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Animal Reflexão

1. No frio intenso, aguentar o seu nariz gelado na bocheca.

2. Ser receptivo à sua lambida no pé da orelha, na testa, na cabeça, sem recusar o arrepio.

3. Não se mexer quando ele dorme aos pés, sobre o peito, sobre o braço, pois qualquer movimento pode atrapalhar o seu sono sagrado.

4. No frio intenso não demorar a erguer o cobertor para que ele entre rapidamente e posicione-se onde quiser.

5. Jamais recusar uma brincadeira solicitada.

6. Sempre surpreender-lhe com carícias.

7. Criar brincadeiras variadas.

8. O colo sempre disponível.

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Baleia franca em Santa Catarina. Fonte: Google imagens

Há um tipo de turismo no Brasil que eu recomendo enfaticamente, ninguém vai se arrepender, pela aventura ímpar que proporciona. Trata-se da observação de baleias. Aqui em Santa Catarina são as assim chamadas baleias francas, que geralmente no fim de junho e começo de julho chegam ao litoral catarinense para darem à luz aos seus filhotes. Vêm em gupos, das proximidades da Antártica, em busca de águas menos frias. Nosso inverno aqui é o verão delas, que usufruem intensamente por cerca de três meses.

Da primeira vez que as avistei, foi em Imbituba, um dos lugares prediletos delas. Lá hospedei-me numa pousada pertencente a uma escritora de livros didáticos, que ganhou muito dinheiro durante o regime militar com uma obra sobre educação moral e cívica, e comprou a sua propriedade, no alto de um morro, na Praia do Rosa.

Pegamos um barco de resgate de náufragos, bastante seguro, partimos para as proximidades do Porto de Imbituba, navegando ao encontro das baleias e dos seus filhotes. Aqui elas encontram águas apropriadas para dar à luz aos seus rebentos. Os machos retornam à Antártica antes, após o acasalamento com as futuras mães. Os machos vêm só para reproduzir. Incrível, o masculino é de fato desprezível depois da fecundação, em quase toda a natureza; geralmente após o nascimento, o relevante é a mãe. E isto vale para o humano também! Mãe tem de ficar um bom tempo cuidando da criança.

O barco subia e descia o mar; eram montanhas de água, ventava forte, e, numa escala ascendente de zero a cinco de perigo, estávamos em quatro. Paredões de água à direita, à esquerda, à frente, três vezes mais altos que o barco. Por vezes as ondas lambiam salgadamente os nossos lábios. Mas o barqueiro era bom, e parecia garantir-nos racionalmente que a nossa vida não era tão frágil quanto sentíamos. E lá íamos, literalmente ao sabor dos ventos, na espectativa do grande encontro.

Chegamos. Motores do barco desligados. Espectativa. Onde estão as prometidas baleias? Lá!

Aparecem pontos negros aqui e ali. Num primeiro momento manchas, mas depois ganham contornos quando se aproximam, e uma mostra toda a sua imponência ao aproximar-se e passar debaixo do barco, parecia brincar. Outra passa a nove horas (em linguagem náutica: basta imaginar um relógio, as 12 horas são a frente ou proa do barco). Quanta grandeza, contrastada com sua serenidade, no avistamento recíproco. Dificilmente se encontra um animal mais dócil e pacífico.

Não há palavras nem imagens que expressem o momento místico do encontro. O mar agitado, perigoso, sublime – tudo isso contrastando com a paz daquele instante de ligação entre observador e observado, que também nos observa com seus olhos meigos. Harmonia cósmica. Senti-me, e todos ali unidos aos adoráveis cetáceos.

 

 

 

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Este texto é apenas para retomar um anterior sobre a assim chamada “farra do boi” que macula o mapa de Santa Catarina, um estado tão belo por natureza.

Na semana de páscoa encena-se aqui um espetáculo dos mais cruéis sobre a face da terra, verdadeira ode à barbárie.

Bois, tidos como Judas, são soltos em descampados ou ruas ou praias ou manguezais e viram objeto de torturas: apedrejados, perseguidos, rabo puxado, chifres por vezes cortados, eles fogem, pulam cercas, caem, são levantados para serem novamente apedrejados, mutilados etc.  E tudo isso sob o aplauso da ignorância e de autoridades temerariamente lenientes com a gravidade do fato, ou seja, o crime de descumprimento do Recurso Extraordinário número 153.531-8/SC; RT 753/101 do Supremo Tribunal Federal e da Lei Federal nº 9.605, de Fevereiro de 1998 contra crimes ambientais.

Ao ver esse promíscuo conluio entre autoridades lenientes e bandidos ensandecidos que maltratam o bicho que nada fez contra eles, impossível não lembrar do filósofo Schopenhauer: “O que sempre e em toda parte me surpeendeu na vida real é que… nunca consegui formar uma noção razoável da pequenez e da miséria do ser humano.”

Moçada, quem for contra essa barbárie, espalhar o texto pelo facebook, pelo twitter, etc… Vamos, sim, incomodar as autoridades locais que fazem vistas grossas para esse assunto. Em última instância, no não-cumprimento da proibição do Supremo Tribunal Federal, uma campanha pelo boicote ao turismo nos lugares do Estado onde ainda se pratica a farra do boi (inclusive Florianópolis); decerto isto surtiria efeito, pois pode doer no bolso de muita gente.

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                                                                                         Fonte: google imagens.

 

O novo papa foi escolhido. Tomado de curiosidade, acompanhei o evento midiático.

Vi a fumaça branca ser expelida pela chaminé da Capela Sistina, anunciando Francisco. Capela que já tive a oportunidade de visitar e lá  espantar-me com os afrescos de Michelangelo, sobre o juízo final, pintados no seu teto. Neste afresco os pecadores são mandados para o inferno, e os justos, para o céu – toda a cena protagonizada por um Cristo Vingador, que mete medo, nada de compaixão com quem associou-se à danação.

Mas muitos espectadores viram, que, antes da fumaça, nessa chaminé pousou uma gaivota. Ali ficou ela por algum tempo, como se trouxesse uma mensagem, escrita no silêncio. Ora, o nome escolhido pelo papa remete ao grande protetor dos animais, Francisco de Assis.

Circula na internet uma oração ao santo, que soa:

“São Francisco misericordioso
Peço ajuda para salvar este animal
Com a plenitude de tua compaixão,
Não permita que ele seja cruelmente tratado,
Nem que permaneça em cativeiro.
Peço ajuda a São Francisco,
Padroeiro dos animais,
Que me ajude a salvá-lo
Em qualquer lugar da terra.
Em nome de São Francisco
Que está presente em toda parte,
Guia-me com teus olhos,
Para que possa salvá-lo.
Cuide para que
Esteja a salvo!
Que assim seja,
Amém.”

Achei bonita.

Aquela gaivota seria uma alegoria da natureza? Animais sabem antes da gente… Uma história relata que no tsunami da Ásia de 2004 (Tailândia) um grupo de elefantes ouviu a distância o barulho da onda gigantesca aproximar-se, e fugiu para uma região mais elevada. Os que os seguiram foram salvos.

Porém, a mídia, apesar de destacar a surpresa do nome do novo papa, e procurar o sentido alegórico dele, preferiu quase unanimamente focar a atenção no fato de Francisco de Assis ter sido uma pessoa devotada aos mais humildes e pobres. Perfeito. Mas, por que também não realçar que este personagem, ao lado de Buda, alegoriza aquilo que de mais comovente pode ocorrer na relação do animal humano com o animal não humano, ou seja, a harmonia de existências?

Observando os discuros midiáticos sobre a escolha do novo Chefe da Igreja Católica, notei, portanto, como a maioria deles foi marcadamente antropocêntrica, ou seja, a espécie humana seria a única dotada de valor (especismo), e a mensagem do nome papal deveria indicar apenas o foco no trabalho com os humanos mais simples e pobres.

Espero, no entanto, que o papa seja fiel à verdadeira mensagem do nome que escolheu, que remete ao santo protetor de TODOS os animais (e da natureza em geral); do contrário, não terá compreendido aquela gaivota. Ou, o seu nome significa o outro Francisco, o Xavier, missionário jesuíta que procurou converter parte da Ásia ao cristianismo? Se for isso, apenas vai avivar a trivialidade do embate religioso, que tantas guerras e conflitos culturais provocou, e provoca.

 

 

 

 

 

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14.fevereiro.2013 12:07:22

E deus criou a mulher

Bardot. [Fonte: Google imagens]

“E Deus criou a mulher” é  o título de um filme (1956) de Roger Vadim. Ali canonizou-se a imagem da atriz francesa Brigitte Bardot.

Nitroglicerina pura, a julgar pelas fotos de então. Não pretendo aqui discutir padrões de beleza (por definição a mulher é o “belo sexo”), nem o questionável mercado da publicidade e da moda que explora o belo sexo, exigindo e pagando bem para que seus corpos sejam prostituídos (ah, os famigerados concursos de beleza…), porque vendidos em troca do dinheiro fácil, mas sim lembrar uma curiosa figura feminina e o destino dela.

Essa mulher, que tanto inspirou, despertou inveja e admiração por suas formas, esteve no estado do Rio de Janeiro para passar uma temporada de verão (1964), mais precisamente em Armação de Búzios.

Desde então a cidade não foi mais a mesma. Entrou para o roteiro turístico sofisticado do imaginário brasileiro, e quem lá for poderá apreciar a estátua feita em sua homenagem, olhando para o infinito oceano. Cena que remete à estátua de Drummond, na cidade do Rio. Ambas à beira-mar, como um convite para o passante sentar-se ao seu lado.

Porém esse mito, ainda em meio ao sucesso, resolveu num dado momento da sua vida dedicar-se à causa animal. Desistiu da carreira de atriz e mergulhou com seu nome e prestígio na defesa dos direitos animais. Não é preciso dizer que se tornou vegetariana.

Em campanhas que vão contra a caça de baleias à denúncia das infames experiências com animais em laboratório, o seu nome, a sua força de atuação e a sua crítica afiada foram e são dignamente empregados.

Me lembro da notíca de um desfile de 2002, no qual a top Gisele Bündchen teve o seu palco invadido por ativistas do grupo “Peta” [Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais], porque a companhia de moda para a qual desfilava usava peles animais em algumas roupas. Melaram o seu pomposo desfile. Ela não entendeu nada na hora. Não sei se entendeu depois.

Fica o exemplo Brigitte Bardot.

 

 

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Califórnia, “Golden Gate”. Fonte: Google imagens.

Devemos à França e sua cultura muita coisa luminosa, como a torre Eiffel, o impressionismo na pintura, significativa contribuição para a invenção da fotografia e do cinema (foto em movimento), a competição ciclística “tour de France”, o seu destacado espírito culinário e vinícola, dentre outras coisas. Mas é precisamente da sua culinária que vem um dos lados mais obscuros desse país civilizador (lembrando que a civilização de modo geral tem tudo de bom e tudo de ruim, talvez mais tudo de ruim que de bom)…

Recentemente a Califórnia deu um bom exemplo civilizador ao mundo. Proibiu definitivamente a comercialização de um prato, considerado um símbolo da França, mas que esconde por trás da sua pretensa beleza e sabor um dos métodos mais cruéis de criação animal para satisfazer o egoísmo gastronômico do ser humano: a Califórnia proibiu o assim chamado “foie gras”.

Trata-se de uma iguaria de que a francesa culinária cartesiana, friamente racionalista, tanto se orgulha. Consiste no fígado gordo do pato, conseguido às custas de torturas inomináveis contra o bicho, que, no final da criação, preso, sem mais poder comer, é no entanto forçado a engolir “alimento” guela abaixo, por um tubo introduzido no seu esôfago, várias vezes ao dia. Ora, por se tratar de uma culinária abominável (que eu chamo de cartesiana, pois Descartes considerava os animais como coisas sem alma, no que foi seguido por Kant – e ao contrário de Bentham, que dizia que o importante não é se eles sabem pensar ou raciocinar, mas se eles podem sofrer) é que esse prato de premissas cruéis foi recentemente banido das mesas do mencionado estado norte-americano.

Como se vê, ações de esclarecimento podem levar a decisões políticas relevantes que diminuem a violência dos animais humanos contra os não-humanos, o que contribui para uma conta de sofrimento menos elevada, portanto uma comunidade menos violenta. Por isso gostaria de dizer hoje, em alto e bom som, no bojo do elogio àquela lei: “Viva a Califórnia, abaixo a França!”. Esse estado norte-americano, com sua nova lei, deu uma contribuição civilizatória elogiável ao mundo.

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27.dezembro.2012 11:45:15

Gato fiel

Meu blasée gato Felix, agora em enigmática meditação. [Foto: Jair Barboza]

O título deste texto remete à apresentação que Carlos Drummond de Andrade faz de seus “Contos Plausíveis” (São Paulo: Cia. das Letras). Ali topamos com esta pérola – deste poeta ao mesmo tempo vanguardista e clássico, decerto no Olimpo da poesia em língua portuguesa, ao lado de Fernando Pessoa, Gonçalves Dias, Camões, Olavo Bilac…   –   “Só um de meus contos me acompanha por toda parte, ao jeito de gato fiel, sem que o faça para pedir alimento.”

Maravilhoso! O poeta foi iluminado por uma verdade clara e distinta. Não apenas cachorros, mas também gatos são fiéis, por mais que o preconceito popular confira aos gatos características demasiado caricaturais que carregam no egoísmo. Gatos, como gosto de sublinhar, têm o seu momento para carinho, carícia, ternura, e são fiéis nesses momentos. Nem sempre se aproxima apenas interesseiramente, à procura de alimento, mas desinteressadamente, à procura da sintonia de almas.

Por outro lado, o que talvez contribua para o preconceito da infidelidade felina é o fato de não terem uma afetividade automática, como a canina.

Para quem tem gatos, todos sabem, quase sempre um felino está ao nosso lado. No quarto, ou escritório, ou na biblioteca, bem ao lado dos livros, ou aos nossos pés, ou a meia-distância, ou lá no canto fitando-nos filosoficamente. Por vezes, no caso da minha gata Mel, coloca-se entre o computador e o teclado com o qual escrevo, e dorme! Por vezes, como no caso do meu gato Felix, quando estou triste, deitado no sofá, ele chega silenciosamente, e aconchega-se ronronando no meu peito. Por vezes, como no caso do meu gato Bóris, toda manhã pula na cama e deita-se ao meu lado.

Sim, Drummond, isso mesmo, “gato fiel”!

Absolutamente literários. Absolutamente filosóficos. Unem assim literatura e filosofia.

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No sertão há muitas árvores, passarinhos, água, terra, fogo, ar. Por consequência há tudo isso na literatura de Guimarães Rosa, o mestre do sertão. Mas sobretudo há nela bois e cavalos e burros. Afinal ali o jagunço ou o sertanejo montam e lidam diariamente com tais animais.

O personagem principal de Guimarães Rosa, como no caso de Euclides da Cunha, é  de fato o sertão e as suas criaturas.  A posição do ficcionista, no entanto, em relação aos animais, é em certo sentido ambígua, tanto em termos pessoais quanto artísticos. Explico-me. Visitava zoológicos, que no meu entendimento são prisões para animais e o egoísmo da consideração humana, mas tinha adoráveis gatinhos de companhia. Se encontramos o sofrimento dos bois na sua literatura, todavia não é comum, pelo menos em “Sagarana” e “Grande sertão: veredas”, algum personagem questionando o uso deles pelo humano, embora aqui e ali, e este “aqui e ali” constitui o nervo da sua ambiguidade, tenhamos cenas na qual a condição e o sofrimento animal são comoventemente descritos.  É o caso, em especial, de muiras cenas da novela “O burrinho pedrês”.

Nessa novela encontramos a cena em que um garoto é chifrado por um boi e por causa disto fatalmente irá morrer, contudo, antes do último suspiro, compadece-se do sacrifício anunciado do boi e pede para que não o matem, pois sente que o ataque foi por instinto, não por maldade. É ouvido e o boi, um zebu, é doado. Levado para outro curral, passa a mostrar estranho comportamento, urra muito e doloridamente, como que arrependido. Diz um personagem ao ouvir o gemido: “Fomos lá todos juntos. Quando ele nos viu, parou de urrar e veio, manso, na beira da cerca… Eu vi o jeito de que ele queria contar alguma coisa, e eu rezava para ele não poder falar… De manhã cedo, no outro dia, ele estava murcho, morto, no meio do curral…”

Um personagem descreve nessa mesma novela o sentimento animal com os seguintes termos: “É, mas a pior de todas é a arrancada do gado triste, querendo a querência… Boi apaixonado, que desamana, vira fera… Saudade de boi, eu acho que ainda dói mais do que na gente…”

Essa novela talvez seja o que há de mais belo na literatura brasileira acerca do sentimento animal. Ademais, conta a história, baseada em fatos reais, de um burrinho pedrês, objeto de desprezo, pois todos os vaqueiros preferiam andar sobre cavalos, mas que salvou dois daqueles do afogamento durante a travessia de um caudaloso córrego, em tempo de enchente. Só os três se salvaram. Quando volta da desgraça, o burrinho come, dança de pernas para o ar, esfrega as costas no chão, e vai dormir como se nada tivesse acontecido.

Decerto invejamos, lá no íntimo, inconscientemente, esse burrinho pedrês, que passa por uma desgraça e a esquece. De fato, o esquecimento, quando não exagerado, é signo de saúde mental, pois certos esquecimentos são saudáveis e necessários, são a digestão da mente, do contrário viram obsessões ou ideias fixas que torturam o seu possuidor, que é por elas possuído.

Em outra cena de “Sagarana”, descreve o autor a tristeza de um boi que sai em disparada rumo à terra na qual vivera desde sempre, e da qual fora exilado; tenta desesperadamente o retorno ao torrão natal, que é parte íntima da sua vida. Já um outro personagem, humano, diz que é “melhor um pássaro voando do que dois na mão!…”, invertando assim, em favor da bela liberdade silvestre, o conhecido provérbio popular.

E assim caminha a ambiguidade de Guimarães Rosa em relação aos animais. De um lado não criou, em meio ao sertão, um personagem marcante cuja boca proferisse palavras contundentes contra o uso deles, mas, de outro lado, sentimos o quão profundamente se comoveu e deslumbrou com os bichos, num deslumbre que é em face das criaturas todas e do ambiente que as acolhe.

 

 

 

 

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                                                                                                                                                                                    Andy Warhol. “Sam”. Fonte: Google imagens.

 

§ 1. Todo gato tem direito a um lar.

1.1 Todo gatinho tem direito a um veterinário competente.

§ 2. Todo gato tem direito a comida saborosa, à sua escolha.

§ 3. Todo gatinho tem direito a um colo macio para ronronar.

§ 4. Todo gato tem direito a uma cama ou sofá limpos, com travesseiros e almofadas mais limpos ainda, para assim escolher onde dormir confortavelmente.

§ 5. Todo gatinho, se numa casa com jardim, tem direito a um muro para lagartear ao sol, abanar o rabo e irritar um cachorro que late lá embaixo.

§ 6. Todo gato tem direito a um(a) dono(a) que queira obedecer-lhe e ser educado(a).

§ 7 Nenhum gato pode ser interrompido em sua higiene pessoal.

§ 8. Todo gatinho tem direito a dormir o sono dos inocentes.

§ 9. Todo gato tem direito a brincar correndo pela casa, pelo jardim, pelo apartamento, à procura de presas, fictícias ou não (afinal ficção e realidade são uma coisa só).

§ 10. Todo gatinho tem direito à contemplação metafísica para assim parecer uma esfinge.

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10.agosto.2012 10:40:27

O planeta dos humanos

O título deste texto é uma óbvia alusão à série de filmes  “O planeta dos macacos”, cujo primeiro foi exibido em 1968, estrelado por Charlton Heston. O filme deu origem a uma série teletivisa homônima.

Me tornei fã hipnotizado de ambas as séries. No primeiro filme, que recomendo enfaticamente, astronautas fazem um pouso de emergência em um planeta semelhante à Terra. Era a Terra mesmo, no futuro! Logo descobrem que macacos falantes dominam e escravizam os seres humanos, que não falam.

Quando assistia à série televisiva, em tempos idos e vividos, uma mistura de estranheza e mal-estar me assaltava. Não entendia como aqueles macacos, sobretudo o Urco (o gorila xerife), podiam ser tão frios e por vezes cruéis com os humanos, engaiolando-os, prendendo-os, chicoteando-os, trancafiando-os em espécies de zoológico, fazendo com eles pesquisas científicas em laboratórios etc.

Os anos passam, tornamo-nos menos ingênuos, surge a idade da razão. Ao passar por esse processo compreendi tudo finalmente, tive clareza de consciência daqueles estranhos sentimentos. Claro: os macacos cruéis da série somos nós mesmos, e os humanos mudos fazem as vezes dos macacos. Uma interessante inversão de papéis para espelhar a nossa relação ditatorial com os animais e com a natureza em geral, vale dizer, a relação de posse, de domínio, coroada na coisificação do que é vivo, no extremo chegando à autodestruição do próprio humano. Afinal, o humano é o animal que também mata a si pelo suicídio. Que espécie estranha… Seríamos o diabo sobre a face da terra?, que, não contente em maltratar as outras espécies, levando algumas à extinção, maltrata a si mesmo?

Sou contra zoológicos e experiências inúteis e repetitivas com animais em laboratórios. Muitas das experiências farmacêuticas para a descoberta de novas drogas lícitas são repetitivas, já foram publicadas; por vezes não servem, pois cada humano reage de modo diferente a uma droga, que pode matar ou salvar.

Em zoológicos, os animais perdem a sua animalidade, como os humanos perderiam a sua humanidade caso estivessem em um (como muito bem mostra as séries planeta dos macacos). Triste um leão numa jaula, um passarinho numa gaiola. Ao contrário, como é belo um leão livre em solo africano, um passarinho voando.

Que se mostre e se diga tais coisas às crianças e jovens. A beleza da liberdade.

Tempos atrás li no jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, uma reportagem que traduzia ingenuamente, por parte do jornalista, o seu especismo. Relatava a “fuga” de macacos de um zoológico de Cascavel. Os macacos teriam arrebentado os cadeados do espaço onde viviam e escaparam. O bichos são tidos na reportagem como autores de um “motim” e considerados como “foragidos”. Observe o leitor a linguagem e o preconceito que ela veicula, como se o delito fosse dos bichos, e não, do ponto de vista da natureza livre e bela, dos humanos que os prenderam.

Vale a pena ver e rever a filosófica série Planeta dos Macacos, para melhor compreendermos o que é o Planeta dos Humanos.

 

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Jair Barboza

    Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Tradutor, destacando-se a versão do alemão para o português da obra-prima de Schopenhauer, "O mundo como vontade e como representação". Defende que os animais são sujeitos de direito e devem, portanto, estar sob o pleno abrigo da lei. Atualmente é professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis

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  • Jair Barboza: Obrigado pelo comentário. Ao que tudo indica, vem de alguém que convive (talvez no campo) com eles....

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