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Animal Reflexão

29.março.2012 09:39:31

Os cachorros na pintura de Velázquez

Geralmente os cachorros foram vistos na Europa e no Ocidente como utilitários, ou seja, sua função era simplesmente servir o dono, por exemplo, ajudar numa caçada; mesmo hoje em dia é muito, muito comum que eles sejam considerados como simples guardas de uma propriedade.

Uma representação do papel utilitário canino pode ser vista na pintura do espanhol Velázquez (1599-1660), “Infante Don Fernando como Caçador”, do ano de 1632-33.

[Fonte: Web Gallery of Art]

O caçador no primeiro plano, no fundo uma paisagem, posa com seu belo cão amarelado, cujas feições felizes foram retratadas como a de um bicho orgulhoso de servir o seu dono. A arma em punho do infante prenuncia um abate próximo.

Porém, com o tempo, esse papel utilitário foi aos poucos mudando e os animais passaram a ser reconhecidos como companhias agradáveis por si sós, independentes de seu papel utilitário. E isso podemos ver cerca de trinta anos depois na obra “As Meninas” do ano de 1656-57, que talvez seja o seu quadro mais famoso.

 [Fonte: Web Gallery of Art]

Destacam-se os enigmáticos olhares das meninas que nos encaram, e o olhar do próprio pintor mais atrás à esquerda com paleta e pincel nas mãos. Quase todos ali nos fitam e até certo ponto nos desconcertam. Sinistro!

Porém me chama a atenção o cachorro no canto inferior direito; parece sério, quase dormindo: mas decerto já não é um bicho meramente funcional, mas sim incorporado ao regaço da casa, à família, tanto é que se encontra deitado próximo às já vaidosas meninas.

É interessante acompanhar na pintura de Velázquez a ambiguidade da condicão canina, ou seja, cães que de simples coisas funcionais começam a tornarem-se animais de companhia. Essa incorporação aparece, por fim, selada na sua obra tardia “Infante Felipe Próspero”, de 1660, justamente o ano da morte do pintor.

 [Fonte: Web Gallery of Art]

Neste quadro o cachorrinho logo à esquerda da composição fita-nos carinhoso, seguro do bem-estar, decerto alguém que recebe a atenção e companhia do infante, e até mesmo deve dormir com ele. Abaixo um detalhe.

Não parece um puddle de madame?

Foi uma longa emancipação que mesmo hoje em dia é problemática. Basta pensar nos milhares e milhares de cães que vivem em espaço reduzido nas casas, soltos só quando os donos saem, vivendo em canis que parecem prisão, dentre outros casos, só para cumprir a sua funcionalidade de guardas. Por vezes nem um carinho na cabeça eles recebem de seus frios donos. Cães estes que depois, perdida a sua funcionalidade, podem ser cruelmente deixados de lado ou abandonados.

Contudo no mundo tudo é luz e sombra ao mesmo tempo, e há o outro lado da história. Não é raro vermos hoje em dia na lista dos livros mais vendidos justamente aqueles que contam as travessuras de cães com os seus humanos de companhia. Livros que depois se tornam filmes de sucesso.

Suprema beleza seria se cada casa, que tivesse cães, também contasse uma destas histórias!

Se você estiver na Espanha ou planeja uma viagem até lá, não deixe de visitar o Museu do Prado em Madri para contemplar “As Meninas” de Velázquez. E lembre-se de apreciar o cão no canto inferior direito da tela.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Jair Barboza

    Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Tradutor, destacando-se a versão do alemão para o português da obra-prima de Schopenhauer, "O mundo como vontade e como representação". Defende que os animais são sujeitos de direito e devem, portanto, estar sob o pleno abrigo da lei. Atualmente é professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis

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