
Pode soar estranho, mas as preocupações com o aquecimento global e também com a escalada do preço do petróleo – o barril está prestes a custar US$ 140 – está colocando os automóveis na berlinda nos países ricos.
A União Européia até estuda restringir a publicidade dos veículos a gasolina, como foi feito com a propaganda de cigarro, bebidas e comida gorda. O ponto central da proposta é exigir que, em todos os anúncios, sejam mostrados o consumo de gasolina e o volume de emissões de CO2 por quilômetro rodado. Referências à rapidez do carro ou ao “prazer de dirigir” seriam vetadas. A idéia enfrenta resistências e há dúvidas quanto a sua eficácia, mas o projeto está em discussão.
A consultoria Ernst&Young realizou um estudo que mostra os dez maiores riscos aos negócios na atualidade. Um deles, que a pesquisa chama de ‘radical greening’ (algo como radicais verdes) é o ‘perigo’ do consumidor engajado e disposto a mudar seus hábitos de consumo por alternativas mais ecológicas – e empresas de setores como o automobilístico estariam na mira.
“Há 30 anos, ninguém iria imaginar que o hábito de fumar seria tão combatido. Já existe um temor entre os estrategistas na indústria automobilística de que o carro se torne o novo cigarro”, disse Joel Bastos, diretor de sustentabilidade da Ernst&Young no Brasil.
A corrida por carros menos poluentes e que funcionem a combustíveis mais limpos como hidrogênio já está acontecendo, mas não com a rapidez desejada. A alegação da indústria é de que ainda não há escala de produção para que esses carros se tornem acessíveis à população.
Mas mesmo gigantes como Ford e GM estão revendo suas estratégias. A GM já não sabe o que fazer com sua marca Hummer (fabricante dos jipes de inspiração militar, enormes e beberrões, que os americanos adoram). A Ford anunciou nos EUA que vai reduzir a produção de utilitários e picapes para se concentrar na fabricação de carros menores e mais econômicos.
Nas bandas de cá, haja carro para pouca rua. Enquanto a indústria automobilística comemora recorde atrás de recorde – a projeção é fechar 2008 com 3,42 milhões de carros vendidos – já se discute, entre ONGs e entidades de classe, se já não seria hora de “sugerir” às montadoras que parte do seu lucro seja revertido para ajudar a melhorar o transporte público nas metrópoles. Será que elas se habilitam, em nome da ‘responsabilidade social’?
Ao contrário do que se pensa, o conceito de sustentabilidade não foi criado há coisa de dois anos, quando o termo passou a frequentar páginas de jornais e revistas e também o discurso das empresas, geralmente como sinômino de preocupação ambiental.
Sustentabilidade deriva da expressão ‘desenvolvimento sustentável’ , conceito lançado pelas Nações Unidas em 1987 – portanto, há mais de 20 anos – e que significa “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades” .
Não se trata, porém, de crescimento ininterrupto a taxas chinesas – o presidente Lula gosta de usar a expressão de modo incorreto em seus discursos, como no anúncio do PIB do trimestre, ontem.
O conceito nasceu como uma crítica ao modelo de desenvolvimento adotado pelos países industrializados e reproduzido sem maiores questionamentos pelas nações mais pobres. Ressalta os riscos do uso excessivo dos recursos naturais sem considerar a capacidade de suporte do planeta.
Com o crescimento da população mundial – a expectativa para 2050 é de 9,2 bilhões de habitantes, a maior parte deles na banda pobre – ou ‘emergente’ – do mundo. Resta saber se haverá água, e ar respirável, e energia, e comida, para atender a todos.
Mais recentemente, na década de 1990, no meio empresarial cunhou-se e a idéia do ‘triple bottom line’ na gestão. Ou seja, para uma companhia ser bem-sucedida não bastava ter o ‘bottom line’ (a linha de baixo do balanço contábil, que mostra lucro ou prejuízo) positivo e sim ter alcançado satisfatoriamente o tripé crescimento econômico-ambiental-social.
E a sustentabilidade entrou com força no discurso empresarial. Para o bem ou para o mal. Às vezes com alguma consistência, e muitas outras vezes só como marketing vazio.
É desses temas – e dilemas – que esse blog vai se ocupar. Nos acompanhe!
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