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Andrei Netto

PARIS

Elucidar as causas da queda do voo AF-447 no Atlântico Sul é uma oportunidade para o Escritório de Investigação e Análise (BEA) e para o governo da França de restituir a credibilidade abalada da aeronáutica civil do país. Há 21 meses, o silêncio dos peritos franceses em torno das possíveis falhas eletrônicas do Airbus A330-200 levanta críticas contundentes de experts independentes e de familiares de vítimas.

No início da década passada, quando passou a investigar as causas do acidente do Concorde que começava a realizar o voo AF-4590 ao cair na cidade de Gonesse, nos arredores de Paris, em 25 de julho de 2000, o BEA deu uma demonstração de força e competência ao impedir aeronaves similares de tirar os pneus do solo e cruzar o Atlântico. De lá para cá, sua imagem voltou a se degradar – era ruim nos anos 80.

A principal suspeita que recai sobre o BEA no caso AF-447 diz respeito à sua independência em relação às empresas implicadas na investigação: Air France, Airbus e Thalès. Todas três têm um traço em comum: a participação acionária do Estado francês, também controlador do BEA. Soma-se ao conflito de interesses evidente a insistência dos peritos em desautorizar toda e qualquer análise independente e a opção por divulgar informações em doses homeopáticas. Mas, acima de tudo, a fixação em desconversar sobre as falhas dos sensores de velocidade – as sondas de Pitot –, que podem ter tido papel importante para a queda da aeronave.

Contribuiu para os arranhões na reputação do BEA e da aviação francesa o trabalho de especialistas como o ex-comandante de Airbus A330 Henri Marnet-Cornus. Autor de um relatório de 600 páginas sobre o acidente, o comandante aponta as 24 falhas eletrônicas da aeronave, causadas pela pane dos pitots (fabricados pela Thalès e usados pela Air France com a garantia da Airbus), como determinantes para a sobrecarga da tripulação, levando ao crash.

Lembre-se ainda o fato de que, por 21 meses, o BEA realizou três expedições em buscas dos destroços, sem sucesso. Ninguém duvida que encontrar um Airbus no fundo do mar seja uma tarefa hercúlea, mas o fato é: recomeçando do zero, uma empresa americana os encontrou em oito dias. Mais: fotos feitas por um satélite italiano no dia do acidente haviam identificado uma mancha de querosene no Atlântico na mesma posição em que agora foi localizada a aeronave. Estranho, muito estranho.

Não bastassem as dúvidas que procriaram na imprensa e entre familiares de vítimas, a Justiça da França também parece inclinada a questionar a inocência da Air France e da Airbus, ambas oficialmente investigadas por homicídio culposo.

Diante de tantas incertezas sobre as investigações do AF-447, há apenas uma alternativa à França: revelar a verdade, mesmo que prejudique temporariamente a imagem de símbolos da pujança econômica do país, como as duas gigantes aeronáuticas.

É preciso dizer que um passo muito positivo foi dado no sábado, com a localização dos destroços e a perspectiva de recuperação da caixas-pretas. Resta ao governo francês provar, agora, que a verdadeira caixa-preta perdida não é o próprio BEA.

* * *

Àqueles numerosos que me escreveram com demonstrações de solidariedade e palavras gentis quando de minha prisão na Líbia, meu muito, muito obrigado.

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