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As coisas incríveis que acontecem fora de São Paulo

Amanda Noventa

23 junho 2014 | 22:29

O quase choque cultural do paulistano

Acordo com o barulho da obra na frente do meu prédio. Estou atrasada. Só mais cinco minutinhos. Levanto. Tomo café da manhã enquanto me troco. Saio correndo. Checo os e-mails no celular. Minha rua está fechada por dois guindastes da obra da frente. Caos. Subo a ladeira da minha casa. Espero o ônibus que não vem nunca no ponto. Rezo para que não esteja lotado. Vou chacoalhando no ônibus até o trabalho. Rezo para que não tenha trânsito. Fico enjoada de tanto que chacoalha. Esse sol na minha cabeça também. Chego no trabalho. O elevador quebrado. Sempre. Sento à minha mesa e fico presa lá até as 7 da noite. Saio do trabalho. Espero o ônibus naquele ponto lá longe. Rezo para que não esteja lotado. Está lotado, droga. Vou chacoalhando no ônibus. Rezo para que não tenha trânsito. Tem trânsito. Buzina. Túnel da Rebouças parado. Será que se eu descer aqui e for andando vou ser assaltada pelos craqueiros que ficam naquela pracinha? Fome. A última coisa que comi foi no almoço. Saco. Todo dia esse túnel travado. Desço do ônibus cansada. Vou desviando dos carros e das pessoas na rua. Buzina. Mais buzina. Não vejo a hora de chegar em casa. Chego. Tomo banho. Como alguma coisa. E não consigo mais ter disposição para sair do meu apartamento de 40m2 de aluguel caríssimo.

No feriado abandonei tudo isso e fui pro mato. Me enfiei na Serra do Cipó em Minas Gerais, um lugar onde não há nada.

Chegando lá o paulistano quase tem um choque cultural. A ruazinha principal é asfaltada, mas suja de terra e com meia dúzia de restaurantezinhos. Balada e bar, nem pensar. As placas de indicações na cidade são raríssimas, de madeira e com as letras desaparecendo. A pousada não tem wi-fi que funciona direito. E ainda é o lugar onde “fenômenos” naturais acontecem…

Percebi que não se ouvia nada além do canto da cigarra e dos passarinhos. Lembrei que isso se chama silêncio, um fenômeno que não existe em São Paulo. E eu até consegui dormir a noite toda e acordar naturalmente! Procurava falar baixinho, mesmo que não houvesse ninguém ao redor, só para não atrapalhar.

E você sabia que ainda existem estrelas? Eu tinha esquecido. Provavelmente porque em São Paulo não existe nenhuma. Lá na serra levei um susto quando olhei pro céu. Era tão estrelado e brilhante que achei melhor deitar na rede e ficar observando pra ver se conseguia gravar aquela imagem na memória. Lembrei de quando estudei astronomia, de quando enviei uma carta pra Nasa pedindo fotos dos espaço e de como olhar pro céu pode acalmar qualquer ansiedade.

Respira fundo esse ar. É tão puro que parece refrescar por dentro. Em São Paulo, se pudéssemos, não respiraríamos. Na serra você respira mais do que o necessário porque é bom.

E como se o silêncio, o céu estrelado e o ar puro não bastassem, ainda existem as cachoeiras. Para chegar em uma delas você ativa o seu espírito explorador e aventureiro. Precisa andar um tempo por uma trilha cheia de árvores, pedras e com vista para as montanhas. E então no fim do caminho você encontra a cachoeira, dá um mergulho, deixa a água cair nas costas e levar toda a tensão embora…

Assim fui sendo invadida por uma onda de alívio por estar fora de São Paulo e entendendo melhor o que acontecia ao meu redor: a pousada não tinha wi-fi mas tinha rede na varanda pra você olhar pro céu, os restaurantes eram simples mas serviam comida mineira e, tudo bem a falta de sinalização na cidade, porque a graça está em explorar e descobrir o caminho sozinho.

Às vezes é necessário ir pro meio do nada para descobrir que aquilo é tudo que se precisa.

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Ilustração: Winnie Affonso