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Peixe que se alimenta de boto tem moratória decretada

Giovana Girardi

terça-feira 10/06/14

A piracaratinga, um tipo de bagre da Amazônia bastante apreciado na Colômbia, fica proibido de ser pescado e comercializado a partir de 1º de janeiro. Pescadores usam carne de boto como isca para atrair o peixe

Boto cor-de-rosa tem sido morto para virar isca de peixe. Crédito: Anselmo d’Affonseca

Responsável indireto pela mortandade do boto-cor-de-rosa na Amazônia, o peixe piracatinga, comum nos Rios Amazonas e Solimões, terá a pesca embargada pelos próximos cinco anos para diminuir o risco sobre o mamífero.

A moratória é parte de um pacote de medidas anunciado no dia 22 de maio, Dia Internacional da Biodiversidade. Estabelecida pelos Ministérios do Meio Ambiente e da Pesca, deve ter início a partir do ano que vem.

As duas espécies se relacionam por conta da interferência humana. A piracatinga se alimenta preferencialmente de carne morta – até por isso é chamada de “urubu d’água” – e pescadores descobriram que alimentá-la com carne de boto era uma forma bastante eficiente de atrair o peixe em grande quantidade.

Morto para servir de isca, o boto-cor-de-rosa, também conhecido como boto vermelho (Inia geoffrensis), começou a declinar nos últimos anos. Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) realizados em uma microrregião de Tefé, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, no Amazonas, calcularam uma queda de 10% por ano na população que vive ali.

Outro trabalho, realizado entre 35 comunidades pesqueiras na região do baixo Rio Purus, também no Amazonas, estimou que a pesca provoque a morte de 67 a 144 botos por ano. Há registros de que a prática é disseminada pela Bacia Amazônia, ocorrendo de Manaus a Tabatinga, ao longo de toda a calha do Rio Solimões, e no entorno de Santarém.

Colômbia. Por ter esse comportamento “carniceiro”, a piracatinga nunca foi muito apreciada em terras brasileiras, mas acabou atendendo perfeitamente a uma demanda da Colômbia. O país fronteiriço com o noroeste do Amazonas sempre apreciou um peixe de sabor e textura similares à piracatinga – o capaz –, que foi consumido até seu esgotamento.

No final dos anos 90, a piracatinga passou a ser largamente pescada para exportação. Mais recentemente, começou a ser vendida também no Amazonas, no Nordeste, em São Paulo e no Rio com o nome de douradinha.

A moratória, que deve valer por cinco anos a partir de 1º de janeiro do ano que vem, proíbe a pesca e a comercialização da piracatinga. Só fica liberado o consumo de subsistência, com captura e transporte de até 5 kg do peixe.

A medida deve facilitar a fiscalização, uma vez que ficará mais focada em postos estratégicos, como postos de desembarque, explica Giovanna Palazzi, da secretaria de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente.

Apesar de anos de alertas de cientistas sobre a mortandade de botos para atrais os peixes, os órgãos de fiscalização em geral falham em coibir a prática ilegal porque é difícil flagrar alguém matando o boto. Já um animal morto pode servir para capturar centenas de piracatingas, volume em teoria mais fácil de ser visualizado.

De acordo com Giovanna, o boto é hoje considerado vulnerável na lista de espécies ameaçadas de extinção no Brasil, mas há uma discussão para mudar seu status para “em perigo”, nível mais preocupante.

Estudiosa das ameaças ao boto, a bióloga Sannie Brum, colaboradora da Associação Amigos do Peixe-boi e pesquisadora do Instituto Piagaçu, comemorou a decisão, mas alerta que é preciso ter uma boa fiscalização.

“Hoje já vários peixes com pesca proibida na Amazônia que ainda assim continuam sendo pescados. Com outras a época do defeso é desrespeitada. Então precisa ter um bom plano para fiscalizar. Depois de transformado em filé, é fácil dizer que a piracatinga é qualquer outro peixe”, diz.

Sannie, que é autora da pesquisa no Purus, sugere ainda que se aproveite o período da moratória para buscar alternativas ao boto, como novas formas de isca, de modo a manter a possibilidade de pesca de modo menos agressivo. Ela mesma, com financiamento da Fundação Boticário, vem buscando possíveis novas iscas. “Outra possibilidade é que em vez de usar uma armadilha com a carne do boto para atrair a piracatinga, eles pesquem com linha. Não vai ser uma renda tão rápida, mas pode manter a atividade”, diz.

Arquivo. Veja reportagem do Estadão que explica como o boto é usado como isca para capturar a piracatinga.