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Andrei Netto

Uma falha técnica, combinada às decisões dos pilotos, esteve na origem do acidente do voo AF-447, ocorrido em 31 de maio de 2009, no oceano Atlântico. A confirmação foi feita pelo relatório preliminar sobre o conteúdo das caixas-pretas do Airbus A-330-200, revelado há instantes em Paris pelo Escritório de Investigações e Análises para a Aviação Civil (BEA).

Segundo o documento, por uma pane na aferição da velocidade, a aeronave apresentou aos pilotos duas informações diferentes. “Houve uma incoerência entre as velocidades verificadas do lado esquerdo e no instrumento de socorro (ISIS). Ela durou um pouco menos de um minuto”, diz o relatório.

Apenas os tubos de Pitot, as sondas de velocidade, situadas na lateral esquerda da aeronave tiveram os dados registrados pelo Flight Data Recorder (FDR), segundo o comunicado do BEA. O terceiro sensor, situado no lado direito, não foi registrado.

Os problemas no voo tiveram início às 2h10min05s – hora de Greenwich –, quando o piloto automático do avião se auto-desligou. Nesse mesmo instante, um dos copilotos assumiu o comando da aeronave. “Eu tenho o controle”, afirmou, de acordo com as gravações feitas pelo Cockpit Voice Recorder (CVR), a caixa-preta que registra o diálogo dos pilotos e os sons da cabine.

Com base nesses dados incongruentes, as primeiras decisões foram tomadas pela tripulação. As 2h10min16s, o co-piloto afirma: “Nós perdemos as velocidades, então”. A seguir, ele completa: “Modo alternativo”. Em “modo alternativo”, ou “direto”, os sistemas eletrônicos de proteção contra perda de sustentação são desligados.

O avião ganha inclinação de 10 graus e toma trajetória ascendente. Durante todo o tempo, os motores do Airbus A330-200 funcionam perfeitamente.

No momento da pane, confirma o BEA, o piloto da aeronave, Marc Dubois, não estava em seu assento. Isso, entretanto, não representa nenhuma falha no comportamento do comandante, porque pausas de repouso são regulamentadas por convenções internacionais em voos de longa duração. Às 2h10min50s, os co-pilotos tentam chamar Dubois.

Às 2h10min51s, o alarme de perda de sustentação é acionado mais uma vez. Ao término de um minuto, a incoerência de velocidade desaparece. Às 2h11min40s, o comandante entra na cabine e reassume seu posto. “Nos segundos que se seguem, todas as velocidades registradas tornam-se inválidas e o alarme de perda de sustentação para”, explica o documento, detalhando mais à frente: “As ordens do co-piloto foram principalmente para ‘elevar o nariz’”.

Essa decisão teria sido determinante para que o avião perdesse sustentação.

O acidente aconteceu em um intervalo de 3 minutos e 30 segundos.

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17.maio.2011 10:32:21

Para a coleção

Serge Dassault, proprietário da Dassault, na época em que adquiriu o Le Figaro. Foto: AFP

Reportagens publicadas pelo jornal Le Figaro na segunda e terça-feiras afirmam que as caixas-pretas do voo AF-447 livram a Airbus de culpa no acidente, responsabilizando os pilotos. O jornal Le Figaro é propriedade da holding Socpresse, 100% detida pelo construtor aeronáutico Dassault e por seu dono, Serge Dassault (foto). Do capital total da Dassault, 46,32% das ações pertencem ao grupo EADS. E EADS detém 100% das ações da Airbus.

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Foto Charles Platiau / Reuters

Os tubos de Pitot, os sensores de velocidade do Airbus A330-200 que realizava o voo AF-447 entre Rio e Paris em maio de 2009, ainda não foram localizadas. Segundo os experts do BEA, o escritório que investiga as causas do acidente, e do Cenipa, seu homólogo brasileiro, o equipamento será procurado no fundo do mar. Os técnicos da expedição tentam também trazer a bordo os destroços do cockpit, onde as ondas podem estar presas. Apesar de não tê-las localizado, o grupo de especialistas não considera sua existência física necessária para avaliar se elas falharam ou não, desencadeando panes elétricas e eletrônicas em sequência, como estimam analistas independentes. Com as caixas pretas já seria possível tirar a conclusão.

Além dos especialistas do BEA, observados pelo representante do Cenipa, peritos independentes contratados pela Justiça da França terão acesso aos dados coletados, com o objetivo de garantir a completa independência da investigação.

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Pelo menos sete dias de angústia ainda esperam as famílias de vítimas do voo AF-447, que aguardam uma resposta das autoridades francesas a respeito da possibilidade de identificar ou não os mais de 50 corpos que jazem no Atlântico. A estimativa foi feita pelo Instituto de Pesquisas Criminais (IRCGN) da Polícia Militar da França (Gendarmerie Nationale), que espera uma resposta dos cientistas que tentam extrair dos dois corpos trazido à superfície traços de DNA que possam permitir a identificação.

A perícia começou a ser realizada ontem mesmo e vai se concentrar em estudar as amostras retiradas do fêmur, onde a chance de preservação do DNA é maior. Os dois corpos, porém, não chegaram a Paris. Eles estão na câmara fria do navio Ile de Sein, que ancorará em Dacar, no Senegal, dia 20. “Os corpos continuam no barco. O que temos em Paris são amostras que foram colhidas por um médico legista e que foram trazidas. Elas chegaram nesta manhã no laboratório privado que vai proceder a análise DNA”, explicou François Daoust, diretor do IRCGN.

Caso o exame conclua que será possível identificar as vítimas, a campanha de resgate de corpos será retomada pela nova equipe que partirá em expedição no Ile de Sein em junho.

Ontem, a Justiça da França voltou a reforçar o teor da nota divulgada há dois dias, na qual ficou estabelecido que apenas corpos que estejam menos “alterados” pelo acidente serão resgatados e entregues às famílias.

“A Justiça não ficará insensível às dores das famílias”, garantiu Jean Quintard, procurador-adjunto do Tribunal de Grande Instância de Paris, onde tramita o processo por “homicídio involuntário” contra a Air France, proprietária do avião acidentado, e a Airbus, fabricante do aparelho. O que move a definição sobre resgatar ou não um corpo são os exames de DNA, diz o procurador. “É possível identificar a vítima? Se não for, não há sentido em resgatá-las”, ponderou.

De acordo com Quintard, os corpos não são essenciais ao processo judiciário, porque com o resgate das primeiras 50 vítimas, logo após o acidente, há dois anos, já foi possível estabelecer a causa mortis. “Todas as pessoas que estavam no voo morreram da mesma forma”, garantiu o procurador.

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A controvérsia sobre o resgate dos passageiros e tripulantes do voo AF-447 fez aflorar a insatisfação das famílias de vítimas na França. Algumas famílias se queixam de ter sido iludidas ao receberem a informação de que os corpos haviam sido descobertos no fundo do Atlântico “em bom estado de conservação”, segundo afirmavam as autoridades francesas.

Uma das desiludidas é Corine Soulas, mãe de uma das vítimas e sogra de outra. Comunicada por amigos sobre a descoberta dos corpos – e não pelas autoridades –, ela lamenta a forma precipitada como o assunto foi tratado. “À época, a pessoa que anunciou a descoberta o fez de forma um pouco serena, dizendo que eles estavam identificáveis”, lembra. “Como o nosso cérebro imagina quando se fala em ‘identificável’? O que você imaginaria? Imaginaria algo belo, que possamos recuperar e sepultar. Agora falam em ‘degradado’ e ‘alterado’…”, indigna-se.

Antes favorável ao resgate, Corine agora diz que preferiria que os restos de sua filha seguissem no fundo do mar. “Eu teria preferido que não se falasse n assunto e que os deixassem repousar porque, na minha cabeça, Caroline está dormindo”, explicou.

A descoberta dos corpos junto aos destroços do Airbus A330-200 foi revelada pela ministra do Meio Ambiente e dos Transportes, Nathalie Kouciusko-Morizet, em entrevista à rádio France Info. Então, a executiva não apenas fez referência aos corpos, mas também afirmou que estavam em bom estado.

Agora o assunto é tratado com todo o zelo pelas autoridades francesas. “Nós, do laboratório do qual sou chefe, jamais falamos sobre identificação de corpos unicamente por visual, garantiu François Daoust, diretor do Instituto de Pesquisas Criminais (IRCGN). “Trabalhamos em 38 catástrofes. Nunca vamos nos antecipar e dar tais declarações. A identificação segue um procedimento científico que segue um processo completo, com exames dentários, DNA, entre outros elementos.”

Apesar da exigência reiterada de que os corpos sejam recolhidos, como pede o brasileiro Nelson Faria Marinho, presidente da Associação de Familiares de Vítimas do Voo AF-447, a Justiça da França adverte: o objetivo da expedição continua sendo explicar as causas do acidente. “A missão principal é a recuperação de peças”, reiterou Jean Quintard, procurador-adjunto do Tribunal de Grande Instância de Paris.

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“Sim e não. Esperamos 23 meses até aqui, um prazo muito longo. Estivemos frustrados por muitos meses, e agora esperamos que a investigação tome um novo rumo, que seja mais rápida. Nós temos o hábito de esperar. Vamos esperar ainda alguns meses para saber a verdade.”

Robert Soulas, pai e sogro de vítimas do voo AF-447, quando questionado se está satisfeito com as investigações

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PARIS

Elucidar as causas da queda do voo AF-447 no Atlântico Sul é uma oportunidade para o Escritório de Investigação e Análise (BEA) e para o governo da França de restituir a credibilidade abalada da aeronáutica civil do país. Há 21 meses, o silêncio dos peritos franceses em torno das possíveis falhas eletrônicas do Airbus A330-200 levanta críticas contundentes de experts independentes e de familiares de vítimas.

No início da década passada, quando passou a investigar as causas do acidente do Concorde que começava a realizar o voo AF-4590 ao cair na cidade de Gonesse, nos arredores de Paris, em 25 de julho de 2000, o BEA deu uma demonstração de força e competência ao impedir aeronaves similares de tirar os pneus do solo e cruzar o Atlântico. De lá para cá, sua imagem voltou a se degradar – era ruim nos anos 80.

A principal suspeita que recai sobre o BEA no caso AF-447 diz respeito à sua independência em relação às empresas implicadas na investigação: Air France, Airbus e Thalès. Todas três têm um traço em comum: a participação acionária do Estado francês, também controlador do BEA. Soma-se ao conflito de interesses evidente a insistência dos peritos em desautorizar toda e qualquer análise independente e a opção por divulgar informações em doses homeopáticas. Mas, acima de tudo, a fixação em desconversar sobre as falhas dos sensores de velocidade – as sondas de Pitot –, que podem ter tido papel importante para a queda da aeronave.

Contribuiu para os arranhões na reputação do BEA e da aviação francesa o trabalho de especialistas como o ex-comandante de Airbus A330 Henri Marnet-Cornus. Autor de um relatório de 600 páginas sobre o acidente, o comandante aponta as 24 falhas eletrônicas da aeronave, causadas pela pane dos pitots (fabricados pela Thalès e usados pela Air France com a garantia da Airbus), como determinantes para a sobrecarga da tripulação, levando ao crash.

Lembre-se ainda o fato de que, por 21 meses, o BEA realizou três expedições em buscas dos destroços, sem sucesso. Ninguém duvida que encontrar um Airbus no fundo do mar seja uma tarefa hercúlea, mas o fato é: recomeçando do zero, uma empresa americana os encontrou em oito dias. Mais: fotos feitas por um satélite italiano no dia do acidente haviam identificado uma mancha de querosene no Atlântico na mesma posição em que agora foi localizada a aeronave. Estranho, muito estranho.

Não bastassem as dúvidas que procriaram na imprensa e entre familiares de vítimas, a Justiça da França também parece inclinada a questionar a inocência da Air France e da Airbus, ambas oficialmente investigadas por homicídio culposo.

Diante de tantas incertezas sobre as investigações do AF-447, há apenas uma alternativa à França: revelar a verdade, mesmo que prejudique temporariamente a imagem de símbolos da pujança econômica do país, como as duas gigantes aeronáuticas.

É preciso dizer que um passo muito positivo foi dado no sábado, com a localização dos destroços e a perspectiva de recuperação da caixas-pretas. Resta ao governo francês provar, agora, que a verdadeira caixa-preta perdida não é o próprio BEA.

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Àqueles numerosos que me escreveram com demonstrações de solidariedade e palavras gentis quando de minha prisão na Líbia, meu muito, muito obrigado.

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19.fevereiro.2011 07:48:34

Até a próxima crise

Sarkozy no Palácio do Eliseu: o fim do G-20? /// REUTERS/Philippe Wojazer

A reunião ministerial do G-20 que acontece hoje, em Paris, é o primeiro encontro de alto nível das 20 maiores economias do mundo desde a cúpula de Seul, realizada em novembro de 2010, na Coreia do Sul. Ela é só o primeiro passo para preparar o G-20 de Cannes, marcado para novembro de 2011.

Desde já, porém, uma tendência parece se confirmar. Em Seul, ministros, analistas econômicos e jornalistas deixaram a Coreia do Sul com a impressão de que começava a arrefecer a mobilização internacional pela reforma do sistema financeiro, que visava a renovar o acordo de Bretton Woods, criado em 1944. Questões centrais, como a “guerra cambial”, acabaram revelando toda a dificuldade do G-20 em harmonizar minimamente a economia mundial.

Três meses depois, a bandeira do “reequilíbrio macroeconômico” volta a ser empunhada pela França. Mas, até aqui, nada indica que a reunião de Paris vá obter sucesso em sua empreitada de alcançar um mínimo de coordenação entre as políticas macroeconômicas. Isso porque os interesses dos Estados Unidos, da União Europeia e do Japão são cada vez mais divergentes, senão antagônicos, em relação aos dos grandes emergentes, liderados por China, Índia, Brasil e Rússia.

Em abril de 2009, quando foi realizado o mais bem sucedido encontro do G-20, em Londres, a economia global era açoitada pela crise e pelo risco de insolvência dos sistemas bancários americano, britânico, irlandês e alemão. Então, em um esforço de cooperação inédito, chefes de Estado e de governo concordaram em reforçar o caixa do Fundo Monetário Internacional (FMI), elevando seus recursos a US$ 1 trilhão. A iniciativa foi interpretada pelos mercados financeiros como uma demonstração de coesão internacional. A crise, com a medida, arrefeceu.

Vinte meses depois, grande parte do mundo sai da recessão – hoje limitada à periferia da União Europeia, que vive o risco de insolvência das dívidas soberanas. Todas as maiores economias do mundo já retomam o crescimento. E, com o distanciamento da crise, volta a valer a lógica do “cada um por si”. Decorre daí a dificuldade de entendimento no G-20 ministerial de Paris. Reforma do sistema monetário, controle do fluxo de capitais, limitação de reservas internacionais… tudo parece opor desenvolvidos e emergentes. E, nesse cenário, até a formulação de um termômetro básico, os dos indicadores de desequilíbrios, passa a ser tarefa árdua.

Alarmado, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, não hesitou a evocar o pior ontem no Palácio do Eliseu. “É mais difícil encontrar consenso em um período de retomada. A tentação de dar prioridade aos interesses nacionais é grande”, ponderou, antes de advertir: “Isso seria a morte do G-20”.

Pelo menos até a próxima crise.

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L'Union européenne et le Fonds monétaire international ont accepté  de venir en aide à l'Irlande pour lui permettre de redresser ses comptes publics et de soutenir son secteur bancaire par un plan de sauvetage d'une durée de quatre ans (ici, un ouvrier passe devant un graffiti "FMI dehors" dans une rue de Dublin).

Foto: Reuters/ Cathal Mcnaughton

Na Irlanda, pesquisas de opinião e analistas políticos indicam que a maior parte da opinião pública não é contra o pacote de ajuda de € 85 bilhões, oferecido pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como vacina contra a bancarrota. Ainda assim, entre militantes de uma minoria nacionalista, que se diz “humilhada” e atingida em sua soberania, ecoa uma frase: “IMF get out”, a versão em inglês de um mantra bem conhecido dos brasileiros, o “Fora FMI”.

Entre janeiro e fevereiro, Atenas foi palco de greves, passeatas e confrontos violentos – inclusive com mortes. Entre setembro e outubro, Paris, Lyon e suas periferias incendiárias também assistiram a protestos e conflitos entre a polícia e manifestantes. Mas o 24 de novembro de 2010 talvez venha a marcar, no futuro, o início de uma insatisfação generalizada dos europeus contra as políticas de austeridade contra a crise das dívidas públicas.

Ontem, manifestações simultâneas e independentes deixaram quatro países em estado febril: na Irlanda, Grã-Bretanha, Itália e Portugal trabalhadores e estudantes foram às ruas contra as medidas de rigor adotadas pelos governos europeus – liberais e socialistas, diga-se. Até então, o fenômeno da insatisfação pública era menosprezado e atribuído aos gregos, “corruptos demais”, ou aos franceses, “mimados demais”. Agora, é cada vez mais difícil explicar por que os protestos tomam as ruas em países ordeiros e avessos a movimentos sociais, como a Inglaterra.

Há na Europa um temor crescente de que as medidas de socorro, como o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FESF), inventado pelos líderes políticos em Bruxelas para auxiliar a Grécia em maio, não sejam suficientes para aplacar o risco de falência de países periféricos, como Irlanda e Portugal, ou nada periféricos, como Espanha e Itália. Afinal, nem a rica e estável Europa pode seguir pagando empréstimos de € 110 bilhões ou € 85 bilhões para socorrer cada país da zona euro.

No mercado financeiro, assim como nas universidades, especialistas em macroeconomia se perguntam qual é a solução para a crise das dívidas. Muito se fala na implosão do euro e no renascimento das moedas nacionais, como o marco, o franco ou a lira. Mas essa alternativa, sustentam economistas como Daniel Cohen, especialista em reestruturação de dívidas e acadêmico da Escola de Economia de Paris, não é realista, porque ninguém na Europa está disposto a arriscar a desintegração da UE, um projeto político maior do que tudo: o de garantir a paz. Cohen e outros entendem que os planos de austeridade pecam em um ponto: implodem o que resta do Estado de bem-estar social no momento em que o desemprego explode, o que só tende a aprofundar o fosso da recessão. Sem crescimento, não há equilíbrio fiscal, afirmam esses especialistas.

Para eles, a União Europeia só tem uma alternativa: coordenar suas políticas macroeconômicas e alinhar estratégias fiscais. Em síntese: integrar-se cada vez mais. O entrave está nos palácios, onde governos como o de Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e David Cameron voltaram-se aos problemas internos sem entender o recado da crise: ou os países da Europa aceitam sua interdependência, ou serão cada vez mais dependentes do FMI.

* * *

PS – Aos que aguardam em silêncio e aos que têm externado seus pedidos de atualização do blog, aceitem desculpas sinceras. A escassez de posts é causada por minha tese de doutorado na Sorbonne, que está em fase decisiva. Dias melhores virão.

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Lula nas bancas de Paris: tributo

Lula nas bancas de Paris: tributo

A imprensa da França já começou a dar seu adeus a Luiz Inácio Lula da Silva. Considerado por muitos no país como um símbolo de mobilidade social – um problema grave na Europa, ainda que pouco debatido –, Lula caminha para seus últimos meses de mandato deixando a cena com uma popularidade elevada também no exterior, em que pesem todas as denúncias de corrupção contra seus dois governos.

Prova disso pode ser verificada nas bancas de jornais  de Paris. No intervalo de uma semana, três revistas de tiragem expressiva foram publicadas na França tendo como reportagem de capa o ex-metalúrgico que chegou à presidência. Depois de um número especial da revista Le Monde dedicado ao Brasil, sob o título sugestivo de “O gigante se impõe”, e de sua prima Manière de Voir, editada pelo grupo Le Monde Diplomatique, agora é a vez de Les InRocKuptibles focar sua atenção no chefe de Estado brasileiro.

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Misto de Time e Rolling Stone, a revista francesa dedica 10 páginas, além da capa, a um tema diretamente relacionado a Lula: “Brasil – O país em que a esquerda deu certo”, julga o texto. A publicação, claro, relembra os 80% de aprovação do petista, e tenta explicar esse fenômeno pelo olhar de seus fãs: trabalhadores, mulheres, pobres e companheiros que ajudaram a chegar ao poder e a manter-se nele durante oito anos. (Aliás, o fato de não ouvir seus detratores, apenas seus seguidores, explica a parcialidade da revista.)

Em editorial, Bernard Zekri, diretor de redação, sustenta a importância atribuída por sua revista à despedida de Lula do poder. “Ele deixa a presidência do Brasil em plena glória. Ele elevou seu país pela primeira vez ao nível de grande potência internacional e soube, coisa rara, organizar sua sucessão”, afirma Zekri, em tom deslumbrado. “Lula é, ao lado de Mandela, o único sucesso alcançado pela esquerda nos últimos anos.”

A revista enche suas páginas de méritos inegáveis do governo Lula, como a redução da desigualdade e da pobreza e a manutenção da ordem econômica que vem dando certo, mas traz pouquíssimas palavras sobre os escândalos de corrupção patrocinados pelos que continuam a aparelhar o Estado e a minar a credibilidade da classe política no Brasil.

Não espere, portanto, nenhuma palavra sobre Erenice Guerra, José Dirceu, Antônio Palocci, mensalão, caixa 2, dinheiro em cuecas, nada. A imprensa internacional segue elogiando o Brasil de Lula, a despeito de tudo.

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© SIPA

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A França será investigada pela União Europeia por violação do direito europeu de livre circulação de pessoas. O anúncio foi feito em Bruxelas pela comissária Europeia de Justiça, Viviane Reding (foto), em um pronunciamento enfático contra a política de expulsão de ciganos, romenos e búlgaros implementada pelo presidente Nicolas Sarkozy.

Segundo a comissária da UE, a medida viola o direito das minorias. “Jamais pensei que a Europa seria novamente testemunha deste gênero de situação após a Segunda Guerra Mundial”, afirmou a comissária. Admitindo estar “enraivecida”, Viviane deixou a diplomacia de lado e sentenciou o governo francês: “É uma vergonha”.

A reprimenda reforça os argumentos da oposição a Sarkozy, uma reação da UE à ilegalidade – em relação à legislação europeia – das medidas que marcam a guinada à extrema-direita do governo. Além disso, são um indício de que a política de deportações será levada à Corte Europeia de Direitos Humanos.

Na manhã desta quarta-feira (15), Luc Chatel, porta-voz do Palácio do Eliseu, demonstrou não entender o recado. Em desafio à Viviane Reding, Chatel classificou as declarações como “inaceitáveis”.

A história dirá quem tem razão.

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PS – Caros amigos, como muitos de vocês perceberam, estive ausente do blog. Não por descaso: foram questões importantes de ordem privada que me impediram de dedicar tempo a este espaço. Mas voltamos a conversar agora?

Ao Fábio, que me pediu novas informações sobre o Rafale, obrigado pela atenção. Vou escrever sobre um assunto correlato ainda hoje. Fábio, um abraço.

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