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Andrei Netto

Eleições na França 2012

Crédito: Lionel Bonaventure / REUTERS

Já se tornou um clichê no meio jornalístico: a cada novo líder escolhido em países da União Europeia, faz-se um traço a mais na parede, contando o número de “vítimas da crise”. As contas incluem Gordon Brown, Silvio Berlusconi, José Luis Rodriguez Zapatero, mas podem chegar a uma dezena de nomes. É começar a contar os derrotados em campanhas eleitorais a partir de 2008, quando da implosão do Lehman Brothers, e chegaremos ao número de chefes de Estado e de governo que “não resistiram” na Europa. Certo? Errado.

Tomemos o exemplo mais recente: Nicolas Sarkozy. Segundo essa visão simplista, o chefe de Estado seria mais um a ser derrubado pela má performance econômica da UE ao ceder lugar a François Hollande, vitorioso com 51,62% dos votos.

Mas não é simples assim. Na França e em boa parte da Europa, Sarkozy era não raro visto como um dos pilares da estabilidade do país, que ainda resiste à crise das dívidas soberanas. Sua campanha eleitoral era baseada no argumento do “capitão” que, determinado, conduz sua tripulação na travessia da tempestade. E, creia, era um argumento que funcionava. Muitos eleitores temiam – e por certo ainda temem – a eventual gestão de crise de Hollande.

O baixo crescimento e sua política de austeridade estão entre as explicações da derrota, é claro. Mas há muitas outras razões para seu fracasso histórico em 6 de maio. Ao decidir não reconduzi-lo ao Palácio do Eliseu, a população francesa tomou uma decisão inédita em 30 anos por recusar um estilo de fazer política. Sarkozy era mal-amado, impopular. Sua personalidade hiperativa e midiática contrastava com a sacralidade com que os franceses veem a posição de presidente da república. Suas extravagâncias, seu relógio Philippe Patek de € 55 mil, suas férias em iates de milionários, seus jantares em restaurantes caríssimos, seus escândalos de financiamento ilegal de campanha – todo esse protagonismo que o dinheiro teve entre 2007 e 2012 não fecha com a cultura dos franceses, que prezam a igualdade.

Tampouco seu discurso beligerante, seus rompantes de extremismo de direita, sua demagogia contra muçulmanos, contra imigrantes e seus descendentes tem a ver com a ideia de solidariedade. E, diria por fim, sua interferência na Justiça e na mídia, sua relação carnal com a polícia e sua estranha intimidade com os serviços secretos não tem a ver com liberdade.

Em seu mandato, Sarkozy vilipendiou valores que a França cultua há mais de 200 anos. Se 48% dos franceses não se importam, a maioria deu mostras de que ainda preza os valores da república. Sarkozy não é só uma vítima da crise. É, sobretudo, vítima de si mesmo.

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Eleições na França 2012

A vitória de François Hollande na disputa pelo Palácio do Eliseu contra o atual presidente, Nicolas Sarkozy, confirma uma maré de esquerda na França. Ausente da cúpula do poder há 17 anos, quando do fim do mandato de François Mitterrand, o Partido Socialista (PS) se torna desde já o favorito absoluto para as eleições parlamentares de junho.

O presidente, o primeiro-ministro, a maioria na Assembleia Nacional e no Senado se somarão ao comando de 21 das 22 regiões do país, de 60 dos 100 departamentos e da maioria das maiores cidades da França. Paris, Lyon, Toulouse e Lille são alguns dos centros urbanos em poder do PS. É o maior domínio exercido por um partido de esquerda desde a Revolução Francesa, em 1789.

O resultado do pleito de 2012 também representa a pior derrota da história da União por um Movimento Popular (UMP). E cristaliza também um erro histórico: a progressiva aproximação da extrema direita e das ideias da Frente Nacional (FN), o partido controlado pelo clã Le Pen. Nicolas Sarkozy, político experiente e reputado por sua habilidade em campanha eleitoral, levará sua agremiação à terra arrasada, cinco anos depois de iniciar a curva à extrema direita.

No cenário europeu, a França inicia um movimento contrário à maré. Até este domingo, 25 dos 27 países-membros da União Europeia tinham governos de centro-direita, liberais ou conservadores. Antes mesmo do resultado, Bruxelas e Berlim já mudavam paulatinamente de discurso. Em lugar da “austeridade”, agora se fala mais em “crescimento”. Mais mudanças vêm aí.

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Eleições na França 2012

Em 1974, um jovem candidato a presidente egresso de um pequeno partido de centro-direita marcou os espíritos e conquistou o Palácio do Eliseu. Tratava-se de Valéry Giscard-D’Estaing. Sua vitória sobre o oponente do Partido Socialista (PS), o já experiente em campanhas François Mitterrand, seria a mais apertada da história e aconteceria por 50,81% contra 49,19% dos votos. É claro que seu triunfo só se explicaria por muitas outras razões, mas uma delas – concordam os analistas políticos – havia sido uma frase letal, imbatível, que marcaria os espíritos: “Você não tem o monopólio do coração, monsieur Mitterrand”, sentença com a qual ele agregaria paixão ao seu discurso, roubando parte do apelo do socialista, que vendia a esperança de um mundo melhor.

Em 1988, Mitterrand já presidente daria o troco respondendo a uma provocação feita pelo então primeiro-ministro e candidato da direita – sim, o duelo entre um presidente e um primeiro-ministro é possível. Jacques Chirrac, que seria derrotado por 54,02% contra 45,98%, abrira sua participação afirmando: “Aqui senhor não é o presidente, e eu não sou o primeiro-ministro. Nós estamos em igualdade”. Mitterrand respondeu: “O senhor tem toda a razão, senhor primeiro-ministro.”

Conversei com diferentes grupos de pessoas, franceses ou não, que assistiram como eu o debate entre os dois candidatos ao Palácio do Eliseu na noite de quarta-feira, em Paris. Queria colher suas impressões a respeito do desempenho de Nicolas Sarkozy e de François Hollande, e compará-las com as minhas. Além disso, queria suas opiniões a respeito DA FRASE que colocaria este duelo na história enfrentamentos, como aconteceu com Giscard-D’Estaing e Mitterrand.

O embate fora violento, cheio de estocadas de parte a parte. Sarkozy empregou críticas como “Você mente”, “Seus números são falsos”, Hollande quer menos ricos, eu, menos pobres” e, principalmente, “Você é um caluniadorzinho”.

Hollande bateu na “vitimização” do presidente, afirmando: “Nada nunca é sua culpa”, “Você tem sempre um bode-expiatório” e que seu discurso se baseia “na calúnia e na mentira”. Mas a frase da noite, a sentença – repetida 16 vezes – que talvez venha a ser lembrada para sempre foi outra: “Moi, président…”.

O detalhe importante de “Eu, presidente…” é seu autor: François Hollande, o candidato que, a três dias da eleição ao Palácio do Eliseu, se apropriou do status de seu adversário, agregando a si próprio a estatura de chefe de Estado, de estadista, e deixando ao seu oponente a sensação de inferioridade, letal em qualquer duelo. Hollande já era favorito. E continua.

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Eleições na França 2012

Viradas já aconteceram no segundo turno, mas eram previstas antes do primeiro voto; História aponta favoritismo de Hollande

Às 20h de domingo, quando as emissoras de TV apresentaram o resultado das pesquisas de boca-de-urna indicando o socialista François Hollande à frente do atual presidente, Nicolas Sarkozy, no primeiro turno das eleições presidenciais da França, a reação dos militantes sarkozistas reunidos no teatro de Mutualité, em Paris, foi de decepção.

No instante seguinte, as mesmas telas mostraram a fotografia da candidata de extrema direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional, ao lado do prognóstico de que ela se aproximava de 20% dos votos. Então, a multidão sarkozista explodiu em vibração, como se comemorasse um gol em um estádio de futebol.

Passadas 24 horas, o momento de euforia dos partidários da União por um Movimento Popular (UMP), o partido de Sarkozy, está aos poucos se transformando em um novo receio de derrota. Isso porque muitos cientistas políticos e institutos de pesquisas vêm explicando que a tendência, mesmo com o escore recorde da extrema direita, é de que Hollande seja eleito em 6 de maio o presidente da França.

Vamos aos fatos. Se observado friamente, o total de votos em favor de candidatos de partidos da direita, com Sarkozy à frente, chegou a 46,85% no domingo. Já os candidatos de esquerda, com Hollande em primeiro lugar, somaram 44%. Em uma primeira análise, alguns líderes políticos, acadêmicos e analistas se apressaram em declarar Sarkozy, autêntico representante da direita, favorito no segundo turno.

O problema é que a transferência de votos não se dá de forma mecânica. Pesquisas realizadas desde a noite de domingo com eleitores de dois candidatos, Marine Le Pen e o centrista François Bayrou, explicam por que Hollande é favorito. Em primeiro lugar, o socialista é favorecido pelo alto índice de transferência de votos de outros eleitores da esquerda. Em segundo, ele obtém cerca de um terço do eleitorado de Bayrou – índice idêntico ao de Sarkozy e o de abstenções. Em terceiro, e mais surpreendente, ele capta quase 20% do eleitorado de Marine Le Pen – uma fatia da população francesa que é profundamente “antissarkozista”.

De sua parte, Sarkozy conta com cerca de 60% dos votos de Le Pen e um terço dos de Bayrou. Mas essas reservas não são suficientes para bater Hollande. Eis por que as primeiras pesquisas de intenção de voto no segundo turno apontam o socialista com 54% da preferência, frente a 46% do atual presidente.

Isso significa que a eleição de 6 de maio está decidida? Não. Primeiro porque tudo pode acontecer no intervalo de duas semanas – o ex-diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, por exemplo, foi preso quando era o favorito. Além disso, Sarkozy é um político fora de série, líder de uma verdadeira máquina eleitoral, a UMP, é assessorado por ótimos marketeiros políticos e sabe como ninguém captar a atenção da imprensa, mobilizar sua militância e castigar o adversário com ataques precisos e rajadas de promessas. Por isso, a reversão ainda é possível.

Em favor de Hollande, além de seus talentos pessoais, pesa a tradição. A história das eleições presidenciais diretas na França, desde 1965, indica que viradas no segundo turno podem acontecer. Foi o caso de Valéry Giscard-d’Estaing em 1974 e de François Mitterrand em 1981. Mas há um detalhe importante: essas viradas já eram previstas pelo eleitorado, pelas pesquisas e pelos analistas políticos antes mesmo que o primeiro turno acontecesse.

É sempre possível argumentar que pesquisas políticas podem falhar. É verdade. Algumas falharam em parte – dentro das margens de erro, diga-se, sem desculpá-las – no domingo passado.

Mas nunca na V República, inaugurada em 1958, um candidato que estivesse à frente de todas as pesquisas eleitorais para o segundo turno no mês de abril perdeu a eleição em maio. Isso quer dizer que, embora muitos franceses se digam indecisos, a convicção da maioria se forma desde muito cedo e os indecisos se dividem de forma mais ou menos proporcional aos decididos.

Hollande é o líder em todos os cenários eleitorais desde janeiro – e continuava em primeiro lugar nessa segunda, há 14 dias das eleições. Para vencer, Sarkozy não terá só de convencer eleitores; terá de reescrever a história democrática da França.

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Eleições na França 2012

20h25

O instituto TNS Sofres, para rede TF1, indica #Hollande com 28,6% contra #Sarkozy 27%. Marine Le Pen fecharia com 19%. Euforia no QG da UMP em Paris. Festa também no PS. Seguimos acompanhando.

20h13

Para atualizarmos, as primeiras constatações:

François #Hollande e Nicolas #Sarkozy estão no segundo turno na França. Boca-de-urna: 28,40% x 25,50% segundo France2.

Marine Le Pen chega aos 20%! Extrema direita é a grande surpresa da eleição 2012.

Resultados da rede TF1 diferem um pouco e indicam diferença menor. Vamos comentar em instantes.

Festa no comitê de Sarkozy com o resultado esperando para a extrema direita.

Se se confirmar o resultado de Marine Le Pen, expectativa na eleição será relançada na França.

Hollande superou o escore de Mitterrand em 1981. Sarkozy perde votos em relação a 2007.

Extrema direita teria feito quase o dobro de votos da extrema direita. O equilíbrio da eleição terá de ser revisto.

19h45

Estou voltando neste momento à sala em que se concentram os militantes da UMP e do presidente, Nicolas Sarkozy. De lado, sigo tuitando (@andreinetto) e volto ao blog em alguns minutos, já para comentar o resultado.

19h44

Ségolène Royal, ex-candidata à presidência pelo PS em 2007 e ex-mulher de François Hollande, fez declarações à imprensa há pouco dizendo que é preciso “compreender” os eleitores da Frente Nacional. Surpresas à vista às 20h.

19h42

Rumores no Partido Socialista indicam que o escore de Marine Le Pen, a candidata do partido de extrema direita Frente Nacional, seria histórico, superando todas as campanhas de seu pai, Jean-Marie Le Pen. A verificar nos próximos minutos.

De acordo com o jornal Le Monde, a secretária-geral do PS, Martine Aubry, teria deixado a reunião em videoconferência com Hollande. Estaria preocupada com o escore recorde de Le Pen. 19h39

Segundo o jornal Le Monde, Hollande está reunido desde as 18h com o conselho geral de sua campanha, com a participação de sua segunda mulher, a jornalista Valérie Trierweiler (aquela que para os militantes socialistas substituirá Carla Bruni como primeira-dama). Estão ainda o diretor-adjunto de campanha, Aquilino Morelle, dirigentes do PS e alguns jornalistas da imprensa francesa convidados. A reunião acontece por videoconferência entre Tulle, sua cidade, e a sede do PS em Paris. O candidato socialista deve discursar às 20h30, antes, portanto, de Nicolas Sarkozy.

19h33 em Paris

Sala lotada de militantes de Nicolas Sarkozy, que não parecem intimidados com a perspectiva de derrota neste primeiro turno. Na sede do PS, o ambiente também deve estar festivo, e provavelmente mais feliz, é claro

19h22 em Paris

Corrigindo: François Hollande viria a Paris, mas vai discursar no Centro Cultural e Esportivo da cidade de Tulle, onde ele votou. Segundo o jornal Le Monde, o ambiente é calmo. Algumas centenas de militantes esperam o candidato.

19h18 em Paris

“On va gagner” e “Nicolas président” gritam militantes no QG de Nicolas Sarkozy.

19h15 em Paris

O site da revista eletrônica Slater, www.slater.fr, publica uma página com as melhores fotos da campanha eleitoral na França. As imagens valem a pena.

19h12 em Paris

O dia de eleições foi tranquilo em Paris, como de praxe. Não houve campanha e os eleitores votaram sem pressa. Ao meio dia, o  Ministério do Interior divulgou o percentual de eleitores que já haviam comparecido às urnas: 28,29%, contra 30,8% em 2007. Às 17h, a participação nas eleições chegou a 70,59%, menor que em 2007 (73,87%) e maior que em 2002 (58,45%). Segundo o instituto Ifop, a perspectiva é de que mais de 80% dos eleitores inscritos nas listas eleitorais compareçam às urnas.

19h07 em Paris

Sarkozy, Hollande e todos os demais candidatos à presidência votaram pela manhã. O presidente vai aguardar o resultado do primeiro turno no Palácio do Eliseu, ao lado de seus conselheiros. Às 21h, deve se pronunciar aos jornalistas e aos militantes da UMP, aqui na Maison de la Mutualité, em Paris. Hollande está vindo de sua terra natal, a Corrèze.

19h05 em Paris

Esses números me foram informalmente confirmados na sede do Partido Socialista, na Rue Solférino, em Paris. Resta esperar pela divulgação das primeiras estimativas oficiais, sempre muito precisas, às 20h.

19h03 em Paris

A rede de TV belga RTBF publicou duas pesquisas de opinião com eleitores que acabaram de votar na França. Os primeiros resultados indicam a provável vitória de François Hollande, com 28%, contra 26% de Nicolas Sarkozy.

19h01 em Paris

Pela lei eleitoral da França, a campanha oficial foi encerrada na meia noite de sexta-feira. Desde então, a imprensa francesa está impedida de veicular qualquer entrevista ou mensagem dos candidatos, assim como pesquisas de opinião. Mas em tempos de internet, a proibição vale muito pouco. A seguir, as primeiras estimativas, publicadas pela imprensa da Bélgica, que acompanha as eleições com atenção.

19h em Paris

Nicolas Sarkozy ou François Hollande? Mais de 40 milhões de eleitores definirão hoje quem serão os dois candidatos classificados no primeiro turno das eleições presidenciais na França. O favoritismo cabe a Hollande, candidato do Partido Socialista (PS, centro-esquerda), em ligeira vantagem em relação a Sarkozy, atual presidente, líder da União por um Movimento Popular (UMP, centro-direita) e candidato à reeleição. Outros oito candidatos estão no páreo.
Dentro de uma hora, conheceremos o resultado das pesquisas de boca-de-urna. A partir de agora, fazemos a cobertura, com os principais fatos e algumas análises ao vivo feitas aqui de Paris, da Maison de la Mutualité, QG de Nicolas Sarkozy.

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Eleições na França 2012

Já disse mais abaixo, mas quero repetir nesta véspera de primeiro turno: não deem Sarkozy como vencido, qualquer que seja o resultado deste domingo. O favoritismo de Hollande, apontado pelas pesquisas eleitorais, é pouco diante do talento incomparável de Sarkozy em campanha e diante de sua experiência eleitoral e como chefe de Estado. Se há quem se pergunte se o socialista é um fraco ou não, quanto ao presidente não restam dúvidas sobre sua força. Escrevi mais abaixo: Sarkozy é um animal político. Está ferido, mas não está morto.

Sobre Sarkozy, já projetando o segundo turno, conversei na sexta-feira com Émmanuel Rivière, cientista político e analista do instituto de pesquisas TNS-Sofres, o maior da França. “Seu partido, a União por um Movimento Popular (UMP), é uma máquina de guerra eleitoral muito eficaz”, adverte ele. Segue a entrevista.

O que explica o recente declínio das intenções de voto em Nicolas Sarkozy?

Nicolas Sarkozy é prejudicado por vários elementos: a crise, o descontentamento dos franceses, sua má imagem. Mas o principal é que a direita está no poder há 10 anos, e ele está no Palácio do Eliseu há cinco. Os franceses estão acostumados à alternância e à substituição dos governos. Além disso, Sarkozy tem uma imagem menos boa do que todos os seus antecessores.

Quais são suas forças no segundo turno?

Seu partido, a União por um Movimento Popular (UMP), é uma máquina de guerra eleitoral muito eficaz e sua campanha foi excelente, apesar do declínio de Sarkozy quando do início da igualdade do tempo de exposição na TV e no rádio. Ele teve a capacidade de neutralizar outros candidatos à direita, assim como de fazer propostas que levam em conta preocupações dos franceses em diferentes assuntos, como imigração, Schengen, Europa, desemprego. Por isso houve um momento positivo, impulsionado pelos atentados de Toulouse e Montauban. Nada impede que ele repita essa dinâmica.

E o que faz a fraqueza de Sarkozy e o favoritismo de Hollande no segundo turno? 

Historicamente, um candidato que está liderando as pesquisas do segundo turno no mês de abril nunca foi batido nas eleições da França. Há razões para o campo de Hollande para o otimismo, assim como para o campo de Sarkozy para estar pessimista. Mas o PS precisa ficar muito atento para não passar uma imagem de uma eleição já vencida, o que poderia desmobilizar seu eleitorado.

Esta é uma campanha polarizada por fortes discursos de esquerda e direita, não?

Sim, a opinião pública vê grandes diferenças nas propostas de campanha de Sarkozy e Hollande. Há uma fronteira direita-esquerda que se aplica a quase todos os assuntos: economia, emprego, crescimento, administração pública, imigração, homossexualismo.

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Eleições na França 2012

O favoritismo do candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande, no segundo turno das eleições à presidência da França vem despertando desconfiança, em especial no mundo das finanças. Há cerca de três semanas, seu adversário, o presidente Nicolas Sarkozy, evocou o risco de que a eventual vitória do PS no pleito pudesse gerar um ataque especulativo contra o país, que o levaria ao destino da Espanha e da Itália – ou seja, à linha de tiro dos mercados financeiros.

O argumento de Sarkozy foi atacado pela oposição e criticado até pelo jornal britânico Financial Times. Mas algum burburinho ainda persiste entre investidores. A melhor forma de acabar com as ilusões utópicas de alguns, e com as assombrações de outros, é se dar ao trabalho de ler o programa de governo de Hollande, nada revolucionário – pelo contrário, bastante ortodoxo em termos de gestão fiscal –, ou ainda estudar a Declaração de Princípios do PS, o documento que serve de base ideológica ao partido.

Em abril de 2008, portanto há quatro anos, eu escrevi uma reportagem publicada no suplemento Aliás do Estado a respeito da reforma do ideário do PS. À época sob o comando de Hollande, a quem entrevistei na ocasião, o partido abriu mão – tardiamente, diga-se – da ideia de revolução, abraçando a economia de mercado e a globalização. É um texto que vale a pena ser lido por quem se interessa pelos rumos que a França, e por consequência a Europa, podem tomar nos próximos anos.

Abaixo, a íntegra do texto.

GLOBALIZAI-VOS!

PS francês revê seu ideário e sepulta a esperança revolucionária em troca das promessas do mercado

Andrei Netto

As esperanças revolucionárias morreram – ao menos para o mais importante segmento do eleitorado francês que ainda as nutriam. O último sopro da luta de classes marxista que sobrevivia no ideário do Partido Socialista (PS) francês se esvaiu nesta semana, após 18 anos de sobrevida. O atestado de óbito – ou a nova Declaração de Princípios – foi apresentado ao público pela cúpula do PS na terça-feira, em Paris, e marca a oficialização das convicções sociais-democratas de um dos mais importantes partidos políticos progressistas do Ocidente. Reescritos pela quinta vez em sua história secular, os cânones socialistas agora ignoram expressões cheias de significado no século 20, como “revolução”, “propriedade coletiva dos meios de produção” ou “operariado”. Em seu lugar, constam “desenvolvimento sustentável”,“economia mista”, “dinamismo privado”, ambientalismo e novas tecnologias.

A Declaração de Princípios pode ser entendida como a matriz do pensamento no PS francês. Fundada em 1905, na efervescência dos movimentos intelectuais e trabalhistas que fervilhavam na Europa de então, a Seção Francesa da Internacional Operária (SFIO), gênese do PS atual, havia sido reforma da em seus pilares ideológicos na esteira de quatro grandes eventos sociais do século 20: a ascensão dos movimentos operários, a 2ª Guerra Mundial e os primeiros sinais da Guerra Fria, as revoltas estudantis e trabalhistas de maio de 68e a queda do Muro de Berlim, em 1990. Essa linha do tempo deixa um traço que se esvai: a fé na revolução. Dezoito anos depois da queda do comunismo real,vem à tona a ruptura entre os socialistas franceses e a transformação radical. O cenário, agora, é a globalização.

Os atuais 22 artigos da declaração trazem, cada um, o peso da história. Em 1905, o documento exprimia o desejo de mudança radical.“ O Partido Socialista é um partido de classe que tem por objetivo socializar os meios de produção e de troca, ou seja, transformar a sociedade capitalista em uma sociedade coletivista ou comunista.” Hoje, 103 anos depois, “o sistema desejado (…) é de uma economia mista, combinando um setor privado dinâmico, um setor público com serviços de qualidade e um terceiro setor de economia social”.

Entre um e outro momento, o que se constata é o declínio – até a extinção – do apego revolucionário e sua substituição pela ambição da reforma. “O Partido Socialista é um partido reformista”, define, com todas as letras, o artigo 13 das novas disposições. “Ele não considera as relações de força de um momento como irremovíveis ou insuperáveis.”

Este é o trecho no qual o texto mais se aproxima da ideia de “luta de classes”, que já não constava dos dogmas de 1990. Publicado nesta semana para ser homologado na convenção do partido em junho, o documento mantém a crítica ao capitalismo,“criador de desigualdades, portador de irracionalidades, fator de crises que persistem até hoje, na era da globalização dominada pelo capitalismo financeiro”. O discurso, de matizes keynesianos, prega uma “sociedade nova, que ultrapasse as contradições do capitalismo”, mas em lugar da apologia à superação do sistema baseado na propriedade privada a proposta é a conciliação: “Os socialistas são partidários da economia social e ecológica de mercado, uma economia regulada pelo poder público, como também pelos parceiros sociais”.

O PS prega agora a renovação do “Estado social” – terminologia forjada pela social-democracia alemã –, realizável por meio da reforma, cautelosa, do Estado de bem-estar social.“Este privilegia o investimento produtivo em detrimento da renda. Assegura a seguir proteção contra os riscos sociais. E repousa sobre a redistribuição. “O Estado”, diz agora o texto, “deve ser regulador para conciliar a economia de mercado, a democracia e a coesão social”. E agrega: para que possa “privilegiar a educação, a pesquisa, a inovação e a cultura”.

Neste modelo, o crescimento deve ser baseado no princípio do desenvolvimento sustentável. Um dos primeiros objetivos do partido, assegura a declaração, é a “emancipação completa da pessoa humana e a salvaguarda do planeta”. Ambientalismo e defesa da inovação tecnológica são, aliás, temas recorrentes no texto, a ponto de novíssimas – e controversas – ciências serem citadas.“ A expansão tecnológica, o desenvolvimento das nano e biotecnologias e da engenharia genética despertam questões essenciais para o futuro da humanidade.” A nova matriz de pensamento socialista também preserva algumas antigas bandeiras, introduzidas por líderes históricos da esquerda ao longo do século 20, como Jean Jaurès e Léon Blum.São metas como pacifismo, internacionalismo, solidariedade para com países subdesenvolvidos, defesa dos direitos humanos, Estado laico e o pilar da França moderna, a República. Embora consensual entre membros da cúpula do partido, o texto despertou duas polêmicas internas. A primeira, ao defender – pela primeira vez de forma franca – a União Europeia.

“O PS é um partido europeu”, enfatiza, para desgosto dos partidários do “não” à constituição europeia, recusada pelos franceses em referendo realizado no ano de 2005. A segunda polêmica, na verdade, levou ao reconhecimento do feminismo, até hoje ignorado nos estatutos. Um novo parágrafo 14 foi escrito para aplacar antigas mágoas: “O PS é feminista e age em favor da emancipação das mulheres”. Ao desfraldar a bandeira da reforma e sepultar os ossos da revolução, o partido quis emitir uma mensagem clara. “A nova declaração avança ao incorporar idéias e práticas do PS quando está no poder. Somos hoje um partido socialista reformista, que usa o poder para transformar”, reafirmou ao Estado Alain Bergonioux, historiador, secretário nacional da agremiação e um dos dois autores do texto.

“Era preciso dizê-lo sem ambiguidades.” Bergonioux acredita que seus contemporâneos de partido fizeram um inventário ideológico para encarar o século 21. Sustenta que a ideia de transformação social não está em contradição com a ideia de mercado, a ponto de negar qualquer incongruência conceitual entre “socialismo” e “propriedade privada”.“Há muito tempo renunciamos à revolução”, admite François Hollande, secretário-geral do partido, citando o presidente socialista François Mitterrand, eleito nos pleitos longínquos de 1981 e 1988. Abatido pela ausência de uma liderança clara e por derrotas em três eleições presidenciais sucessivas – uma delas no trágico abril de 2002, no qual Lionel Jospin obteve 16% do eleitorado – o primeiro desafio do PS com seu novo ideário será reconquistar corações e mentes na França. Tarefa dura. Se a esperança revolucionária de fato desapareceu, resta agora ao partido demonstrar quais são as propostas práticas da esperança reformista. Antes que vire desilusão. ●

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Eleições na França 2012

 

Cinco pesquisas de opinião divulgadas na França entre a noite de quinta-feira e a de sexta indicam que o candidato do Partido Socialista, François Hollande, é o favorito no primeiro turno das eleições ao Palácio do Eliseu. Ele vence quatro dos cenários. O atual presidente, Nicolas Sarkozy, obtém apenas um empate na melhor das hipóteses. As sondagens são o último retrato do eleitorado antes do voto, no domingo, 22 de abril.

As pesquisas foram realizadas pelos institutos LH2, CSA, BVA, Ipsos e TNS-Sofrès. Em todos, Hollande varia entre 27% e 30%, enquanto Sarkozy varia de 25% a 27%. Nas projeções de segundo turno, o candidato socialista vence em todos os cenários, com 55% no pior deles e 57% no melhor, contra entre 43% e 45% obtidos pelo atual chefe de Estado.

Caso esses resultados se confirmem, Sarkozy terá de fazer história para se eleger em 6 de maio, data da segunda rodada de votação. Nunca na história das eleições da V República, realizadas desde 1965, um presidente em exercício e em busca de reeleição perdeu o primeiro turno. 

Um dado impressionante, porém, ainda pode influenciar nos resultados finais, tanto para um lado, quanto para outro: 38% dos eleitores ouvidos em uma das sondagens indicaram que ainda podem mudar de voto até o domingo.

A campanha oficial na França chega ao fim nesta sexta-feira. A partir de agora, ficam proibidos comícios ou atos eleitorais, entrevistas para veículos de imprensa escrita ou eletrônica e publicação de pesquisas de opinião, entre outros vetos da lei eleitoral do país. No domingo, 43 milhões de eleitores poderão votar, mas outra forte expectativa diz respeito à abstenção, já que as eleições de 2012 caem em meio às férias de primavera.

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Eleições na França 2012

Já falei aqui, no post Diz-me com quem andas, François Hollande, sobre o candidato do Partido Socialista inspirar-se em Lula, entre outros líderes políticos internacionais, como Obama e Mandela. Mas há um elemento a mais que lembra o Brasil na campanha eleitoral ao Palácio do Eliseu, cujo primeiro turno acontece neste domingo, 22 de abril. Trata-se da esperança contra o medo.

Todos lembramos do célebre discurso de Lula, em 2002, quando o então candidato do PT afirmava que sua campanha era a da esperança, enquanto a de seu oponente, José Serra, do PSDB, era a do medo. Pois essa mesma relação de forças opõe Hollande e o atual presidente, Nicolas Sarkozy, na França de 2012. Desde sua entrada em cena como candidato à reeleição, Sarkozy tenta revitalizar a ideia de que apenas ele é capaz de garantir a integridade e a vitalidade da França em diferentes temas, como economia, imigração, segurança, terrorismo. Para tanto, o presidente se apresenta como uma espécie de porto seguro frente ao bicho papão da crise das dívidas, da invasão muçulmana do país, da criminalidade desenfreada, da ameaça do islamismo radical.

Durante muito tempo, pelo menos 10 anos, esse discurso lhe rendeu os holofotes, primeiro como ministro do Interior, época em que ele prometia varrer da periferia a “racaille” – a “gentalha”, em francês chulo – usando jatos d’água e caminhão de limpeza urbana. A seguir, já como ocupante do Palácio do Eliseu, Sarkozy aplicou a fórmula durante cinco anos, advertindo para os riscos causados pela imigração e pela globalização.

A bem da verdade, esse discurso era seu pior momento como chefe de Estado. Nele Sarkozy se mostrava populista e sórdido ao flertar com a extrema direita e com o discurso fascista para (tentar) ganhar popularidade dividindo o país entre os “franceses da gema” e os outros – imigrantes e estrangeiros –, que representavam a ameaça. Nessas horas, Sarkozy, cercado de seus dois ministros de extrema direita,  Brice Hortefeux e Claude Guéant, era alguém abaixo do que se espera de um presidente da França, a terra dos direitos humanos.

Em 2012, Hollande traz como discurso o antídoto a esse veneno. Contra o medo pregado por Sarkozy, seu tom é o da esperança, o da reunião do povo francês, qualquer que seja sua cor, seu credo, sua origem. O socialista não fala em imigração – e nisso mostra mais uma vez o quão vazio seu programa de governo é –, mas se recusa a apontar o dedo para o exterior e pregar a reconstrução das fronteiras ou o protecionismo como forma de desenvolvimento econômico. Esse discurso é seu grande mérito. Hollande cresce nas pesquisas ao oferecer uma luz no fim do túnel, iluminando as trevas que Sarkozy tanto evoca.

Seu problema é que a França, quem diria, ainda demonstra com frequência ser um país soturno, onde o discurso obscurantista de gente como a extremista Marine Le Pen, da Frente Nacional, encontra uma audiência convencida, até mesmo apaixonada. Contra a esperança de Hollande, tido como “o fraco”, eis a força de Sarkozy: a força do medo. Não a menosprezemos.

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Eleições na França 2012

O que há muito se suspeitava na França agora está cristalino. Ninguém mais esconde, no meio político, que as eleições presidenciais na França serão uma espécie de plebiscito: ser contra ou a favor de Nicolas Sarkozy, candidato à reeleição pela União por um Movimento Popular (UMP, centro-direita). No domingo, 43 milhões de eleitores inscritos e portanto aptos a votar vão às urnas na França “metropolitana” e em seus territórios além-mar para responder se querem ou não conceder mais cinco anos ao atual locatário do Palácio do Eliseu, eleito pela primeira vez em 2007.

À exceção do candidato centrista François Bayrou, líder do Movimento Democrático (Modem), todos os demais oito aspirantes ao Eliseu usam, em maior ou menor grau, o “anti-sarkosysme” como discurso de campanha. O surpreendente é que essa rejeição, que também é forte no eleitorado, reúne pretendentes em tese tão antagônicos como a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, de extrema direita, e o líder da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, da extrema esquerda.

Convidado pela rede de TV TF1, a Globo francesa, Mélenchon afirmou nesta quarta-feira que ele e o líder do Partido Socialista (PS), François Hollande, têm um “programa comum”: “despedir Nicolas Sarkozy”. Le Pen, por sua vez, atacou o presidente afirmando: “Votar em Sarkozy não serve para nada”.

Mas o Prêmio Antissarkozista 2012 vai para a jurista Eva Joly, candidata do movimento Europe Ecologie-Partido Verde, que também na quarta-feira realizou uma turnê por pontos de Paris e da periferia para denunciar as irregularidades que rondam o mandato do atual chefe de Estado.

A rejeição no meio político, é claro, reverbera a impopularidade do atual presidente, que reúne apenas 36% de avaliações positivas, contra 64% de descontentes, de acordo com pesquisa realizada pelo instituto Ifop há quatro dias. Para efeitos de comparação, seu primeiro-ministro, François Fillon, tem 51% de apoio. Ou seja: não é o governo Sarkozy o mais rejeitado; é o presidente em si o mal-amado.

Por essas e outras razões, as eleições deste domingo, 22 de abril, e de 6 de maio, data do segundo turno, se transformaram em um verdadeiro referendo. A França adaptou o velho – e terrível – slogan: é Sarkozy, ame-o ou deixe-o.

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