidores da família Fifa a candidatura nacional era tido como certa e única. Tempo não faltou para planejamento. Só que, a pouco mais de três anos do pontapé inicial, sobram interrogações.

Algumas delas: como serão distribuídos de fato os grupos? Fala-se em disputa regional, mas cadê a confirmação? Onde serão as semifinais? São Paulo vai abrir a Copa. Vai mesmo? Natal terá um estádio. Terá mesmo? Nenhuma dessas duas arenas saiu do papel até o momento.

O estádio do Corinthians nem começou a ser erguido e já corre risco de ficar fora da Copa das Confederações em 2013, segundo o próprio Blatter. O que já seria atestado de incompetência. O mesmo ocorre com o Maracanã, que vai engolir pelo menos 1 bilhão para ser desfigurado. Ou seja: nossas duas principais arenas, para jogos inicial e de encerramento, não devem estar prontas um ano antes, como se pretendia.

Blatter diz que o Brasil está mais atrasado do que a África quando faltavam três anos para as disputas. Se os africanos apelaram para o improviso, imagino o que não haverá por aqui. A história do jeitinho brasileiro é engraçada, simpática, enfatiza nossa descontração. Mas também demonstra como não se levam a sério certos compromissos.

A novidade nas declarações de Blatter fica para a cobrança que faz para a CBF e o Comitê Organizador Local, entidades comandadas por um homem apenas – Ricardo Teixeira. Há quem detecte atrito entre ambos, por causa das cobranças de Blatter. Salvo engano, não vejo assim. Eles costumam estar afinados. Quem garante que o puxão de orelhas não seja mais uma forma de pressionar nossos governantes e botarem a mão no bolso?

Se for só diferenças entre cartolas, tudo bem. Problema deles. Meu medo é que, desse eventual confronto, sobre conta para a gente pagar. Mais?!

Você pode ouvir o comentário de Jamil Chade na rádio Estadão/ESPN clicando aqui.

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O clássico foi quente, como manda o figurino. O São Paulo quebrou tabu a favor do Corinthians, ganhou por 2 a 1. A briga pela liderança, embora não valha muita coisa, continua equilibradíssima, com o Palmeiras à frente. Mas o que valeu a pena, na tarde deste domingo, na Arena Barueri, foi o gol de Rogério Ceni, o centésimo na carreira. Fato inédito, notável.

E o gol saiu como Rogério imaginava: de falta. A bola foi no ângulo direito do gol de Júlio César, que ainda tocou na bola, tentou tirá-la. Inutilmente. Eram nove minutos do segundo tempo, quando um e outro entraram para a antologia desse duelo famoso, o Majestoso. Um goleiro por se consolidar como artilheiro; o outro, por ser a vítima. Ou melhor: Júlio César não foi vítima, mas coadjuvante num  momento raro. Não deve lamentar-se da sorte.

Rogério Ceni mereceu emplacar o gol número 100, pelo profissionalismo, pela carreira longa e regular, pela aplicação. Lamento a atitude do árbitro Guilherme Cereta, que deu amarelo porque Rogério tirou a camisa na comemoração até hoje única de um goleiro atingir tal quantidade de bolas na rede. É a regra, alegam os legalistas. Qual regra o quê?! O árbitro está lá para interpretar, para avaliar se aquele gesto merecia punição. E deveria ter sensibilidade.

Sou, sempre serei contra, o juiz punir um instante de intensa emoção, em que não houve nenhuma transgressão. E sobretudo em que não houve agressão. O juiz tem de punir o antijogo, a violência, a maldade. Nunca, jamais, a alegria. Foi justa, por exemplo, a expulsão de Tinga, quando fez o gol do título da Libertadores para o Inter alguns anos atrás. É preciso dar um basta a uma recomendação ridícula. Abaixo esse AI-5 do futebol!

O jogo em si teve emoção e muito nervosismo. Lamento as três expulsões. E, embora o foco do meu comentário seja o gol de Rogério Ceni, fica uma observação, para Carpegiani: que tal uma boa conversa de pé-de-ouvido com Marlos? O rapaz teve duas bolas para definir a partida e desperdiçou-as: na primeira foi fominha e chutou alto; na segunda, quando deveria chutar, quis ser generoso e passou errado. Orientação e treino cairão bem para Marlos.

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A seleção brasileira chutou a inhaca, depois de derrotas por 1 a 0 para Argentina e França, bateu a Escócia, segue serena e feliz em sua preparação para a Copa de 2014, que vem sendo feita em sua casa preferida, a cidade de Londres. Mas quem ganhou o domingo e colocou mais uns tijolinhos na construção de seu cartaz – foi Neymar. O rapaz marcou os dois gols da vitória no Emirates Stadium, fez uma apresentação muito boa e aumentou valor de mercado.

Não foi exibição de gala – nem de Neymar nem do Brasil, longe disso. A equipe foi segura, diante de um rival que não incomodou, não chutou a gol, teve pouca posse de bola. Tanto que Julio Cesar pode entregar o uniforme para o roupeiro dobrar e guardar. Os zagueiros correram um pouco mais, mas também saíram com as camisas intactas e secas.

O destaque pra mim ficou para Neymar, pelos deslocamentos, pela desenvoltura, pelo atrevimento de encarar os escoceses. Enfrentou os europeus da mesma forma como o faz contra zagueiros domésticos. A falta de inibição fez com que o Emirates fosse uma extensão da Vila Belmiro ou do Pacaembu. Para quem confia no taco qualquer estádio é igual.

Os gols que marcou foram consequência desse à-vontade: no primeiro, matou a defesa com uma ajeitada rápida na área e o toque no canto esquerdo do gol. No segundo, bateu pênalti com serenidade. E a propósito: achei que houve a falta em Neymar, apesar de o lance ter provocado opiniões divergentes. O santista ainda teve o mérito de tentar tabelas com Damião.

Não foi um teste exigente para o Brasil – meno male que teve uma Escócia pela frente, porque seria chato (não um desastre), se perdesse a terceira em seguida. Vitória sempre ajuda a dar moral. Mano Menezes tem mais análises a fazer. Damião, por exemplo, apareceu bem em dois lances de cabeça; Jadson foi discreto, assim como Elano; Lucas e Ramirez, eficientes no meio-campo; Jonas ficou pouco tempo em campo e teve uma chance de gol; Lucas, do São Paulo, entrou também com a partida definida e mostrou que terá espaço no time. Questão de tempo.

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O clássico que Corinthians e São Paulo fazem no meio da tarde, em Barueri, tem pouco peso para a definição do Paulistão. Um ponto a mais, um ponto a menos, não fará diferença para nenhum dos dois, porque estarão nas quartas de final. No máximo, servirá para indicar a colocação final de cada um nesta longa e sonolenta fase de classificação.

Mas o duelo de maior rivalidade local nos últimos anos pode entrar para antologia do futebol. Para tanto, basta que Rogério Ceni marque mais um gol, o centésimo de sua carreira. Proeza inigualável para quem joga na sua posição, que é a antítese do gol, a negação da maior alegria do esporte. O são-paulino tem 99 catalogados (embora a Fifa considere 97 oficiais) e está pronto para a festa, se aparecer oportunidade para cobrança de falta ou pênalti.

Torço para que saia o gol histórico. Um profissional com a trajetória do Rogério Ceni merece marcar num jogo importante, diante de um adversário de peso. Se isso acontecer, engrandecerá a proeza e não será desonra alguma para o Corinthians. Rogério, no entanto, só não arriscará na bola parada, se eventualmente o placar estiver definido contra seu time. Por exemplo: se o São Paulo estiver perdendo por 3 a 0, ele não baterá faltas ou pênaltis. Pelo menos é o que garantem pessoas que lhe são próximas.

Rogério é um símbolo do São Paulo e não tem tantos simpatizantes dentre os outros times como acontece com Marcos. Há quem não goste dele por considerar que tem postura arrogante. Acho, apenas, que ele tem opiniões e sabe exprimi-las. Só não precisamos concordar com tudo o que diz. Mas, justiça lhe seja feita: em duas décadas no futebol, não há notícia de que alguma vez tenha relaxado em treinamentos ou tenha fugido de desafios.

Sem contar que tem habilidade nos pés incomum para goleiros – e acima da média de muito atacante que passou a carreira sem chegar a 50 gols. Que os ventos lhe sejam favoráveis.

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Adriano no Corinthians era bola cantada desde o fim do ano, quando Ronaldo encabeçou campanha em favor do amigo, ao perceber que tinha caído em desgraça na Roma. O Fenômeno estava na reta final da carreira de jogador, mas começava a dar as cartas como aprendiz de cartola. E, como se sabe, ele apita no Parque São Jorge. Ou, digamos, seus conselhos e sugestões são bem aceitos por lá.

Só que, desde o começo do zunzum em torno da eventual contratação de Adriano, dentro do clube uma voz soou aparentemente contrária. E de quem era? Andres Sanchez. O presidente alvinegro, no seu estilo rude e áspero, vociferou em diversas ocasiões que desconhecia a história, negava qualquer negociação. Se irritava com a insistência das perguntas.

Representava, apenas isso. Mas como péssimo ator, canastrão de filme C. Sanchez foi astuto, mas também descortês; o hábil negociante, que de fato é, se comportou como cartola de time de bairro. Nos bastidores, tratava do acerto com o rapaz, mas para o público se fazia de desentendido. Até aí nada de mais. Mas pecava por excesso ao distribuir bordoadas verbais nos repórteres.

Não lhe tiro o direito ao sigilo. Em transações do gênero, às vezes convém não fazer alarde. (E, a propósito: tomara que dê certo a jogada de risco que representa Adriano.) Era, no entanto, dispensável dar respostas malcriadas para os jornalistas, rapazes que fazem seu trabalho – um trabalho que pode não agradar a muitos, mas essencial.

Por mais que se xingue, se conteste, discorde, a imprensa é fundamental. (E não falo em causa própria, pois estou numa fase de vida e carreira em que não me atingem episódios ou personagens do gênero.)  De qualquer forma, proponho aos que costumam creditar à imprensa todos os males que existem que vivam sem notícias para ver o que acontece. Sem presunção, a vida será mais vazia.

Sanchez talvez queira ser, no trato, a reencarnação de Vicente Matheus, o mais original presidente que o Corinthians teve em seus quase 101 anos de história. Tenta, mas não consegue. O original era espontaneamente carismático, ladino, folclórico. Um Macunaíma da bola – e mentiroso até, por que negar? Mas a mentira fazia parte da composição de sua personagem – e era doce, nada agressiva. Sanchez exagera.

Matheus levava todo mundo no bico, para ficar numa expressão de sua época. Nem assim despertava ira dos interlocutores, porque tinha estilo único. Era toscamente refinado, se me permitem a contradição como licença poética. Embora tenha sua importância na modernização do Corinthians em vários aspectos, a cópia é fosca.

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25.março.2011 12:45:10

A esfinge Adriano*

Procurava um romance do italiano Andrea Camilleri no meio de pilhas de livros que, por presunção, chamo de “ minha biblioteca”, e dou de cara com um volume de História Geral do tempo do colégio. Ou seja, velho pra chuchu. Na capa, aparece a Esfinge, aquele ser mitológico com rosto de egípcio e corpo de leão alado, plantado diante das pirâmides.

Lembrei do enigma “Decifra-me ou te devoro”, e do Édipo, que resolveu a charada e deixou o bichano com cara de tacho. Sujeito inteligente esse Édipo, mas complicado e azarado: virou rei, sem saber matou o pai e casou com a mãe, descobriu as mancadas e no fim se estrepou.

Uma ideia puxa outra, saí da mitologia e fui parar no Adriano e a possibilidade de engrossar as fileiras do Corinthians. Nem precisei esfolar meus castigados neurônios para enxergar, no controvertido atacante, a encarnação da Esfinge. No meio da sua turma, na comunidade em que cresceu e tanto ama, cura-se do ombro e da mágoa de ter sido preterido pelo Flamengo, time de origem e de coração. Lá no morro parece propor incógnita semelhante a Andres Sanchez, que há meses nega de pés juntos intenção de carregá-lo para o Parque São Jorge.

A impressão é a de que o presidente alvinegro não tem certeza de que poderá, assim como o herói trágico da antiguidade, destrinchar a parábola, que no caso está mais para pegadinha do Mallandro. Conheço o cartola só de vista, não sei se aprecia jogos de azar. Mas suponho que não deva ser fácil decidir se vale a pena arriscar fichas em Adriano. Tanto pode resultar em tacada milionária, como virar mico do tamanho do futuro Itaquerão. Qualquer das alternativas não me deixaria surpreso – e, suponho, nem o torcedor corintiano.

Sanchez talvez esteja a avaliar os “bônus e ônus” do investimento, como ele mesmo disse. Adriano não é craque. Pra mim, fica a anos-luz de Vavá, Coutinho, Serginho Chulapa, César Maluco. Nem me atrevo a compará-lo com Romário, Ronaldo e Careca. Mas sabe jogar bola, tem canhota devastadora, é eficiente de cabeça. Para os padrões atuais, serve. Não é por acaso que, fora o Parma, perambulou por times grandes.

O problema não é nem temperamento, mas a cuca. Ninguém diz que Adriano é mau companheiro ou encrenqueiro. No entanto, faz tempo que há sinais de que vive atormentado por seus fantasmas internos, por diabinhos que o atormentam e emperram sua trajetória. Seria corajoso da parte dele se encarasse tratamento. Dinheiro, até onde se saiba, não lhe falta, e certamente encontraria especialistas dispostos a ajudá-lo.

Nessa empreitada, Adriano conta com Ronaldo como padrinho, com aval que tem peso. Existe, porém, uma diferença: ele não é o Fenômeno. Ao contrário do amigo, não desembarcará no clube com tapete vermelho. A Fiel está dividida, faz ressalvas e já provou que cobra, mesmo de estrelas. Sanchez vai representar o papel de Édipo. Mas de qual parte? Aquela em que decifra a charada ou aquela em que se machuca no final?

Mea-culpa. Bacana a reflexão de Raí a respeito da barca furada em que se meteu, ao aceitar convite para amistoso na Chechênia no carnaval junto com um punhado de veteranos astros nacionais. O ex-ídolo do São Paulo disse que, na volta da viagem, se deu conta da bobagem, pois se prestou a interesses políticos do mandachuva local, que tem imagem péssima na avaliação de entidades internacionais que lutam pelos Direitos Humanos.

Raí prometeu ficar mais atento, daqui por diante, para não cair em roubadas como essa. Pode completar a expiação pública, feita por meio de artigo publicado em seu site, com a doação do cachê, quem sabe para a própria fundação Gol de Letra. Ou, pensando melhor: poderia mandar a grana de volta para o checheno e assim ficava com consciência tranquila de vez.

Uma coisa me deixou encafifado: teve ex-jogador alegando que jogaria de graça, em troca de auxílio para vítimas das enchentes na região serrana do Rio. Daí vem o Raí e admite que houve pagamento. No que fez muito bem. Mas, se alguém escondeu que havia grana na conversa, é porque já estava com a pulga atrás da orelha.

*(Texto da minha coluna no Estadão de hoje, dia 25/3/2011)

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Lembra daquele jogo que uma turma de veteranos brasileiros fez na Chechênia durante o Carnaval? Ele estaria morto e sepultado, mas continua a dar o que falar. Quem ressuscitou a história foi Raí. O ex-astro da seleção, do São Paulo e do Paris Saint-Germain escreveu uma crônica, no site dele, em que se desculpa pela mancada de ter aceitado o convite.

Raí alega que só na volta para casa se deu conta de que aquela exibição serviu de jogada política para Ahmad Kadyrov, o todo-poderoso local e contestado por organizações internacionais que lutam pelos Direitos Humanos. Garantiu que, daqui pra frente, vai tomar mais cuidado, para evitar embaraços como esse. Realmente, para quem tem alguma noção do que rola pelo mundo é constrangedor servir de suporte para políticos contestados.

O interessante, na confissão pública de Raí, é o fato de ter admitido que recebeu por sua presença em Grozni. Quando o grupo embarcou houve quem dissesse que não ganharia nada, que não haveria cachê. Alegou-se até que o governo checheno se comprometeu a enviar doação para as vítimas das enchentes na região serrana do Rio. Alguém por aí tem mais notícias a respeito disso? Chegou algo da Chechênia para as prefeituras?

O que se pode depreender, então, é de que havia algo estranho no ar. Dificíl imaginar, hoje em dia, desconhecimento absoluto em torno de certos temas. Não é preciso ser especialista em assuntos internacionais, mas vira e mexe há notícias de conflitos naquela região.

Raí foi o único a mostrar-se arrependido. Salvo engano (e talvez eu possa cometer injustiça), não vi reação semelhante de outros boleiros aposentados que embolsaram algum dinheirinho oferecido por Kadyrov. O melhor que o Raí tem a fazer, agora, seria doar essa grana. Pensando bem: poderia era remetê-la de volta ao destinatário.

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O espírito de Telê Santana pairou sobre o Fluminense na vitória sofrida sobre o América. Os 3 a 2 da noite desta quarta-feira, no Engenhão, me levaram ao apelido que o Mestre tinha nos tempos em que era jogador do tricolor. Por seu tipo esguio, e pela aplicação até o último apito do juiz, era conhecido por Fio de Esperança.

Pois o resultado obtido em cima da hora, e de virada, era o suspiro que o campeão brasileiro precisava para manter-se vivo e acreditar na classificação. Certo, continua difícil, mas depende só de seus resultados. O Flu tem 5 pontos no Grupo 3, um a menos do que o próprio América e dois atrás do Argentinos Juniors. O Nacional segura a lanterna com 4. Se ganhar dos uruguaios no dia 6 e dos argentinos no dia 20, ambos fora de casa, passa para as oitavas de final.

Você pode me chamar de maluco, ou achar que estou com sono (escrevo às duas da manhã, depois do SC) e o raciocínio ficou enroscado. Mas afirmo que ainda acredito que o Flu avance. A vitória sobre os mexicanos não veio com o fino do futebol. Se não jogou o máximo, pelo menos compensou com superação e garra, sobretudo depois de levar o segundo gol. O Flu teve alma e isso também conta, quando às vezes falta a técnica.

O interino Enderson Moreira arriscou tudo, ao optar por formação mais agressiva, e quase quebra a cara por duas derrapadas de Ricardo Berna e Digão, e bem aproveitadas por Sanchez. Uma em cada tempo e ambas deixando o América na frente. O Flu se salvou com gols de Gum (empate de 1 a 1, ainda no primeiro tempo), de Araújo (empate de 2 a 2 aos 36 do segundo) e o decisivo lance com Deco (nos 3 a 2, aos 42).

O Flu não tem a fluidez do ano passado, oscila e sente a pressão pela ameaça de desclassificação precoce. Ainda balança com a saída de Muricy (teve torcedor que levou cartaz para protestar contra o técnico) e se ressente da falta de ritmo de jogadores importantes como Conca e Emerson. Tudo foi compensado com empenho. Atitude louvável e sinal de amor próprio. Em todo caso, a moçada deve aproveitar que o astral melhorou e caprichar também no futebol. Porque não será sempre que a “gana” encobrirá falhas.

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Paulo Henrique Ganso e Patrik foram destaques nos jogos que abriram a 15.ª rodada do Campeonato Paulista. O meia participou dos gols do Santos, na vitória por 3 a 1 sobre o Mogi Mirim, na Vila Belmiro, e inibiu os torcedores de apelarem para vaias, como protesto por seu desejo de ir embora. O atacante colecionou aplausos ao marcar duas vezes, nos 3 a 0 do Palmeiras contra o Linense, na Arena Barueri, e saiu como destaque do jogo.

O temor do técnico Marcelo Martelotte e dos dirigentes era eventual reação negativa dos santistas, quando a equipe entrasse em campo na noite desta quarta-feira. O time, não: Ganso. Foi intensa, e negativa, a repercussão sobre mais uma tentativa frustrada para acalmar o camisa 10, que desde o retorno da cirurgia no joelho tem reclamado “valorização”. O torcedor anda desconfiado do maestro alvinegro.

Mas regente que é bom controla a orquestra e garante a satisfação do público. Pois foi isso que Ganso fez. Ele deu o passe para os gols de Zé Eduardo (o primeiro, aos 7 da etapa inicial) e de Edu Dracena (o terceiro, aos 29 do segundo tempo) e começou a jogada que resultou no gol de Keirrison (aos 3 minutos também do segundo tempo). Fora algumas jogadas de efeito.

Pronto, foi o suficiente para o torcedor se acalmar. Se não houve aplausos em pé, pelo menos ninguém o xingou. O rapaz é bom de bola, independentemente do que queira para sua carreira. E teve personalidade, até para fazer autocrítica e dizer que havia errado passes além da conta na primeira parte do jogo. Resta saber como será a relação com os fãs daqui pra frente.

Quem está caindo nas graças da torcida, mas a alviverde, é Patrik. O moço não tem ainda nem 21 anos (completa em julho) e aos poucos ganha espaço no time. Contra o Linense fez o primeiro e o terceiro (o do meio foi marcado por Kléber, de pênalti), movimentou-se bem na frente, deu trabalho para a zaga rival e se firma como opção para Felipão.

Não dá pra cravar (ainda) que Patrik venha a se transformar num goleador. Mas vai dando conta do recado e amadurece. O que já é alguma coisa num elenco limitado de estrelas.

Gostei do retorno de Lincoln, que estava encostado havia algum tempo. Ficou em campo boa parte do jogo e participou de lances decisivos. O Palmeiras fez bem em recuperá-lo.

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