[Frank Paton. "Border Collie" (1894). Fonte: Google imagens]
[Frank Paton. "Quem é a mais bela?" (1887). Fonte: Google imagens]
Durante muito tempo me arrisquei a pensar, em termos psicológicos, sobre o masculino e o feminino pelo viés do cachorro e do gato, nessa ordem. Me explico. O homem e a mulher espelhariam de algum modo os comportamentos que identificamos em caninos e felinos.
Sabe-se que os cachorros são fiéis e explícitos em sua emotividade. Nunca abandonam quem lhes deu abrigo, comida, água, num comportamento que muito transmite confiança e senso de amizade inquebrantável. “Eu sempre te esperarei e te defenderei”. Por seu turno, os gatos são sutis, fiéis sim em seus sentimentos, mas têm o seu momento para cada coisa: tudo ao seu tempo. Gatos arranham quem ultrapassa os limites que colocaram, demonstrando assim uma brônzea pedagogia amorosa, pelo que, claro, devemos lhes agradecer. Mas transmitem nisso prudente senso de cuidado com tudo e com todos. “Em primeiro lugar eu e o meu espelho, no qual a imagem de todos são bem-vindas, caso sejam suficientemente cuidadosos comigo “.
Cheguei à conclusão de que essa psicologia animal com certeza ajuda na compreensão dos padrões afetivos da natureza do homem e da mulher.
Penso que os homens de fato são predominantemente caninos, pois mostram via de regra uma sentimentalidade explícita ao se apaixonarem, e isso aguça a sua capacidade de sentir ciúmes e, como os cães, demonstram um apego atávico a territórios e rápido e pronto postam-se para a briga em face dos invasores; ademais, esse automatismo emocional traduz-se em cegueira na paixão por sua (em caso heterossexual) “dona”, o que faz com que o índice de mortes passionais por eles praticadas seja bem maior que o delas, em todas as sociedades ocidentais. Já as mulheres são sutis na sua emotividade, sutis na ante-sala da conquista, ou seja, quando os varões vão, elas já estão voltando, e quando pensamos que as conquistamos, concluímos que em verdade fomos apreendidos como uma imagem em seu espelho. São capazes de amar, mas os homens desconfiam, como se desconfia do amor de um gato. Contudo, assim como os gatos, são sinceras no seu amor, pelo menos enquanto dura a eternidade deste; porém as garras da mulher! … prontas para arranhar quem ama, como um felino no meio de uma carícia que lhe fazemos.
Enfim, no meu manual de psicologia amorosa, homens são cachorros esperando no portão de casa a sua amada, mulheres são gatas esperando em frente do seu espelho o reflexo do seu amado.
Artistas e escritores geralmente adoram gatos: higiênicos, silenciosos, metafísicos em seu olhar, pode-se ler um livro ou mesmo escrevê-lo com um no nosso colo ou ao lado. Vez ou outra ele dorme ali mesmo, sem incomodar.
Quando faz frio aconchega-se à gente e aquece os pés, o peito, os braços, enfim, o corpo.
Alguns pintores foram muito felizes em suas composições ao destacarem tais animais; pintam-os com uma expressividade ou uma pose que compete com a expressividade ou a pose do humano.
Do impressionismo francês destaco Renoir (1841-1919) e seu “Julie Manet com Gato”.
[Renoir. "Julie Manet com Gato". Fonte: Google imagens]
Muita ternura e delicadeza emana da tela. Da menina um belo penteado, um belo vestido com detalhes em ouro, o gatinho dormindo aconchegado e fofo no colo dela… Ahhh o sono dos inocentes, espelhado no seu olhar. O gato parece uma extensão do seu corpo, confunde-se com ele, é parte dele. Se ela tem confortável vestido, ele tem suaves pelos. Os lábios dos dois são avermelhados nesta reprodução, os dela um tanto grossos, os dele fininhos (e se for dela?, afinal pode ser uma gata). Há aqui uma comunhão de existências.
Esse mesmo tema encontramos em Giovanni Boldini (1842-1931), da Belle Époque, no seu “Moça com Gato Preto”.
[Boldini. "Moça com gato preto". Fonte: Google imagens]
Nos braços a moça segura com alegria o seu bichano. Belos cabelos longos, lenço no pescoço, lábios vermelhos como o fundo do quadro, ela olha meio de lado sem nos fitar diretamente, vivendo com intensidade o seu pleno contentamento. Já o gato nos fita de maneira direta, interroga-nos, vê a nossa alma. Ambos têm olhos grandes que nos absorvem com a sua profundidade oceânica. Os dois pares de olhos espelham-se mutuamente. Que magia… Seria essa garota uma futura Capitu, com “olhos de ressaca”? Como se sabe, Machado de Assis assim definiu os olhos da esposa de Bentinho chorando (sinal de traição) a morte do melhor amigo deste, Escobar. O fato pictórico é que a moça está em estado de plenitude, fundida com o seu amor, cuja mancha branca debaixo do pescoço lembra uma gravata borboleta. Quanta elegância! Fico imaginando se esse Gato Preto some da sua vida. Que tristeza… Uma parte dela perder-se-ia. Teria de consolar-se com as memórias do Preto. Mas com certeza seriam ternas memórias que não morreriam.
2013
2012