
Em breve, até os cones e placas de sinalização de trânsito de Nova York terão de ser ecológicos. E não só eles: também aparelhos de ar-condicionado, lavadoras de louça e de roupas, impressoras e outros bens de consumo. Até a grama dos parques e praças deverá ser escolhida por critérios ambientais.
É o que sinaliza um conjunto de 18 novas diretrizes verdes, lançado pelo Estado de Nova York, para orientar as compras públicas. Ou seja, cada compra realizada pelo poder público local terá que ter critérios verdes, como eficiência energética, uso de matéria-prima reciclada, redução no uso de componentes tóxicos e reciclagem. As impressoras, por exemplo, deverão ter o selo Energy Star e estar programadas para imprimir dos dois lados do papel. As placas de trânsito deverão ser alimentadas por energia solar, e os cones devem ser feitos de pelo menos 50% de matéria-prima reciclada.
O conjunto de normas ainda vai passar por apreciação pública. As medidas podem parecer exageradas, mas são um meio de o poder público avançar em sustentabilidade, e influenciar a indústria no desenvolvimento de tecnologias mais verdes e com menor consumo de energia.
Por aqui, existe uma ótima iniciativa, do Greenpeace: o programa Cidade Amiga da Amazônia, que estimula que as prefeituras só comprem madeira de origem certificada, de modo a não estimular o desmatamento ilegal. Fazem parte mais de 30 cidades, entre elas grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza e Porto Alegre.
Se havia uma certa euforia e a expcetativa de que o presidente eleito dos Estados Unidos Barack Obama teria uma postura diferente em relação às grandes questões ambientais, o clima de otimismo se confirmou nessa segunda.
Obama escalou um time de primeira linha para cuidar das pastas de Energia, Meio ambiente e Mudanças Climáticas. O departamento de Energia fica nas mãos de Steven Chu, prêmio Nobel de Física em 1997, que atualmente está à frente do Laboratório Nacional da Universidade de Berkeley. Chu é um entusiasta das energias limpas, especialmente a solar e a geotérmica, e deve pôr em prática o plano de Obama de reerguer a economia americana com base no desenvolvimento de fontes renováveis de energia. Foi inclusive parceiro de nosso José Goldemberg em estudos no passado.
Obama também criou uma nova ocupação: o de representante especial de Energia e Mudança Climática e Temas Relacionados, que ficará a cargo de Carol Browner, ex-braço-direito de Bill Clinton e Al Gore nessa seara. Por fim, a Agência de Proteção Ambiental americana (EPA) será chefiada por Lisa Jackson, que já presidiu a entidade em Nova Jersey.
O time de Obama é dos bons. Com isso, ele dá a indicação de que, desta vez, as questões verdes não passarão em obscuras nuvens na terra do Tio Sam.

Após a polêmica do diesel e da sua exclusão, na semana passada, do Índice de sustentabilidade da Bovespa, a Petrobras anunciou na noite de ontem, em nota, seu desligamento do Instituto Ethos. No comunicado, a empresa afirma “que vem sendo alvo de uma campanha articulada com o objetivo de atingir a imagem da companhia e questionar a seriedade e eficiência de sua administração” e acusa as organizações não-governamentais e as Secretarias de Meio Ambiente de São Paulo e Minas Gerais de engendrarem uma “campanha difamatória” contra a empresa. A íntegra está aqui.
“O grupo de pessoas que atua de forma deliberada e difamatória contra a Petrobras é composto por integrantes das Secretarias de Meio Ambiente dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, Secretaria do Verde e Meio Ambiente da Cidade de São Paulo, e de algumas organizações não-governamentais que se intitulam representantes da sociedade civil de São Paulo”, diz o comunicado.
O centro da polêmica é a redução do teor de enxofre no diesel produzido pela Petrobrás. Segundo a resolução 315/2002 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o teor do enxofre no óleo diesel comercializado no Brasil deveria ser reduzido, a partir de janeiro de 2009, para 50 ppm (partes de enxofre por milhão). Atualmente, o diesel fornecido chega a 2.000 ppm.
Às vésperas da data estipulada pela norma, a Petrobrás não se adaptou para produzir o diesel com 50 ppm e comercializá-lo em todo o território brasileiro – mesmo tendo tecnologia para isso. A partir de janeiro, o diesel mais limpo será fornecido somente em ônibus novos que circulam em São Paulo e Rio de Janeiro. Em maio, chega aos ônibus de Fortaleza, Recife e Belém e, em agosto, a Curitiba.
O restante do diesel vendido no interior e demais capitais conterá 1.800 ppm – arranjo que foi considerado insatisfatório pelas ONGs e Secretarias do Verde.
A decisão de sair do Ethos é emblemática. A entidade, que foi responsável por disseminar o conceito de gestão com sustentabilidade entre as companhias brasileiras, entendeu o recado. A Petrobras jogou a toalha, e desistiu de tentar ser uma empresa minimamente comprometida com questões como redução da poluição e saúde pública. Agora, é só ‘business as usual’…
“Ao se desligar do Instituto Ethos, a Petrobras rompe com o compromisso de ser uma empresa socialmente responsável”, afirma Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos. “Parece que é uma tentativa de confundir o mercado. Quer desviar a questão principal e se colocar como vítima. Mas vítima do quê? A empresa é pública e precisa prestar contas”, completa Young.
A nota da Petrobras ainda pretende deixar transparecer que a Resolução Conama não obriga a nada disso que as ONGs estão dizendo, e que não é o tóxico enxofre, e sim o ozônio, o responsável pela grande poluição nas regiões metropolitanas. A tentativa da Petrobrás de virar o discurso a seu favor chega a dar vergonha.
Em resposta à Petrobras, o Ethos, em nota aos veículos de comunicação, diz que “crê que a decisão da Petrobrás de desligar-se do seu quadro de associados tem como intenção interromper o diálogo, pelo fato de o instituto estar cumprindo sua função. O Ethos, porém, jamais se prestará a ser um instrumento de marketing socioambiental das empresas.”
“O Ethos gostaria de ver a Petrobras, com toda a importância que tem em seu setor, liderando as discussões sobre energias limpas, na busca pela urgente descarbonização da economia. No entanto, a decisão da empresa parece confirmar que ela escolheu o caminho oposto. Lamentamos sua postura, pois ela reitera uma grande perda para o movimento de desenvolvimento sustentável no Brasil. Uma empresa pública, que, portanto, pertence a todos nós, deveria estar alinhada às necessidades da população. “

Fim de ano chegando, e os apelos do comércio começam a pipocar em milhões de luzes coloridas e enfeites de Natal. Em meio aos já presentes efeitos da crise financeira, essa temporada de compras vai ter lá suas particularidades.
Os presidentes, daqui e de acolá, mandam o povo gastar. Comprem, se endividem ao menos um pouquinho, já que o consumo é o motor da economia. De fato, no atual modelo de produção e consumo – seguido de descarte dos bens já não tão desejados – a freada nos gastos pode ser a pá de cal nos negócios de empresas que, durante décadas, reinaram soberanas. A indústria automobilística americana que o diga: lá estão elas, GM, Ford e Chrysler de chapéu na mão, implorando pelo dinheiro do contribuinte.
Obviamente que o consumo tem seu lado positivo. Gera divisas, arrecada impostos, mantém empregos, sustenta famílias, diverte. Mas foi preciso uma crise financeira dessas dimensões para mostrar que o lado patológico do consumo, o consumismo, traz danos irreversíveis para a conta bancária das pessoas e para o meio ambiente. Como já foi dito aqui. Um dia, um atendente da área de computadores de uma grande rede me contou que há pessoas que compram um computador novo quando descobrem que chegou uma nova versão, com pouco um pouco mais de memória (não seria caso só para um upgrade?). Ou trocam o notebook do filho de dez anos a cada dois meses (as crianças andam precisando assim de notebooks tão modernos?)
Na crise, segunda mão vai bem
Como boa parte das mulheres, também adoro ir às compras. Difícil resistir à tentação de um sapatinho novo, um perfume… Mas para desgosto da indústria a minha televisão está comigo desde os 15 anos – estou com 33 – e adoro coisas de segunda mão, de móveis a vestuário. Reformo, envernizo, costuro, e no final dá tudo certo. E em tempos de crise mundo afora, descobri que a economia “second hand”, vai bem, obrigada.
Nos EUA, a National Association of Resale and Thrift Stores (a associação que reúne os lojistas de coisas usadas) afirma que 85% dos associados já registram aumento no número de clientes – e muitos deles chegam pela primeira vez. O aumento nas vendas, comparado ao mesmo período do ano passado, supera 35%. Além da falta de dinheiro e crédito, a economia de segunda mão também é ecofriendly, pois poupa recursos naturais e energia.
Na Europa, a febre do momento são as swap communities – comunidades de troca pela internet, que funcionam como redes sociais, como a Swapstyle. As pessoas se cadastram, se comunicam e fazem negócios, a maior parte na base do escambo. E o Brasil não está de fora: há uma infinidade de bazares e brechós online, para alegria de compradores e vendedores.
Crises – econômicas, ambientais, de valores – servem, afinal, para nos ensinar que desperdícios, de qualquer espécie, estão cada vez mais fora de questão – e de moda.

O descaso com a questão da redução do nível de enxofre do diesel produzido no Brasil tirou a Petrobrás do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), carteira da Bovespa que reúne ações de empresas com bom desempenho econômico e em questões socioambientais. O índice existe desde 2005 e é revisado anualmente. Este ano, entraram Celesc, Duratex, Odontoprev, TIM, Oi e Unibanco. E saíram Petrobrás, Aracruz, CCR Rodovias, Copel, Iochpe-Maxion e WEG.
A decisão de retirar a Petrobrás da carteira de ações foi tomada pelo Conselho do ISE, formado por nove entidades. Oito delas votaram favoráveis à exclusão – só o Ministério do Meio Ambiente se absteve de votar, uma vez que o governo é acionista majoritário da Petrobrás. E embora os motivos que levam à exclusão de uma companhia da carteira sejam mantidos em sigilo, a grande celeuma em torno do diesel é tida como razão mais do que evidente para a exclusão.
A companhia descumpriu a resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama, de 2002, que estabelecia que os níveis de enxofre no diesel deveriam ser reduzidos a partir de janeiro de 2009 para 50 partes por milhão (ppm) – mesmo padrão europeu. Hoje as regiões metropolitanas recebem o óleo com 500 ppm, e o resto do País, com 2 mil ppm.
Mês passado, a empresa fechou um acordo com o Ministério Público Federal para entregar o diesel menos poluente no ano que vem somente para ônibus novos, nas capitais. O combustível usado no interior será trocado por um com 1,8 mil ppm e depois substituído por um de 500 ppm até 2014.
Só que o arranjo foi considerado insatisfatório por ONGs e autoridades governamentais, como a Secretaria do Verde de São Paulo, que enviaram uma carta à Bovespa pedindo a revisão da presença da Petrobrás na carteria.
Antes disso, e pelos mesmos motivos, a Petrobrás teve que retirar do ar as propagandas em que alardeava sua “responsabilidade socioambiental” – o Conar, órgão de auto-regulação publicitária, entendeu se tratar de um caso de propaganda enganosa, ou “greenwashing”. Ou seja, vendia uma imagem de empresa comprometida com o meio ambiente, e ao mesmo tempo não se preparou para produzir um combustível mais limpo.
Reputação
E o que a empresa perde com sua exclusão da carteira de sustentabilidade da Bovespa? A princípio, a maior perda é relacionada a imagem e reputação. A Petrobrás perde a chance de atrair a atenção dos chamados investidores ‘socialmente responsáveis’, uma indústria que já chegou a movimentar US$ 2,3 trilhões – sofreu perdas, com a crise nas bolsas, mas é bastante forte nos EUA e Europa.
São investidores, como fundos de pensão, que balizam suas aplicações em bolsa de acordo pelo crivo da responsabilidade socioambiental das empresas. Ou seja, só colocam dinheiro em companhias mais comprometidas com essas questões. É para isso que servem os índices de sustentabilidade das bolsas, como o ISE da Bovespa, o Dow Jones Sustainability Index, da bolsa de Nova York, e o FTSE4good, da bolsa de Londres.
Agora, com problemas de caixa decorrentes da escassez de crédito – visto o empréstimo de R$ 2 bi feito pela Caixa – a Petrobrás corre o risco de perder credibilidade e afugentar possíveis investidores, especialmente no mercado internacional.
Por outro lado, a companhia ainda mantém presença no índice de sustentabilidade do Dow Jones. Bem como a Aracruz Celulose, excluída do ISE mas ainda parte da carteria do índice de sustentabilidade americano.

Essa vai para os colegas jornalistas. A Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial) está promovendo um ciclo de workshops sobre sustentabilidade para jornalistas. O programa “GRI para jornalistas: Comunicação na Sustentabilidade” começou na semana passada, em Porto Alegre, e terá edições nos dias 25/11 e 01/12 em São Paulo e Belo Horizonte, respectivamente.
A idéia é trazer à luz os indicadores do Global Reporting Initiative (GRI), entidade internacional que fornece parâmetros para a elaboração de relatórios corporativos de sustentabilidade e responsabilidade social corporativa.
Tive a oportunidade de ser palestrante no evento em Porto Alegre e também o farei aqui em São Paulo. Além de um debate com jornalistas que acompanham o tema, os eventos trazem casos concretos de relatórios corporativos elaborados com os critérios do GRI – caso da Natura – e uma palestra com a professora da FGV Carmen Weingrill, também consultora na área de responsabilidade corporativa.
O evento é gratuito e as inscrições podem ser feitas aqui.
Caros leitores,
Esse blog fará uma pausa durante alguns dias, por motivo de férias. Continuarei moderando os comentários que forem postados, na medida do possível.
grande abraço,
Andrea
O economista inglês Nicholas Stern, que ficou conhecido mundialmente por elaborar o Relatório Stern, documento que calcula o custo para o mundo das mudanças climáticas, está chegando ao Brasil.
‘Sir’ Stern fará duas palestras em São Paulo. Na segunda-feira, em evento na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), fala para a comunidade acadêmica. Na terça-feira, dará a palestra “Elementos-chave para uma economia de baixo carbono”, para empresários, na sede da Fiesp.
Ex-economista chefe do Banco Mundial, Stern, hoje consultor do governo britânico para mudanças climáticas, lançou em outubro de 2006 o Relatório Stern, estudo sobre o impacto econômico do aquecimento global, feito a pedido do então ministro de Economia e Finanças do Reino Unido, Gordon Brown.
O Relatório Stern descreve a mudança climática como uma externalidade econômica, que deve ser combatida com as forças do mercado. Segundo o documento, os investimentos necessários para atenuar os efeitos das mudanças climáticas consumiriam 1% do PIB mundial, ao ano. Mas em junho deste ano, Stern revisou a equação: seriam necessários ao menos 2% do PIB para refrear esses efeitos. O mesmo relatório pondera que, se nada for feito para combater a crise do clima, o estrago pode custar até 20% do PIB mundial.
O cenário de Stern foi elaborado, é bom frisar, antes do agravamento da crise financeira. Que, nos cálculos do próprio Banco Central inglês, já consumiu 11% do PIB global. Vamos acompanhar as palestras e a visão do economista sobre os rumos que o combate às mudanças climáticas tomará, daqui pra frente.

A julgar pelos dados divulgados hoje, a próxima grande crise a assolar a humanidade será dos recursos naturais. E pode tomar proporções ainda maiores do que a atual crise financeira, que já consumiu nada menos que US$ 6,8 trilhões em recursos, o equivalente a 11% do Produto Interno Bruto (PIB) global.
O relatório Planeta Vivo, realizado a cada dois anos pela ONG internacional WWF dá conta de que nós humanos já usamos 30% mais recursos naturais do que o Planeta pode repor a cada ano.
A raiz do problema – até então ignorada por governantes, economistas e empresários – é que tanto a população do planeta quanto os níveis de consumo continuam crescendo mais rapidamente que a capacidade de regeneração dos sistemas naturais. Se nada for feito, anuncia o documento, até 2030 a humanidade vai precisar de duas Terras para dar suporte aos atuais níveis de consumo. Como não existem duas Terras para servir aos desejos de consumo da parte mais endinheirada da população, o colapso ambiental pode custar ao mundo US$ 4,5 trilhões – por ano!
O mais impressionante é que, até 1960, a maior parte dos países vivia dentro de seus limites ecológicos. Mas os números atuais mostram que hoje três quartos da população mundial vive em países que consomem mais recursos do que conseguem repor. Estados Unidos e China são os dois principais expoentes: cada um deles consome 21% dos recursos naturais do planeta. É assustador, ainda mais se levarmos em conta que todos os países emergentes se espelham no padrão de consumo americano.
Crise
Segundo o WWF, o atual momento de crise mundial é uma oportunidade de atuar nos três fatores responsáveis pela expansão da pegada da humanidade: crescimento populacional, consumo per capita e intensidade e forma de uso dos recursos naturais. “O capital natural é tão importante quanto o financeiro, o humano e o material envolvidos na produção de qualquer bem. Enquanto o custo de preservá-lo adequadamente não estiver incluído no preço dos produtos, estaremos caminhando rapidamente para exaurir o nosso crédito ecológico”, afirma Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, do WWF-Brasil.
O estudo do WWF corrobora outra pesquisa realizada por pesquisadores da USP, mencionada aqui. Segundo esse estudo, até 2050 somente Brasil e Rússia serão considerados países com superávit ambiental – ou seja, com condições de manter sua economia sem deixar à calamidade seus recursos naturais.

Na próxima segunda-feira 27/10, às 12h30, o economista Hugo Penteado participará de um bate-papo pela internet sobre a atual crise financeira, os mecanismos que levaram a tal cenário e sua relação com a sustentabilidade.
Em 2004, Hugo lançou o livro “Ecoeconomia – uma nova abordagem”, em que analisa a grande contradição da teoria econômica tradicional: a noção de que o crescimento econômico pode ser infinito, em um planeta cujos recursos naturais são finitos, alerta já preconizado pelo economista Nicholas Georgescu-Roegen. Vale a leitura.
O videochat poderá ser acessado pelo site www.bancoreal.com.br/sustentabilidade.
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