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Animal Reflexão

14.junho.2012 12:20:29

Sfumato de um cachorro

Em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, fui participar de uma defesa de mestrado sobre a filosofia de Schopenhauer. Passeava pelas ruas da cidade tentando construir a minha cidade, isto é, a imagem daquela cidade para mim, o que no fundo a transformaria numa São Leopoldo real. Diga-se aqui que uma das coisas boas no magistério universitário é sermos convidados para participar de bancas de defesa de mestrado ou doutorado em outras cidades, ou participar de congressos acadêmicos, pois assim conhecemos lugares diferentes, pessoas diferentes, culturas regionais diferentes, enfim, nos transformamos em antropólogos e aprendemos a saudável arte da tolerância.

Fui passear pelas ruas de São Leopoldo. Avistei um cachorro negro, olhos claros, tomando sol em frente à rodoviária, faminto, sem a atenção de pessoa alguma. Que fazer? Comprei-lhe dois espetos de frango, embora eu seja vegetariano. Dei-lhe. Apesar da sua tristeza de cachorro de rua, sem companhia e sem carinho, vivendo heroicamente o seu abandono, logo abanou o rabo para mim, contente. Comeu os espetos. Tive de voltar para o hotel onde me hospedava. Não olhei para trás, pois sabia que ele estava me olhando, e este olhar de apelo seria dolorido. Naquelas circunstâncias infelizmente não podia fazer mais do que havia feito.

 

[São Leopoldo-RS. Fonte: Google imagens]

Uma bela cidade – e isto vale para qualquer cidade – não combina com animais abandonados; do contrário a sua beleza é maculada.

***

O termo sfumato do título deste texto remete à técnica de pintura que dilui as formas nítidas dos objetos, e que, combinada com a técnica de luz e sombra (claro-escuro) imprime uma atmosfera volumosa no espaço pictórico de um quadro, como se os objetos ali estivessem envoltos numa espécie de bruma. Tudo isso contribui também para a profundidade da composição, para intuirmos três dimensões num espaço bidimensional. Um dos melhores exemplos dessa técnica encontra-se na famosíssima “Mona Lisa” ou “Gioconda” de Leonardo da Vinci.

 

[Leonardo da Vinci. "Mona Lisa". Fonte: Google imagens]

 

Nunca esqueci daquele abano de rabo do Cachorro de São Leopoldo, que vive esfumado em minha memória. Que encontre uma boa alma que o adote, ou pelo menos que não seja maltratado pelos ignorantes e insensíveis.

comentários (6) | comente

6 Comentários Comente também
  • 23/06/2012 - 10:10
    Enviado por: Vera Scheidemann

    Você fez o que eu também faria, mas é muito triste
    saber que na verdade é muito pouco dar algum
    alimento para um animal de rua… Quando eu vejo
    algum cão abandonado e, infelizmente, não posso
    fazer nada por ele, eu evito olhá-lo nos olhos,
    pois não existe nada mais significativo que o olhar
    de um cachorro, principalmente quando ele está
    carente. Repito, é triste demais !
    Um grande abraço !
    Vera Scheidemann

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  • 25/06/2012 - 14:45
    Enviado por: Atílio

    Também já passei várias vezes por isso. É triste demais. A única coisa que me consola é que fui capaz de dar um pouco de carinho, por alguns minutos apenas, a um cão abandonado.

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  • 27/06/2012 - 11:48
    Enviado por: raquel

    Se a minha renda fosse boa, eu abriria um local para todos os cães de rua…É muito triste vê eles tentando escapar do frio em caixa que supermercados :( e mais triste ainda ver um ignorante maltratando um bichinho tão inocente.

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  • 14/10/2012 - 13:23
    Enviado por: Phedra

    Caro Jair, Boa tarde!
    É com grande alegria posso dizer, que encontrei seu blog e li seus artigos. Posso dizer que é um alivio também, em saber que não estou sozinha na minha forma de pensar. Tenho lutado junto com outros protetores independentes pelos direitos dos animais e por mais espaço nas midias, em geral. A luta é árdua, pois poucos são os que se arriscam a defender os direitos dos animais e a salva-los e muitas vezes somos confundidos com “gente que não tem o que fazer OU mal amaod, sem familia, enfim, uns desocupados”. Porém, nossa determinação é inabalável, assim como nosso caraáer que não se rende a nada menos do que ajudar os animais e lutar pelos seus direitos básicos de sobrevivência. Muitas vezes, nem quero sair de casa, com medo de encontrar um animal abandonado nas ruas, praças (o que é mais comum), parques, avenidas, estradas, enfim, em todos os lugares; o que acontece com frequencia. Mas sempre tenho algo para lhes dar, quando não muito, os recolho, e abrigo aquela alminha que se torna a mais fiel das criaturas, digna de “lapide”, como é o caso do Cãozinho CATATAU, que homenagem maravilhosa; que com certeza foi vitima da “inveja dos mediocres”, aquela mesma que levou Sócrates a julgamento e prejudicou tantos outros seres nobres de espirito. Depois, o levo para adoção, e SEMPRE aparece um alma boa que o adota. SEMPRE!! Quero tambem dizer, que sua atitude em ajudar aquele animal, assim como a de outras pessoas que muitas vezes vêem um animal e NÃO sabem o que fazer, apenas se apiedam dele; são atitudes que podem mudar o mundo para melhor. Quantas e quantas pessoas querem ajudar, mas tem VERGONHA de faze-lo? Milhares, milhões. Mas que vendo gestos de GENEROSIDADE, COMPAIXÃO, GRANDEZA DE CARATER em seus semelhantes, lembram que “dentro” delas, existem essas sementes, esperando apenas por uma oportunidade de germinarem. E é assim que vejo a raça humana: presa numa rede de cirscuntâncias mórbidas e urbanas, onde não existe mais espaço para nada a não ser ela mesma. Ledo engano, pois o mundo torna-se obrigatoriamente (graças a Deus) mais e mais “coletivo” sem espaço para egoismos e vontades tolas, so existentes na raça humana, e é nesse momento que causas como a CAUSA ANIMAL passam a crescer e onde os animais podem se tornar “pessoas” como você mesmo cita num dos seus artigos. Pessoas com direitos. Equiparo a causa animal a ABOLIÇÃO DOS ESCRAVOS no mundo. E pensar que existiam milhões de pessoas que achavam ‘NORMAL” ver outras pessoas acorrentadas, sofrendo, sendo chicotedas, morrendo as pencas. A luta pelos direitos dos animais é a mesma! Por isso peço, não, imploro para que todas as pessoas parem e ajudem um animal abandonado. Uma PEQUENA atitude, por menor que seja, pode MUDAR SEU MUNDO, aliá, do ser humano que o ajuda e do proprio animal, mas quero acreditar que o ser humano é o “maior beneficiado”.
    Parabéns pelo BLOG, pelas suas belas palavras e pelo seu interesse nos animais. Escreva mais. Sugiro que escreva sobre os Protetores de animais que foram eleitos VEREADORES em alguma cidades do Brasil, como e o caso da cidade de TATUI, onde uma grande alma protetora dos animais, foi eleita vereador juntamente com outra, que foi eleita PREFEITO. Vale a pena pesquisar e divulgar. Mil vezes parabéns pelos seu BLOG!!
    Phedra Danay

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  • 22/10/2012 - 08:42
    Enviado por: Vera Cristina Teixeira Leão

    Fazendo um trabalho no qual deveria participar de um blog, escolhi o seu, pois também acredito que os animais são sujeitos de direito e devem, portanto, estar sob o pleno abrigo da lei. Ao ler seu relato, relembrei de quantas vezes esta cena já vivênciei. Se cada pessoa doace alguns minutos diários de suas vidas a ajudá-los, provavelmente não encontrariamos tanto sofrimento nas ruas.
    Vera.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Jair Barboza

    Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Tradutor, destacando-se a versão do alemão para o português da obra-prima de Schopenhauer, "O mundo como vontade e como representação". Defende que os animais são sujeitos de direito e devem, portanto, estar sob o pleno abrigo da lei. Atualmente é professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis

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  • Jair Barboza: Obrigado pelo comentário. Ao que tudo indica, vem de alguém que convive (talvez no campo) com eles....

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