A récita de O Morcego, opereta que encerra a programação do Theatro Municipal de São Paulo, mostrou qual o porquê de estar com seus ingressos esgotados. Além de sólida presença cênica e lírica dos artistas envolvidos, une-se a conexão com o público criada pela adequação do seu conteúdo ao contexto dos dias atuais, tanto pela tradução adaptada ao português como pela utilização de cenários e figurinos modernos. Sem dúvida, pontos positivos para o diretor William Pereira. A tentativa de apoiar o caráter cômico da obra em excessivas ironias, em liberdades excessivas de contextualização ou até mesmo em sexualidade barata – preservativos, lingeries, danças do mastro, entre outros, em destaque especial – acabaram em alguns momentos criando certo desconforto, ou até mesmo neutralizando o humor espontâneo que a própria obra já possui. Mas talvez, essa fosse exatamente a proposta: uma crítica à real sociedade atual, banalizada em matérias que merecem maior importância e respeito. Tudo muito sutil. Sem dúvida, uma contraproposta à Viena do século 19.
A Orquestra Sinfônica Municipal, sob a experiente regência de Abel Rocha, em plena forma, quase dividindo o palco com os personagens, assumiu em muitos momentos o protagonismo, transmitindo aos presentes a viva impressão de que, quando se sabe o que se faz, o fosso é mera geografia. O esmero de sonoridade, as dinâmicas criadoras de novos ânimos aos diferentes momentos da estória e, acima de tudo, a segurança transmitida por Abel Rocha, explicaram o caloroso e merecido aplauso recebido.
Já no primeiro ato, Edna D’Oliveira (Adele) revelou seu lado cômico incomum, unido à sua marcante presença cênica e lírica. Em conjunto com as igualmente marcantes presenças de Rosana Lamosa (Rosalinde) e Fernando Portari (Eisenstein), conseguiram deixar o público inquieto e expectante para o segundo ato. Destaque também especial para Rubens Medina, no papel de Alfred. É também no segundo ato que Rosana Lamosa mostra porque hoje é considerada uma das grandes cantoras líricas da atualidade, em sua magistral interpretação da célebre czarda húngara, em timbre sonoro aveludado. Sem dúvida, um dos pontos altos da récita. Fernando Portari, com sua voz segura, atua como perfeito fio condutor da trama. Leonardo Neiva (Falke) e Regina Elena Mesquita (príncipe Orlofsky), experientes, deram ao espetáculo o sabor que a estória exigia. A utilização de diversos musicais durante o segundo ato – inclusive a figura do samba brasileiro – trouxeram à festa do príncipe Orlofsky aquela pitada cômica extra que cativou o grande público.
Quando a récita se encerrou, público e elenco estavam de mãos dadas. Que venha 2012 com outros presentes – agora que se aproxima o Natal – como esse!
O jovem e excêntrico príncipe russo Orlofsky, que acaba de se instalar em Viena, decide realizar uma grande festa em seu rico palácio. É aí que tudo se inicia, com o entrelaçamento da estória de 3 personagens.
Logo no início da opereta, Gabriel von Eisenstein, um galanteador romântico que adora pregar peças, é sentenciado a oito dias na prisão por desacato civil. Momentos antes de sair de casa para a prisão, após despedir-se de sua esposa Rosalinda, é interceptado por seu amigo Dr. Falke que o convence a aceitar um convite que lhe traz, da parte do príncipe, para comparecer disfarçado ao baile desta noite. Nada aconteceria caso se entregasse às autoridades somente na manhã seguinte. Por detrás desta proposta, o jovem e engenhoso Dr. Falke quer lhe dar o troco a uma humilhação que sofreu no passado, quando Eisenstein o deixou, após as festas de carnaval, dormido no chão, em plena luz do dia, fantasiado de morcego. É o momento da revanche.
Rosalinda, a esposa de Eisenstein, cansada da atitude galanteadora do marido, deixa-se cortejar por Alfred, que a chama agora de sua pombinha e lhe faz serenatas. Assim que o marido se despede “para dirigir-se à prisão”, Rosalinda abre as portas de sua casa a Alfred convidando-o a jantar. É neste momento que, inesperadamente, chega o diretor da prisão para prender o chefe da família. Vendo-se confusa e flagrada, Rosalinda entrega Alfred à prisão que, mesmo insistindo em provar que não é o homem procurado, recebe o descrédito do diretor da prisão, principalmente, quando é indagado por Rosalinda se este seria capaz de imaginá-la ceando a esta hora da noite com alguém que não fosse seu marido. Alfred é capturado e Rosalinda, mesmo tendo se protegido, embora desesperada, teme o pior: o encontro de Alfred e Eisenstein na prisão. Mas uma pergunta paira no ar: porque o marido partiu para a prisão vestido a rigor? Rosalinda decide ir ao baile. Adele, a bela e atrativa criada da família, depois de conseguir um belo vestido e lançando mão de falsa desculpa, dirige-se também ao palácio do príncipe russo.
No auge da festa, o príncipe faz questão de que tudo corra bem, e ai daquele que se recuse a beber com ele. Todos fantasiados. Eisenstein, apresenta-se na festa como sendo o marquês Renard e, não reconhecendo a própria mulher, que havia se apresentado como uma condessa húngara, começa a cortejá-la. E a confusão se instaura. O resto da estória? É esperar para ver. Onde?
Theatro Municipal de São Paulo – Praça Ramos de Azevedo, s/n. Dias 09.12, 12.12 e 14.12 às 21h. Dia 10.12 às 20h. Dia 11.12 às 17h. Bilheteria: 11-3397-0327
Johann Strauss, o jovem, já era famoso como compositor de música vienense de dança antes de se voltar ao estilo das operetas. Entre os muitos momentos marcantes da festa, após o término do balé apresentado por dançarinos profissionais contratados pelo príncipe russo, este convida todos os presentes a dançarem uma valsa. É a famosa Valsa do Morcego (minuto 3’ do vídeo abaixo). Deixo a abertura da opereta para vocês e, também, a famosa transcrição, de Grunfeld, da mesma valsa, interpretada por Yevgueny Kissin, uma das que mais gosto de executar! Ah, o pianista russo estará neste ano se apresentando por aqui, na temporada do Cultura Artística. Não percam!
2012
2011