Em 2008, tive a alegria de representar o Brasil no histórico Encontro Mundial de Artistas, em Roma. Um dos diversos momentos mágicos deste workshop ocorreu na Capela Sistina, quando o próprio Bento XVI, ao som do Glória de Vivaldi interpretado pelo próprio coro da capela, proferiu seu discurso diante do Juízo Final de Michelangelo. Nada mais, nada menos. Um momento único. Eu era o único brasileiro. Pessoas de diversas raças, credos religiosos e áreas de atuação (arquitetura, música, pintura, cinema, literatura, entre outros) compartilhavam algo difícil de descrever. Semanas antes de meu embarque recebi a lista dos participantes: os arquitetos Santiago Calatrava e Daniel Libeskind, a escritora Susana Tammaro, os pianistas Angela Hewitt (vide foto abaixo) e Michele Campanella, Andrea Bocceli, entre tantos outros, foram alguns com a qual dividi momentos inesquecíveis. Um dos nomes desta lista que especialmente me interessava era o ator Murray Abraham, imortalizado por sua impecável atuação como Salieri no premiado filme Amadeus, o que lhe rendeu o oscar de melhor ator naquele ano.
Também levou a estatueta o diretor Milos Forman, que utilizou como roteiro a peça homônima escrita pelo próprio roteirista do filme, Peter Schaffer. As origens, no entanto, do duelo Mozart x Salieri retratado no filme – e todas as conseqüências da inveja de Salieri por Mozart – radicam-se no texto Mozart e Salieri do poeta russo Alexander Pushkin, que também levou o músico Rimsky-Korsakow a escrever ópera baseada no tema. Como se pode perceber, quando o assunto é inveja… (ler artigo).
Mas o compositor Antonio Salieri (Legnano, 1750 – Viena, 1825), seis anos mais velho que Mozart, não é o que o filme retrata. Salieri era senhor absoluto da música e compositor oficial da corte do imperador José II da Áustria (por quase 40 anos) quando Mozart mudou-se para Viena. , compôs mais de 40 óperas, orientou músicos do porte de Beethoven, Czerny, Liszt, Hummel, Schubert, entre outros e, contrariando a versão cinéfila, admirava Mozart, o qual considerava um gênio.
Mas o que o diretor Milos Forman mesmo queria – e conseguiu! – foi fazer da música o ator principal do filme. Tudo gira em torno dela. E o filme o que pretende é debruçar-se sobre ela. E conseguiu. Mas sobrou no filme – em minha visão – aquelas gargalhadas frívolas e insistentes retratando um Mozart esvaziado. Isso não era necessário. E necessariamente também não corresponde à verdade.
Aqui, uma das cenas mais evidentes do início da relação tumultuosa entre Salieri e Mozart, como retratado no filme.
Faz não muito tempo tive a sorte de conhecer o local exato onde Santa Cecília foi martirizada, em Roma, no bairro de Trastevere, onde a nobre romana residia e, onde hoje, ergue-se a solene igreja de Santa Cecília. Como músico, estando em Roma, não poderia deixar de cumprir esta obrigação, entre tantas outras. O local exato do martírio – fechado durante o ano – somente é aberto em ocasiões especiais, como a do dia de hoje. A casa da padroeira universal dos músicos, como em tantos outros monumentos romanos, encontra-se diversos metros abaixo da atual igreja.
É provável que tenha sido martirizada entre 176 e 180, sob o império de Marco Aurélio. Segundo o relato, Cecília foi dada em casamento, contra sua vontade, a um jovem chamado Valeriano. Mesmo tendo exposto os motivos que a levavam a não aceitar este contrato, a vontade dos pais se impôs tornando-lhe inútil qualquer resistência. Estando a sós com o noivo, Cecília declarou-lhe o seu desejo de dar-se a Deus, guardando sua alma e corpo. A firmeza e o desejo de sua noiva, mesmo que incompreensível a um pagão, deixaram Valeriano vivamente impressionado e, respeitando as declarações da noiva e sua virgindade, converteu-se e recebeu o batismo naquela mesma noite. Valeriano relatou a seu irmão Tibúrcio o ocorrido. Cativado pela atitude da bela jovem romana e pelo genuíno amor de Valeriano, Tibúrcio também se converte.
O fato chegou aos ouvidos do prefeito de Roma, Turcius Almachius, que exigiu peremptoriamente que abandonassem, sob pena de morte, a religião que tinham abraçado. Diante da recusa formal, foram condenados à morte e decapitados. Cecília, uma jovem de forte caráter, conduzida ao lugar determinado para sua execução, falou com tanta convicção aos soldados da beleza da sua opção que estes se declararam a seu favor, e prometeram abandonar o culto dos deuses. O prefeito, vendo-se frustrado, deu ordem para que Cecília fosse asfixiada por vapores d’água, chegando a ser metida em um banho de água fervente do qual saiu ilesa. O prefeito, então, recorreu à pena capital: três golpes vibraram, mesmo não conseguindo separar a cabeça do tronco. Cecília, mortalmente ferida, caiu por terra e ficou três dias nesta posição. Nesse período, pediu que toda sua riqueza fosse entregue aos pobres. Pediu também que sua casa fosse transformada em igreja, o que se fez logo depois de sua morte.
O corpo de Santa Cecília, enterrado na Catacumba de São Calisto, ficou muito tempo escondido, sem que se soubesse qual seria seu exato jazigo. Em 817 achou-se o caixão de cipreste que guardava as relíquias. Ao lado da Santa acharam seu repouso os corpos de Valeriano e Tibúrcio. O corpo de Cecília, encontrado intacto e na mesma posição em que tinha sido enterrado, foi reproduzido pelo escultor Stefano Maderno assim que o viu, em finíssimo mármore, em tamanho natural.
Relatos históricos afirmam que Cecília, nos festejos do casamento, ouvindo o som dos instrumentos musicais, teria elevado o coração a Deus pedindo para que lhe guardasse o corpo e a alma. Desde o século XV, Santa Cecília é considerada padroeira da música sacra, e sua festa é celebrada no dia 22 de novembro, dia da Música e dos Músicos.
A intolerância e discriminação em relação à atitude religiosa da nobre romana, no mínimo, surpreende. O fanatismo e cegueira do prefeito, que se sentia incomodado pela coerência da jovem, encontra reflexo nos dias atuais: aqueles que proíbem, mas não querem ser proibidos. É impossível voltar no tempo em tentativa de salvar a vida desta jovem. Perde-se uma vida, mas ganha-se o exemplo de quem não abriu mão de convicções para poder ser aceita, para se popularizar. Se acaso ela o tivesse feito, quem seria ela hoje?.
Fica para nós, músicos, o exemplo de quem fez uma opção revolucionária, repleta de contestação para os padrões da época, entregando sua vida a um motivo que transcende o espacial, o terreno. Que nós músicos – e digo isso a mim mesmo – também tenhamos motivos superiores, elevados, para o nosso sagrado trabalho: tocar o coração e a alma das pessoas.
Desejo a todos música de verdade!
2012
2011