PARIS
Elucidar as causas da queda do voo AF-447 no Atlântico Sul é uma oportunidade para o Escritório de Investigação e Análise (BEA) e para o governo da França de restituir a credibilidade abalada da aeronáutica civil do país. Há 21 meses, o silêncio dos peritos franceses em torno das possíveis falhas eletrônicas do Airbus A330-200 levanta críticas contundentes de experts independentes e de familiares de vítimas.
No início da década passada, quando passou a investigar as causas do acidente do Concorde que começava a realizar o voo AF-4590 ao cair na cidade de Gonesse, nos arredores de Paris, em 25 de julho de 2000, o BEA deu uma demonstração de força e competência ao impedir aeronaves similares de tirar os pneus do solo e cruzar o Atlântico. De lá para cá, sua imagem voltou a se degradar – era ruim nos anos 80.
A principal suspeita que recai sobre o BEA no caso AF-447 diz respeito à sua independência em relação às empresas implicadas na investigação: Air France, Airbus e Thalès. Todas três têm um traço em comum: a participação acionária do Estado francês, também controlador do BEA. Soma-se ao conflito de interesses evidente a insistência dos peritos em desautorizar toda e qualquer análise independente e a opção por divulgar informações em doses homeopáticas. Mas, acima de tudo, a fixação em desconversar sobre as falhas dos sensores de velocidade – as sondas de Pitot –, que podem ter tido papel importante para a queda da aeronave.
Contribuiu para os arranhões na reputação do BEA e da aviação francesa o trabalho de especialistas como o ex-comandante de Airbus A330 Henri Marnet-Cornus. Autor de um relatório de 600 páginas sobre o acidente, o comandante aponta as 24 falhas eletrônicas da aeronave, causadas pela pane dos pitots (fabricados pela Thalès e usados pela Air France com a garantia da Airbus), como determinantes para a sobrecarga da tripulação, levando ao crash.
Lembre-se ainda o fato de que, por 21 meses, o BEA realizou três expedições em buscas dos destroços, sem sucesso. Ninguém duvida que encontrar um Airbus no fundo do mar seja uma tarefa hercúlea, mas o fato é: recomeçando do zero, uma empresa americana os encontrou em oito dias. Mais: fotos feitas por um satélite italiano no dia do acidente haviam identificado uma mancha de querosene no Atlântico na mesma posição em que agora foi localizada a aeronave. Estranho, muito estranho.
Não bastassem as dúvidas que procriaram na imprensa e entre familiares de vítimas, a Justiça da França também parece inclinada a questionar a inocência da Air France e da Airbus, ambas oficialmente investigadas por homicídio culposo.
Diante de tantas incertezas sobre as investigações do AF-447, há apenas uma alternativa à França: revelar a verdade, mesmo que prejudique temporariamente a imagem de símbolos da pujança econômica do país, como as duas gigantes aeronáuticas.
É preciso dizer que um passo muito positivo foi dado no sábado, com a localização dos destroços e a perspectiva de recuperação da caixas-pretas. Resta ao governo francês provar, agora, que a verdadeira caixa-preta perdida não é o próprio BEA.
* * *
Àqueles numerosos que me escreveram com demonstrações de solidariedade e palavras gentis quando de minha prisão na Líbia, meu muito, muito obrigado.
Andrei,
bem pertinente essa sua colocacao alinhavando interesses….mas, essa empresa americana foi contratada por quem? Se foi pela airbus ou outras envolvidas, menos mal, ne?
abc,
Olá, Sérgio. A empresa americana foi contratada pelo BEA, com dinheiro do governo francês, da Airbus e da Air France.
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