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Animal Reflexão

No sertão há muitas árvores, passarinhos, água, terra, fogo, ar. Por consequência há tudo isso na literatura de Guimarães Rosa, o mestre do sertão. Mas sobretudo há nela bois e cavalos e burros. Afinal ali o jagunço ou o sertanejo montam e lidam diariamente com tais animais.

O personagem principal de Guimarães Rosa, como no caso de Euclides da Cunha, é  de fato o sertão e as suas criaturas.  A posição do ficcionista, no entanto, em relação aos animais, é em certo sentido ambígua, tanto em termos pessoais quanto artísticos. Explico-me. Visitava zoológicos, que no meu entendimento são prisões para animais e o egoísmo da consideração humana, mas tinha adoráveis gatinhos de companhia. Se encontramos o sofrimento dos bois na sua literatura, todavia não é comum, pelo menos em “Sagarana” e “Grande sertão: veredas”, algum personagem questionando o uso deles pelo humano, embora aqui e ali, e este “aqui e ali” constitui o nervo da sua ambiguidade, tenhamos cenas na qual a condição e o sofrimento animal são comoventemente descritos.  É o caso, em especial, de muiras cenas da novela “O burrinho pedrês”.

Nessa novela encontramos a cena em que um garoto é chifrado por um boi e por causa disto fatalmente irá morrer, contudo, antes do último suspiro, compadece-se do sacrifício anunciado do boi e pede para que não o matem, pois sente que o ataque foi por instinto, não por maldade. É ouvido e o boi, um zebu, é doado. Levado para outro curral, passa a mostrar estranho comportamento, urra muito e doloridamente, como que arrependido. Diz um personagem ao ouvir o gemido: “Fomos lá todos juntos. Quando ele nos viu, parou de urrar e veio, manso, na beira da cerca… Eu vi o jeito de que ele queria contar alguma coisa, e eu rezava para ele não poder falar… De manhã cedo, no outro dia, ele estava murcho, morto, no meio do curral…”

Um personagem descreve nessa mesma novela o sentimento animal com os seguintes termos: “É, mas a pior de todas é a arrancada do gado triste, querendo a querência… Boi apaixonado, que desamana, vira fera… Saudade de boi, eu acho que ainda dói mais do que na gente…”

Essa novela talvez seja o que há de mais belo na literatura brasileira acerca do sentimento animal. Ademais, conta a história, baseada em fatos reais, de um burrinho pedrês, objeto de desprezo, pois todos os vaqueiros preferiam andar sobre cavalos, mas que salvou dois daqueles do afogamento durante a travessia de um caudaloso córrego, em tempo de enchente. Só os três se salvaram. Quando volta da desgraça, o burrinho come, dança de pernas para o ar, esfrega as costas no chão, e vai dormir como se nada tivesse acontecido.

Decerto invejamos, lá no íntimo, inconscientemente, esse burrinho pedrês, que passa por uma desgraça e a esquece. De fato, o esquecimento, quando não exagerado, é signo de saúde mental, pois certos esquecimentos são saudáveis e necessários, são a digestão da mente, do contrário viram obsessões ou ideias fixas que torturam o seu possuidor, que é por elas possuído.

Em outra cena de “Sagarana”, descreve o autor a tristeza de um boi que sai em disparada rumo à terra na qual vivera desde sempre, e da qual fora exilado; tenta desesperadamente o retorno ao torrão natal, que é parte íntima da sua vida. Já um outro personagem, humano, diz que é “melhor um pássaro voando do que dois na mão!…”, invertando assim, em favor da bela liberdade silvestre, o conhecido provérbio popular.

E assim caminha a ambiguidade de Guimarães Rosa em relação aos animais. De um lado não criou, em meio ao sertão, um personagem marcante cuja boca proferisse palavras contundentes contra o uso deles, mas, de outro lado, sentimos o quão profundamente se comoveu e deslumbrou com os bichos, num deslumbre que é em face das criaturas todas e do ambiente que as acolhe.

 

 

 

 

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 [Frank Paton. "Border Collie" (1894). Fonte: Google imagens]

                                                                                                                                 

   [Frank Paton. "Quem é a mais bela?" (1887). Fonte: Google imagens]

Durante muito tempo me arrisquei a pensar, em termos psicológicos, sobre o masculino e o feminino pelo viés do cachorro e do gato, nessa ordem. Me explico. O homem e a mulher espelhariam de algum modo os comportamentos que identificamos em caninos e felinos.

Sabe-se que os cachorros são fiéis e explícitos em sua emotividade. Nunca abandonam quem lhes deu abrigo, comida, água, num comportamento que muito transmite confiança e senso de amizade inquebrantável. “Eu sempre te esperarei e te defenderei”. Por seu turno, os gatos são sutis, fiéis sim em seus sentimentos, mas têm o seu momento para cada coisa: tudo ao seu tempo. Gatos arranham quem ultrapassa os limites que colocaram, demonstrando assim uma brônzea pedagogia amorosa, pelo que, claro, devemos lhes agradecer. Mas transmitem nisso prudente senso de cuidado com tudo e com todos. “Em primeiro lugar eu e o meu espelho, no qual a imagem de todos são bem-vindas, caso sejam suficientemente cuidadosos comigo “.

Cheguei à conclusão de que essa psicologia animal com certeza ajuda na compreensão dos padrões afetivos da natureza do homem e da mulher.

Penso que os homens de fato são predominantemente caninos, pois mostram via de regra uma sentimentalidade explícita ao se apaixonarem, e isso aguça a sua capacidade de sentir ciúmes e, como os cães, demonstram um apego atávico a territórios e rápido e pronto postam-se para a briga em face dos invasores; ademais, esse automatismo emocional traduz-se em cegueira na paixão por sua (em caso heterossexual) “dona”, o que faz com que o índice de mortes passionais por eles praticadas seja bem maior que o delas, em todas as sociedades ocidentais. Já as mulheres são sutis na sua emotividade, sutis na ante-sala da conquista, ou seja, quando os varões vão, elas já estão voltando, e quando pensamos que as conquistamos, concluímos que em verdade fomos apreendidos como uma imagem em seu espelho. São capazes de amar, mas os homens desconfiam, como se desconfia do amor de um gato. Contudo, assim como os gatos, são sinceras no seu amor, pelo menos enquanto dura a eternidade deste; porém as garras da mulher! … prontas para arranhar quem ama, como um felino no meio de uma carícia que lhe fazemos.

Enfim, no meu manual de psicologia amorosa, homens são cachorros esperando no portão de casa a sua amada, mulheres são gatas esperando em frente do seu espelho o reflexo do seu amado.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Jair Barboza

    Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Tradutor, destacando-se a versão do alemão para o português da obra-prima de Schopenhauer, "O mundo como vontade e como representação". Defende que os animais são sujeitos de direito e devem, portanto, estar sob o pleno abrigo da lei. Atualmente é professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis

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  • Cibele: Simplesmente verdadeiro ! Gatos são, do jeito deles, extremamente fiéis e amorosos. Várias vezes, minhas...
  • AlcinaAugusta Lapa: Parabens Jair Barboza, vc sem saber tirou-me uma dúvida: se vegetariano come peixe. Eu pensava...
  • Jair Barboza: Obrigado pelo comentário. Ao que tudo indica, vem de alguém que convive (talvez no campo) com eles....

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