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20.dezembro.2010 14:01:40

Pausa para reflexão

Este aprendiz de blogueiro aproveita o intervalo no futebol e pede um tempinho para retomar o fôlego. Agradeço a gentileza dos que leram meus posts, nos últimos meses, e interagiram, com observações, críticas e eventuais elogios. É importante conhecer o que pensam aqueles que acompanham meu trabalho.

Desejo a todos feliz Natal e muitas realizações em 2011. Volto em janeiro, com a intenção de tornar o blog mais dinâmico, atual e diversificado.

Abraços.
Antero Greco

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A Internazionale mostrou nos Emirados Árabes com quanto tempo se faz um campeão do mundo. A equipe italiana – no nome, porque em campo só tem estrangeiros – liquidou os dois adversários que teve pela frente em 20 minutos dos 180 oficiais. Na quarta-feira, domou o Seongnam da Coreia com o gol de Stankovic aos 3 do primeiro tempo. Neste sábado, amansou a zebra africana do Mazembe com os gols de Pandev aos 13 e Eto’o aos 17 da etapa inicial.

Tanto num jogo quanto no outro, a Inter tratou de apresentar logo suas armas e decretar quem mandava. Não foi por acaso que liquidou os dois adversários com o placar de 3 a 0. Diante dos coreanos, na quarta-feira, não prevaleceu apenas a superioridade técnica. Contou também o temor de passar por vexame semelhante ao do Inter, que se dobrou ao Mazembe um dia antes. A equipe europeia foi atenta do começo à última assoprada de apito.

Na decisão, a Inter passou pelo representante do Congo com altivez irritante. Depois de marcar os dois primeiros gols, recorreu a atitude quase displicente, não deu a mínima bola para o rival e arrastou o jogo até o fim. Teve jogador que saiu de campo com o uniforme limpo, intacto, pronto para ser recolocado na mala. O título mundial foi mais fácil do que se esperava.

Ao Inter restaram o terceiro lugar (4 a 2 no Seongnam) e a lição de que nome é importante, mas não ganha taças. É preciso aplicar-se e ser implacável, como fez a Inter. Por isso, a tarefa dos milaneses pareceu, ao fim da expedição ao Oriente Médio, simples e rotineira. Inter e Inter brigam por títulos continentais. Quem sabe o duelo não foi apenas adiado para 2011?

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Viola completa 42 anos no dia 1º de janeiro e será um dos integrantes do elenco do Juventus na disputa da Série A-3 como eufemisticamente é chamada a Terceira Divisão Paulista. O clube da Mooca recorreu ao mais do que experiente centroavante – terá também o volante Gilmar Fubá, 35 – como um dos recursos para subir um degrau no torneio doméstico. Dará certo? Quem sabe. A promoção pode vir, pelo restante do grupo e não por aquilo que deve apresentar um jogador há muito tempo sombra de si mesmo.

Viola é figurinha manjada no futebol. Já foi carimbada, hoje é repetida. Eu o vi ganhar destaque no Corinthians, ao marcar o gol do título estadual de 1988, contra o Guarani, em Campinas, numa final emocionante. Uma semana depois daquela proeza que o projetou, acompanhei ao lado da fotógrafa Norma Albano (então no Estadão) a mudança dele de uma vila popular na Zona Norte para um apartamento modesto na Zona Leste, propriedade do antigo presidente Vicente Matheus e bem perto do Corinthians.

Os anos vividos no Parque São Jorge, até a metade da década de 1990, foram os melhores de uma longa trajetória. O auge veio no polêmico gol anotado na final do Paulista de 1993, contra o Palmeiras. Aquele em que comemorou imitando um porquinho e despertou a ira dos palestrinos. Um gol com efeito insólito, pois estimulou Edmundo, Evair & Cia. a darem o troco, com os 4 a 0 no duelo seguinte e o consequente fim do jejum alviverde.

Ainda fez parte do grupo tetracampeão do mundo em 1994. Em seguida perambulou por mais de uma dezena de clubes, com passagens razoáveis pelo próprio Palmeiras, além de Santos, Vasco. Na maior parte das vezes, porém, valeu-se da habilidade para promover-se como forma de compensar futebol irregular e a falta de gols. Suas investidas mais recentes incluem times como Duque de Caxias, Uberlândia, Angra dos Reis, Resende, Brusque. Ainda nos anos 1990, no topo da carreira, ficou meses no Valencia e forçou o retorno, sob a alegação de que não se adaptara aos hábitos alimentares da Espanha.

Viola é mais um exemplo de caso comum no futebol – o do jogador que teve cartaz e não consegue parar. Não se dá conta de que o tempo é o marcador mais implacável que existe – atinge tanto o craque quanto o perna de pau. O momento de pendurar as chuteiras é delicado, pessoal, íntimo. Não condeno quem retarde essa decisão difícil. Só lamento e torço para que saiba superar a fase de transição.

De qualquer modo, prefiro guardar a imagem boa de Viola no Corinthians – não a do figurante de reality show ou de vovô da bola que agora poderia divertir-se em peladas de fim de semana em vez de prolongar o rito de passagem dos gramados para aaposentadoria. Mas a vida é dele, e faça o que o deixe feliz.

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O sonho do bicampeonato mundial morreu para o Internacional, no início da noite, em Abu Dabi, em consequência de um mal recorrente no futebol: a presunção. O time brasileiro tecnicamente era melhor do que seu rival Mazembe, o quase desconhecido representante da África, criou mais oportunidades e teve sempre a certeza da vitória. Até levar o primeiro gol. Então, se descontrolou, abriu-se, deu espaço para o contra-ataque e para os 2 a 0 finais.

A responsabilidade de desempenhar papel bonito era do Inter, que entrou em campo com a obrigação de honrar o peso de sua história. Elenco mais badalado, campeão sul-americano, uma vez também campeão do mundo. Tudo a favor dos gaúchos – na teoria. Na prática o favoritismo quase se tornou realidade já aos 10 minutos do primeiro tempo, num chute de Alecsandro que Kidiaba defendeu. O toque de bola também tinha mais qualidade.

Esses indícios de superioridade relaxaram o Inter e foram fundamentais para despachá-lo para a vala das equipes comuns. Guiñazu e sua turma jogaram a etapa inicial com a certeza de que a vitória seria questão de tempo. Minuto a mais, minuto a menos e os africanos seriam devolvidos para o esquecimento de onde vieram. Não havia motivo para apreensão para os milhares de torcedores colorados que se mandaram para o Oriente Médio para fazer festa. O maldito pecado mortal que costuma derrubar gigantes.

A alegria, porém, foi da zebra, que se desgarrou com o gol de Kabangu aos 11 minutos da segunda fase e atropelou o Inter com Kaluyituka aos 40 minutos. Dois gols bonitos, que contaram também com vacilos oceânicos do sistema defensivo brazuca. De quebra, o endiabrado Kidiaba fez mais duas proezas e ainda divertiu a plateia com sua dancinha solitária, sentado e aos saltinhos.

Celso Roth havia dito na véspera do jogo que o Mazembe deveria justificar a segurança de seu treinador, o senegalês Lamine N’Daye, que prometia nova surpresa, depois de derrubar os mexicanos do Pachuca. Pois os africanos, franco-atiradores, não se intimidaram, jogaram sua bola simples e entusiasmada e colocaram o continente pela primeira vez na história na rota de um título mundial. E Roth se enrolou nas substituições, porque não adiantou tirar jogadores experientes como Tinga, Alecsandro e Rafael Sobis. As mudanças reforçaram o fiasco.

Fica a lição para Rafael Benitez, técnico da Internazionale que esteve no estádio. Se sua equipe, que não anda bem das pernas, passar hoje pelo teste com o Seongnam, da Coreia, que se cuide: esse pessoal do Congo gostou de fazer estragos.

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12.dezembro.2010 18:26:25

Gangorra dos técnicos*

Não sou obcecado por números no esporte nem morro de amores por linguagem carregada de futebolês. Tecnicismo demais emperra a vida do leitor. Curto o jogo bem jogado, me encanto com dribles, firulas, gols e para preservar minha integridade emocional me permito eventualmente passar nervoso como qualquer torcedor. Até prova em contrário, para mim quem faz o espetáculo é o boleiro, não importa se craque ou perna-de-pau. Nem por isso descarto a figura do cartola, do juiz, do técnico. Todos compõem esse universo especial.

Vejamos o caso do treinador. Não imagino um time sem o “professor” – seja aquele da velha escola, que adora treino com bola e fala a ‘linguagem dos gramados’, ou os mais modernos, que aceitam inovações científicas, aderem a modismos e capricham no visual. Técnico é importante, no mínimo para dar amálgama a um conjunto de marmanjos.

Só não concordo com a supervalorização da categoria e olho de esguelha para a condição de semideus de alguns. São profissionais que merecem respeito, mas acertam e erram como todo mundo. Jamais fui a estádio para apreciar “duelo no banco”. Assim como ocorre com os atletas que comandam os treinadores enfrentam as oscilações do cotidiano. A gangorra ora pende pra cima, ora despenca. E não há nenhum que jamais tenha levado sustos e tombos, para se reerguer em seguida.

Ao recorrer a essa imagem o primeiro que me vem em mente é Muricy Ramalho. O novo campeão brasileiro levou uma entortada e tanto ao ser demitido do Palmeiras no começo do ano. Ele ficou na moita, se fez cobiçar e ressurgiu no Flu. Não parecia o lugar ideal para a reação, por se tratar de clube com problemas internos. Pois nas Laranjeiras, sem muita pressão, colocou em prática seu lema “Aqui é trabalho, meu filho” e fechou o ano em alta. No meio tempo, ainda esnobou convite da CBF para treinar a seleção porque desconfiou que podia ser usado como boi de piranha. Os anos de estrada serviram de alerta.

Outro que não pode queixar-se da vida é Dorival Júnior. Em 2009, abriu portas com a segura campanha do Vasco campeão na Série B nacional. O sucesso no Rio chamou a atenção da nova diretoria do Santos, que o convidou para dar ordem no punhado de jovens que surgiam na Vila Belmiro. Dorival observou aqui e ali, fez ajustes e logo tirou do forno o melhor Santos que se viu em décadas, que jogou o fino com Ganso, Robinho, André, Neymar. Vieram dois títulos, uma enorme trombada com Neymar e a demissão. Ainda teve a coragem de encarar a prova de fogo de pegar um Atlético-MG pronto para a degola. Salvou o Galo e ganhou o ano.

A lista dos que passarão o Natal a brindar uma temporada aprazível tem Mano Menezes (chega ao topo da carreira ao assumir a seleção), Celso Roth (campeão da Libertadores e, tomara, também do Mundial), Renato Gaúcho (pela espetacular arrancada do Grêmio na Série A) e Cuca (com o vice-campeonato do Cruzeiro).

Tem a contrapartida? Claro, há os que estão na parte de baixo da gangorra, à espera da subida. São nomes de peso, como Vanderlei Luxemburgo, apagado no Atlético-MG e sem brilho no Flamengo. A fazer-lhe companhia está Luiz Felipe Scolari, que voltou ao Brasil cercado de esperanças e não conseguiu acertar-se no Palmeiras. Adilson Baptista entra nessa, pela passagem quase relâmpago no Corinthians, embora tenha encontrado colocação no Santos. Andrade ficou meses esquecido, após a saída do Fla, e ao voltar a cena se deu mal com o Brasiliense. Ricardo Gomes saiu chamuscado do São Paulo, assim como Silas se queimou no Grêmio e no Fla.

Tem a turma do lusco-fusco – com Tite, Joel Santana, Antonio Lopes, PC Gusmão e tantos outros. Nem glórias nem grandes traumas.

Acho que esqueci de alguém. Ah, sim, Dunga, aquele que passou a Copa a ver complô até quando lhe davam bom dia. Melhor deixá-lo pra lá. Ele me lembra um presidente do Brasil que, ao sair do cargo, pediu que o esquecessem. Pois então…

*(Minha coluna do Estado de hoje, dia 12/12/2010)

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10.dezembro.2010 13:28:12

Brasil na cabeça*

Se tem coisa arriscada é prognóstico em futebol. Antecipar que vai ocorrer isso ou aquilo em esporte tão imprevisível é o equivalente a topar com casca de banana lisinha, insidiosa, esparramada no meio do caminho, à espreita de cronista incauto para fazê-lo escorregar e quebrar a cara. Como dei muita bola fora (mais dentro, ora, ora) nesta rotina de falar a respeito de joguinho de bola, não me causa constrangimento cravar desde já que a Taça Libertadores de 2011 ficará em território nacional, repeteco deste ano que embicou para as semanas finais.

Não estou a resvalar para atitude patrioteira, nem tenho vocação para adivinho – ou bidu, como se dizia na época em que o rapazote só podia usar calça comprida lá pelos 12 ou 13 anos. Quem não tem time na competição continental não torça o nariz para esta afirmação. Trata-se de projeção, com base no que mostraram as equipes de cá e de lá nesta temporada e o que prometem para a próxima.

Um sobrevoo por esta bela região do mundo talvez seja suficiente para mostrar que nossos vizinhos não vivem momento extraordinário. Os argentinos, rivais mais temíveis e respeitáveis pela história do torneio, entrarão desfalcados de Boca Juniors e River Plate, que têm predileção especial em derrubar brasileiros. Pontos a menos para eles. A contrapartida fica para a confirmação do Estudiantes, campeão de 2009 e neste ano defenestrado pelo Inter nas quartas de final. Não é galinha morta, longe disso. Também não é nada de anormal.

Outro representante de peso dos hermanos é o Independiente. Esse pode botar banca, porque entende de Libertadores (7 títulos jamais se desprezam), homenageada até no rebatizado nome do estádio, antes conhecido como La Doble Visera. Depois de muito tempo de hibernação, ressurgiu com a conquista da Sul-Americana. Quem acompanhou a final com o Goiás, encerrada na madrugada de ontem, viu uma equipe animada, aplicada e vulnerável.

O Uruguai se apresenta com os tradicionais Nacional e Peñarol, antes bichos papões e agora doce lembrança do passado. O Equador aposta na LDU, de recente história de sucesso (o Fluminense que o diga…) e instável. Os mexicanos são força ascendente e tiveram o Chivas na final com o Inter. Não custa ficar de olho neles. Os demais países tendem a participar com coadjuvantes.

E a tropa brasileira? É de elite? É. Os quatro já garantidos – Santos, Flu, Cruzeiro e Inter – são confiáveis. Os dois remetidos para a etapa preliminar – Corinthians e Grêmio – também têm peso e só emperram se zebras, lhamas, jaguatiricas e outros bichos ficarem à solta. Em situação normal, comporão o sexteto verde e amarelo na Libertadores.

O pioneiro Santos (campeão em 62 e 63) dá sinais de que pretende desempenhar papel bonito ao chamar de volta Elano e ao manter Neymar. De quebra, contará com o retorno de Ganso, o maestro nas conquistas deste ano. Falta-lhe centroavante de peso – Keirrison não emplacou – e, para tanto, conversa com Ricardo Oliveira.

O Inter (2006 e 2010) tem elenco de qualidade e o sucesso passa pelo desempenho e permanência de Renan, Sóbis, D”Alessandro, Alecsandro, Guiñazú, Giuliano. Não é pretensão imaginar a revalidação do título. O Fluminense tem equipe equilibrada e confiante. Só não pode desfazer-se de gente como Mariano, Carlinhos, Deco, Fred, Gum, Leandro Eusébio. E sobretudo de Conca. Dá para compensar a frustração do vice de 2008.

O Cruzeiro festejou em 1976 e em 1997, teve o grito entalado no ano passado e chega amadurecido para 2011. O Grêmio também deu a volta olímpica duas vezes (1983 e 1995), ganhou impulso com a excelente campanha do returno do Brasileiro e vai incomodar. Assim como o Corinthians, que persegue a taça com obsessão. Sem a pressão adicional do ano do centenário, pode enfim realizar seu sonho. Precisa repor as baixas (William, Elias) e ficar atento ao envelhecimento de Ronaldo e Roberto Carlos.

A Libertadores está no jeito para o Brasil. Aposto uma pizza e um refrigerante. Ou melhor: duas pizzas.

*(Texto da minha crônica no Estado de hoje, 10/12/2010)



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Muita gente torce o nariz para o Campeonato Brasileiro, com o argumento de que o nível técnico não é dos melhores. Conversa que já rola há algum tempo, entra ano, sai ano. Vá lá, a Série A doméstica poderia ser mais requintado. Mas não se pode negar que tem emoção de sobra. Expectativa, tensão, angústia e perplexidade estiveram presentes até os minutos finais da rodada derradeira, neste domingo, antes da explosão de festa da torcida do Fluminense. Explosão, aliás, merecida.

Não há por que contestar a conquista do Flu – Muricy Ramalho e seus jogadores mereceram dar a volta olímpica no Engenhão. E eu faria raciocínio semelhante, se a taça tivesse ficado com o Cruzeiro ou com o Corinthians. O trio que chegou ao ato final em condições de terminar em primeiro lugar é digno de respeito. A diferença entre eles foi mínima, restringiu-se a detalhes, para ficar em lugar-comum tão ao gosto dos boleiros.

A ascensão do Flu começou um ano atrás, em 6 de dezembro de 2009, com o empate de 1 a 1 com o Coritiba, fora de casa. Aquele resultado garantia a permanência na Primeira Divisão e foi recebido como um gesto heróico. Os gritos de “time de guerreiro”, entoados por torcedores eufóricos, impregnaram o grupo em 2010. Muitos dos campeões de hoje são remanescentes dos dias de sufoco e parecem ter aprendido a lição. Não se pode fazer restrição a uma equipe que liderou a maior parte da competição.

O Fluminense venceu pela regularidade, pela eficiência, pela qualidade de jogadores como Mariano, Carlinhos, Diguinho, Fred, Emerson, Washington, Deco e sobretudo Conca. O argentino foi o motorzinho do time, participou de todos os jogos, fato raro no futebol atual. Não se reclama, não é expulso, não fica dodói. O grande regente do elenco. Do lado de fora, os méritos vão para Muricy, que havia levado baques com as demissões no São Paulo e no Palmeiras e reencontrou a glória nas Laranjeiras.

O Flu não teve apresentação de gala contra o Guarani, mas jogou o suficiente para assegurar a vantagem e o título. O mesmo fez o Cruzeiro, nos 2 a 1 de virada diante do Palmeiras. O Corinthians tropeçou no desânimo, no 1 a 1 com o Goiás, e termina em terceiro lugar. Ainda bem que os atletas de Goiás, Guarani e Palmeiras se comportaram com altivez e suaram a camisa, dentro de suas limitações. Felizmente, os árbitros não se tornaram protagonistas e não houve lances polêmicos a lamentar.

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O Campeonato Brasileiro termina logo mais, depois de 38 rodadas, muitas surpresas, várias polêmicas, paralisação para a Copa do Mundo e algumas alternâncias na liderança. O trio que ainda tem chance de fazer a festa pelo título encara adversários que decepcionaram na competição. Todos verdes, por sinal. Goiás, Guarani e Palmeiras terão o poder de definir o campeão da temporada, mas não conseguem livrar-se da condição de zebras.

O Guarani entra em campo já rebaixado, depois de um ano desastroso. O ataque é frágil, a defesa está entre as mais vazadas da Série A, o retrospecto é pobre. Mesmo assim, parece ser o mais animado dos três alviverdes. A promessa é a de despedir-se da elite de forma impecável. Será? Não é o que deseja a torcida, que pressionou os jogadores para entregarem o ouro diante do Fluminense. O tricolor carioca, líder com méritos, é também o favorito no duelo. Mas Muricy Ramalho, que não é novato e no ano passado levou baita tombo com o Palmeiras, tomou precauções para que não ocorra um “Engenhazo” neste domingo.

O Goiás não está nem aí para o Brasileiro. Também despachado para a Segundona se preocupa apenas com a possibilidade de conquistar a Sul-Americana, no meio da semana, diante do Independiente. O verde goiano leva para a Argentina os 2 a 0 do confronto de ida e manda a campo, no Serra Dourado, um time recheado de juvenis. Na ordem natural das coisas, não será páreo para o Corinthians, que precisa ganhar e torce por tropeço do Flu.

O Palmeiras é outro que abandonou qualquer veleidade – aliás, nem sei se em algum momento esteve ligado no campeonato. Depois de amargar eliminação na Sul-Americana, perdeu o rumo de vez e, de quebra, na semana passada foi um time com zero de apetite na derrota por 2 a 1 para o Flu (a exceção foi o goleiro Deola). Felipão antecipou férias para mais de uma dezena de jogadores e vai com um mistão enfrentar o Cruzeiro, em Minas. O Palestra mineiro precisa ganhar e ainda torce por tombos de Flu e Corinthians.

A tarefa mais complicada, na teoria, é portanto do Cruzeiro, pois depende de duas zebras soltas pelos gramados. Uma já é difícil; duas, então… E elas não combinam com domingo de final. Pra ser sincero, não acredito em nenhuma zebra, como não acho que existam bruxas nem tenho superstições. Em todo caso, não custa nada torcedores de Flu, Corinthians e Cruzeiro usaram pé-de-pato, trevo de quatro folhas, raminhos de arruda, sal grosso…

Bom domingo a todos, embora apenas uma torcida fará festa legítima. Outras poderão vibrar, mas apenas por tabela e por dor de cotovelo.

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03.dezembro.2010 12:26:59

‘Nem vou falar nada’*

Várias vezes, neste bate-papo trissemanal, recorri à sabedoria áspera do Toninho Cazzeguai para entender o que se passa a nossa volta. O Toninho era tratado como personagem folclórico no Bom Retiro dos anos 1960, porque tinha jeito rabugento, exagerava no falar cantado da italianada do pedaço e não se sabia ao certo como ganhava a vida. Tremendo engano. Até hoje estou pra ver sujeito com mais bom senso e retidão de caráter do que ele. O Toninho tinha a capacidade de mostrar indignação de modo bem peculiar. Quando comentava um fato que o chocava, fazia uma careta, uma pausa e lascava: “Bom, não vou nem falar nada…” Era uma sentença irrevogável de reprovação. Curta e grossa. Dizia tudo.

Nesta semana, pensei direto no Cazzeguai, que há muito tempo está a enchouriçar São Pedro. Fiquei a imaginar como reagiria a alguns episódios importantes do futebol. Um deles espocou ontem, na hora do almoço. As tevês mostraram Herr Joseph Blatter cheio de mesuras ao anunciar as sedes das Copas de 2018 e 2022. O mandachuva da Fifa lembrou que futebol é integração dos povos, fair-play, isto e aquilo. Só belezura.

Um discurso manjado, diante de plateia em parte ansiosa, em parte entediada, para justificar a escolha de Rússia e Catar como próximos anfitriões da competição mais rentável do planeta. Os russos bateram, por exemplo, a Inglaterra, que é hoje um dos países com estádios, infraestrutura, organização esportiva e competitividade mais perfeitos do mundo. Palco ideal para torneio de tal envergadura, candidatura mais do que natural para a Copa. Os árabes ficaram à frente de norte-americanos, australianos, japoneses, que entendem de eventos como poucos e gastam só o necessário.

O colégio eleitoral da Fifa, sobre o qual ultimamente despencaram trovoadas de denúncias de corrupção e tráfico de influências, preferiu dois mercados emergentes, em que serão necessárias inúmeras obras, sobretudo na construção de estádios. E nisso se gasta uma grana dos diabos. Gente da melhor índole interpretou a decisão como um olhar desprendido para o desenvolvimento do futebol. Viu sentimentos singelos nos cartolas que escolheram o destino da taça, que vai para essas paragens depois de perambular por África do Sul e Brasil, onde não por acaso rola uma dinheirama. Na hora, veio o Cazzeguai na minha cabeça. “Bom, não vou nem falar nada…”

O fantasma do Toninho me cutucou também nessa história de mala branca x mala preta, que não sai do noticiário. Jogador de olho na “caixinha, obrigado” que receberá de fora, se fizer bom serviço para terceiros, alega com candura que é o mesmo incentivo do bicho. Não leva em conta diferença mastodôntica: o bicho é prêmio pago pelo próprio clube, uma espécie de bônus por meta alcançada. A mala branca é grana enviada por um concorrente, por um time que amanhã será seu adversário e com o qual muitas vezes os interesses se chocarão. Isso é promiscuidade, falta de honestidade, mesmo que seja prática corriqueira no meio da boleirada. Mas, como diria o Cazzeguai: “Bom, não vou nem falar nada…”

Outra conversa fiada é o entregou, não entregou. O Wagner Vilaron, fidalgo companheiro de muitas batalhas jornalísticas, abordou o assunto ontem, aqui no Estado. Sem ficar no muro, deu sua opinião e escreveu que São Paulo e Palmeiras ofertaram o ouro para o Flu, talvez por temerem reação negativa de suas torcidas. Concordo com ele, com um adendo: o Vasco fez algo semelhante diante do Corinthians, provavelmente por motivação idêntica à dos paulistas. Medo, egoísmo são sentimentos menores, porém compreensíveis.

Só que uma pulga ficou a sambar atrás da minha orelha. O Inter de Porto Alegre poderia ter relaxado contra o Botafogo, duas rodadas atrás, e assim complicaria a vida do Grêmio. No entanto, aplicou-se, venceu e agora corre o risco, digamos assim, de ver o rival na Libertadores do ano que vem. Quem teve atitude mais digna, quem mostrou mais espírito esportivo: o Inter? Ou São Paulo, Palmeiras e Vasco? O que diria o Cazzeguai? “Bom, não vou nem falar nada.”

Melhor mesmo, Toninho.

*(Texto da minha coluna no Estado de hoje, 3/12/2010)


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