O violinista brasileiro Pablo de León (acima com Valery Gergiev, em Moscou), spalla da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, é o único brasileiro que recebeu a honraria de ser, desde 2003, músico convidado a integrar a WOP (World Orchestra for Peace – www.worldorchestraforpeace.com), fundada em 1995 pelo maestro Sir Georg Solti e com a finalidade de reafirmar, nas próprias palavras do fundador, “ a força sem igual da música como embaixadora da paz”. Formada por spallas e chefes de naipes de orquestras do mundo inteiro – London Symphony, Filarmônicas de Berlim, Viena, Israel, Tonhalle, Buenos Aires, entre muitas outras – os músicos se unem, como limalhas de ferro, atraídas pelo mesmo ímã: a Música. Após a WOP realizar 3 concertos desde sua fundação, sempre sob a batuta do renomado maestro Valery Gergiev, o único violinista representante brasileiro foi convidado a integrar o grupo. Apresentou-se na Rússia, São Petersburgo, Alemanha, China, Holanda, Hungria, Bélgica, Israel, Polônia, Suécia, Inglaterra, Áustria, Emirados Árabes… Neste ano, nos dias 19 e 21 de outubro, a WOP apresenta-se no Carnegie Hall (NY) e no Symphony Center (Chicago). Um time de feras. E a platéia se emociona.
Abaixo, um trecho de descontraída conversa com o violinista brasileiro.
Como surgiu o convite?
Charles Kaye, o manager da orquestra, entrou em contato comigo após referências internacionais bastante positivas que fizeram sobre o meu trabalho. Fiquei muito feliz. Devo também à Sabine Lovatelli, entre outras pessoas, meu agradecimento. Mas confesso que não esperava uma surpresa dessas. Lembro-me agora de um ensaio relâmpago em que o quinteto de cordas da WOP, da qual eu fazia parte, registraria a execução de uma obra que serviria de chamada para o concerto da WOP do dia seguinte, no Royal Albert Hall, em Londres. Era nossa primeira leitura em conjunto da obra. Eu dividia a estante de violinos com o spalla da Filarmônica de Viena. Quando acabamos a leitura da obra, nos comunicaram que a gravação já havia sido realizada…Entre espanto e sorrisos, os membros do quinteto percebemos que a gravação, de fato, havia ficado muito boa. E a leitura do ensaio transformou-se na versão definitiva. Essas são, entre outros muitos exemplos, as agradáveis surpresas que a música nos prepara, e ao qual eu me referia anteriormente.
Esta orquestra é formada somente por spallas e chefes de naipe. Você acumula a experiência de ser spalla de diversas orquestras. O que significa, na prática, carregar essa posição?
Responsabilidade. O spalla, além de ter como sua função a necessidade de contribuir artisticamente com o grupo, também é um canal administrativo entre o maestro e a orquestra. Explico-me: uma orquestra guarda diversos paralelos com uma empresa no que se refere à administração de seus desafios internos. Não foram poucas as vezes que, tanto músicos quanto maestros, me procuraram para dividir preocupações ou pontos de vista. Minha função, além de requerer competência técnica, exige competência humana, pessoal. Mas isso ocorre também em outras profissões, não é verdade?
Você poderia explicar melhor o que seria exatamente a competência pessoal ao qual você se refere?
É saber exercer a liderança, mas não através do poder. O poder não forma o líder. Muitas das dificuldades administrativas surgem aqui: quando quem tem poder não tem as qualidades humanas e pessoais para a função. Quando você é respeitado – e aqui reforço que a competência musical e técnica são fundamentais – você consegue conduzir. Ser spalla é um serviço, não um pedestal, e muito menos uma fonte de auto-afirmação. Um spalla deve estar disposto a aprender até mesmo daqueles que tem um cargo inferior ao seu dentro da orquestra. Não nos esqueçamos que, em uma orquestra, todos somos músicos. Todos somos iguais. A orquestra é um grande organismo vivo onde todas as partes do corpo são importantes. E é neste momento que surge a flexibilidade, conseqüência de uma atitude que não pode e nem deve ser egocentrada.
O que mais lhe chamou a atenção na WOP?
O quanto o Brasil poderia crescer culturalmente. A música erudita no Brasil não tem tradição. É como o futebol no Japão. Há hoje, no Brasil, poucas escolas de música, a educação nas escolas brasileiras não leva em conta esse importante investimento cultural e os músicos não gozam de incentivos. Na WOP, por exemplo, divido lado a lado a cadeira com gente que nunca pagou para ter aulas de seu instrumento. Insisto: nunca. Entre os músicos da WOP há 4 ou 5 Stradivarius sendo utilizados, além de Guarnerius, entre outros instrumentos. Esse investimento, feito por bancos e pessoas de posse, acaba tendo um excelente desdobramento: o de perceber que música não é despesa, de que cultura não é despesa. Quando isso acontece aqui?
Lembro-me agora de alguns solistas internacionais que, só por virem solar no Brasil, não trazem seu melhor instrumento. O estrangeiro acabou conhecendo que aqui no Brasil, embora exista hoje um momento de florescer econômico, não se investe em cultura e educação de modo estável, sólido, orgânico. A WOP me mostrou que há muita gente que faz música dentro de um clima de trabalho exigente, sério, mas ao mesmo tempo distendido, repleto de entusiasmo, alegria e paixão. Todas as vezes que toco lá fico emocionado. E essa é a verdadeira essência da música.
Você pensa em ser maestro?
(Risos). Não exatamente, mas estudar regência acaba sendo uma necessidade.
Abaixo, durante ensaio na Sala Tchaikovsky do Conservatório de Moscou. Pablo de León ocupa a função de concertino. A seu lado, na função de spalla da WOP, o spalla da Filarmônica de Viena.
Alvaro,
Acompanho sua trajetória no site e agora, também pelo blog. Sempre ouvi dizer que a música envolve muitas áreas acadêmicas. Fiquei maravilhada com esta matemática : cultura + música = paz!
Obrigada por mais este esclarecimento.
Sucesso!
Katia, nesse mundo repleto de stress acústico, a verdadeira música sempre é fonte de paz. Desfrute-a! Um abraço
responder este comentário denunciar abusoOlá o Trompetista Marlon Humphreys, da Orquestra Filarmonica de Minas Gerais também é um convidado da World Orchestra of Peace. Ele é de São Paulo, e foi aluno do grande Mestre Gilberto Siqueira.
Pacifico, boa colocação a sua. No entanto, o artigo se refere ao violinista, único brasileiro regularmente convidado, desde 2003. O oboísta Klein também participou, mas de modo isolado, deste exemplar grupo sinfônico. Não é verdade? Um abraço
responder este comentário denunciar abusoPrezado Pablo, seus colegas da “OSB O&R” manifestam o orgulho de tê-lo como um de nossos spallas. Parabéns pela lucidez de suas respostas . Forte abraço, Luzer David.
Luzer, a escolha da “OSB O&R” foi bastante acertada. O violinista demonstrou bom senso e muita lucidez nas respostas, cujo conteúdo mostra que por detrás de um músico verdadeiro deve sempre existir uma pessoa verdadeira. Ser artista não é o mesmo que ser exibicionista. Embora muitos digam que a arte sempre está em primeiro lugar, a atitude egocentrada muitas vezes faz com que o discurso seja diferente do comportamento. Um abraço e parabéns pelo trabalho que a “OSB O&R” se comprometeu a realizar.
responder este comentário denunciar abusoÁlvaro, é grande a expectativa dos integrantes da “OSB O&R” com relação ao inicio da temporada 2012, na verdade a primeira do novo conjunto criado sob a égide da Fundação Orquestra Sinfonica Brasileira. Durante o recesso das atividades (férias), a Diretoria Artistica da FOSB tem se empenhando no sentido de nos proporcionar as melhores condições de trabalho, de modo que
possamos apresentar espetáculos dignos da tradição da nossa instituição. Certamente, a liderança de spallas da qualidade de Michel Bessler e Pablo de León e de chefes de naipe da categoria de David Chew e Rudolf Kroupa, associada ao empenho dos outros músicos, representa uma garantia de que nossos objetivos serão alcançados. Esperamos corresponder à sua expectativa.
Luzer, estarei prestigiando o trabalho, não somente aqui, mas principalmente como músico www.alvarosiviero.com).
Mande notícias! Um abraço
É incrível perceber que brasileiros conseguem ser reconhecidos internacional em setores que não são incentivados no Brasil. Realmente a falta de incentivos em educação e cultura (citada na entrevista) é bastante perceptível no Brasil e isso faz com que o nosso povo esteja despreparado para áreas fundamentais da vida. E isto interfere também em outros segmentos, como a matemática, por exemplo (já que a música está intimamente ligada com a matemática, apesar de serem de áreas diferentes). Acredito que um investimento maciço em educação e cultura faria com que o Brasil não formasse apenas profissionais, mas sim cidadãos.
2012
2011
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