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Andrei Netto

Tinha prometido pelo Facebook incluir no meu blog a íntegra de duas entrevistas a respeito da depressão na Grécia, cujos principais trechos haviam sido publicados nas edições de sábado e domingo. Abaixo segue a primeira delas.

ENTREVISTA Panayotis Genimatas, presidente de honra do Banco Europeu de Investimentos (BEI)

“A Grécia precisa de uma moratória de cinco anos”

Economista, historiador e filósofo grego que recusou a presidência da República há dois anos se diz arrasado com a crise; “Precisamos de um novo país”, entende  

Andrei Netto

ENVIADO ESPECIAL / ANTENAS

Em meio à crise econômica e política na Grécia, que transforma-se dia a dia em crise social, são poucas as personalidades políticas que mantém algum fio de credibilidade junto à opinião pública. Panayotis Genimatas, economista, historiador e filósofo, presidente de honra do Banco Europeu de Investimentos (BEI) é um desses homens. Ele é uma das personalidades políticas e econômicas mais respeitadas do país, tendo sido cogitado para ser presidente em junho de 2009, quando recusou brigar pelo cargo, decepcionado – também – com a classe política. Em entrevista exclusiva ao Estado, ontem, em Atenas, Genimatas se mostrou emocionado e arrasado com o que vê nas ruas de sua capital. Em tom fatalista, afirmou que a Grécia não tem opção: precisa de cinco anos de moratória – e do apoio internacional para permanecer na zona do euro.

Há dois anos a Grécia está mergulhada em um esforço internacional para sair da crise. Por que esse esforço não funciona? Por que as medidas de austeridade não trazem resultado?

A sua pergunta é muito complexa. Como historiador e filósofo teria de refletir se não se trata de uma incapacidade imanente do governo grego, ou da sociedade grega, que nos impede de ir adiante e reformar profundamente o Estado, refundando-o. Como banqueiro, acredito que seja na essência um problema do sistema político da Grécia, que nunca demonstrou capacidade de completar o plano de convergência total, pré-requisito para o ingresso na União Europeia, há 10 anos. Nesse ínterim, tivemos os Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas, que nos custaram caro e que foram pagos com a contratação de dívidas. Finalmente, a partir de 2007 houve uma deriva fiscal na Grécia com a conivência da Comissão Europeia, comandada por seu presidente, José Manuel Durão Barroso, e pelo comissário de Finanças, Joaquin Almunia. Deveríamos estar em austeridade entre 2007 e 2009, mas não fizemos nosso trabalho, nem fomos exortados a fazê-lo.

Após esse período, com a posse de George Papandreou descobriu-se a mentira e a verdadeira dimensão do déficit e da dívida, com a explosão da crise das dívidas soberanas na Grécia. Mas pouco mudou. Por quê?

O primeiro-ministro da época não estava à altura do desafio, e o que se produziu foi uma incapacidade de gerenciamento da dívida. Mas desde sempre a nomenclatura política da Grécia não quer proceder à reforma do Estado. Além disso, a culpa precisa ser repartida com a troica – como são chamados os experts da União Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ela faz uma abordagem primária, com as mesmas receitas aplicadas sem sucesso no passado. Não são planos complexos o suficiente para lidar com economias complexas.

No entanto o Parlamento aprovou novas medidas de austeridade exigidas pela troica no domingo. O senhor acredita que ele pode encaminhar a solução?

Não. Desde domingo tornou-se impossível acreditar que qualquer plano de austeridade pode significar uma saída da crise. Vamos gastar muito tempo para recuperar e reconstruir o sistema político, para só então adotarmos planos de austeridade credíveis – e que tenham outra natureza além de cortes e cortes.

Então o senhor é contra o corte de 22% do salário mínimo, por exemplo?

Sou contrário, é claro. A troica faz uma abordagem errada da falta de competitividade da Grécia. O custo do salário mínimo não é nem de longe seu principal fator.

Pelo que vejo, o senhor acredita que é impossível escapar da moratória.

É impossível escapar da moratória. Mas ela precisa ocorrer dentro da União Europeia, com a revisão total dos planos de austeridade, que precisam levar em conta pelo menos três elementos: a inevitabilidade da moratória em si, a manutenção da Grécia na zona do euro e a revisão da austeridade, com ênfase no reestabelecimento das funções do Estado. Caso contrário, nenhum plano de austeridade será implantado. Precisamos de um grupo de experts que possa encaminhar a reforma de nossas instituições.

Mas é possível declarar moratória e permanecer no euro?

A Grécia deve permanecer na zona do euro. A população acredita nessa ideia. A União Europeia precisa entender isso. E você pode nos ajudar a fazê-los entender.

E como será após a moratória?

O ano de 2013 será catastrófico. Teremos 25% a mais de desemprego, falências em massa, produção industrial em queda livre e reação social imprevisível. Todas as previsões da troica, que estão muito longe do realismo, se mostrarão equivocadas. A situação vai piorar muito e todos os prognósticos serão mais dramáticos na realidade. Para sair disso, precisaremos de uma moratória de cinco anos, com convergência fiscal e reestruturação total. Mais: precisaremos de um novo Estado, de um novo país.

O senhor está entre os que estão inconformados com a postura da Alemanha e de sua chanceler, Angela Merkel, nessa crise?

Pertenço à minoria dos gregos que considera a abordagem da Alemanha pertinente e criativa, em especial sobre insistir na consolidação fiscal na Europa. São os alemães que estão perdendo tempo conosco, não o contrário.

Os gregos se mostram abalados pela crise. Como o senhor se sente?

Eu estou em uma situação pessoal deprimente. Vivo uma decepção política sem fim, porque faço parte de uma geração que trazia consigo o sonho europeu. Agora, precisamos da solidariedade internacional para nos mantermos na zona do euro e na União Europeia.

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Tinha prometido pelo Facebook incluir no meu blog a íntegra de duas entrevistas a respeito da depressão na Grécia, cujos principais trechos haviam sido publicados nas edições de sábado e domingo. Aí está a segunda delas.

ENTREVISTA Miranda Xafa, economia grega, membro da Direção Executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI)

“É preciso cortar a renda das pessoas. É triste, mas necessário”

Grécia precisa passar por reformas do Estado e por choque no consumo para recuperar a competitividade, diz representante do fundo  

Andrei Netto

ENVIADO ESPECIAL / ANTENAS

Quando intervém em diferentes países, sempre em momentos de crise econômica aguda, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aplica uma receita própria, com dois ângulos de ataque. O primeiro é a austeridade, que tem o objetivo de reduzir gastos públicos, cortar déficit em curto prazo e, em médio, reverter a tendência de alta das dívidas soberanas. O segundo ângulo é a reforma da economia visando à melhoria de sua competitividade. Este ponto gera as maiores repercussões diretas na opinião pública, como a redução brutal do consumo por meio do corte da renda – ou seja, pelo empobrecimento.

A explicação é de Miranda Xafa, economista e membro da Direção Executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI), especialista em Grécia, Itália e Portugal. Na cúpula da instituição, ela defende com veemência todas essas medidas para enfrentar a crise das dívidas soberanas em seu país, a Grécia. Para ela, cortes como o de 22% do salário mínimo, que gerou a explosão de violência do último domingo, em Atenas, são “tristes, mas necessários”.

PhD em Economia pela Universidade da Pensilvânia, Miranda se define como liberal alinhada às teorias de Joseph Schumpeter – o homem que desenvolveu, entre outros conceitos, o de “destruição criativa”. Seu discurso é duro. Para ela, a Grécia deve abrir mão de novas eleições em abril, demitir ministros, formar um governo tecnocrata dirigido pelo atual premiê, Lucas Papademos, ceder em sua soberania e implementar à risca todas as instruções do FMI, da União Europeia e do Banco Central Europeu (BCE). Caso contrário, entrará em default e terá de abandonar a zona do euro. A adoção do dracma quebrará o sistema financeiro e a desvalorização da nova moeda fará a dívida explodir, assim como a inflação. Ou seja: é o FMI ou o caos, diz Miranda em entrevista exclusiva ao Estado, concedida em seu apartamento, situado no bairro chique de Kolonaki, em Atenas.

A senhora acredita que há alguma saída para a Grécia além da reestruturação voluntária que vem sendo negociada com os credores privados?

Não, não creio. A única alternativa seria um default caótico e a saída da zona do euro. Por mais que essas medidas previstas no memorando de acordo sejam duras, elas são muito melhores do que as alternativas que temos.

Mas muitos experts acreditam que, mesmo com a negociação com os credores, a Grécia pode vir a declarar default.

Sim, é verdade. Mas é preciso ter em mente que o memorando para o corte das dívidas – o Private Sector Involvement (PSI) – é uma das medidas para evitar o default. Ele é um pré-requisito para o segundo pacote de austeridade da UE e do FMI, de € 130 bilhões, que por sua vez é pré-requisito para o PSI. Ambos estão atrelados. Afinal, os credores oficiais, públicos, também devem contribuir com € 30 bilhões ao PSI. E eles só contribuirão se a Grécia concordar em adotar um certo número de medidas para reduzir seu déficit fiscal e melhorar sua competitividade.

Permita-me insistir nesse ponto: economistas gregos e estrangeiros acreditam que nem mesmo essa conjunção de corte voluntário da dívida e de novo socorro pode evitar o default desordenado, até porque falta consenso político.

O Parlamento já votou e aprovou novas medidas de austeridade no último domingo. Basta que o governo da Grécia se esforce na implementação dessas medidas. Muitos experts duvidam da intenção da administração grega de levar a cabo as medidas aprovadas pelo parlamento, porque haverá eleições em abril. Eles têm razão em se preocupar, porque antes de eleições nada funciona na Grécia. O gabinete estará em campanha e todos duvidam que os ministros estarão em seus escritórios agindo em favor dos cortes necessários, implementando o memorando. Este é o motivo pelo qual Wolfgang Schäuble, ministro de Finanças da Alemanha, afirmou nesta semana que o modelo Monti, na Itália, talvez seja algo que os gregos deveriam considerar: um governo pequeno e tecnocrático, que consista em técnicos, e não em políticos profissionais. As mesmas pessoas que fracassaram na implementação do primeiro memorando continuam no comando, e agora prometem cumprir o segundo. É claro que essa situação vai levantar dúvidas.

Para a comunidade internacional, Lucas Papademos, o atual primeiro-ministro, já é o tecnocrata que a senhora menciona.

Sim, ele o é. Mas seu gabinete não. Seu gabinete consiste de 49 pessoas, a ampla maioria de políticos profissionais que ele herdou do governo anterior.

A senhora não vê nisso uma intervenção na soberania política da Grécia?

Sim, é uma intervenção. Mas do jeito como as coisas estão indo, é necessário haver algumas intervenções estrangeiras.

Qual é o seu balaço sobre as medidas de austeridade que já foram implantadas?

Penso que nos últimos dois anos, quando o primeiro memorando foi assinado, houve cortes exagerados em salários e pensões, em 10% a 15% além do que se deveria, mas as instruções que o governo recebeu não foram implementadas. Vou dar um exemplo: no setor público grego, os funcionários ganham mais do que na França. Têm emprego por toda a vida, e ganham mais. Isso é uma anomalia, em especial em empresas e entidades públicas. Em lugar de analisar as estruturas e distorções do poder público e racionalizá-las, eliminando as discrepâncias entre os setores público e privado, o governo cortou salários de forma indiscriminada. Isso não é justo, porque pessoas que recebem pensões muito baixas tiveram o mesmo percentual de corte de salários de quem trabalha em empresas públicas e que são beneficiadas por pensões três vezes maiores do que se paga no setor privado. Esse é um ponto muito importante para entender o que se passa na Grécia: em todo programa de cortes é importante que as medidas de austeridade sejam justas, o que não é o caso atual. A razão pela qual o governo não mexe nesses salários, é o clientelismo, que explica os benefícios tão generosos para alguns. Esse é um primeiro ponto.

E qual é o segundo?

O segundo ponto são as reformas estruturais. As reformas no mercado de trabalho, para torná-lo mais flexível, não foram feitas. A remoção dos obstáculos para o empreendedorismo, para a criação de empresas, também não foi feita. Nada disso avançou. O problema é que agora a Grécia continua com déficits gêmeos, fiscal e externo, de cerca de € 20 bilhões por ano, ou 10% do PIB. Com a implantação correta das medidas, esse buraco será reduzido até a extinção, associando reformas estruturais e cortes no consumo. O corte de consumo é inevitável em uma economia que gastou demais por décadas. É triste, mas inevitável que haja uma recessão, e profunda. Se tivéssemos começado as reformas mais cedo, o output teria sido mais rápido. Por isso estamos onde estamos e por isso o desemprego chega a 20%. Nunca é tarde demais, mas precisamos enfrentar essa fadiga dos ajustes, porque agora as pessoas estão apelando para que os reduzamos. Os dois anos de austeridade criaram problemas sociais.

A senhora diz que os cortes salariais precisariam ter sido mais justos, e não indiscriminados. Mas agora o FMI e a UE impõem um corte geral no salário mínimo de 22%, que chega a 32% para jovens. Essa medida é justa?

Mas é melhor do que ficar desempregado. O salário mínimo aqui era maior do que em Portugal ou na Espanha e não há razão para isso. A Grécia ingressou na zona do euro acreditando que poderia imediatamente elevar seu padrão de vida, aproximando-se da média dos países da zona do euro. Mas isso causou perdas de competitividade e inflação consideráveis. Há certas leis econômicas que não podem ser burladas: não se pode pagar acima do que o valor produzido. Foi isso que aconteceu na Grécia. Agora está havendo um ajuste, para que o país retorne ao lugar em que estava no início.

Como brasileiro e tendo nascido nos anos 70, tenho a impressão de que as medidas adotadas na Grécia são muito similares à receita que o FMI aplicou no Brasil nos anos 80 e 90. A senhora diria que são similares?

Sim, são similares. Mas aqui há uma ênfase maior nas reformas estruturais. No memorando há um acordo para que reformemos o tipo de economia soviética que predominava aqui desde os anos 1990. Porque era assim que o Estado se parecia na Grécia, com intervenções governamentais por todo lado. O governo determina remunerações mínimas, margens apropriadas de lucro, controla até as licenças para a produção de caminhões. Tudo isso abala a competitividade do país. O custo para produzir alimentos na Grécia é maior do que para produzir na Bélgica, um país que não tem nem o potencial de luz natural da Grécia. Esse é um exemplo de área na qual o governo buscava justificativas para intervir no passado.

Ainda sobre os planos do FMI no Brasil: nos anos 80, as medidas de austeridade pregadas pelo fundo não funcionaram. O que a faz crer que hoje, 20 anos depois, a mesma solução poderia funcionar na Grécia?

Mas por que as medidas não funcionaram no Brasil? Talvez porque vocês também não as implementaram. É claro que não podem funcionar se não são aplicadas.

Isso não mostra que há variáveis políticas e culturais em planos de austeridade que deveriam ser consideradas pelo fundo? Talvez estendendo o intervalo de reformas, reduzindo a violência do arrocho ou estimulando medidas de crescimento, por exemplo.

Se estender o prazo das reformas, você acumula dívida no intervalo. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio para não ir tão rápido que se leve uma economia a mergulhar na depressão, nem tão lento para que a dívida acumule. Eu creio que a troica (UE, BCE e FMI) soube encontrar o bom balanço no caso da Grécia.

Mas já não se trata de uma depressão o que se passa na Grécia? Ao final de 2012, o PIB do país terá decrescido 20% em cinco anos.

Sim. No ano passado foram 6,5% de recessão do PIB. Mas era inevitável. Estávamos em um ponto de gastos públicos em que é necessário recuar até outro patamar bem menos elevado. Como se faz isso? Para reduzir o consumo, é preciso cortar a renda das pessoas. É triste, mas necessário. Não há outra forma de chegarmos a isso.

Com tantas variáveis políticas e desobediência aos memorandos, a senhora acredita que a Grécia vai conseguir permanecer na zona do euro?

Eu espero muito que sim. Se implementarem o programa, vamos permanecer. Se não implementarem, haverá um default desorganizado, o BCE vai se retirar e não haverá mais financiamento ao sistema bancário e isso será o fim.

O fim de quê?

O fim da participação da Grécia na zona do euro. Todo país precisa de uma moeda e a Grécia terá de imprimir dracmas.

Esse cenário é um fim ou um começo? Muitos economias, como Nouriel Roubini, creem que é um começo.

É um fim. Eu não concordo com Roubini. Primeiro porque, com o ajuste do FMI, o encontro das contas é paulatino. Sem, é um tombo. Um déficit de € 20 bilhões será corrigido em um dia, porque não haverá mais dinheiro e ninguém vai financiar a economia grega. Vai haver falta de recursos em todos os setores: petróleo, remédios, alimentos. As pessoas correrão para retirar seu dinheiro. Elas já o estão fazendo: os bancos gregos perderam mais de 30% de seus depósitos desde o início da crise. E se houver default não vai haver nem euros, nem dracmas. O governo terá de congelar os depósitos, como aconteceu na Argentina.

É um cenário caótico.

Sim, é um cenário caótico. Por isso é preciso evitá-lo.

Na Argentina, isso representou a queda de um governo, mas também um recomeço. Não foi bom para o país, mas ele retomou o crescimento após.

A Argentina recomeçou porque teve um boom de commodities. O default da Argentina foi em 2001 e então aconteceu a depreciação em relação ao dólar. Logo depois, houve o boom das matérias-primas, o que permitiu a recuperação do país, que é um exportador de commodities. A Grécia não é um exportador de matérias-primas. Não se pode esperar sair por esse caminho.

Mas com a desvalorização, a economia da Grécia ganharia competitividade em diversos setores, inclusive no turismo, a maior indústria do país. Não seria um estímulo para a economia?

Sim, mas olhe a Argentina: ela tem 20%, 25% de inflação desde que voltaram ao peso. Por que você acredita que algum ganho gerado pela desvalorização seria preservado? Ele será erodido pela inflação. Imprimir dracmas será imprimir inflação.

Considerando ambos os cenários, político e econômico, a senhora está otimista ou pessimista sobre o futuro da Grécia?

Eu acredito que haverá um período de recessão, certamente de mais de um ano. Esperemos que a Grécia retornará mais forte desse período, mais competitiva. Será um processo gradual.

Nas ruas, está claro que a população grega precisa de uma perspectiva concreta, uma esperança a respeito de quando sairá da depressão.

Não posso precisar em que mês vai acontecer. Será doloroso, mas haverá uma saída.

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Incêndio no condomínio Carpet Right, centro de Tottenham, na madrugada de domingo, 7 de agosto

ENTREVISTA:

MICHAEL ROSIE E HUGO GORRINGE

SOCIÓLOGOS DA UNIVERSIDADE DE EDIMBURGO

Neste domingo, a edição impressa de O Estado de S. Paulo publica uma reportagem especial sobre os distúrbios em Londres e na periferia de grandes cidade britânicas. Esses distúrbios deixaram cinco mortos e um prejuízo avaliado em centenas de milhões de libras – valor que será ressarcido às vítimas pelo Estado e pelo contribuinte britânico.

Os tumultos, comparáveis em muitos aspectos aos ocorridos nos subúrbios de Paris em 2005 e 2006, despertaram a ira da opinião pública, da imprensa e, sobretudo, da classe polícia sobre a criminalidade, o imoralismo e a irresponsabilidade da juventude do país. Um perigoso consenso se consolidou entre muitos formadores de opinião: o de que a violência não teve outra origem que não a agressividade e a perdição dos jovens de periferia.

Em entrevista realizada na última sexta-feira, o Estado ouviu dois sociólogos britânicos, Michael Rosie e Hugo Gorringe, ambos da Universidade de Edimburgo, para buscar o contraponto. Especialistas na pesquisa dos subúrbios da Europa, Rosie e Gorringe têm diagnósticos bem diferentes daqueles brandidos pelo primeiro-ministro, David Cameron, no Parlamento. Muito além de violência banal, há desigualdade crescente, falta de emprego, perspectivas de futuro. Há ainda um preocupante rompimento dos laços de confiança entre a juventude, a polícia e a Justiça, em especial no caso de jovens negros e descendentes de imigrantes, que se ressentem de um racismo muito presente, mas negado pela fachada de justiça e “multiculturalismo” tão propagada na Grã-Bretanha.

A seguir, a íntegra da conversa. 

Desde o começo dos distúrbios, parece haver um certo consenso na sociedade britânica sobre suas razões: a criminalidade, o motivo apontado nos discursos políticos de David Cameron. O que vocês pensam a respeito?

Rosie  – Eu não acredito em tal consenso, embora muitos líderes políticos estejam insistindo na visão de que a criminalidade é um fator chave. Na verdade os problemas são imensamente complexos. Mesmo que os eventos de Tottenham tenham sido a faísca que levou aos distúrbios na Inglaterra, os tumultos em diferentes locais podem ter tido diferentes causas e motivações de base. Nós vimos nos distúrbios pessoas motivadas pelas oportunidades de atacar a polícia e saquear, mas há também problemas de longa data sobre privações e falta de perspectivas concretas para jovens. O governo Cameron está fazendo populismo sobre as responsabilidades individuais. Está claro que há uma histórica abdicação da ‘responsabilidade social’ entre as elites políticas britânicas. Os últimos 30 anos têm sido marcados por um foço dramático e crescente entre ricos e pobres, e um número crescente de pessoas na Grã-Bretanha está à margem da economia, da sociedade, do sistema político. Mas este não é simplesmente um problema de pobreza, é também de marginalidade, de ser incapaz de viver os estilos de vida que são aclamados no mundo moderno, em uma sociedade exuberantemente consumista. Como diz o eminente sociólogo Zygmunt Bauman, “estas não são revoltas de fome; são as revoltas de consumidores incapazes”.

Gorringe – Enquanto políticos e a mídia estão enfatizando a criminalidade e o oportunismo dos revoltosos, há um consenso na pesquisa acadêmica que os distúrbios na Grã-Bretanha têm ocorrido em locais onde as populações têm experimentado os efeitos do declínio socioeconômico e onde as relações com a polícia são tensas. De fato, se observamos as revoltas de 1981, o relatório de Lord Scarman sublinha sérios problemas socioeconômicos e agressividade contra a polícia como fatores que contribuíram. O líder da oposição (Ed Miliband, do Partido Trabalhista) tem pedido uma investigação semelhante nas revoltas recentes.

Em suas opiniões, quais são as causas de fundo da desordem na Grã-Bretanha? O multiculturalismo, por exemplo, pode ter mostrado suas falhas, como muitos alegam?

Rosie – Uma ameaça comum é o problema da legitimidade. O modelo britânico de polícia é baseado no consentimento e no engajamento da comunidade, mas quando a polícia e o governo perdem sua legitimidade aos olhos de muitos, como tem acontecido nos últimos anos, então torna-se muito difícil manter a ordem social.

Gorringe – Eu acredito que haja diferentes causas de base em diferentes regiões. Os eventos de Tottenham foram claramente resultado de tensões crescentes entre a polícia e a comunidade local, em parte por causa de raça, em parte por causa dos esforços da polícia em combater gangues criminosas. A região também tem um histórico de revoltas – mas seria um erro pensar que as tensões em Tottenham são o espelho fiel das tensões em outros locais. O oeste de Londres, no subúrbio de Ealing, por exemplo, onde houve muita desordem, não se enquadra neste caso, nem Gloucester, uma pequena cidade do oeste da Inglaterra que também passou por problemas. Em algumas áreas, como Manchester, nós vimos gangues criminosas deliberadamente tendo como alvo lojas de luxo em grandes distritos comerciais. Em outros, como Nottingham, a polícia foi o alvo explícito. Logo há várias razões misturadas com tensões sociais entre jovens e a polícia, como em Tottenham e outras partes de Londres. Em geral, houve rebeliões contra jovens “descontentes” com as perspectivas econômicas, como em Gloucester e alguns subúrbios de Londres. Há também oportunismo criminoso, como vimos em Manchester e outros lugares. Se há uma causa singular, é a conjunção de três fatores: descontentamento com as perspectivas econômicas; níveis sérios de desconfiança entre jovens e a polícia; e a convicção de que quando se enfrenta a polícia com um grande número de manifestantes com alta mobilidade, ela é com frequência impotente para frear os saques e os incêndios criminosos. É preciso ressaltar, entretanto, que muitas partes da Grã-Bretanha que tem índices relativamente altos de privação econômica e social – como a Escócia, Gales e Nordeste da Inglaterra – não testemunharam nenhuma desordem.

 

 

Vocês tocaram de alguma forma no tema: também há tensões entre raças, etnias e nacionalidades nas explicações dos distúrbios, certo?

Rosie – Em algumas lugares isto é certamente parte do mix de razões. Os eventos em Tottenham em torno da morte de Mark Duggan mostraram que uma porção significativa de jovens negros da região perdeu profundamente a confiança na polícia. Há reclamações recorrentes de perseguição de jovens negros lá e em outras partes de Londres há várias décadas. Em outras áreas afetadas por distúrbios não há tais problemas, e a desafeição da juventude, independente da raça, tem um papel muito mais importante. Há alguns sinais preocupantes, entretanto, inclusive envolvendo tentativas do grupo de extrema direita English Defence League (EDL), que tentou construir uma presença nas ruas. A raça também pode ter desempenhado um papel proeminente em West Midlands (região do centro da Inglaterra onde se localiza Birmingham), onde homens britânicos-asiáticos foram mortos, e onde tem havido tensões não apenas entre a maioria branca e a minoria étnica, mas entre diferentes grupos minoritários também.

Gorringe – A primeira tensão social nos distúrbios, entretanto, foi a ampla desconfiança e o ódio da polícia. Os revoltosos de todos as origens, e também expectadores que condenaram a violência, manifestaram suas antipatias em relação à polícia. O relatório de Lord Scarman sobre as revoltas de 1981 recomendou que a polícia investisse mais em ligações comunitárias e em comunicação com o público. Esta recomendação seria relevante hoje se ela existisse.

Eu tive a oportunidade de visitar subúrbios de Londres nos últimos dias, onde falei com cidadãos e também com alguns vândalos. Em geral, seus temas são falta de oportunidades, desemprego, tráfico de drogas, repressão policial e discriminação. Quais são os seus diagnósticos?

Gorringe – Sua questão toca no coração do problema. Enquanto ninguém desculpa os níveis de violência que foram vistos nas ruas da Inglaterra, não há outra forma de compreender por que tantas pessoas estavam prontas a se engajar em saques, incêndios criminosos e vandalismo sem que coloquemos os elementos que você elencou como contexto. Um dos mais preocupantes aspectos das revoltas na minha opinião foi o número de pessoas que saquearam lojas e se engajaram em atos de violência sem se preocupar em mascarar seus rostos. Isso sugere várias coisas – inclusive que eles têm completa desconsideração pelas autoridades e uma completa desesperança em relação ao futuro.

Rosie – Tais problemas foram claramente importantes em muitas das áreas afetadas. Mas o que eu também considero muito importante é que a mídia britânica está agora focando naqueles que são levados aos tribunais acusados de distúrbios e de saques. Enquanto muitas centenas estão sendo processados, o foco está sobre aqueles poucos que não se encaixam na imagem de uma juventude urbana sem perspectivas. Há tanta publicidade para os saqueadores originários da classe média que a exceção parece ser a regra. A maioria envolvida era jovem, e muitos, muitos mesmo vêm de origens marcadas pelas privações e marginalidade. A polícia de Tottenham enfrenta um desafio muito difícil: como combater o tráfico de drogas e a criminalidade associada enquanto simultaneamente constrói boas relações com a comunidade.

É possível comparar de alguma forma os distúrbios na França em 2005 e 2006 com as revoltas da Grã-Bretanha em 2011? Muitos britânicos negam as diferenças, mas há semelhanças também, não?

Rosie – Certamente há similaridades no fato de que as comunidades marginalizadas não veem a intervenção da polícia como ilegítima – mesmo quando ela combate criminosos que aterrorizam as próprias comunidades. Há paralelos óbvios entre muitas centros urbanos pobres britânicos e franceses. Mas também há diferenças. As relações entre a polícia britânica e muitos negros e outras comunidades de minorias étnicas tem sido aprimorada na última década. As divergências polícias desde o assassinato racista do adolescente negro Stephen Lawrence em 1993 acentuaram as atenções para os problemas de racismo institucional na polícia e no sistema judiciário. Em parte, essa é uma das razões pelas quais as revoltas britânicas de 2011 são tão menos centradas e motivadas por tesões raciais que a onda de violência e desordem de 1981.

Gorringe – Uma das mais óbvias semelhanças entre as revoltas na França e na Inglaterra é a forma como elas foram detonadas pelas mortes de jovens em choques com a polícia. Estudos na França e na Grã-Bretanha sugerem que a maioria das revoltas em ambos os países foi detonada por incidentes particulares interpretados como provas da hostilidade policial ou indiferença em relação a certas comunidades.

Em relação à polícia, vocês veem algum tipo de erro estratégico no combate ao crime, não apenas durante os distúrbios, mas também no cotidiano? Enfrentar o crime sem usar armas continua a funcionar como estratégia?

Rosie – Com a exceção da Irlanda do Norte, simplesmente não é necessário, nem desejável por parte da opinião pública, que a polícia britânica porte armas rotineiramente. A recente desordem na verdade levanta duas questões bem diferentes sobre o policiamento. A primeira tem relação com a comunicação entre a polícia e as comunidades que elas servem – houve uma clara e admitida deficiência em Tottenham na comunicação da polícia depois da morte de Mark Duggan. Isto levou à circulação de muitos rumores falsos sobre a natureza dos disparos e alimentou as tensões crescentes. Enquanto a polícia tem construído boas linhas de comunicação com diferentes comunidades no norte de Londres, isso é menos verdade em relação à juventude, branca ou negra, de áreas pobres. Estes, claro, foram os grupos mais irados com os rumores que circulavam. A polícia precisa trabalhar mais duro para chegar aos segmentos da sociedade que perderam a confiança e a odeiam. Em segundo lugar, a polícia foi lenta ao responder de forma apropriada à desordem. A polícia britânica tem sido escrutinada de forma constante nos últimos dias sobre sua forma de lidar com protestos, e houve repetidas reclamações de que eles adotaram uma abordagem leve demais em relação aos distúrbios. Na verdade, as táticas da polícia parecem ter sido ditadas pelos recursos disponíveis – com frequência havia poucos policiais para confrontar multidões grandes e com alta mobilidade. A repressão dos distúrbios em Londres foi apenas obtida com contingentes de toda a Grã-Bretanha, o que é insustentável. Muitos agentes da polícia da Grande Manchester estavam em Londres e, logo, estavam impedidos de confrontar os saqueadores em Manchester e Salford. A polícia britânica já sofreu um corte significativo de seus recursos, e tem ainda 20% de cortes em perspectiva. Por isso estes cortes tornaram-se uma polêmica na polícia britânica.

Gorringe – Eu concordo plenamente com Michael. Adotar um táticas mais agressivas e intervencionistas poderia ter ajudado a polícia a controlar os tumultos mais cedo, mas se suas ações fossem percebidas como excessivas ela teria perdido ainda mais legitimidade. Também não está claro se canhões de água e balas de borracha poderiam ter ajudado a controlar os distúrbios porque a polícia estava enfrentando grupos de alta mobilidade e sem alvos específicos. Movê-los para uma determinada área poderia simplesmente levar o problema para outra região. Foi apenas quando a polícia teve mais agentes no terreno que se tornou apta a conter a desordem. Em lugar de armar a polícia até os dentes contra seus concidadãos, melhor seria construir vínculos com as comunidades e grupos com os quais houve perda de legitimidade e capacitá-la para obter mais e melhores informações sobre as áreas que policia.

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Sarkozy, Merkel e Lagarde nos bastidores do Conselho Europeu, em Bruxelas: saída negociada para a crise

Quem tem especial interesse na reunião de cúpula da União Europeia hoje sobre a crise das dívidas soberanas vai gostar de ler a declaração final, distribuída em Bruxelas na noite de ontem. É em inglês.

Para resumir em uma frase de análise: uma proposta ampla e realista – dentro das opções que vinham sendo discutidas – sobre a necessidade de socorro à Grécia e de afrouxamento das exigências sobre Portugal e Irlanda. Dito isto, fica a dúvida: as agências de rating aceitarão não considerar a economia grega em “default seletivo” de pagamento? Conversei com analistas no Deutsche Bank e no BNP Paribas e tentei ouvir as próprias agências S&P, Moody’s e Fitch: ninguém tem certeza de nada neste momento, e as agências, claro, não se pronunciaram.

Um bom parâmetro é o fechamento das bolsas europeias, há pouco: Paris, 1,66%; Milão, 3,88%; Atenas, 2,5%; Lisboa, 2,5%; Madri, 2,9%. O resto, só o tempo dirá.

STATEMENT BY THE HEADS OF STATE OR GOVERNMENT OF THE EURO AREA AND EU INSTITUTIONS

We reaffirm our commitment to the euro and to do whatever is needed to ensure the financial stability of the euro area as a whole and its Member States. We also reaffirm our determination to reinforce convergence, competitiveness and governance in the euro area. Since the beginning of the sovereign debt crisis, important measures have been taken to stabilize the euro area, reform the rules and develop new stabilization tools. The recovery in the euro area is well on track and the euro is based on sound economic fundamentals. But the challenges at hand have  shown the need for more far reaching measures.

Today, we agreed on the following measures:

Greece:

1. We welcome the measures undertaken by the Greek government to stabilize public finances and reform the economy as well as the new package of measures including privatisation recently adopted by the Greek Parliament. These are unprecedented, but necessary, efforts to bring the Greek economy back on a sustainable growth path. We are conscious of the efforts that the adjustment measures entail for the Greek citizens, and are convinced that these sacrifices are indispensable for economic recovery and will contribute to the future stability and welfare of the country.

2. We agree to support a new programme for Greece and, together with the IMF and the voluntary contribution of the private sector, to fully cover the financing gap. The total official financing will amount to an estimated 109 billion euro. This programme will be designed, notably through lower interest rates and extended maturities, to decisively improve the debt sustainability and refinancing profile of Greece. We call on the IMF to continue to contribute to the financing of the new Greek programme. We intend to use the EFSF as the financing vehicle for the next disbursement. We will monitor very closely the strict implementation of the programme based on the regular assessment by the Commission in liaison with the ECB and the IMF.

3. We have decided to lengthen the maturity of future EFSF loans to Greece to the maximum extent possible from the current 7.5 years to a minimum of 15 years and up to 30 years with a grace period of 10 years. In this context, we will ensure adequate post programme monitoring. We will provide EFSF loans at lending rates equivalent to those of the Balance of Payments facility (currently approx. 3.5%), close to, without going below, the EFSF funding cost. We also decided to extend substantially the maturities of the existing Greek facility. This will be accompanied by a mechanism which ensures appropriate incentives to implement the programme.

4. We call for a comprehensive strategy for growth and investment in Greece. We welcome the Commission’s decision to create a Task Force which will work with the Greek authorities to target the structural funds on competitiveness and growth, job creation and training. We will mobilise EU funds and institutions such as the EIB towards this goal and relaunch the Greek economy. Member States and the Commission will immediately mobilize all resources necessary in order to provide exceptional technical assistance to help Greece implement its reforms. The Commission will report on progress in this respect in October.

5. The financial sector has indicated its willingness to support Greece on a voluntary basis through a menu of options further strengthening overall sustainability. The net contribution of the private sector is estimated at 37 billion euro.

Private sector involvement:

6. As far as our general approach to private sector involvement in the euro area is concerned, we  would like to make it clear that Greece  requires an exceptional and unique solution.

7. All other euro countries solemnly reaffirm their inflexible determination to honour fully their own individual sovereign signature and all their commitments to sustainable fiscal conditions and structural reforms. The euro area Heads of State or Government fully support this determination as the credibility of all their sovereign signatures is a decisive element for ensuring financial stability in the euro area as a whole.

Stabilization tools:
8. To improve the effectiveness of the EFSF and of the ESM and address contagion, we agree to increase their flexibility linked to appropriate conditionality, allowing them to:
- act on the basis of a precautionary programme;
- finance recapitalisation of financial institutions through loans to governments including in non programme countries ;
- intervene in the secondary markets on the basis of an ECB analysis recognizing the existence of exceptional financial market circumstances and risks to financial stability and on the basis of a decision by mutual agreement of the EFSF/ESM Member States, to avoid contagion.

We will initiate the necessary procedures for the implementation of these decisions as soon as possible.

9. Where appropriate, a collateral arrangement will be put in place so as to cover the risk arising to euro area Member States from their guarantees to the EFSF

Fiscal consolidation and growth in the euro area:
10. We are determined to continue to provide support to countries under programmes until they have regained market access, provided they successfully implement those programmes. We welcome Ireland and Portugal’s resolve to strictly implement their programmes and reiterate our strong commitment to the success of these programmes. The EFSF lending rates and maturities we agreed upon for Greece will be applied also for Portugal and Ireland. In this context, we note Ireland’s willingness to participate constructively in the discussions on the  Common Consolidated Corporate Tax Base draft directive (CCCTB)  and in the structured discussions on tax policy issues in the framework of the Euro+ Pact framework.

 

 



						
						

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Uma falha técnica, combinada às decisões dos pilotos, esteve na origem do acidente do voo AF-447, ocorrido em 31 de maio de 2009, no oceano Atlântico. A confirmação foi feita pelo relatório preliminar sobre o conteúdo das caixas-pretas do Airbus A-330-200, revelado há instantes em Paris pelo Escritório de Investigações e Análises para a Aviação Civil (BEA).

Segundo o documento, por uma pane na aferição da velocidade, a aeronave apresentou aos pilotos duas informações diferentes. “Houve uma incoerência entre as velocidades verificadas do lado esquerdo e no instrumento de socorro (ISIS). Ela durou um pouco menos de um minuto”, diz o relatório.

Apenas os tubos de Pitot, as sondas de velocidade, situadas na lateral esquerda da aeronave tiveram os dados registrados pelo Flight Data Recorder (FDR), segundo o comunicado do BEA. O terceiro sensor, situado no lado direito, não foi registrado.

Os problemas no voo tiveram início às 2h10min05s – hora de Greenwich –, quando o piloto automático do avião se auto-desligou. Nesse mesmo instante, um dos copilotos assumiu o comando da aeronave. “Eu tenho o controle”, afirmou, de acordo com as gravações feitas pelo Cockpit Voice Recorder (CVR), a caixa-preta que registra o diálogo dos pilotos e os sons da cabine.

Com base nesses dados incongruentes, as primeiras decisões foram tomadas pela tripulação. As 2h10min16s, o co-piloto afirma: “Nós perdemos as velocidades, então”. A seguir, ele completa: “Modo alternativo”. Em “modo alternativo”, ou “direto”, os sistemas eletrônicos de proteção contra perda de sustentação são desligados.

O avião ganha inclinação de 10 graus e toma trajetória ascendente. Durante todo o tempo, os motores do Airbus A330-200 funcionam perfeitamente.

No momento da pane, confirma o BEA, o piloto da aeronave, Marc Dubois, não estava em seu assento. Isso, entretanto, não representa nenhuma falha no comportamento do comandante, porque pausas de repouso são regulamentadas por convenções internacionais em voos de longa duração. Às 2h10min50s, os co-pilotos tentam chamar Dubois.

Às 2h10min51s, o alarme de perda de sustentação é acionado mais uma vez. Ao término de um minuto, a incoerência de velocidade desaparece. Às 2h11min40s, o comandante entra na cabine e reassume seu posto. “Nos segundos que se seguem, todas as velocidades registradas tornam-se inválidas e o alarme de perda de sustentação para”, explica o documento, detalhando mais à frente: “As ordens do co-piloto foram principalmente para ‘elevar o nariz’”.

Essa decisão teria sido determinante para que o avião perdesse sustentação.

O acidente aconteceu em um intervalo de 3 minutos e 30 segundos.

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17.maio.2011 10:32:21

Para a coleção

Serge Dassault, proprietário da Dassault, na época em que adquiriu o Le Figaro. Foto: AFP

Reportagens publicadas pelo jornal Le Figaro na segunda e terça-feiras afirmam que as caixas-pretas do voo AF-447 livram a Airbus de culpa no acidente, responsabilizando os pilotos. O jornal Le Figaro é propriedade da holding Socpresse, 100% detida pelo construtor aeronáutico Dassault e por seu dono, Serge Dassault (foto). Do capital total da Dassault, 46,32% das ações pertencem ao grupo EADS. E EADS detém 100% das ações da Airbus.

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Foto Charles Platiau / Reuters

Os tubos de Pitot, os sensores de velocidade do Airbus A330-200 que realizava o voo AF-447 entre Rio e Paris em maio de 2009, ainda não foram localizadas. Segundo os experts do BEA, o escritório que investiga as causas do acidente, e do Cenipa, seu homólogo brasileiro, o equipamento será procurado no fundo do mar. Os técnicos da expedição tentam também trazer a bordo os destroços do cockpit, onde as ondas podem estar presas. Apesar de não tê-las localizado, o grupo de especialistas não considera sua existência física necessária para avaliar se elas falharam ou não, desencadeando panes elétricas e eletrônicas em sequência, como estimam analistas independentes. Com as caixas pretas já seria possível tirar a conclusão.

Além dos especialistas do BEA, observados pelo representante do Cenipa, peritos independentes contratados pela Justiça da França terão acesso aos dados coletados, com o objetivo de garantir a completa independência da investigação.

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Pelo menos sete dias de angústia ainda esperam as famílias de vítimas do voo AF-447, que aguardam uma resposta das autoridades francesas a respeito da possibilidade de identificar ou não os mais de 50 corpos que jazem no Atlântico. A estimativa foi feita pelo Instituto de Pesquisas Criminais (IRCGN) da Polícia Militar da França (Gendarmerie Nationale), que espera uma resposta dos cientistas que tentam extrair dos dois corpos trazido à superfície traços de DNA que possam permitir a identificação.

A perícia começou a ser realizada ontem mesmo e vai se concentrar em estudar as amostras retiradas do fêmur, onde a chance de preservação do DNA é maior. Os dois corpos, porém, não chegaram a Paris. Eles estão na câmara fria do navio Ile de Sein, que ancorará em Dacar, no Senegal, dia 20. “Os corpos continuam no barco. O que temos em Paris são amostras que foram colhidas por um médico legista e que foram trazidas. Elas chegaram nesta manhã no laboratório privado que vai proceder a análise DNA”, explicou François Daoust, diretor do IRCGN.

Caso o exame conclua que será possível identificar as vítimas, a campanha de resgate de corpos será retomada pela nova equipe que partirá em expedição no Ile de Sein em junho.

Ontem, a Justiça da França voltou a reforçar o teor da nota divulgada há dois dias, na qual ficou estabelecido que apenas corpos que estejam menos “alterados” pelo acidente serão resgatados e entregues às famílias.

“A Justiça não ficará insensível às dores das famílias”, garantiu Jean Quintard, procurador-adjunto do Tribunal de Grande Instância de Paris, onde tramita o processo por “homicídio involuntário” contra a Air France, proprietária do avião acidentado, e a Airbus, fabricante do aparelho. O que move a definição sobre resgatar ou não um corpo são os exames de DNA, diz o procurador. “É possível identificar a vítima? Se não for, não há sentido em resgatá-las”, ponderou.

De acordo com Quintard, os corpos não são essenciais ao processo judiciário, porque com o resgate das primeiras 50 vítimas, logo após o acidente, há dois anos, já foi possível estabelecer a causa mortis. “Todas as pessoas que estavam no voo morreram da mesma forma”, garantiu o procurador.

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A controvérsia sobre o resgate dos passageiros e tripulantes do voo AF-447 fez aflorar a insatisfação das famílias de vítimas na França. Algumas famílias se queixam de ter sido iludidas ao receberem a informação de que os corpos haviam sido descobertos no fundo do Atlântico “em bom estado de conservação”, segundo afirmavam as autoridades francesas.

Uma das desiludidas é Corine Soulas, mãe de uma das vítimas e sogra de outra. Comunicada por amigos sobre a descoberta dos corpos – e não pelas autoridades –, ela lamenta a forma precipitada como o assunto foi tratado. “À época, a pessoa que anunciou a descoberta o fez de forma um pouco serena, dizendo que eles estavam identificáveis”, lembra. “Como o nosso cérebro imagina quando se fala em ‘identificável’? O que você imaginaria? Imaginaria algo belo, que possamos recuperar e sepultar. Agora falam em ‘degradado’ e ‘alterado’…”, indigna-se.

Antes favorável ao resgate, Corine agora diz que preferiria que os restos de sua filha seguissem no fundo do mar. “Eu teria preferido que não se falasse n assunto e que os deixassem repousar porque, na minha cabeça, Caroline está dormindo”, explicou.

A descoberta dos corpos junto aos destroços do Airbus A330-200 foi revelada pela ministra do Meio Ambiente e dos Transportes, Nathalie Kouciusko-Morizet, em entrevista à rádio France Info. Então, a executiva não apenas fez referência aos corpos, mas também afirmou que estavam em bom estado.

Agora o assunto é tratado com todo o zelo pelas autoridades francesas. “Nós, do laboratório do qual sou chefe, jamais falamos sobre identificação de corpos unicamente por visual, garantiu François Daoust, diretor do Instituto de Pesquisas Criminais (IRCGN). “Trabalhamos em 38 catástrofes. Nunca vamos nos antecipar e dar tais declarações. A identificação segue um procedimento científico que segue um processo completo, com exames dentários, DNA, entre outros elementos.”

Apesar da exigência reiterada de que os corpos sejam recolhidos, como pede o brasileiro Nelson Faria Marinho, presidente da Associação de Familiares de Vítimas do Voo AF-447, a Justiça da França adverte: o objetivo da expedição continua sendo explicar as causas do acidente. “A missão principal é a recuperação de peças”, reiterou Jean Quintard, procurador-adjunto do Tribunal de Grande Instância de Paris.

__________________

“Sim e não. Esperamos 23 meses até aqui, um prazo muito longo. Estivemos frustrados por muitos meses, e agora esperamos que a investigação tome um novo rumo, que seja mais rápida. Nós temos o hábito de esperar. Vamos esperar ainda alguns meses para saber a verdade.”

Robert Soulas, pai e sogro de vítimas do voo AF-447, quando questionado se está satisfeito com as investigações

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PARIS

Elucidar as causas da queda do voo AF-447 no Atlântico Sul é uma oportunidade para o Escritório de Investigação e Análise (BEA) e para o governo da França de restituir a credibilidade abalada da aeronáutica civil do país. Há 21 meses, o silêncio dos peritos franceses em torno das possíveis falhas eletrônicas do Airbus A330-200 levanta críticas contundentes de experts independentes e de familiares de vítimas.

No início da década passada, quando passou a investigar as causas do acidente do Concorde que começava a realizar o voo AF-4590 ao cair na cidade de Gonesse, nos arredores de Paris, em 25 de julho de 2000, o BEA deu uma demonstração de força e competência ao impedir aeronaves similares de tirar os pneus do solo e cruzar o Atlântico. De lá para cá, sua imagem voltou a se degradar – era ruim nos anos 80.

A principal suspeita que recai sobre o BEA no caso AF-447 diz respeito à sua independência em relação às empresas implicadas na investigação: Air France, Airbus e Thalès. Todas três têm um traço em comum: a participação acionária do Estado francês, também controlador do BEA. Soma-se ao conflito de interesses evidente a insistência dos peritos em desautorizar toda e qualquer análise independente e a opção por divulgar informações em doses homeopáticas. Mas, acima de tudo, a fixação em desconversar sobre as falhas dos sensores de velocidade – as sondas de Pitot –, que podem ter tido papel importante para a queda da aeronave.

Contribuiu para os arranhões na reputação do BEA e da aviação francesa o trabalho de especialistas como o ex-comandante de Airbus A330 Henri Marnet-Cornus. Autor de um relatório de 600 páginas sobre o acidente, o comandante aponta as 24 falhas eletrônicas da aeronave, causadas pela pane dos pitots (fabricados pela Thalès e usados pela Air France com a garantia da Airbus), como determinantes para a sobrecarga da tripulação, levando ao crash.

Lembre-se ainda o fato de que, por 21 meses, o BEA realizou três expedições em buscas dos destroços, sem sucesso. Ninguém duvida que encontrar um Airbus no fundo do mar seja uma tarefa hercúlea, mas o fato é: recomeçando do zero, uma empresa americana os encontrou em oito dias. Mais: fotos feitas por um satélite italiano no dia do acidente haviam identificado uma mancha de querosene no Atlântico na mesma posição em que agora foi localizada a aeronave. Estranho, muito estranho.

Não bastassem as dúvidas que procriaram na imprensa e entre familiares de vítimas, a Justiça da França também parece inclinada a questionar a inocência da Air France e da Airbus, ambas oficialmente investigadas por homicídio culposo.

Diante de tantas incertezas sobre as investigações do AF-447, há apenas uma alternativa à França: revelar a verdade, mesmo que prejudique temporariamente a imagem de símbolos da pujança econômica do país, como as duas gigantes aeronáuticas.

É preciso dizer que um passo muito positivo foi dado no sábado, com a localização dos destroços e a perspectiva de recuperação da caixas-pretas. Resta ao governo francês provar, agora, que a verdadeira caixa-preta perdida não é o próprio BEA.

* * *

Àqueles numerosos que me escreveram com demonstrações de solidariedade e palavras gentis quando de minha prisão na Líbia, meu muito, muito obrigado.

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