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Andrei Netto

18.março.2010 22:14:37

Nazismo à francesa

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Em 16 de julho de 1942: La Rafle du Vélo d’Hiv’ na dura vida real. Foto: Life

De tempos em tempos, o cinema francês apronta o que na língua de Molière ficou conhecido como “film événement”. É a expressão corrente para designar um longa metragem capaz de causar alguma sorte de impacto, em geral envolvido em controvérsia. Há dez dias, o lançamento de La Rafle (trailer) exerceu esse papel.

Dirigido por Roselyne Bosch, ex-jornalista da revista Le Point convertida em roteirista, produtora e diretora, La Rafle não é um bom filme. Longe disso. Rose, em seu segundo longa – ela havia dirigido Animal, em 2005 –, está a alguns anos-luz de honrar o cinéma d’auteur francês. Mas a fita tem, no mínimo, dois méritos.

La Rafle, de Roselyne Bosch

La Rafle, de Roselyne Bosch

O primeiro são as interpretações de dois atores: Jean Reno, que você conhece, e Mélanie Laurent – a judia que deu cabo de Hitler em Bastardos Inglórios (2009), de Tarantino. O segundo ponto alto é expor um pouco mais à opinião pública a vilania do colaboracionismo francês durante ocupação nazista.

La Rafle, ou “detenção em massa”, baseia-se em uma história real, uma das passagens mais vergonhosas da história da República Francesa – mesmo que sob ocupação, insisto. Ela se foca na manhã de 16 de julho de 1942, o fatídico dia em que o governo colaboracionista de Vichy acatou as ordens dos milicos alemães e realizou a maior prisão em massa de judeus realizada na França durante a Segunda Guerra Mundial. Foram exatas 13.152 prisões, gente em número suficiente para lotar um ginásio esportivo de Paris, o Vélodrome d’Hiver, destruído em 1959.

Não preciso dizer que, desse povo todo, daria para contar nas mãos os que  sobreviveram aos campos de extermínio na Europa do Leste e puderam contar a história toda.

Se não fosse a profusão de momentos em que Rose Bosch abusa e se torna piegas ao explorar a história das criancinhas que carregam a estrela amarela de Davi no peito, La Rafle seria um filme memorável. As cenas em que moradores de Paris viram a cara ou insultam com todas as letras os judeus em Butte Montmartre são de dar desgosto, e dizem mais um pouquinho da verdade sobre o antissemitismo – ou, sejamos claros, o nazismo à la francesa – que aflorou facinho facinho no comportamento de muita gente na suposta Terra dos Direitos do Homem.

Outro momento forte de La Rafle ocorre quando Rose Bosch se concentra em desvelar o comportamento de alguns dos 9 mil policiais envolvidos na operação nazi. Quanto prazer em cumprir as ordens, por favor!

Esse é o maior mérito de La Rafle, na minha opinião. Ele deixa uma pergunta sociopolítica inquietante: até onde diabos vai a capacidade do homem de ser obediente?

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