Meu blasée gato Felix, agora em enigmática meditação. [Foto: Jair Barboza]
O título deste texto remete à apresentação que Carlos Drummond de Andrade faz de seus “Contos Plausíveis” (São Paulo: Cia. das Letras). Ali topamos com esta pérola – deste poeta ao mesmo tempo vanguardista e clássico, decerto no Olimpo da poesia em língua portuguesa, ao lado de Fernando Pessoa, Gonçalves Dias, Camões, Olavo Bilac… – “Só um de meus contos me acompanha por toda parte, ao jeito de gato fiel, sem que o faça para pedir alimento.”
Maravilhoso! O poeta foi iluminado por uma verdade clara e distinta. Não apenas cachorros, mas também gatos são fiéis, por mais que o preconceito popular confira aos gatos características demasiado caricaturais que carregam no egoísmo. Gatos, como gosto de sublinhar, têm o seu momento para carinho, carícia, ternura, e são fiéis nesses momentos. Nem sempre se aproxima apenas interesseiramente, à procura de alimento, mas desinteressadamente, à procura da sintonia de almas.
Por outro lado, o que talvez contribua para o preconceito da infidelidade felina é o fato de não terem uma afetividade automática, como a canina.
Para quem tem gatos, todos sabem, quase sempre um felino está ao nosso lado. No quarto, ou escritório, ou na biblioteca, bem ao lado dos livros, ou aos nossos pés, ou a meia-distância, ou lá no canto fitando-nos filosoficamente. Por vezes, no caso da minha gata Mel, coloca-se entre o computador e o teclado com o qual escrevo, e dorme! Por vezes, como no caso do meu gato Felix, quando estou triste, deitado no sofá, ele chega silenciosamente, e aconchega-se ronronando no meu peito. Por vezes, como no caso do meu gato Bóris, toda manhã pula na cama e deita-se ao meu lado.
Sim, Drummond, isso mesmo, “gato fiel”!
Absolutamente literários. Absolutamente filosóficos. Unem assim literatura e filosofia.
[Frank Paton. "Border Collie" (1894). Fonte: Google imagens]
[Frank Paton. "Quem é a mais bela?" (1887). Fonte: Google imagens]
Durante muito tempo me arrisquei a pensar, em termos psicológicos, sobre o masculino e o feminino pelo viés do cachorro e do gato, nessa ordem. Me explico. O homem e a mulher espelhariam de algum modo os comportamentos que identificamos em caninos e felinos.
Sabe-se que os cachorros são fiéis e explícitos em sua emotividade. Nunca abandonam quem lhes deu abrigo, comida, água, num comportamento que muito transmite confiança e senso de amizade inquebrantável. “Eu sempre te esperarei e te defenderei”. Por seu turno, os gatos são sutis, fiéis sim em seus sentimentos, mas têm o seu momento para cada coisa: tudo ao seu tempo. Gatos arranham quem ultrapassa os limites que colocaram, demonstrando assim uma brônzea pedagogia amorosa, pelo que, claro, devemos lhes agradecer. Mas transmitem nisso prudente senso de cuidado com tudo e com todos. “Em primeiro lugar eu e o meu espelho, no qual a imagem de todos são bem-vindas, caso sejam suficientemente cuidadosos comigo “.
Cheguei à conclusão de que essa psicologia animal com certeza ajuda na compreensão dos padrões afetivos da natureza do homem e da mulher.
Penso que os homens de fato são predominantemente caninos, pois mostram via de regra uma sentimentalidade explícita ao se apaixonarem, e isso aguça a sua capacidade de sentir ciúmes e, como os cães, demonstram um apego atávico a territórios e rápido e pronto postam-se para a briga em face dos invasores; ademais, esse automatismo emocional traduz-se em cegueira na paixão por sua (em caso heterossexual) “dona”, o que faz com que o índice de mortes passionais por eles praticadas seja bem maior que o delas, em todas as sociedades ocidentais. Já as mulheres são sutis na sua emotividade, sutis na ante-sala da conquista, ou seja, quando os varões vão, elas já estão voltando, e quando pensamos que as conquistamos, concluímos que em verdade fomos apreendidos como uma imagem em seu espelho. São capazes de amar, mas os homens desconfiam, como se desconfia do amor de um gato. Contudo, assim como os gatos, são sinceras no seu amor, pelo menos enquanto dura a eternidade deste; porém as garras da mulher! … prontas para arranhar quem ama, como um felino no meio de uma carícia que lhe fazemos.
Enfim, no meu manual de psicologia amorosa, homens são cachorros esperando no portão de casa a sua amada, mulheres são gatas esperando em frente do seu espelho o reflexo do seu amado.
2013
2012