Faz não muito tempo tive a sorte de conhecer o local exato onde Santa Cecília foi martirizada, em Roma, no bairro de Trastevere, onde a nobre romana residia e, onde hoje, ergue-se a solene igreja de Santa Cecília. Como músico, estando em Roma, não poderia deixar de cumprir esta obrigação, entre tantas outras. O local exato do martírio – fechado durante o ano – somente é aberto em ocasiões especiais, como a do dia de hoje. A casa da padroeira universal dos músicos, como em tantos outros monumentos romanos, encontra-se diversos metros abaixo da atual igreja.
É provável que tenha sido martirizada entre 176 e 180, sob o império de Marco Aurélio. Segundo o relato, Cecília foi dada em casamento, contra sua vontade, a um jovem chamado Valeriano. Mesmo tendo exposto os motivos que a levavam a não aceitar este contrato, a vontade dos pais se impôs tornando-lhe inútil qualquer resistência. Estando a sós com o noivo, Cecília declarou-lhe o seu desejo de dar-se a Deus, guardando sua alma e corpo. A firmeza e o desejo de sua noiva, mesmo que incompreensível a um pagão, deixaram Valeriano vivamente impressionado e, respeitando as declarações da noiva e sua virgindade, converteu-se e recebeu o batismo naquela mesma noite. Valeriano relatou a seu irmão Tibúrcio o ocorrido. Cativado pela atitude da bela jovem romana e pelo genuíno amor de Valeriano, Tibúrcio também se converte.
O fato chegou aos ouvidos do prefeito de Roma, Turcius Almachius, que exigiu peremptoriamente que abandonassem, sob pena de morte, a religião que tinham abraçado. Diante da recusa formal, foram condenados à morte e decapitados. Cecília, uma jovem de forte caráter, conduzida ao lugar determinado para sua execução, falou com tanta convicção aos soldados da beleza da sua opção que estes se declararam a seu favor, e prometeram abandonar o culto dos deuses. O prefeito, vendo-se frustrado, deu ordem para que Cecília fosse asfixiada por vapores d’água, chegando a ser metida em um banho de água fervente do qual saiu ilesa. O prefeito, então, recorreu à pena capital: três golpes vibraram, mesmo não conseguindo separar a cabeça do tronco. Cecília, mortalmente ferida, caiu por terra e ficou três dias nesta posição. Nesse período, pediu que toda sua riqueza fosse entregue aos pobres. Pediu também que sua casa fosse transformada em igreja, o que se fez logo depois de sua morte.
O corpo de Santa Cecília, enterrado na Catacumba de São Calisto, ficou muito tempo escondido, sem que se soubesse qual seria seu exato jazigo. Em 817 achou-se o caixão de cipreste que guardava as relíquias. Ao lado da Santa acharam seu repouso os corpos de Valeriano e Tibúrcio. O corpo de Cecília, encontrado intacto e na mesma posição em que tinha sido enterrado, foi reproduzido pelo escultor Stefano Maderno assim que o viu, em finíssimo mármore, em tamanho natural.
Relatos históricos afirmam que Cecília, nos festejos do casamento, ouvindo o som dos instrumentos musicais, teria elevado o coração a Deus pedindo para que lhe guardasse o corpo e a alma. Desde o século XV, Santa Cecília é considerada padroeira da música sacra, e sua festa é celebrada no dia 22 de novembro, dia da Música e dos Músicos.
A intolerância e discriminação em relação à atitude religiosa da nobre romana, no mínimo, surpreende. O fanatismo e cegueira do prefeito, que se sentia incomodado pela coerência da jovem, encontra reflexo nos dias atuais: aqueles que proíbem, mas não querem ser proibidos. É impossível voltar no tempo em tentativa de salvar a vida desta jovem. Perde-se uma vida, mas ganha-se o exemplo de quem não abriu mão de convicções para poder ser aceita, para se popularizar. Se acaso ela o tivesse feito, quem seria ela hoje?.
Fica para nós, músicos, o exemplo de quem fez uma opção revolucionária, repleta de contestação para os padrões da época, entregando sua vida a um motivo que transcende o espacial, o terreno. Que nós músicos – e digo isso a mim mesmo – também tenhamos motivos superiores, elevados, para o nosso sagrado trabalho: tocar o coração e a alma das pessoas.
Desejo a todos música de verdade!
2012
2011