Artistas e escritores geralmente adoram gatos: higiênicos, silenciosos, metafísicos em seu olhar, pode-se ler um livro ou mesmo escrevê-lo com um no nosso colo ou ao lado. Vez ou outra ele dorme ali mesmo, sem incomodar.
Quando faz frio aconchega-se à gente e aquece os pés, o peito, os braços, enfim, o corpo.
Alguns pintores foram muito felizes em suas composições ao destacarem tais animais; pintam-os com uma expressividade ou uma pose que compete com a expressividade ou a pose do humano.
Do impressionismo francês destaco Renoir (1841-1919) e seu “Julie Manet com Gato”.
[Renoir. "Julie Manet com Gato". Fonte: Google imagens]
Muita ternura e delicadeza emana da tela. Da menina um belo penteado, um belo vestido com detalhes em ouro, o gatinho dormindo aconchegado e fofo no colo dela… Ahhh o sono dos inocentes, espelhado no seu olhar. O gato parece uma extensão do seu corpo, confunde-se com ele, é parte dele. Se ela tem confortável vestido, ele tem suaves pelos. Os lábios dos dois são avermelhados nesta reprodução, os dela um tanto grossos, os dele fininhos (e se for dela?, afinal pode ser uma gata). Há aqui uma comunhão de existências.
Esse mesmo tema encontramos em Giovanni Boldini (1842-1931), da Belle Époque, no seu “Moça com Gato Preto”.
[Boldini. "Moça com gato preto". Fonte: Google imagens]
Nos braços a moça segura com alegria o seu bichano. Belos cabelos longos, lenço no pescoço, lábios vermelhos como o fundo do quadro, ela olha meio de lado sem nos fitar diretamente, vivendo com intensidade o seu pleno contentamento. Já o gato nos fita de maneira direta, interroga-nos, vê a nossa alma. Ambos têm olhos grandes que nos absorvem com a sua profundidade oceânica. Os dois pares de olhos espelham-se mutuamente. Que magia… Seria essa garota uma futura Capitu, com “olhos de ressaca”? Como se sabe, Machado de Assis assim definiu os olhos da esposa de Bentinho chorando (sinal de traição) a morte do melhor amigo deste, Escobar. O fato pictórico é que a moça está em estado de plenitude, fundida com o seu amor, cuja mancha branca debaixo do pescoço lembra uma gravata borboleta. Quanta elegância! Fico imaginando se esse Gato Preto some da sua vida. Que tristeza… Uma parte dela perder-se-ia. Teria de consolar-se com as memórias do Preto. Mas com certeza seriam ternas memórias que não morreriam.
Que lindo! Gosto da sua sensibilidade nos textos.
Creio que, em “Julie Manet com Gato”, trata-se de uma gata, pois apenas as gatas têm três cores. Parece que ela está ronronando…
Bem observado, deve ser mesmo uma gata, ronronando! E o Preto, hemm, que olhos…
responder este comentário denunciar abusoParabéns pelo bom gosto das imagens !
Dos gatos e dos cachorros também . É
muito gratificante belas imagens e textos
impecáveis , Saudações !
Que lindas imagens, realmente os gatos tem um olhar tão expressivo que vale muito mais que palavras…
Parabéns pelo texto, adorei!
Gostei, vc tem muita sensibilidade para a pintura, seria bom poder ler uma série de textos sobre animais na pintura. Você sabe que também os cacchorros ocupam um lugar destacado na história da arte. Abraço.
Daniel, meu caro, obrigado pelo comentário e a sugestão. Vou ouvi-lo. Abraço.
responder este comentário denunciar abusoAs artes plásticas servem como evidencia histórica sobre como o ser humano tem mudado sua visao em relacao aos animais. As pinturas anteriores ao seculo 17 que continham animais na realidade nao enfocavam esses animais e sim de seus donos. Por exemplo, uma pessoa era retratada ao lado de seu cao com um olhar submisso para indicar a autoridade dessa pessoa. A partir do seculo 18 o enfoque principal eh o valor intrínseco dos animais e nao das pessoas que estao ao seu lado. Muitas vezes as pinturas dessa época mostram somente animais e nenhum humano. Eh muito famoso o quadro de Frans Snyders por suas pinturas a oleo repletas de passaros empoleirados em uma arvore como se fosse um coral aviario, tendo como maestro uma coruja. Outro pintor que vale a pena ver os quadros retratando emocoes dos animais, principalmente cavalos, eh Theodore Gericault. Finalmente, vale ressaltar que essa mesma mundanca na maneira como vemos os animais esta tambem bem retratada na literatura. Abracos.
excelente comentário. obrigado pelas dicas.observar no entanto que o Frans Snyders tem uma “queda” por cadáveres de animais.
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