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Inflação de gols ou sobre Brasil 1 x 7 Alemanha

Jair Barboza

11 julho 2014 | 14:50

 

[Dalí. "Relógios derretidos" e"Girafas em chamas". Fonte: Google imagens]

O jogo no qual a seleção brasileira perdeu para a Alemanha é um retrato do Brasil.

Em primeiro lugar, digo que não torci para a Argentina perder da Holanda. Apesar da rivalidade com os nossos hermanos, uma outra copa do mundo (como a passada) que tivesse a sua final jogada entre dois times europeus, seria repetitivo e com um quê de sem-graça. Esta copa contou com legiões de torcedores americanos e merecia uma equipe americana na final.

Quanto ao “Mineiraço”, em Belo Horizonte, com o perdão do trocadilho, que feio horizonte!

Para a fatídica derrota de 7 x 1, a melhor palavra que encontrei foi SURREAL, porque remete ao SURREALISMO, movimento artístico, principalmente na pintura, cuja característica marcante é exagerar a realidade até o ponto em que a mesma é distorcida. Exemplos são os dois quadros pintados por Salvador Dalí: “Relógios derretidos” e “Girafas em chamas” (cf. figuras).

Na derrota surreal , os alemães nem chutavam forte, apenas empurravam a bola para as redes. O time canarinho era um adversário medonho, bizarro em seu pavor de combater, como se fosse antes um bando de bibelôs jogando contra um (im)piedoso time do exército germânico.

Observe-se que a federação alemã de futebol (DFB: Deutscher Fussball-Bund) construiu um centro próprio de treinamento em Santa Cruz Cabrália, litoral da Bahia, e planejou uma adaptação climática e cultural, procurando conquistar a população local, o que de fato ocorreu. Uma exemplar aula magna de planejamento e diplomacia.

Quanto à Confederação Brasileira de Futebol, hummmm…, escolheu uma região serrana em Teresópolis, de clima ameno a frio nesta época do ano!, ou seja, uma desadaptação ao calor de algumas arenas de jogo, como a de Fortaleza (onde o Brasil jogou dois jogos com a temperatura média em 30 graus celsius). Permitiu a dita confederação que o campo de treino fosse aberto ao público e constantemente invadido.  Jornalistas ávidos por notícias eram um enxame muito próximo.

Enquanto isso, a Alemanha mantinha-se diplomaticamente reservada e treinava no calor da Bahia. Seus treinos, depois de alguns minutos abertos, eram fechados para ensaiar táticas. Até a Argentina fazia parecido, em Belo Horizonte. Já do lado brasileiro, Bruna Marquezine desfilava o seu penteado na Granja Comari, e uma conhecida fabricante de cerveja plantou lá a sua cevada, para uma cerveja que encalhou nos supermercados de tão cara.

Parreira, o coordenador técnico da seleção, teve a infeliz ideia de adiantar que os nossos jogadores eram os futuros campeões e estavam com uma mão na taça.  Do outro lado, Alemanha e Argentina adotavam o discurso da modéstia, até mesmo para bem dosar psicologicamente em seus atletas o desafio do combate, que só é belo e vitorioso para quem respeita o adversário, não o teme, e procura conhecer o campo de batalha.

Por tudo isso, a trajetória da seleção simboliza, penso, o que se passa no Brasil atualmente. É um país que vive um período de profundo falseamento, político e econômico.

Temos liberdade de expressão, mas nunca se fez tanto patrulhamento contra quem tem opiniões divergentes (até mesmo dentro das universidades), tanto é que o Brasil está entre os primeiros no ranking de países com jornalistas assassinados. Em nossa República Federativa vivemos a democracia, mas nunca, com exceção dos períodos ditatoriais, foi a cena política tão autoritária, inclusive com a tentativa de gerenciar a vida privada, os costumes das pessoas, como no caso  da “lei da palmada”, em que tentaram transformar cada funcionário público numa espécie de espião e delator.

Por fim, a inflação. Carrega-se cada vez mais dinheiro para as compras, o volume das notas no bolso aumenta, pois valem menos, ao mesmo tempo em que o número oficial da inflação é mentiroso. A conta político-econômica que nos está sendo apresentada é alta, pesa no ânimo, nos humilha.  Tal situação espelhou-se fielmente na seleção brasileira, improvisada no estilo de jogo, pueril no planejamento, e que pagou caro com a derrota surreal de 7 x 1 para os alemães. Uma inflação de gols e humilhação que não foi possível maquiar.