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Andrei Netto

19.abril.2012 11:00:39

A ESPERANÇA CONTRA O MEDO, VERSION FRANÇAISE

Eleições na França 2012

Já falei aqui, no post Diz-me com quem andas, François Hollande, sobre o candidato do Partido Socialista inspirar-se em Lula, entre outros líderes políticos internacionais, como Obama e Mandela. Mas há um elemento a mais que lembra o Brasil na campanha eleitoral ao Palácio do Eliseu, cujo primeiro turno acontece neste domingo, 22 de abril. Trata-se da esperança contra o medo.

Todos lembramos do célebre discurso de Lula, em 2002, quando o então candidato do PT afirmava que sua campanha era a da esperança, enquanto a de seu oponente, José Serra, do PSDB, era a do medo. Pois essa mesma relação de forças opõe Hollande e o atual presidente, Nicolas Sarkozy, na França de 2012. Desde sua entrada em cena como candidato à reeleição, Sarkozy tenta revitalizar a ideia de que apenas ele é capaz de garantir a integridade e a vitalidade da França em diferentes temas, como economia, imigração, segurança, terrorismo. Para tanto, o presidente se apresenta como uma espécie de porto seguro frente ao bicho papão da crise das dívidas, da invasão muçulmana do país, da criminalidade desenfreada, da ameaça do islamismo radical.

Durante muito tempo, pelo menos 10 anos, esse discurso lhe rendeu os holofotes, primeiro como ministro do Interior, época em que ele prometia varrer da periferia a “racaille” – a “gentalha”, em francês chulo – usando jatos d’água e caminhão de limpeza urbana. A seguir, já como ocupante do Palácio do Eliseu, Sarkozy aplicou a fórmula durante cinco anos, advertindo para os riscos causados pela imigração e pela globalização.

A bem da verdade, esse discurso era seu pior momento como chefe de Estado. Nele Sarkozy se mostrava populista e sórdido ao flertar com a extrema direita e com o discurso fascista para (tentar) ganhar popularidade dividindo o país entre os “franceses da gema” e os outros – imigrantes e estrangeiros –, que representavam a ameaça. Nessas horas, Sarkozy, cercado de seus dois ministros de extrema direita,  Brice Hortefeux e Claude Guéant, era alguém abaixo do que se espera de um presidente da França, a terra dos direitos humanos.

Em 2012, Hollande traz como discurso o antídoto a esse veneno. Contra o medo pregado por Sarkozy, seu tom é o da esperança, o da reunião do povo francês, qualquer que seja sua cor, seu credo, sua origem. O socialista não fala em imigração – e nisso mostra mais uma vez o quão vazio seu programa de governo é –, mas se recusa a apontar o dedo para o exterior e pregar a reconstrução das fronteiras ou o protecionismo como forma de desenvolvimento econômico. Esse discurso é seu grande mérito. Hollande cresce nas pesquisas ao oferecer uma luz no fim do túnel, iluminando as trevas que Sarkozy tanto evoca.

Seu problema é que a França, quem diria, ainda demonstra com frequência ser um país soturno, onde o discurso obscurantista de gente como a extremista Marine Le Pen, da Frente Nacional, encontra uma audiência convencida, até mesmo apaixonada. Contra a esperança de Hollande, tido como “o fraco”, eis a força de Sarkozy: a força do medo. Não a menosprezemos.

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