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Desceram a lenha no Santos, durante a semana, por ter levado cinco gols em dois jogos – nos 4 a 2 sobre o Grêmio Prudente e nos 3 a 3 com o São Caetano. O esquema foi considerado atrevido demais e perigoso para sua defesa, exposta aos contra-ataques. Pois neste domingo o campeão paulista de 2010 atuou com mais cautela, bateu o São Paulo por 2 a 0 e fez a alegria dos pragmáticos. De quebra, manteve a ponta do torneio, com 13 pontos em cinco rodadas, assim como o Palmeiras, que passou pela Portuguesa, também por 2 a 0.

O Santos preparou uma armadilha e o São Paulo caiu. O time de Adilson Baptista comportou-se como de costume – entenda-se mais agressivo – só até os 10 minutos do primeiro tempo, quando ficou em vantagem, com Elano (o quinto gol dele). Daí em diante, recuou como a maioria dos times comuns, e atraiu o adversário, para ver que bicho ia dar. Keirrison e Maikon Leite ficaram isolados na frente, enquanto o restante aguentou o tranco e a pressão.

Deu que o São Paulo foi para o ataque, até criou algumas situações de gol, mas não teve pontaria e qualidade suficientes para empatar e depois tentar a virada. Ao contrário, ainda levou o segundo, marcado por Maikon Leite aos 28 minutos da etapa final, em rebote de Rogério Ceni depois de chute de Elano de fora da área. Só não tomou o terceiro, na sequência, porque Leo se enroscou na conclusão e Rogério defendeu. O São Paulo teve mais domínio, ficou com a bola por tempo superior ao do Santos, mas não soube transformar essa supremacia em gols. Falta-lhe um matador.

O Santos venceu sem dar espetáculo, mas seu futebol também não foi feio. Felizmente, pelos jogadores que tem, não consegue ser um time “cascudo”. A perspectiva de crescimento existe, com o torneio, mais adiante, de Arouca, Neymar e Ganso. É candidato ao título.

Reação verde. Como aos poucos se consolida também o Palmeiras. O elenco que Felipão tem nas mãos está longe de ter variedade e de ser brilhante. Há menos estrelas e mais ‘operários’ da bola. Com qualidade média, sem muita firula e na base da entrega, coleciona bons resultados. Depois do desempenho horrível no empate de estreia (0 a 0 com o Botafogo), enfileirou quatro vitórias e está em situação confortável.

Nos 2 a 0 sobre a Lusa, passou o sufoco habitual, contou com boas defesas de Marcos (fez o segundo jogo consecutivo) e desatou o nó só no final, com gols bonitos de Cicinho (aos 36 minutos) e Kleber (aos 46). Thiago Heleno teve sua chance na zaga, já que Danilo vai embora. Também foram aproveitados os recém-chegados João Vítor e Pardalzinho, que virou Max Santos. O trio foi discreto, ou seja, seguiu o tom do time.

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30.janeiro.2011 11:20:47

Futebol do medo*

O futebol tem umas contradições de lascar. Quer ver uma? O gol. Exceto algum espírito de porco de plantão, todo mundo concorda que a bola na rede é o detalhe que o transformou no esporte mais empolgante nesta terra e em outras bandas. Tem coisa mais linda do que soltar a voz na hora em que a gorduchinha balança a rede? Pra mim, não. E parece óbvio, certo? De jeito nenhum.

Sempre haverá alguém a tirar um porém da manga e a notar que um time não pode lançar-se ao ataque e descuidar da defesa. Os acacianos eternos dirão que é preciso cautela, que o equilíbrio se faz necessário, inútil jogar bonito e pra frente sem conquistar nada. E por aí vai.

Durante muito tempo, Telê Santana foi chamado de pé-frio por pregar futebol descomplicado. Depois de encher a sala do São Paulo de troféus, os apedrejadores de anteontem apareceram como os puxa-sacos da hora. Era mestre Telê pra cá, mestre Telê pra lá. De doer.

A bola da vez da ira dos pragmáticos é o Santos. O líder do Paulistão, atual campeão estadual, recebeu esculachos nos últimos dias porque sofreu três gols do São Caetano! Óh, que horror! Onde já se viu ser vazado pelo lanterna da competição, que até então não havia incomodado ninguém! Como nessas ocasiões não podem faltar vilões, o miolo da zaga (Edu Dracena e Durval) concentrou o azedume. Já vi gente boa advertir que, com essa dupla, dias tenebrosos virão.

Para tornar o prognóstico mais assustador, a advertência vai para o esquema de jogo santista. Os laterais Jonathan e Leo se mandam demais para o ataque, o meio-campo está pouco pegador. Tem muita gente aparecendo na frente. Eu ouvi isso, juro. E li também a respeito.

Pois o duelo que terminou com empate por 3 a 3 com o São Caetano, no meio da semana, foi para mim o melhor jogo das quatro rodadas iniciais do campeonato. Uma partida com constantes mudanças de placar, com duas viradas (os 2 a 1 do São Caetano e os 3 a 2 do Santos), uma penca de gols e emoção. Emoção, que é o que conta no futebol.

Não aguento mais as argumentações que tentam nos convencer que o futebol virou atividade científica, precisa, a um passo da infalibilidade. Os esquemas são tantos e variados que nos dão a impressão de que as equipes viraram computadores e os jogadores, robôs. Embuste, mistificação.

Sem nos darmos conta, aos poucos nos deixamos impregnar pelo medo, pelo discurso aparentemente prudente mas que esconde covardia. Há muita gente no futebol que trabalha para sufocá-lo, para tirar a alegria que está em sua origem e essência. Pessoas que combatem o drible como se fosse pecado mortal, que inibem iniciativas individuais (mas torcem para ter um craque que resolva), que sentem pavor da criação.

Por isso rareiam os camisas 10 de qualidade, aqueles jogadores invocados, meio doidos às vezes, irascíveis e geniais, que soltavam nós táticos com passes precisos, com lançamentos decisivos. Neto, Ademir da Guia, Zenon, Gerson, Rivellino, Dirceu Lopes talvez hoje seriam crucificados se se aventurassem a fazer suas “firulas”.

Mas, como eu disse lá na primeira frase, o futebol tem contradições de lascar. Na hora em que aparece um “10” como o Ganso, cresce o olho de todo mundo. No momento em que Rivaldo se mostra disponível, vem o São Paulo e o resgata, rezando pra que ele continue a ser o maestro que encantou no Palmeiras, no Barcelona e na seleção em dois Mundiais. Logo mais desaparecerão, porque o futebol precisa de gladiadores, de guerreiros dispostos a cumprir suas funções estratégicas com rigor bélico.

Dessa forma se explica a ojeriza aos seis gols – cinco nos últimos dois jogos – que o Santos levou! Puxa, que catástrofe, não?! E os 14 que marcou, esses não contam? E a alegria que essas bolas na rede proporcionaram a sua torcida deve ser ignorada? E é desprezível o poder do ataque santista (ou do time que se disponha a jogar pra frente)? Diria que o São Paulo deveria preocupar-se com o poder de fogo do rival. E, se possível, retrucar na mesma moeda. O que veríamos, então? Um lindo jogo de futebol. Assim espero.

*(Minha coluna no Estado de hoje, 30/1/2011)

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29.janeiro.2011 01:58:15

Futebol traiçoeiro

O futebol por natureza é atividade solidária. Verdade que há os grandes astros, que se destacam como os solistas de orquestras e tornam o espetáculo mais bonito. São imprescindíveis. Mas seu brilho se realça com o desempenho dos demais integrantes. Por isso, se fala no coletivo: time, equipe, conjunto, elenco, grupo. O princípio de confiança e camaradagem deveria, portanto, prevalecer.

Meias-verdades. O futebol é campo fértil para traições, intrigas, promessas fúteis e choque de vaidades. Muitos sorrisos estampados em fotos ou difundidos por imagens de tevê não passam de pose, de “fita” como diziam as comadres do Bom Retiro. São incontáveis os episódios de falsos amigos, que em público trocam elogios e na prática fazem de tudo para prejudicar-se. Quando não se juntam para derrubar desafetos. Qualquer um vai dizer que é coisa do passado, que hoje em dia não vingam conspirações. Sei, acredito…

Técnicos costumam estar no centro de crises dos clubes. A coisa mais antiga do futebol é dar um chute nos fundilhos do “professor” tão logo os resultados não apareçam ou o time faça água. Claro que muitas vezes merecem a dispensa, como ocorre em todo tipo de atividade. Na maioria dos casos, porém, a demissão não passa de saída mais fácil, usada por covardia, para que o dirigente se resguarde e sossegue a ira dos torcedores. E, por tabela, para escamotear seus erros e fraquezas como administrador.

O caso de PC Gusmão, demitido nesta sexta-feira pelo Vasco, é a mais recente manifestação desse círculo vicioso sem fim. Não o considero brilhante – é um dentre tantos operários na sua área. Provavelmente passará a vida profissional de galho em galho, com certo brilho aqui, oscilação ali, quem sabe um título. Seguirá, como a maior parte de seus colegas, destino cigano, hoje no Rio, amanhã no Recife, depois de amanhã no mundo árabe, no mês que vem no Rio de novo. Impensável supor que algum deles firmará raízes como, por exemplo, Alex Ferguson, que há duas décadas manda e desmanda no Manchester, com ou sem taças.

PC levou uma baita bola nas costas de Roberto Dinamite, especialista em iludir zagueiros nos seus tempos de centroavante. O presidente vascaíno, saudado como representante de novos tempos ao demolir a tirania de Eurico Miranda, deu outra mostra de que mudam os nomes porém permanecem sólidas as velhas práticas da cartolagem.

No começo da noite de quinta-feira, jurou de pés juntos que PC seria mantido, apesar das três derrotas consecutivas da equipe no Estadual do Rio. Ele não via sentido para prematura troca de comando, com a equipe em fase de reformulação. Pouco mais de 12 horas depois, avisa que o treinador estava de saída, com as desculpas rotineiras: o futebol vive de resultados, o ciclo fechou, a instituição precisa ser preservada, é um grande colaborador e por aí vai…

PC não é um coitadinho, sabia do terreno em que pisava, teve sua parcela de culpa no fato de o Vasco estar emperrado. E deu também suas cutucadas em atletas. Até perdeu o norte, dias atrás, ao dizer que se sentia preparado para cobranças, e acrescentou, como se tivesse encontrado uma notável frase de efeito: “Quem não quer pressão que vá trabalhar em banco.”

Trocar de técnico encerra a questão? Não, só funciona como sossega-leão com os fãs mais exaltados. O Vasco é time forte, e o treinador não foi eficiente? Não também. Roberto Dinamite e a torcida sabem disso. Talvez tenha atualmente o elenco mais pobre dos quatro grandes cariocas. E duas estrelas rifadas, igualmente para aplacar a ira da turba: Felipe, a um passo da aposentadoria, e Carlos Alberto, famoso pelas variações do visual, por lampejos de bom futebol e por repetidos períodos de inatividade.

Tomei o Vasco como exemplo, mas esse é tema universal. Por aqui, mal foi dado o pontapé inicial no Paulistão e eis que São Caetano e Grêmio Prudente mandaram seus treinadores passearem. É tudo igual. Por falar nisso: o futebol é tão cheio de traições como a vida.

Atire a primeira pedra quem nunca levou um chega pra lá de alguém que considerava leal.

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28.janeiro.2011 11:01:10

A gozação voltou*

O corintiano passou a quinta-feira de cabeça quente e com as orelhas fervendo, de tanto ouvir gozação depois do empate por 0 a 0 com o Deportes Tolima. Até aí, nenhuma novidade, pois já está acostumado, quando se trata de Taça Libertadores. O pavor de fato – e vários amigos alvinegros fervorosos admitem – é lidar com eliminação ainda na fase preliminar. É o que falta para que a maledetta competição continental continue sua saga de enrosco histórico na biografia do clube. O Fiel de arquibancada teme o prejuízo moral; para cartolagem e jogadores doerá também o bolso.

O Corinthians estaria com a corda no pescoço tão precocemente? Sim, e no Parque São Jorge todos sentem o desconforto, após o escorregão de quarta-feira à noite no Pacaembu – de Andrés Sanchez a Tite, do roupeiro a Ronaldo e seus companheiros. Mas o laço tem folga, dá para livrar-se dele e ganhar fôlego na fase de grupos. Sem alarme. Só depende dos próprios corintianos.

Não existe uma fórmula mágica para safar-se do sufoco, a receita é básica: basta jogar futebol. Fácil, não é? Na teoria, sim. Na prática, a porca torce o rabo. A bola do Corinthians, na largada de 2011, está murchinha de dar dó (ou raiva, dependendo do ponto de vista). O tira-gosto na vitória sobre a Portuguesa, na abertura do Paulistão (2 a 0), enganou muita gente. Parecia que a equipe estava azeitada, para usar expressão que o Toninho Cazzeguai e a turma da boccia do Corintinha do Bom Retiro gostavam.

Os primeiros sinais de que o sofrimento viria ameaçador como as nuvens de fim de tarde em São Paulo surgiram na sequência do Estadual, com os empates por 1 a 1 com Bragantino e Noroeste. O time emperrou nas duas ocasiões, o gás da maioria dos jogadores acabou logo e a torcida ficou a acompanhar de esguelha. A conversa da boleirada e do treinador foi aquela manjada, de sempre: início de temporada, falta ritmo, o calor está insuportável, contra o Corinthians todo mundo faz o jogo da vida (tenho cisma com essa expressão!) e tititi, tititi.

A promessa de vida nova no desafio com os colombianos não passou de retórica. O Corinthians seguiu roteiro idêntico ao dos compromissos domésticos. O Tolima percebeu logo que o diabo não era tão feio quanto pintava e até se atreveu a pôr as manguinhas de fora. Com direito a reclamar de erro de arbitragem, que enxergou impedimento em clara ocasião de gol no primeiro tempo.

Os defeitos acumulam-se. A defesa já não tem a solidez de 2009 e início de 2010, por exemplo. O meio-campo carece de estabilidade – e Bruno César não tem sido o regente que despontou no Brasileiro. O trio de ataque, com Jorge Henrique/Dentinho/Ronaldo, parece ter perdido a pegada e finalizou pouco.

Há sinais de esgotamento no elenco, e não é de agora. A queda se acentua desde a metade do returno da Série A e o que se vê são paliativos. A diretoria mantém discurso pomposo e manda ver no marketing – lança camisas que podem custar R$ 240 reais e não se vexa de cobrar até R$ 500 reais já na pré-Libertadores.

O Corinthians precisa descer do pedestal e suar mais. Assim dá para passar pelo Tolima e pensar em voos altos. Caso contrário, abre caminho para outro ano sem ter nada.

Cretinice. Um jornal de esportes, editado na Catalunha, dia desses fez reportagem em que mostrava o Brasil como “cemitério de elefantes”, por repatriar jogadores em fim de carreira, como os Ronaldos, Rivaldo, Belletti e tantos outros que atuaram na Espanha. Mau gosto, ignorância e preconceito caracterizaram o texto. Esses profissionais retornam para casa, para o país de origem, depois de terem feito fama e fortuna na terra que deu ao mundo o gênio de Miguel de Cervantes e o ditador Francisco Franco.

São elefantes que conquistaram os espanhóis com a arte de jogar futebol. O ouro que acumularam veio do talento de seus pés, dos aplausos que arrancaram. Não é bem mais bonito e sublime subjugar populações assim do que por meio da espada, do extermínio, da espoliação, das lágrimas? Prefiro conquistadores como Romário e Deco do que Cortés e Pizarro.

*(Texto da minha coluna no Estado de hoje, dia 28/1/2011)

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“Empatar no Pacaembu é horrível.” A constatação foi de Roberto Carlos, na saída do estádio paulistano, e não serei eu quem vai contradizê-lo. O 0 a 0 com o Tolima, na noite de quarta-feira, se revelou constrangedor para o Corinthians, colocará mais pressão no duelo de volta, na semana que vem, na Colômbia, e faz a Taça Libertadores da América virar o velho e recorrente tormento, em vez de transformar-se em doce sonho.

O Corinthians decepcionou, e ninguém teve a cara de pau de sustentar o contrário. Pelo menos isso. As declarações dos corintianos, após o jogo, navegaram entre o reconhecimento de que o resultado esteve longe do que se imaginava até as frases de incentivo comuns nos momentos delicados. As de sempre. “Tivemos chance, faltou pouquinho mais de tranqüilidade”, observou Jorge Henrique. “Lá, será muito diferente”, previu o técnico Tite. Diferente deveria ter sido aqui, em casa, diante de sua torcida. E não foi.

O caminho para um lugar na fase de grupos não está fechado – se o Corinthians obtiver empate com gol (1 a 1 serve) já se garante. Mas deu uma bela emperrada. Nem tanto pelo placar, e sim pelo futebol que a equipe apresentou. Trocando em miúdos, foi bem parecido com o jogo sem criatividade, sem graça, arrastado, dos empates com Bragantino e Noroeste. Desde o domingo, havia a promessa de time “superligado” na Libertadores. A torcida acreditou na conversa, pero no mucho, e saiu do Pacaembu com a pulga atrás da orelha.

O tridente Jorge Henrique/Dentinho/Ronaldo já viveu dias melhores. Bruno César já foi mais incisivo e inventivo no meio-campo. A defesa já foi muralha intransponível. Em vez de impor-se, de agredir, o Corinthians cadenciou o jogo, sobretudo no primeiro tempo, e enroscou-se numa boa marcação do Tolima. Pior, se expôs ao contra-ataque e só não tomou gol porque a arbitragem enxergou impedimento em um lance normal. Na etapa final, pressionou mais na base do seja o que Deus quiser. E ainda assim levou pouco perigo ao rival. O Tolima percebeu de cara que o diabo não era tão feio quanto se pintava e soube se segurar. Voltou feliz pra casa.

O Corinthians do começo de 2011 é um time comum, sem a aura dos grandes vencedores. Falta-lhe pegada. Mas a tragédia não está consumada – nem gosto de previsões agourentas. Elas não são verdade absoluta no futebol, Ainda bem, porque o futebol é esporte que permite surpresas, viradas épicas, jornadas inesquecíveis. Ronaldo e seus acólitos podem voltar da Colômbia com a vaga no bolso e arrancarem para título inédito e tão desejado. Mas, para tanto, terão de jogar bola. É muito pedir apenas isso?

Grêmio perto. Na fase de classificação nem é preciso dar espetáculos grandiosos. Taí o Grêmio, que jogou pro gasto no Uruguai e ficou a um passo da vaga. Nos 2 a 2 com o Liverpool, a equipe gaúcha teve falhas (sobretudo nos gols), mas soube compensar com boas doses de dedicação e inteligência nos momentos adequados. Se tivesse mantido a regularidade, principalmente no segundo tempo, dava para ganhar, já que ficou em vantagem no 1 a 0 e nos 2 a 1, com o André Lima. O Liverpool é bonito só no nome. No Olímpico, vai dançar.

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O Santos perdeu os dois primeiros pontos em quatro jogos do Campeonato Paulista, com os 3 a 3 com o São Caetano. Nem por isso deixou de empolgar. A partida do começo desta noite, na Arena Barueri, mostrou que o atual campeão estadual não abdicou do jogo ofensivo, que lhe deu fama e títulos na temporada de 2010. E sempre serei a favor de esquemas atrevidos – antes empatar assim do que vencer com o malfadado lugar-comum do “meio a zero”.

Até agora fui uma das partidas mais movimentadas do torneio, com duas viradas (o São Caetano conseguiu o 2 a 1, depois o Santos chegou aos 3 a 2), poucas faltas e só dois cartões amarelos. As duas equipes criaram oportunidades – o Santos bem mais do que o São Caetano, que pode creditar o primeiro pontinho ao desempenho do goleiro Luís, que fez pelo menos cinco defesas notáveis. O Azulão continua na zona de rebaixamento.

Elano outra vez foi o destaque santista, com dois gols e participação em jogadas de armação no meio-campo. Depois de sair por contusão (chutou o chão e ficou com o pé dolorido), o time do Adilson Batista sentiu o baque e perdeu em qualidade. Gostei também do lateral Jonathan (saiu por cautela, por queixar-se de dores na virilha), do Maikon Leite (que nem parece que vai embora no meio do ano), do Pará (pela movimentação) e do Keirrison (solidário, só num lance foi fominha, pois tinha Moisés livre para chutar ao gol). Ainda falta acertar o miolo da defesa.

A perspectiva de crescimento do Santos é muito boa. Jogadores importantes como Ganso e Neymar estão fora, sem contar o Arouca. Fica também a expectativa de saber como vai comportar-se Diogo, o mais recente contratado. O rapaz despontou como promessa de craque na Lusa, foi para a Europa, não se deu bem e passou sem deixar saudade no Flamengo. Esse Santos ainda vai dar o que falar – e daqui a pouco tem Libertadores pela frente.

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25.janeiro.2011 17:29:35

Contradição de Mano

O Corinthians disputava o título brasileiro, em 2010, e Mano Menezes chamou Elias e Jucilei para amistosos da seleção. Na ocasião, não vingou o argumento de que a ausência desses jogadores poderia atrapalhar a caminhada da equipe deles na competição. Agora, o treinador divulga lista para jogo com a França, no dia 9, sem atletas que atuam no país. A justificativa: não incomodar os clubes domésticos.

Não atrapalhar em quê? Os estaduais estão no início, a Libertadores terá largada só no meio do mês de fevereiro (sem contar os jogos classificatórios de Corinthians e Grêmio), a Copa do Brasil também estará  no começo. De onde vem, então, essa repentina preocupação com as baixas? Esse cuidado era reclamado no fim do ano, pelas poucas opções dos times para substituírem seus titulares em momento de definição. Agora, não haveria problema cederem alguns, porque lhes resta tempo para recuperação. Vai entender…

A volta de Julio Cesar é merecida. Nos últimos anos, mostrou qualidade para ser o dono da camisa 1. Não seria a derrota para a Holanda, no Mundial, a apagar a trajetória do goleiro da Inter de Milão. Vale a pena, também, observar Luisão. Pato anda em baixa no Milan, ao contrário de Robinho, que cavou seu lugar, sobretudo com a saída de Ronaldinho. André também deu uma queda e tanto na Ucrânia. E por que não Luís Fabiano? Seu prestígio despencou tanto assim após a Copa?

Já Hulk é lembrado porque tem feito gols aos montes no Porto. Como havia acontecido, um tempo atrás, com ele mesmo e com Afonso, lembram-se? Ora, e Jonas, artilheiro do Brasileiro de 2010 e agora com um pé no Valencia, não merecia uma chance? Ainda mais que não desfalcaria time brasileiro. Pra mim, Hulk e Jonas estão em pé de igualdade. Com a diferença de que um tem o charme de já atuar no Exterior…

Mano repete o roteiro de seus antecessores, desde Carlos Alberto Parreira em 1994 até Dunga. A cada convocação surgem nomes novos, abre-se o leque, experiências são feitas, e dessa forma há demora para se chegar a uma formação-base. Quem não reclama são os jogadores, pois essa abertura é boa para eles, tanto para os de cá quanto para os que já bateram asas e estão na Europa. A cada oportunidade na seleção, se animam e são valorizados em seus clubes.

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Jonas teve o melhor ano de sua carreira, ao ser artilheiro do Brasileiro de 2010. Ganhou prêmios, respeito e prestígio nacionais. Virou um dos pontos de referência do Grêmio. Agora, às vésperas de o time começar disputa por vaga na chave principal da Libertadores, bate asas e vai para o Valencia. Para tanto, segundo a diretoria do clube gaúcho, pagou o 1,25 milhão de euros (em torno de R$ 3 milhões) referente à multa rescisória. Valor irrisório.

O rompimento de Jonas com o Grêmio aparentemente foi rápido. Ainda na sexta-feira jogou com o São José, fez os gols, mas se desentendeu com a torcida, ao retrucar as vaias que recebia. O episódio foi relevado pelo técnico Renato Gaúcho, mas já era indício de que algo não ia bem. Afinal, não faz sentido um jogador se estressar com cobranças do público já nas primeiras apresentações de uma temporada.

A saída de Jonas em si não tem nada de novidade. Faz muito tempo que os clubes brasileiros se tornaram entrepostos de atletas. Com raras exceções, a impressão que se tem é a de que os rapazes ficam por aqui apenas à espera de propostas do exterior. É possível contar nos dedos aqueles que fazem história de fato, antes de ir embora. Desde as categorias de base, a moçada diz sem rodeios que o negócio é cavar lugar no time principal, jogar bem, fazer nome e se mandar. O blablablá de sempre, mas direito de todos.

O problema, no caso de Jonas, é o valor da multa. Quando houve a renovação de contrato, um tempo atrás, a diretoria do Grêmio não botava muita fé no atacante e aceitou exigência de seus procuradores, de que a compensação por eventual ruptura fosse baixa. Os representantes do jogador apostavam em sua valorização; os cartolas, não. Preferiram deixar tudo ao acaso – e o resultado aí está: o destaque do time no ano passado sai por uma ninharia. Os espanhois devem estar rindo à toa.

Os novos mandatários do Grêmio alegam que a culpa é da gestão anterior. Pode até ser, porém a discussão não vai resolver a baixa no grupo. O tema servirá para discussões internas e que sirva para o tricolor rever sua estratégia com o elenco. O episódio revela a necessidade, urgente, de os times brasileiros serem guiados de forma profissional. Não basta mais colocar abnegados, torcedores fanáticos ou beneméritos em funções que exigem preparo.

É chegada a hora de ter gente que saiba lidar, de forma correta, transparente, eficiente, com números, com contratos de jogadores, com detalhes jurídicos. Homens que saibam tratar desses assuntos como gestores, como executivos de empresas e não apenas curiosos. Enquanto isso não acontecer, casos como o de Jonas vão repetir-se a todo momento. Ganharão empresários e os clubes estrangeiros. Por aqui, ficaremos a chupar dedo.

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Não sou da turma dos alarmistas nem vejo desgraça em cada esquina. Mas é bom o Corinthians abrir o olho logo, como se dizia no meu velho e querido Bom Retiro. Bairro, aliás, onde nasceu o glorioso alvinegro 100 anos atrás. É só começo de temporada, porém os resultados não entusiasmam. Mais do que isso, o desempenho do time preocupa, sobretudo agora que se aproximam os duelos com o Deporte Tolima, pela pré-Libertadores.

O corintiano ficou com a pulga atrás da orelha, depois do empate por 1 a 1 com o Noroeste, no final da tarde deste domingo. Nem é pra menos. Assim como havia acontecido no meio da semana, diante do Bragantino (também 1 a 1), a equipe mostrou limitação na parte física (o fôlego acabou logo), vários jogadores continuam a carecer de melhor preparo e o equilíbrio do conjunto fica muito aquém do desejado. Por isso, velhos fantasmas voltam a assombrar.

O temor da Fiel não se limita ao Campeonato Paulista. Na verdade, o torneio estadual permite reação, até com várias derrapadas, porque o regulamento é muito generoso. Como se classificam oito para as quartas de final, o Corinthians só se complicará se tiver incompetência inédita. O que não será o caso. A questão é a competição sul-americana. O Tolima não é muito melhor do que um Noroeste, mas a pressão será infinitamente maior.

O Corinthians ensaiou apenas enquadrar o rival de Bauru, sobretudo no primeiro tempo, quando Jorge Henrique, Dentinho, Roberto Carlos, Moacir e Bruno César tinham gás para ir à frente. Enquanto essa turma estava bem de pulmões e pernas, deu para animar a torcida. E a vantagem, no gol de Dentinho, foi consequência do domínio.

No segundo, porém, o time desabou. Parecia ter colocado o pé no freio, como estratégia, mas faltou mesmo melhor preparo. Os jogadores que antes se destacaram diminuíram o ritmo, Ronaldo passou em branco mais uma vez e o Noroeste cresceu. Chegou ao empate por falha de Roberto Carlos (perdeu a bola no meio-campo) e, se apertasse mais um pouco, poderia ter provocado estrago maior. Por sorte, também é limitado e se contentou com o pontinho ganho.

Não está aceso o vermelho lá pelas bandas do Parque São Jorge – nem é o caso. Ainda. Mas está na hora de o time acordar, de preferência a partir de quarta-feira. Cochilos na Libertadores não serão permitidos.

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23.janeiro.2011 14:47:45

Acorda, gente!*

A eleição para a presidência do Palmeiras escancarou pela enésima vez quanto é amadora e arcaica a estrutura dos clubes, sobretudo aqueles que têm no futebol sua maior expressão. A escolha continua a ocorrer de forma indireta, com um seleto grupo a decidir quem vai controlar, no mínimo por dois anos, o objeto de paixão de milhões de torcedores. O ritual se assemelha a reuniões do conselho de anciãos de antigas tribos. Como outrora, um punhado de sábios se fecha numa sala e tem em suas mãos o destino da aldeia. Para a ratatuia só resta arregalar os olhos e acatar a decisão.

O pleito indireto em si não é o problema – muitas democracias adotam esse sistema e o Colégio Eleitoral representa a vontade popular. No caso das agremiações, porém, há subterfúgios nos estatutos que emperram as mudanças. Tudo é pensado para o poder não trocar de donos sem mais nem menos. Não é por acaso que existem muitos conselheiros vitalícios (às vezes a metade do Conselho Deliberativo é composta por esse pessoal ‘diferenciado’) ou aqueles indicados pela Situação para um mandato, também na quota dos casos especiais. Só uma parte é escolhida pelo voto.

Quem como eu já superou a curva dos 40 vai lembrar-se dos senadores biônicos – nomeados pelos poderosos de plantão, nos anos 70/80, para impedir que a Oposição ao regime militar ganhasse espaço. Truque baixo, com verniz de legalidade, mas injusto. O Brasil felizmente há um quarto de século embicou de volta pelo caminho democrático e dele provavelmente jamais tornará a desviar-se. (Faço figa.) Nossos clubes, ao contrário, ainda sonham com homens fortes, caudilhos. Com ditadores, pra falar o português bem claro e na lata!

O futebol nas bandas de cá incensa esses personagens, embora a tendência seja a de se tornarem esdrúxulos e ultrapassados. As exigências dos jogadores e seus procuradores, as cobranças de patrocinadores, os custos do negócio dispendioso em que se transformou o joguinho de bola requerem gente preparada. Não se vive mais apenas do carisma do cartola intuitivo, perspicaz, habilidoso. Características que contavam muito, décadas atrás, e que agora são periféricas.

Não prego a extinção do dirigente folclórico, em geral polemista, frasista que sabia estimular sua torcida e cutucar rivais. Sujeitos assim conferiam graça ao futebol. Me diverti muito com tiradas sarcásticas de Vicente Matheus, Francisco Horta, Arnaldo Tirone (o pai do novo presidente palestrino), Nicolinha Raccioppi (doce figura que nos deixou há pouco) e outros da mesma linhagem. Eles foram importantes em seu tempo, bem ou mal cumpriram seu papel. Hoje, imagino, poderiam enroscar-se nos meandros de um jogo que é bem pesado.

Não sou a favor do desaparecimento do cartola apaixonado pelo time. O presidente tem de ser o torcedor número um, que concentra as expectativas e as angústias dos fãs. Não pode ser um sujeito frio, distante, inalcançável. O cartolão, por sua sensibilidade e pelo simbolismo do cargo, representa ponto de referência. E só.

A gestão do clube tem de necessariamente enveredar pelo profissionalismo. Ok que o presidente continue a nomear seus diretores, como de praxe, para que funcionem como ponte entre time e torcida. Os cartolinhas devem aparecer na tevê e dar entrevistas. Faz parte da liturgia do cargo e massageia egos. Não descarto nem a presença de ex-boleiro para tratar com jogadores assuntos corriqueiros.

Mas um Departamento de Futebol precisa ser tocado por pessoas aptas a lidar com cifras cada vez mais altas, com contratos cheios de meandros, com marketing agressivo. Os clubes carecem de fato de projetos (palavrinha tão maltratada), planejamento, consistentes fontes de renda; não podem contar apenas com ações pontuais. Não devem mendigar verbas de tevês, patrocinadores, federações para pagar contas urgentes. Assim só se enfraquecem e se tornam presas fáceis para parcerias às vezes obscuras e para ‘investidores’ espertalhões.

Será visto como revolucionário o primeiro que colocar em prática esse ovo de Colombo. Acorda, gente!

*(Texto da minha coluna no Estado de hoje, 23/1/2011)

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