Ex-trader do banco Société Générale enfrenta acusações de falsificação, fraude em manipulação de dados e abuso de confiança; na França, processo vira símbolo do desvirtuamento do sistema financeiro

Malandrinho: Jérôme Kerviel agora enfrenta a Justiça / Foto: Telegraph
Lembra do ex-trader do banco Société Générale Jérôme Kerviel, 33 anos? Pois ele está sentado no banco dos réus em Paris. A Justiça da França começou julgá-lo na tarde de terça-feira, dois anos e meio depois de o operador ter sido acusado pela instituição de causar um prejuízo avaliado em € 4,9 bilhões. Kerviel enfrenta acusações de abuso de confiança, falsificação e fraude em sistema informático e corre o risco de ser condenado a cinco anos de prisão e a pagar uma multa de € 375 mil.
Para refrescar a memória: Kerviel trabalhou no Société Générale entre setembro de 2005 e janeiro de 2008. Nesse período, chegou a perder no mercado financeiro € 6,4 bilhões em suas operações fraudulentas, mas o prejuízo acabou “reduzido” a € 4,9 bilhões em razão de um, digamos, “lucro” de € 1,4 bilhão localizado no sistema de dados do banco. Para dissimular suas apostas, Kerviel teria ludibriado a rede informática da instituição, maquiando estragos e alterando estatísticas sobre o volume de suas operações, de acordo com alegações do Société Général.

O caso foi descoberto em janeiro de 2008 e chocou a opinião pública internacional. O rombo balançou a instituição, gerando temores de falência e acentuando rumores de fusão com concorrentes, o que não se confirmou. Nos meses que se seguiram, acionistas foram obrigados a participar de uma recapitalização de € 5 bilhões. Além disso, o até então todo poderoso Daniel Bouton, diretor-presidente da companhia, acabou levado a renunciar às suas funções.
Mais do que um buraco nas contas do banco, porém, o caso é encarado na França como um símbolo: o da desregulamentação excessiva do sistema financeiro. Os atos de Kerviel foram revelados em Paris meses após o início da crise dos subprimes, os créditos imobiliários de alto risco negociados nos Estados Unidos, e o crash do banco de investimentos Lehman Brothers. O julgamento é visto como uma oportunidade de a Justiça desvendar algumas das práticas obscuras das bolsas de valores.
A grande questão do julgamento é como um funcionário de importância mediana, que em 2007 somou € 48,5 mil em salários, poderia perder € 2,5 bilhões no mesmo ano sem ser desmascarado. Outra questão é por que a empresa teria ignorado os 74 alertas do sistema sobre operações atípicas relacionadas ao trabalho do trader.
Kerviel vem alegando que não poderia ter agido sem o conhecimento de seus cinco chefes. “Em uma mesa de trading, estamos todos a 50 centímetros uns dos outros. Tudo se vê e tudo se escuta”, alegou em seu depoimento, dizendo-se embalado por “encorajamentos diários dos superiores”. O mesmo argumento foi usado pelo advogado de defesa, Olivier Metzner. Além de um discurso conspiratório, a defesa afirma deter documentos que provariam que as operações de Kerviel eram de conhecimento do banco. A conferir.
Mas mesmo que não tenha documento nenhum, o discurso de Metzner por vezes faz pensar. Diz ele: “Não é um homem o responsável, mas um sistema. Este homem que comparece diante do tribunal é um peão que foi usado, do qual se tirou benefícios e o qual foi descartado quando não se tinha mais necessidade.”
Jean Veil, advogado do Société Générale, reconhece que alguns mecanismos de controle interno das movimentações financeiras “pecaram por uma certa falha de transversalidade”, mas atribui as perdas à ação de Kerviel. “Os alertas funcionaram”, sustenta Veil. “São as mentiras e as falsidades forjadas por Kerviel que enganaram os funcionários do Société Générale. E vamos demonstrar isso.”
Ver para crer.
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Dentre tantas questões a serem analisadas pela Justiça, eu, pessoalmente, gostaria de ter a resposta para uma. Os bancos exageraram, para dizer o mínimo, certo? Para socorrê-los, os Estados absorveram o custo brutal da estabilização do sistema financeiro. Resultado: endividaram-se como nunca. Agora, apelam ao rigor fiscal, cortando “gastos” públicos, investimentos, etc.
Pergunta: quem, em última análise, começa a pagar a fatura?
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