Tinha prometido pelo Facebook incluir no meu blog a íntegra de duas entrevistas a respeito da depressão na Grécia, cujos principais trechos haviam sido publicados nas edições de sábado e domingo. Abaixo segue a primeira delas.
ENTREVISTA Panayotis Genimatas, presidente de honra do Banco Europeu de Investimentos (BEI)
“A Grécia precisa de uma moratória de cinco anos”
Economista, historiador e filósofo grego que recusou a presidência da República há dois anos se diz arrasado com a crise; “Precisamos de um novo país”, entende
Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL / ANTENAS
Em meio à crise econômica e política na Grécia, que transforma-se dia a dia em crise social, são poucas as personalidades políticas que mantém algum fio de credibilidade junto à opinião pública. Panayotis Genimatas, economista, historiador e filósofo, presidente de honra do Banco Europeu de Investimentos (BEI) é um desses homens. Ele é uma das personalidades políticas e econômicas mais respeitadas do país, tendo sido cogitado para ser presidente em junho de 2009, quando recusou brigar pelo cargo, decepcionado – também – com a classe política. Em entrevista exclusiva ao Estado, ontem, em Atenas, Genimatas se mostrou emocionado e arrasado com o que vê nas ruas de sua capital. Em tom fatalista, afirmou que a Grécia não tem opção: precisa de cinco anos de moratória – e do apoio internacional para permanecer na zona do euro.
Há dois anos a Grécia está mergulhada em um esforço internacional para sair da crise. Por que esse esforço não funciona? Por que as medidas de austeridade não trazem resultado?
A sua pergunta é muito complexa. Como historiador e filósofo teria de refletir se não se trata de uma incapacidade imanente do governo grego, ou da sociedade grega, que nos impede de ir adiante e reformar profundamente o Estado, refundando-o. Como banqueiro, acredito que seja na essência um problema do sistema político da Grécia, que nunca demonstrou capacidade de completar o plano de convergência total, pré-requisito para o ingresso na União Europeia, há 10 anos. Nesse ínterim, tivemos os Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas, que nos custaram caro e que foram pagos com a contratação de dívidas. Finalmente, a partir de 2007 houve uma deriva fiscal na Grécia com a conivência da Comissão Europeia, comandada por seu presidente, José Manuel Durão Barroso, e pelo comissário de Finanças, Joaquin Almunia. Deveríamos estar em austeridade entre 2007 e 2009, mas não fizemos nosso trabalho, nem fomos exortados a fazê-lo.
Após esse período, com a posse de George Papandreou descobriu-se a mentira e a verdadeira dimensão do déficit e da dívida, com a explosão da crise das dívidas soberanas na Grécia. Mas pouco mudou. Por quê?
O primeiro-ministro da época não estava à altura do desafio, e o que se produziu foi uma incapacidade de gerenciamento da dívida. Mas desde sempre a nomenclatura política da Grécia não quer proceder à reforma do Estado. Além disso, a culpa precisa ser repartida com a troica – como são chamados os experts da União Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ela faz uma abordagem primária, com as mesmas receitas aplicadas sem sucesso no passado. Não são planos complexos o suficiente para lidar com economias complexas.
No entanto o Parlamento aprovou novas medidas de austeridade exigidas pela troica no domingo. O senhor acredita que ele pode encaminhar a solução?
Não. Desde domingo tornou-se impossível acreditar que qualquer plano de austeridade pode significar uma saída da crise. Vamos gastar muito tempo para recuperar e reconstruir o sistema político, para só então adotarmos planos de austeridade credíveis – e que tenham outra natureza além de cortes e cortes.
Então o senhor é contra o corte de 22% do salário mínimo, por exemplo?
Sou contrário, é claro. A troica faz uma abordagem errada da falta de competitividade da Grécia. O custo do salário mínimo não é nem de longe seu principal fator.
Pelo que vejo, o senhor acredita que é impossível escapar da moratória.
É impossível escapar da moratória. Mas ela precisa ocorrer dentro da União Europeia, com a revisão total dos planos de austeridade, que precisam levar em conta pelo menos três elementos: a inevitabilidade da moratória em si, a manutenção da Grécia na zona do euro e a revisão da austeridade, com ênfase no reestabelecimento das funções do Estado. Caso contrário, nenhum plano de austeridade será implantado. Precisamos de um grupo de experts que possa encaminhar a reforma de nossas instituições.
Mas é possível declarar moratória e permanecer no euro?
A Grécia deve permanecer na zona do euro. A população acredita nessa ideia. A União Europeia precisa entender isso. E você pode nos ajudar a fazê-los entender.
E como será após a moratória?
O ano de 2013 será catastrófico. Teremos 25% a mais de desemprego, falências em massa, produção industrial em queda livre e reação social imprevisível. Todas as previsões da troica, que estão muito longe do realismo, se mostrarão equivocadas. A situação vai piorar muito e todos os prognósticos serão mais dramáticos na realidade. Para sair disso, precisaremos de uma moratória de cinco anos, com convergência fiscal e reestruturação total. Mais: precisaremos de um novo Estado, de um novo país.
O senhor está entre os que estão inconformados com a postura da Alemanha e de sua chanceler, Angela Merkel, nessa crise?
Pertenço à minoria dos gregos que considera a abordagem da Alemanha pertinente e criativa, em especial sobre insistir na consolidação fiscal na Europa. São os alemães que estão perdendo tempo conosco, não o contrário.
Os gregos se mostram abalados pela crise. Como o senhor se sente?
Eu estou em uma situação pessoal deprimente. Vivo uma decepção política sem fim, porque faço parte de uma geração que trazia consigo o sonho europeu. Agora, precisamos da solidariedade internacional para nos mantermos na zona do euro e na União Europeia.
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