
Manuel Barroso em recente entrevista. Implantar as mudanças é com ele
Escrevi logo abaixo que o euro não vai acabar. E não vai mesmo. Você pode ficar boquiaberto, como eu, ao observar todas as idas e vindas, todas as polêmicas internas, o jogo de declarações contraditórias entre autoridades da União Europeia, quando questionadas sobre a ajuda financeira à Grécia.
Você com certeza já entendeu que a Alemanha, ou melhor, o contribuinte alemão, não quer saber de pagar a conta pelo laxismo dos mediterrâneos. E eles têm lá suas razões. Mas a verdade nua e crua é que, se tiver de pagar a conta para salvar o euro, eles a pagarão. Não serão € 20 bilhões ou € 30 bilhões que derrubarão um projeto multinacional com 60 anos de vida.
Dito isso, vamos ao mais importante: mais do que um plano de socorro, o que está sendo planejado hoje na Europa é um contra-ataque. Os governos europeus estão em atrito com o mercado financeiro, a quem culpam pela situação tensa na Grécia. Para as principais autoridades do bloco, como o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, a crise foi causada por um ataque especulativo puro e simples.
A resposta vem agora: de uma só vez estão em análise, nos bastidores de Bruxelas, a criação do Fundo Monetário Europeu (FME), para socorrer países em dificuldades; de um Tesouro Comum Europeu, órgão que emitiria os novos títulos de dívidas no bloco; da Agência Europeia de Notações, que visa a roubar importância das avaliações feitas pela Moody’s, Fitch Ratings e Standard & Poor’s; e, finalmente, a criação de novos mecanismos de regulação dos Credit Default Swaps (CDS), os famosos derivativos que teriam acobertado o tamanho da dívida grega, em um primeiro momento, e que teriam sido usados pelo mercado financeiro para apostar contra o país, em um segundo.
Como na União Europeia tudo é lento e muito discutido, você pode contar que a implantação de todos esses mecanismos vai levar algum tempo. Mas o contra-ataque ao mercado, meu caro, já começou.

Pode parecer óbvio para alguns, nem tanto para outros. Aposto com você: o euro não vai acabar.
Digo isso ciente do pânico causado nos mercados financeiros pela “revelação” da crise na Grécia e da descoberta de seu endividamento excessivo, que supera os 113% do Produto Interno Bruto (PIB). Também sei de cor o tamanho do déficit grego: 12,7% em 2009. Poderia citar números de Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, os demais países em perigo, grupo que algum inescrupuloso de mau gosto batizou de “PIIGS”.
Sei bem da gravidade da crise. Mas, ainda assim, a zona euro não vai implodir. Não sou em quem afirma isso. São economistas de peso, gente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), como seu secretário-geral, o ex-ministro da Economia do México Angel Gurría, que entrevistei em Copenhague. Ou o diretor do think tank Instituto Bruegel, Jean Pisani-Ferry, hoje um dos mais influentes economistas da Europa Continental, com o qual também tive o prazer de discutir sobre a força do euro.
E esses experts afirmam que a moeda única não vai se esfacelar por vários motivos. O primeiro deles poderia ser o pequeno peso de um país como a Grécia, ou a Irlanda, ou ainda Portugal nas contas do bloco de 27 nações. Mas há outras razões, mais sutis. E uma delas foi levantada pelo próprio Pisani-Ferry, em artigo publicado no jornal Le Monde nesta segunda-feira.
Diz ele, sobre a eventual saída de um país da zona euro: “Todos os contratos, e em especial as obrigações de dívida pública, estão selados em euros. Antes mesmo de chegar ao objetivo [abandonar a moeda única], um governo que anunciasse essa intenção provocaria uma crise financeira, porque todos se questionariam sobre as consequências de tal decisão sobre a solvência de suas contrapartes”.
Ou seja: as obrigações de dívidas euros teriam um peso tão violento nas contas públicas e abalariam de tal forma a credibilidade do país no mercado que o abandono da moeda única não evitaria uma moratória, mas a provocaria. Logo, não é uma solução plausível.
Quem apostou contra o euro desde o início da crise grega, em novembro de 2009, por certo fez muito dinheiro, ao especular com base nos Credit Default Swaps (CDS). Mas vai perder a aposta final se seguir questionando a solidez da moeda.
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