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Andrei Netto

L'Union européenne et le Fonds monétaire international ont accepté  de venir en aide à l'Irlande pour lui permettre de redresser ses comptes publics et de soutenir son secteur bancaire par un plan de sauvetage d'une durée de quatre ans (ici, un ouvrier passe devant un graffiti "FMI dehors" dans une rue de Dublin).

Foto: Reuters/ Cathal Mcnaughton

Na Irlanda, pesquisas de opinião e analistas políticos indicam que a maior parte da opinião pública não é contra o pacote de ajuda de € 85 bilhões, oferecido pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como vacina contra a bancarrota. Ainda assim, entre militantes de uma minoria nacionalista, que se diz “humilhada” e atingida em sua soberania, ecoa uma frase: “IMF get out”, a versão em inglês de um mantra bem conhecido dos brasileiros, o “Fora FMI”.

Entre janeiro e fevereiro, Atenas foi palco de greves, passeatas e confrontos violentos – inclusive com mortes. Entre setembro e outubro, Paris, Lyon e suas periferias incendiárias também assistiram a protestos e conflitos entre a polícia e manifestantes. Mas o 24 de novembro de 2010 talvez venha a marcar, no futuro, o início de uma insatisfação generalizada dos europeus contra as políticas de austeridade contra a crise das dívidas públicas.

Ontem, manifestações simultâneas e independentes deixaram quatro países em estado febril: na Irlanda, Grã-Bretanha, Itália e Portugal trabalhadores e estudantes foram às ruas contra as medidas de rigor adotadas pelos governos europeus – liberais e socialistas, diga-se. Até então, o fenômeno da insatisfação pública era menosprezado e atribuído aos gregos, “corruptos demais”, ou aos franceses, “mimados demais”. Agora, é cada vez mais difícil explicar por que os protestos tomam as ruas em países ordeiros e avessos a movimentos sociais, como a Inglaterra.

Há na Europa um temor crescente de que as medidas de socorro, como o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FESF), inventado pelos líderes políticos em Bruxelas para auxiliar a Grécia em maio, não sejam suficientes para aplacar o risco de falência de países periféricos, como Irlanda e Portugal, ou nada periféricos, como Espanha e Itália. Afinal, nem a rica e estável Europa pode seguir pagando empréstimos de € 110 bilhões ou € 85 bilhões para socorrer cada país da zona euro.

No mercado financeiro, assim como nas universidades, especialistas em macroeconomia se perguntam qual é a solução para a crise das dívidas. Muito se fala na implosão do euro e no renascimento das moedas nacionais, como o marco, o franco ou a lira. Mas essa alternativa, sustentam economistas como Daniel Cohen, especialista em reestruturação de dívidas e acadêmico da Escola de Economia de Paris, não é realista, porque ninguém na Europa está disposto a arriscar a desintegração da UE, um projeto político maior do que tudo: o de garantir a paz. Cohen e outros entendem que os planos de austeridade pecam em um ponto: implodem o que resta do Estado de bem-estar social no momento em que o desemprego explode, o que só tende a aprofundar o fosso da recessão. Sem crescimento, não há equilíbrio fiscal, afirmam esses especialistas.

Para eles, a União Europeia só tem uma alternativa: coordenar suas políticas macroeconômicas e alinhar estratégias fiscais. Em síntese: integrar-se cada vez mais. O entrave está nos palácios, onde governos como o de Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e David Cameron voltaram-se aos problemas internos sem entender o recado da crise: ou os países da Europa aceitam sua interdependência, ou serão cada vez mais dependentes do FMI.

* * *

PS – Aos que aguardam em silêncio e aos que têm externado seus pedidos de atualização do blog, aceitem desculpas sinceras. A escassez de posts é causada por minha tese de doutorado na Sorbonne, que está em fase decisiva. Dias melhores virão.

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Lula nas bancas de Paris: tributo

Lula nas bancas de Paris: tributo

A imprensa da França já começou a dar seu adeus a Luiz Inácio Lula da Silva. Considerado por muitos no país como um símbolo de mobilidade social – um problema grave na Europa, ainda que pouco debatido –, Lula caminha para seus últimos meses de mandato deixando a cena com uma popularidade elevada também no exterior, em que pesem todas as denúncias de corrupção contra seus dois governos.

Prova disso pode ser verificada nas bancas de jornais  de Paris. No intervalo de uma semana, três revistas de tiragem expressiva foram publicadas na França tendo como reportagem de capa o ex-metalúrgico que chegou à presidência. Depois de um número especial da revista Le Monde dedicado ao Brasil, sob o título sugestivo de “O gigante se impõe”, e de sua prima Manière de Voir, editada pelo grupo Le Monde Diplomatique, agora é a vez de Les InRocKuptibles focar sua atenção no chefe de Estado brasileiro.

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Misto de Time e Rolling Stone, a revista francesa dedica 10 páginas, além da capa, a um tema diretamente relacionado a Lula: “Brasil – O país em que a esquerda deu certo”, julga o texto. A publicação, claro, relembra os 80% de aprovação do petista, e tenta explicar esse fenômeno pelo olhar de seus fãs: trabalhadores, mulheres, pobres e companheiros que ajudaram a chegar ao poder e a manter-se nele durante oito anos. (Aliás, o fato de não ouvir seus detratores, apenas seus seguidores, explica a parcialidade da revista.)

Em editorial, Bernard Zekri, diretor de redação, sustenta a importância atribuída por sua revista à despedida de Lula do poder. “Ele deixa a presidência do Brasil em plena glória. Ele elevou seu país pela primeira vez ao nível de grande potência internacional e soube, coisa rara, organizar sua sucessão”, afirma Zekri, em tom deslumbrado. “Lula é, ao lado de Mandela, o único sucesso alcançado pela esquerda nos últimos anos.”

A revista enche suas páginas de méritos inegáveis do governo Lula, como a redução da desigualdade e da pobreza e a manutenção da ordem econômica que vem dando certo, mas traz pouquíssimas palavras sobre os escândalos de corrupção patrocinados pelos que continuam a aparelhar o Estado e a minar a credibilidade da classe política no Brasil.

Não espere, portanto, nenhuma palavra sobre Erenice Guerra, José Dirceu, Antônio Palocci, mensalão, caixa 2, dinheiro em cuecas, nada. A imprensa internacional segue elogiando o Brasil de Lula, a despeito de tudo.

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© SIPA

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A França será investigada pela União Europeia por violação do direito europeu de livre circulação de pessoas. O anúncio foi feito em Bruxelas pela comissária Europeia de Justiça, Viviane Reding (foto), em um pronunciamento enfático contra a política de expulsão de ciganos, romenos e búlgaros implementada pelo presidente Nicolas Sarkozy.

Segundo a comissária da UE, a medida viola o direito das minorias. “Jamais pensei que a Europa seria novamente testemunha deste gênero de situação após a Segunda Guerra Mundial”, afirmou a comissária. Admitindo estar “enraivecida”, Viviane deixou a diplomacia de lado e sentenciou o governo francês: “É uma vergonha”.

A reprimenda reforça os argumentos da oposição a Sarkozy, uma reação da UE à ilegalidade – em relação à legislação europeia – das medidas que marcam a guinada à extrema-direita do governo. Além disso, são um indício de que a política de deportações será levada à Corte Europeia de Direitos Humanos.

Na manhã desta quarta-feira (15), Luc Chatel, porta-voz do Palácio do Eliseu, demonstrou não entender o recado. Em desafio à Viviane Reding, Chatel classificou as declarações como “inaceitáveis”.

A história dirá quem tem razão.

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PS – Caros amigos, como muitos de vocês perceberam, estive ausente do blog. Não por descaso: foram questões importantes de ordem privada que me impediram de dedicar tempo a este espaço. Mas voltamos a conversar agora?

Ao Fábio, que me pediu novas informações sobre o Rafale, obrigado pela atenção. Vou escrever sobre um assunto correlato ainda hoje. Fábio, um abraço.

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A França espera receber a qualquer momento uma confirmação de Brasília sobre a compra dos 36 caças que equiparão a Força Aérea Brasileira (FAB). Depois dos constantes adiamentos, o Ministério da Defesa francês trabalha com a informação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dispõe de todos os estudos técnicos relativos ao Dassault Rafale e aos seus concorrentes, o norte-americano Boeing F-18 Super Hornet e o sueco Gripen NG, realizados pelo Ministério da Defesa brasileiro.

Segundo Hervé Morin, ministro da Defesa, a resposta é aguardada nas próximas duas semanas. “Eu espero tranquila e serenamente o anúncio ou a declaração do presidente Lula, que ele havia previsto para o mês de julho”, revelou.

Em 15 de maio, durante uma viagem da comitiva presidencial a Doha, no Catar, o ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, informou que na semana seguinte entregaria os documentos ao Palácio do Planalto. A partir de então, ficaria nas mão de Lula bater o martelo e encerrar a novela FX-2.

Sobre o desfecho do folhetim, Morin está certo de que a escolha do Brasil deve mesmo recair sobre a aeronave francesa, como o presidente Lula indicou em setembro de 2009. “O Brasil é um parceiro estratégico maior e decidiu de refazer suas forças armadas em especial com a indústria francesa”, afirmou.

Parte desse contrato, como revelou a reportagem de Roberto Godoy, publicada pelo Estado no domingo, já está em curso. Três dos 50 helicópteros EC-725, fabricados pela Eurocopteur/ Helibras e adquiridos pelo governo brasileiro para equipar o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, já estão em fase final de montagem.

O mesmo acontece com os submarinos Scorpène, que entraram em linha de montagem em um estaleiro do sul da França neste ano.

Falaremos mais sobre os negócios militares do Brasil e da França nos próximos dias.

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Ex-trader do banco Société Générale enfrenta acusações de falsificação, fraude em manipulação de dados e abuso de confiança; na França, processo vira símbolo do desvirtuamento do sistema financeiro


Reuters

Malandrinho: Jérôme Kerviel agora enfrenta a Justiça / Foto: Telegraph

Lembra do ex-trader do banco Société Générale Jérôme Kerviel, 33 anos? Pois ele está sentado no banco dos réus em Paris. A Justiça da França começou julgá-lo na tarde de terça-feira, dois anos e meio depois de o operador ter sido acusado pela instituição de causar um prejuízo avaliado em € 4,9 bilhões. Kerviel enfrenta acusações de abuso de confiança, falsificação e fraude em sistema informático e corre o risco de ser condenado a cinco anos de prisão e a pagar uma multa de € 375 mil.

Para refrescar a memória: Kerviel trabalhou no Société Générale entre setembro de 2005 e janeiro de 2008. Nesse período, chegou a perder no mercado financeiro € 6,4 bilhões em suas operações fraudulentas, mas o prejuízo acabou “reduzido” a € 4,9 bilhões em razão de um, digamos, “lucro” de € 1,4 bilhão localizado no sistema de dados do banco. Para dissimular suas apostas, Kerviel teria ludibriado a rede informática da instituição, maquiando estragos e alterando estatísticas sobre o volume de suas operações, de acordo com alegações do Société Général.

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O caso foi descoberto em janeiro de 2008 e chocou a opinião pública internacional. O rombo balançou a instituição, gerando temores de falência e acentuando rumores de fusão com concorrentes, o que não se confirmou. Nos meses que se seguiram, acionistas foram obrigados a participar de uma recapitalização de € 5 bilhões. Além disso, o até então todo poderoso Daniel Bouton, diretor-presidente da companhia, acabou levado a renunciar às suas funções.

Mais do que um buraco nas contas do banco, porém, o caso é encarado na França como um símbolo: o da desregulamentação excessiva do sistema financeiro. Os atos de Kerviel foram revelados em Paris meses após o início da crise dos subprimes, os créditos imobiliários de alto risco negociados nos Estados Unidos, e o crash do banco de investimentos Lehman Brothers. O julgamento é visto como uma oportunidade de a Justiça desvendar algumas das práticas obscuras das bolsas de valores.

A grande questão do julgamento é como um funcionário de importância mediana, que em 2007 somou € 48,5 mil em salários, poderia perder € 2,5 bilhões no mesmo ano sem ser desmascarado. Outra questão é por que a empresa teria ignorado os 74 alertas do sistema sobre operações atípicas relacionadas ao trabalho do trader.

Kerviel vem alegando que não poderia ter agido sem o conhecimento de seus cinco chefes. “Em uma mesa de trading, estamos todos a 50 centímetros uns dos outros. Tudo se vê e tudo se escuta”, alegou em seu depoimento, dizendo-se embalado por “encorajamentos diários dos superiores”. O mesmo argumento foi usado pelo advogado de defesa, Olivier Metzner. Além de um discurso conspiratório, a defesa afirma deter documentos que provariam que as operações de Kerviel eram de conhecimento do banco. A conferir.

Mas mesmo que não tenha documento nenhum, o discurso de Metzner por vezes faz pensar. Diz ele: “Não é um homem o responsável, mas um sistema. Este homem que comparece diante do tribunal é um peão que foi usado, do qual se tirou benefícios e o qual foi descartado quando não se tinha mais necessidade.”

Jean Veil, advogado do Société Générale, reconhece que alguns mecanismos de controle interno das movimentações financeiras “pecaram por uma certa falha de transversalidade”, mas atribui as perdas à ação de Kerviel. “Os alertas funcionaram”, sustenta Veil. “São as mentiras e as falsidades forjadas por Kerviel que enganaram os funcionários do Société Générale. E vamos demonstrar isso.”

Ver para crer.

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Dentre tantas questões a serem analisadas pela Justiça, eu, pessoalmente, gostaria de ter a resposta para uma. Os bancos exageraram, para dizer o mínimo, certo? Para socorrê-los, os Estados absorveram o custo brutal da estabilização do sistema financeiro. Resultado: endividaram-se como nunca. Agora, apelam ao rigor fiscal, cortando “gastos” públicos, investimentos, etc.

Pergunta: quem, em última análise, começa a pagar a fatura?

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Programa de rigor visa a corrigir deriva das contas públicas do país; Europa desconfia que alarmismo em Budapeste é estratégica política do novo governo

PHOTO: REUTERS

O novo primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban: discurso alarmista / Foto: Reuters

A Hungria também deve anunciar hoje, em Budapeste, a criação de um programa de austeridade para limitar o déficit público do país a 3,8% do PIB neste ano. A expectativa é de que, ao reduzir as despesas do Estado, o governo relance o crescimento e contenha o ritmo de desvalorização do florim, cujo valor caiu 5,5% em 24 horas após as declarações de líderes políticos sobre o “risco de falência” do país.

A confirmação de que a Hungria vai aderir à tendência de austeridade dos governos europeus foi feita ontem pelo ministro da Economia, Gyorgy Matolcsy. Sem apresentar detalhes do plano, o executivo deu pistas: “As economias nas despesas orçamentárias virão da redução da burocracia, que virá com o relançamento dos investimentos e de uma aceleração dos repasses oriundos dos fundos comunitários”.

O compromisso assumido pelo governo é de evitar que a Hungria atravesse uma crise de confiança nos mercados financeiros similar à enfrentada pela Grécia desde o início do ano. Esse risco nasceu na semana passada, quando Lajos Kosa, vice-presidente do Fidesz, partido conservador que dá sustentação ao novo governo, afirmou que as estatísticas macroeconômicas do país poderiam ter sido maquiadas pelo governo anterior, e que o déficit atingiria 7% a 7,5% neste ano. “A situação da Hungria era comparável à da Grécia”, afirmou Kosa, desencadeando uma nova onda de instabilidade nos mercados financeiros.

O alarmismo das autoridades húngaras em relação ao estado das contas do país, entretanto, provoca suspeitas na Europa Ocidental. A desconfiança é de que as declarações tinham como objetivo desviar a atenção da opinião pública húngara para o irrealismo do programa de governo do novo primeiro-ministro, Viktor Orban. Ao denunciar os excessos dos antecessores, o premiê teria liberdade para adiar promessas de campanha e cortar despesas.

As suspeitas são reforçadas pelo estado razoável das finanças públicas do país, que em 2009 chegou a dispensar a primeira parcela do empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI), contraído após o crash do banco Lehman Brothers, em 2008. Ontem, dirigentes da União Europeia e do FMI minimizaram em público os temores despertados pelo governo húngaro. Questionado sobre o tema, o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, afirmou que não há “nenhum elemento particularmente inquietante” na Europa neste momento. “ Em breve, as pessoas voltarão à realidade dos números”, estimou. “A pressão colocada sobre a situação europeia foi provavelmente exagerada.”

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Em um de seus mais recentes e provocativos textos publicados no jornal Le Figaro, “Vous avez dit crise ?” (no link, o original em francês), o sociólogo francês Michel Maffesoli, professor da Sorbonne, questiona o impacto concreto da turbulência econômica na vida real e nas relações sociais. Para explicar sua tese, ele recorre aos dicionários de etimologia, usando o significado original da palavra crise. Diz ele: “A crise se refere a uma mutação mais profunda da qual ela é o sinal. A crise é como um índice (index) de que há metamorfose no ar”.

Estou citando Maffesoli porque quero usar sua definição.

Ninguém em Paris, Londres, Madri e, imagino, Berlim, tem mais dúvidas de que a crise pela qual a União Europeia atravessa é a maior de seus 60 anos de história. Não me refiro apenas ao ponto de vista econômico, à pane de credibilidade causada nos mercados financeiros pela, digamos, “descoberta” de déficits e dívidas espantosas na Grécia, em Portugal, na Espanha e agora na Hungria.

A turbulência na Europa é também política. O momento é delicado porque a máquina que empurra a integração da Europa à frente, a união dos interesses da Alemanha e da França, está travada há algum tempo. Sejamos claros: Angela Merkel não queria participar de planos de salvamento do sistema financeiro em 2008, nem adotar estímulos fiscais em 2009, tampouco usar dinheiro do contribuinte alemão para auxiliar os vizinhos do Mediterrâneo, laxistas demais, na ótica germânica, em 2010. Essa prudência alemã, confrontada ao voluntarismo francês, cria uma divergência que emperra a prevenção e a solução de problemas, como ocorreu na Grécia.

Mas a crise da União Europeia e da zona euro está se mostrando, também, um momento de metamorfose. Explico: em setembro de 2008, dias após a falência do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, empunhou pela primeira vez a bandeira de uma “governança econômica comum” da zona euro. Trocando em miúdos, governança comum quer dizer gestão coordenada de políticas macroeconômicas, orçamentos, políticas fiscais, entre outros pontos. À época, este projeto não foi à frente porque a Alemanha de Angela Merkel não pretendia partilhar mais poderes com os vizinhos europeus, muito menos transferir decisões sobre a tão eficiente economia germânica para Bruxelas. Em tempos de paz política e de calmaria econômica, o nascimento de um “governo econômico comum” tinha o futuro de uma utopia.

Vinte e um meses depois, a violenta crise de credibilidade está obrigando a União Europeia a adaptar-se, e esta metamorfose está em curso. Ao aprovarem o pacote de € 750 bilhões, entre empréstimos e garantias bancárias, no mês passado, os 27 governos europeus lançaram as bases do que virá a ser, cedo ou tarde, o Fundo Monetário Europeu. O próximo passo será a criação, nos próximos dias 17 e 18 de junho, em Bruxelas, de um governo econômico comum, sob a guarda do presidente da UE, o belga Herman Van Rompuy. A esse mecanismo caberão tarefas como supervisionar e homologar os orçamentos nacionais, de forma a garantir o cumprimento do Pacto de Estabilidade, a fixação de sanções para governos que não respeitarem as metas, o aumento da vigilância sobre as estatísticas macroeconômicas nacionais e o reequilíbrio da competitividade entre países do bloco.

Nenhum destes projetos será concretizado sem inúmeras reuniões de discussões, desentendimentos e idas e vindas – como sempre acontece na UE. Mas, no fim, eles deverão ser aprovados, em um pacote de regras que representará um salto na integração econômica do bloco. Pressionada pela crise, a Europa fará a sua metamorfose.

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Imagens: Divulgação/ Mairie de ParisA prefeitura de Paris deu mais um passo nesta quarta-feira, 15, para limitar o trânsito de automóveis na capital francesa e privilegiar o transporte coletivo, estimular o uso do sistema de bicicletas públicas – o Vélib – e, sobretudo, reforçar os vínculos sociais na cidade. Uma das principais artérias do tráfego, a freeway à margem do Sena, será em grande parte fechada aos automóveis a partir de 2012.

O projeto, que visa a “reduzir o espaço dos veículos” e “lutar contra a poluição”, foi apresentado ontem pelo prefeito Bertrand Delanoë. A experiência já é implementada aos domingos, mas será estendida a todos os dias da semana. No lugar de asfalto e dos 40 mil carros que cortam todos os dias a cidade pela autoestrada urbana, surgirá um boulevard com bancos, jardins arborizados, ciclovias, pista de cooper, quadras esportivas, um cinema ao ar livre e até ilhas artificiais sobre o Sena, que se situarão nas imediações de Concorde, no coração da cidade.

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As reformas custarão € 40 milhões, além de € 2 milhões anuais em manutenção.

O efeito colateral: segundo engenheiros de tráfego da prefeitura, a travessia de Leste a Oeste da Capital será realizada em 37 minutos, e não mais em 31. O projeto já enfrenta duras críticas – inevitáveis na França – porque tende a aumentar ainda mais os já asfixiantes congestionamentos na cidade, também perturbada pela escassez de vagas para estacionamento. Não bastasse, deve multiplicar o fluxo de passageiros sobre as 14 linhas de metrô e as quatro de trens metropolitanos, várias delas já saturadas.
Construção da vida rápida em 1964: outra época

Construção da vida rápida em 1964: outra época

Mesmo com a resistência, a iniciativa deve seguir seu trajeto até a implantação, caso seja aprovada no Conselho Municipal, parlamento equivalente às câmaras de vereadores no Brasil. A ideia de aumentar os espaços de convívio público e estimular o transporte coletivo faz parte de um processo mais longo de retirada dos automóveis do âmago do transporte de Paris. Nos últimos 10 anos, o número de imatriculações 75 – o número que consta nas placas dos carros da capital – caiu 20%.

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Youtube

Youtube

A rede pública de emissoras de TV France Télévisions revelou, na noite de segunda-feira, as imagens de dois jornalistas da empresa sequestrados no Afeganistão. Hervé Ghesquière e Stéphane Taponier estão cativos desde 29 de dezembro, quando foram capturados por terroristas talibãs em uma estrada do norte do país. Depois de quase quatro meses de detenção, a direção da emissora concordou em revelar as fotografias das duas vítimas, logo após o envio de uma fita na qual o grupo terrorista faz exigências em troca da liberação de ambos.

A decisão de tornar públicas as identidades dos repórteres abriu uma polêmica na França e foi tomada porque a sua divulgação em uma emissora de TV do país era uma das exigências dos sequestradores. Na gravação, enviada a diferentes redes na Europa e nos Estados Unidos, os dois jornalistas afirmam que esta é a última chance de saírem do cativeiro com vida. “Faz três meses que somos reféns e os talibãs me pedem que envie essa mensagem”, afirmou Ghesquière na gravação. “Eles querem que todas as suas exigências sejam satisfeitas.”

AFP

AFP

A ameaça levou France Télévision a mudar de estratégia, unindo-se ao desejo das famílias e contrariando o pedido do governo francês, que pedia discrição à emissora para facilitar a negociação. Desde que os dois repórteres perderam contato com seus editores em Paris, a rede não havia divulgado nem os nomes, nem imagens dos dois jornalistas. Na noite de segunda-feira, porém, o extrato do vídeo, no qual os rostos de ambos é deturpado por computador, foi veiculado em telejornais dos dois principais canais da emissora, France 2 e France 3.

O caso abriu uma discussão ética na empresa. “Contra o parecer de toda a redação, a presidência de France Télévisions decidiu tornar fluidas as imagens dos rostos e proibiu a difusão de uma reportagem que apresentava nossos dois colegas antes de seu sequestro”, esclareceu o apresentador de France 3 Laurent Bignolas. “Os jornalistas e funcionários de France 3 estão conscientes que a difusão do vídeo é uma chantagem da parte dos sequestradores de Hervé e Stéphane e a condenam, mas, face à ameaça que pesa sobre suas vidas, julgamos necessário difundi-las.”

Ontem, a organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) defendeu a decisão dos jornalistas da emissora. “Estamos terrivelmente inquietos por este vídeo. É a primeira vez que os talibãs falam em ultimato e em risco iminente de morte”, lembrou Jean-François Julliard, diretor da RSF, em entrevista à rádio France Info. “Hoje é impossível não divulgar este vídeo, alguns extratos ou um relato sobre seu conteúdo.”

Diretamente implicado na guerra ao Talibã no Afeganistão – o país tem o quarto maior efetivo da força aliada que luta no país –, o governo francês não revela informações sobre o caso. Mas a divulgação das identidades aumentou a pressão sobre o Palácio do Eliseu, cada vez mais constrangido a negociar com os radicais muçulmanos, que exigem em troca dos reféns a libertação de talibãs presos na Europa e nos EUA. Se em um primeiro momento, o governo francês tentou jogar a responsabilidade sobre os jornalistas, falando em “imprudência culpável”, a postura agora é outra. De Washington, Sarkozy – ainda em seu mais baixo nível de popularidade – garantiu: “Nós não mediremos esforços para tirá-los da situação em que se encontram”.

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BLOOMBERG NEWS-MAXPPP

BLOOMBERG NEWS-MAXPPP

Apostar contra a Grécia deixou de ser apenas um exercício cotidiano nos mercados financeiros da Europa. Passou a ser, também, uma prática corrente de analistas econômicos. Uma dessas avaliações me foi enviada há alguns dias por email. Título: “Greece will default, but not this year”. Seu autor, Wolfgang Münchau, o escreve para o Financial Times, de Londres, que o publicou o texto em 4 de abril. Um extrato:

“I am willing to risk two predictions. The first is that Greece will not default this year. The second is that Greece will default.”

Münchau não apenas aposta que a Grécia não irá à falência agora, como tem certeza de que irá no futuro. Para evitá-la, o autor indica que Atenas teria quatro opções. A segunda delas, afirma, seria contar com taxas de juros mais baixas em eventuais empréstimos da UE e do FMI. Logo abaixo, o próprio Münchau descarta a hipótese, argumentando: “The EU has in effect ruled out the second”.

Considero a análise de Münchau excelente e não descarto que o tempo lhe dê razão. Já li algumas previsões no mesmo sentido, amparadas em diferentes razões técnicas. Uma delas saiu na Economist da semana passada, se não estou enganado.

Só vejo na interpretação de Münchau um problema, na realidade recorrente nas interpretações econômicas que tenho lido sobre o tema: é tecnicista ao extremo. Münchau menospreza a influência da intervenção política, um dado não objetivo da crise, mas decisivo. Um exemplo prosaico: não é porque a Alemanha, diante de uma opinião pública adversa e de um pleito regional próximo, oficialmente se nega a pagar a conta da estabilidade da zona euro, que não o fará se necessário. Uma coisa é seu discurso; outra, sua prática.

No domingo, 11, Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro de Luxemburgo e presidente do Eurogrupo – formado pelos 16 ministros de Finanças da zona euro –, anunciou em Bruxelas um plano de € 40 bilhões, entre recursos da UE e do FMI, para reestruturação da dívida grega. Detalhe: com juros abaixo dos praticados pelo mercado.

Alemanha e França são os pilares da zona euro e da União Europeia. Por trás do mercado único e da integração monetária, há uma estratégia geopolítica de longo prazo, que representa a sobrevivência das potências médias do continente. Só reunidos, esses países terão como afirmar sua voz em um mundo globalizado e transformado pela ascensão da China. Por essa razão, entre outras, na minha modestíssima avaliação dos acontecimentos, a Europa não permitirá a falência da Grécia. Nem da Grécia, nem de Portugal, nem da Espanha, nem de ninguém. O default seria a implosão de um projeto político, que é maior do que um crise econômica séria, mas conjuntural.

A Grécia vai continuar a comer o pão que o diabo amassou nos próximos cinco anos. Vai enfrentar a deflação, saída “recomendada” pela Comissão Europeia e pelo FMI para contornar a crise, e vai ficar mais pobre. Mas – é minha vez de apostar – não vai falir. Vai ficar lá, de castigo, no cantinho da União Europeia e da zona euro, servindo de exemplo.

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