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Alvaro Siviero

Um resumo dos últimos e infelizes acontecimentos que rondam a OSB: o prefeito do Rio de Janeiro declarou, de modo contundente e desbragado, que a OSB não mais receberá o patrocínio da prefeitura do Rio, embora afirmasse que continuará a ajudar a OSB (de que forma?). Propôs, além disso, que a OSB – Orquestra Sinfônica Brasileira sofra uma fusão com a OPES – Orquestra Petrobrás Sinfônica, dado que o Rio de Janeiro necessita, somente, um grupo sinfônico forte.

“O Rio tem duas orquestras sinfônicas: a OSB e a OPES. Uma tem como regente Isaac Karabtchevsky, meu querido amigo. Outra tem Minczuk, com quem tenho boa relação. Os músicos que tocam nelas são, em muitos casos, os mesmos. A OSB custa R$40 milhões por ano. A outra, R$20 milhões. (…) A cidade merece ter uma orquestra sinfônica, mas a prefeitura não vai bancar vaidades”, disparou o prefeito. Desnecessário dizer que o pronunciamento levantou a ira de todos. “O dinheiro público tem que ser investido em coisas que, de fato, tragam projeção à cidade”, declarou.

Minha análise pessoal faz acreditar que a OSB poderá continuar a desenvolver seu trabalho, prescindindo deste apoio financeiro. Mas evidencia, sem sombra de dúvida, esse desinteresse preocupa. Encarar uma orquestra como maquiagem para projeção de uma cidade é, no mínimo, um engano. Hoje, em diversas cidades em que passo por motivos profissionais neste mundo afora, o Rio de Janeiro é conhecido como seara do futebol, de mulatas peladas, do samba e da cerveja.

Alguns dados importantes:

1. O prefeito não fez alusão à Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a mais antiga do Rio de Janeiro, fundada em 1931 (OSB-1940, OSB “Ópera&Repertório-2011 e OPES-1972). Ao afirmar que o Rio possui duas orquestras acabou deslizando pesado.
2. O assunto, ventilado para o grande público através dos meios de comunicação, nunca havia sido discutido anteriormente, de forma interina, com as partes interessadas.
3. A medida diminuirá a oferta de espetáculos, o mercado de trabalho e a abrangência geográfica de concertos. O presidente da Fundação OSB, Eleazar de Carvalho Filho, afirmou que, caso seja necessário fazer cortes, o conselho verificará onde o dano será menor. E o principal gasto da Fundação OSB é a folha de pagamento.
4. Em diversos países do mundo, desenvolvidos, existe uma média de 1(uma) orquestra para cada 300 mil habitantes. O Rio possui 8 milhões. Tóquio possui 11 grupos sinfônicos, e cidades como Paris, Viena, Londres… possuem, aproximadamente, 5 grupos sinfônicos em cada uma dessas cidades. Cultura virou despesa?
5. No país do futebol em que estamos, faria sentido a fusão do Vasco com o Fluminense? Ou do Flamengo com o Palmeiras? Que tipo de contenção de gastos se busca? Qual o critério para se afirmar que a OSB “não traz projeção à cidade”?

Entrei em contato com a assessoria de imprensa da prefeitura, pedindo respostas a essas colocações. Tão logo as tenha, enviarei as respostas.

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Pois é, a Prefeitura do Rio de Janeiro cancelou o repasse de R$ 8 milhões que faria à Fundação OSB, previsto para 2013. O valor, que representa 20% do orçamento das atividades, foi suspenso formalmente através de uma carta assinada pelo prefeito Eduardo Paes. Qual a justificativa? Poupar fundos para investimento na preparação da Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímícos (2016), que ocorrerão na cidade maravilhosa, e outros eventos de grande envergadura.

A notícia pegou de surpresa a todos, incluindo a superintendência da Fundação Orquestra Sinfônica. Segundo o superintendente Ricardo Levisky, a colocação é clara: “Estamos pleiteando encontro com o Prefeito que sempre foi muito parceiro da OSB. Toda grande cidade tem uma grande orquestra. O Rio precisa mostrar ao mundo sua beleza natural, seu carnaval e sua música, que é parte da identidade do Brasil”.

O motor econômico da Fundação OSB funciona na seguinte proporção: 20% patrocínio realizado pela Secretaria de Cultura Municipal, 70% de verba doada pela iniciativa privada (incluindo-se, aqui, as leis de incentivo) e 10% com verba de bilheteria e doações. A situação tem contornos de algo definitivo: a decisão veio formalmente, com carta assinada pelo próprio prefeito, onde sua assessoria afirma que o prefeito não pretende se pronunciar sobre o assunto. Resta, agora, a possibilidade de se estudar outras formas de ajuda pois, pelo que tudo indica, a torneira fechou mesmo: a Secretaria de Cultura não quis se pronunciar sobre o assunto, assim como ninguém do Gabinete da Prefeitura.

Após a crise que assolou a orquestra, em 2011, com a demissão e recontratação de 33 de seus músicos, a Fundação OSB tem mantido duas orquestras: a OSB e a OSB “Ópera&Repertório”, esta formada pelos dissidentes readmitidos, e que morde uma boa fatia desse orçamento. Duas orquestras independentes, e que quase não se falam. Um marido que sustenta duas famílias. Complicado.

Recentemente estive solando com a OSB. A atenção esmerada, o imenso profissionalismo e atenção que recebi, o zelo pela excelência constante nos detalhes, contudo, não conseguia encobrir um certo ressentimento ainda solto no ar, ressentimento esse exacerbado com a demissão recente de Fernando Bicudo, diretor artístico da OSB “Ópera e Repertório”. Sem dúvida, um  impasse.

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21.novembro.2012 18:36:01

Fernando Bicudo deixa a FOSB

Abaixo, transcrição do comunicado da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, sobre o trabalho do diretor artístico Fernando Bicudo.

“Completado o trabalho de reestruturação dos corpos artísticos da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira (FOSB), Fernando Bicudo deixará o cargo de Diretor Artístico da FOSB. Bicudo foi fundamental neste processo ao longo do último ano. Ele deixa o legado de ter cumprido a missão que lhe foi proposta: consolidar artisticamente o trabalho dos grupos da Fundação. Bicudo permanece no cargo até o fim da temporada de 2012″.

A função será realizada por Pablo Castellar, com quem Bicudo dividia tarefa.

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Um significativo público acompanhou a execução dos Concertos n.1 e n.2 de Liszt que realizei, recentemente, em cidades de SP e PR. Embora alguns afirmem ser loucura, sempre me cativou o conceito de integrais. O mesmo já havia ocorrido com a integral das Polonaises de Chopin – a título de exemplo – que realizei no Brasil e Argentina. O conceito de “integral” não permite escolha ao intérprete, não há possibilidade de omissão das partes de maior dificuldade técnica, além do que a identificação do intérprete com a proposta do autor deve ser igualmente “integral”.

No último dia 04 de novembro, encerrando este desafio, estava prevista a última apresentação dos dois concertos de Liszt, no Guairão, em Curitiba. Enquanto psicologicamente me preparava para este momento, completamente encardido e absorvido por esses dois monumentos, um telefonema da Orquestra Sinfônica Brasileira, quatro dias antes desta apresentação, me convidava a substituir a pianista americana Simone Dinnerstein que, por motivos diversos, acabou não podendo vir ao Brasil. O repertório? O Concerto de Grieg, além de um recital que ocuparia toda a primeira parte do programa. O pedido – mais do que um convite – foi feito enquanto eu dirigia o carro em meio a um trânsito descomunal em plena Av. Brigadeiro Faria Lima. Entre buzinas, o volume do som do carro (eu escutava naquele momento os Concertos de Liszt na interpretação de Krystian Zimermann) e uma retumbante freada de um ônibus próximo a meu carro, acabei dizendo que sim. Confesso que, ao desligar o telefone (onde o repertório do recital da primeira parte também foi definido, com direito a Beethoven, Chopin, Strauss-Grunfeld, entre outros) pensei no que tinha acabado de fazer. Para os que não sabem, tenho um sério problema de memória: quando sob pressão, ela simplesmente não funciona, e eu teria que memorizar as dezenas de páginas em um dia. Era uma quarta-feira. Os ensaios com a OSB iniciariam na sexta-feira pela manhã, no Rio de Janeiro. Tive que rapidamente cancelar minhas passagens aéreas para Curitiba. Eu somente tinha a certeza de que não poderia dar outra resposta ao colocar-me, em consciência, no lugar de quem me fazia o pedido.

No entanto, o maior problema não era memorizar, mas envolver-me afetivamente com a obra. Sem envolvimento emocional não existe verdadeira interpretação. E envolvimento, quando verdadeiro, pede tempo, pelo menos um pouco mais do que o único dia que eu teria para provocá-lo. O incrível é que quanto maior era o empenho de memorização, mais eu misturava todas as notas do próprio concerto. Enquanto isso minha cabeça dizia: Liszt, Liszt, Liszt…

Cheguei ao Rio de Janeiro quinta-feira, às 22:30h, e dirigi-me ao hotel, consciente de que descansar era fundamental para tentar driblar confusões de memória. Coloquei o iPhone com o Concerto de Grieg debaixo de meu travesseiro e decidi dormir ouvindo a obra, dialogando também com o inconsciente durante as horas de sono. Pouco antes de deitar-me, querendo afastar um sentimento de mal estar, decidi fazer a apresentação com a partitura. Pronto, não havia mais preocupações: a necessidade de memorizar estava descartada! Era a aplicação prática do velho truque de auto-enganação. Dormi tranquilo. Acordei, acreditem ou não, com o concerto memorizado. Falo sério. Tudo meio estranho, mas real. A obra estava abraçada completamente. Mais surpreendente foi verificar que Liszt, a quem já pedi desculpas, caiu em total esquecimento durante aqueles dias cariocas.

Após o primeiro (e único) ensaio da sexta-feira, houve no dia seguinte uma breve passagem de som, já no Teatro Municipal do RJ momentos antes do concerto. De meu camarim, verifiquei a enorme multidão que entrava ininterruptamente no teatro. O calor humano e a receptividade deste grande público (que praticamente atingia o teto do TMRJ), a produção impecável, a cordialidade exemplar por parte da direção da OSB e, dando um empurrão, a inspiração que também decidiu encontrar todos nós no mesmo local e horário da apresentação, transformaram aquele momento em grande êxito. Hoje, provado pela experiência, a dúvida virou certeza: ousar é acertar.

Para aqueles que ainda não conhecem o Concerto de Grieg, fica o video abaixo, com duas dicas:

1. O Concerto de Grieg é o único concerto escrito pelo compositor norueguês, quando tinha apenas 24 anos de idade (1868). A gênese da obra recebeu forte influência do Concerto para piano de Schumann, escrito na mesma na tonalidade e com entrada triunfante similar. Diversas gravações trazem estes dois concertos no mesmo álbum.  Grieg o compôs na Dinamarca e sua estréia ocorreu em Copenhagen, em 1869. Infelizmente, devido a compromissos profissionais já assumidos com a Orquestra de Oslo, o autor não esteve presente na première. Este concerto é um dos mais conhecidos e populares do repertório sinfônico.

2. A obra revela profundo interesse de Grieg pela música folclórica de seu país: o último movimento (18:30 do vídeo)  traz sólida alusão ao halling (dança folclórica norueguesa), bem como à rabeca norueguesa.

 

 

Após a tempestade…

… vem a bonanza… 

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São muitos os casos em que o regente titular de uma orquestra acumula a função de diretor artístico, exercendo o papel de organizar a programação das temporadas, definindo quais obras serão interpretadas e quais os artistas convidados. A OSB – Orquestra Sinfônica Brasileira, a OSESP – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a título de exemplo, hoje, separam essas duas funções. Outras orquestras, como o caso da ORSSE, unificam.

O paulistano Guilherme Daniel Breternitz Mannis, 32, está à frente da ORSSE – Orquestra Sinfônica de Sergipe desde agosto de 2006, como diretor artístico (e também como regente titular) desenvolvendo intenso trabalho musical no Nordeste brasileiro, região onde a música erudita enfrenta diversos desafios, não pelo desinteresse do grande público, mas por políticas culturais mais empenhadas em oferecer à população o que ela busca: o axé, o forró, o nosso samba…  E neste círculo vicioso fica em aberto a conhecida questão de quem vem primeiro, a galinha ou o ovo.

Com concertos concorridos e interesse da população crescendo a passos largos, tive a possibilidade de verificar de perto a reação calorosa do público presente ao Teatro Tobias Barreto (assista ao video) nas vezes em que estive em Aracajú.  Esse é o teor da entrevista abaixo. Engana-se quem pensa que o Nordeste é terreno fabricado exclusivamente para manifestações artísticas de menor densidade.

 

1.       O que significa ser diretor artístico de uma temporada? Você toma sua decisão baseado em obras de densidade artística ou pelo gosto do público?
Significa uma grande responsabilidade, afinal você provoca através das suas escolhas um crescimento intelectual. Suscita a obtenção de uma maturidade artística de uma orquestra e da sociedade na qual o grupo está inserido, formando plateias com bom gosto musical e respeito aos músicos e a orquestra. Para tanto você tem de ter uma enorme sensibilidade, além de levar em conta, na minha visão, três fatores principais: o repertório sinfônico, de variadas épocas e estilos, o seu público e os seus músicos. Evidentemente, você tem de pensar em executar repertórios com a maior qualidade e verdade possível, pois só assim poderá cativar seu público. A partir do interesse em cada programa, as pessoas têm de ser instigadas, mas nunca com estímulos que possam criar desinteresse. Devemos ainda ofertar a música contemporânea aliada a muita música brasileira, sem, no entanto, deixar de propagar os grandes nomes da música clássica de todas as épocas.

 

2.       Como diretor artístico da ORSSE, quais são seus maiores desafios?
Todos nós temos desafios diários. Sergipe, apesar da sua dimensão geográfica, apresenta um enorme potencial artístico com vários segmentos culturais e, como conseqüência, os recursos acabam sendo muito disputados. Aqui tudo é novidade: a oferta de música sinfônica comparável a produção de uma orquestra do eixo RJ-SP faz com que trabalhemos com os mesmos artistas e maestros que colaboram com diversas orquestras brasileiras. Por conta disso, e por nossa busca por excelência, temos a premência de uma estrutura que atenda esses parâmetros profissionais, requerendo salários compatíveis, garantias trabalhistas. Obter recursos para melhor estrutura de trabalho também é nosso objetivo, melhorando sala de ensaios, instrumental da orquestra. Temos trabalhado diariamente para essas conquistas, e em breve esperamos que os sergipanos tenham um belíssimo grupo orquestral consolidado, capaz também de desenvolver bons projetos na área sócio-educacional do estado.

 

3.       Fale sobre uma experiência musical recompensadora e sobre outra mais frustrante. Você acredita em frustração musical?
Recompensador é você terminar o último acorde de todas as seis temporadas de concerto com casa cheia e público querendo bis, como aconteceu com o último concerto do “Messias” de Händel, no ano passado, no Teatro Tobias Barreto, aqui em Aracaju. Os desafios são preparados para enfrentar o risco do inesperado: o preparo que os antecede é que determina o domínio da situação para a rápida resolução das falhas. Sem desistir, observamos como fazer melhor e seguimos em frente para novos desafios. É como um ciclo de crescimento, etapas devem ser vencidas. Um desapontamento serve para o bom músico crescer e perceber que não somos perfeitos e que o aprendizado deve ser constante. Em nosso grupo as conquistas e vitórias são muito maiores do que qualquer decepção musical.

 

4.       Fale sobre sua formação e experiências. Você fez algum curso para ser diretor artístico da ORSSE?
Além de minha formação universitária, como bacharel e mestre, na Unesp, fui aluno de John Neschling em um período áureo da Osesp e hoje tenho Isaac Karabtchevsky como mestre e amigo. Neschling era um excelente programador na Osesp, e sabia como poucos organizar uma temporada, mesclando períodos, inovando e administrando as coisas muito de perto. Um excelente administrador e um músico muito sensível, inovador. Karabtchevsky é outro grande pensador da direção artística brasileira, e tem ideias surpreendentes de programação. Comanda agora, junto à mesma Osesp, um auspicioso projeto de gravação de Sinfonias do Villa-Lobos. Aprendi muito com ambos e também nunca desligo a “antena”: o bom diretor artístico tem de estar conectado a tudo o que acontece nas principais orquestras do Brasil e do mundo. Tenho inúmeros arquivos com programações de vários anos de variadas orquestras. É necessário muito estudo, empenho e sensibilidade, sempre.

 

5.       Sabe-se que, muitas vezes, escolhas artísticas são baseadas no famoso “toma lá da cá”: o maestro A convida o Maestro B que, por sua vez, convida o maestro A. Há, inclusive, empresas (agentes) que se encarregam de “organizar” esse troca-troca que, infelizmente, não está apoiado em valores artísticas, mas econômicos.  O que você tem a dizer sobre isso?
O mercantilismo musical é danoso, pois aí a qualidade nunca é colocada em primeiro plano. Ocorrem em algumas orquestras fora do Brasil uma terceirização da direção, nas mãos de agente A ou B que só indicam profissionais comprometidos com esses agentes. Há agentes que montam elencos de ópera sem o menor conhecimento da real adequação vocal dos cantores aos papéis. Isso é papel do maestro decidir; terceirizar estas questões é colocar o sucesso das produções em xeque. Na minha opinião, a meritocracia, sempre adequada aos recursos disponíveis para a gestão artística, tem de estar sempre em primeiro lugar. Devemos pensar sempre na contribuição que o maestro/solista trará para o grupo e para a sociedade, tanto em ideias de repertório quanto na competência interpretativa. O estrelismo é reservado àqueles que não possuem um bom serviço para o seu público.

 

6.       Qual o seu sonho musical como diretor artístico da ORSSE?
São muitos os sonhos. Meu sonho principal contaria com uma orquestra satisfeita e bem avaliada profissionalmente, completa em número de músicos e em qualidade de instrumentos, com uma administração atuante e concertos bem divulgados, no palco de um renovado Teatro Tobias Barreto, executando brilhantes repertórios sinfônicos.

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A passagem da OSB pela Sala São Paulo na tarde de ontem causou excelente impressão. O experiente maestro Semyon Bychkov – que já regeu as Filarmônicas de NY, Viena e Berlim, Concertgebouw de Amsterdã e foi titular da WDR de Colônia por mais de uma década – mostrou o que de melhor pode ser encontrado nas duas sinfonias que compuseram o programa: a Sinfonia em si menor, D.759, a “Inacabada” de Schubert, e a célebre Sinfonia n.5 em dó sustenido menor, de Mahler. A  performance da OSB salientou e explorou, de modo contundente, o abismo anímico existente entre as duas obras, desde a entrada soturna e cálida da obra de Schubert, com direito à sublime exposição temática realizada em pianíssimo pelos cellos e contrabaixos,  até a explosão esquizofrênica realizada pelo trompete já na abertura da sinfonia de Mahler (Trauermarsch – Marcha Fúnebre), magistralmente conduzido ao limite do insano no terceiro movimento da obra (Scherzo). Os laivos de histeria no Allegro central do segundo movimento deixaram por alguns minutos a platéia em suspenso. Tudo coeso. Era uma história com começo, meio e fim que estava sendo contada a todos os presentes.

Victor Hugo afirmou certa vez que a música expressa tudo aquilo que as palavras não conseguem exprimir e que não pode deixar de ser dito. Pois bem, a OSB ontem, com sua execução segura, afirmava a todos o que é que, neste momento, vale a pena: olhar para frente! Passado é passado. Apesar de ainda não serem poucas as interrogações que pairam sobre o grupo sinfônico, a OSB contou muitos de seus segredos, quase todos, nos 95 minutos de música que fabricou. Não sei dizer o motivo, mas durante a execução de Mahler, via na postura de cada músico uma clara tentativa de contar um pouco mais sobre os embates ao qual, em um passado não tão longínquo, o grupo sinfônico se submeteu. E era dentro deste contexto que eu buscava ouvir o que ainda não havia sido dito.

Dentro desta nova fase, chamou-me a atenção a nova linguagem visual da OSB em suas peças gráficas. Em tributo aos 90 anos do Modernismo, celebrados em 2012, tomei conhecimento (Bold Design) que três estão sendo os artistas homenageados: Burle Marx (responsável pela identidade paisagística da cidade do RJ), Paulo Mendes da Rocha (arquiteto e urbanista paulistano) e Athos Bulcão (colaborou com Niemeyer e Lucio Costa na construção de Brasília), referenciando as três cidades onde a OSB desenvolve sua temporada em 2012.

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Sempre me surpreendo ao pensar que antigamente, em recitais, era pedido ao artista que, além das obras previstas no programa, também mostrasse sua capacidade de improvisação criando, in acto, uma obra musical. A platéia sugeria um tema musical, ou cantarolava algo, e o artista desenvolvia a obra diante de todos. Uma loucura! Chopin era mestre na improvisação.

Atualmente, a música clássica “somente” ao artista-intérprete que faça sua arte com o conteúdo exato da partitura, nem mais, nem menos: não há espaço para invenções no texto melódico. Ao intérprete é exigido entender em profundidade a obra, captando a intenção do autor. E isso não é pouco. Não é trivial. O intérprete somente domina a obra quando a obra o domina. E esse trabalho exige maturação. Apesar de os moldes da música clássica não permitirem alterações no texto melódico, há um espaço em diversas  - denominado cadenza – onde ao intérprete é dada essa liberdade de criação do texto melódico. Lembro-me de uma apresentação que realizei do Concerto n.24 em dó menor, de Mozart, com uma cadenza totalmente criada por mim. Foi uma experiência muito legal, divertida. No entanto, não me vejo especialmente vocacionado para a composição, para uma atitude mais jazzística diante de meu trabalho.

A pianista venezuelana Gabriela Montero é um fenômeno da improvisação nos dias atuais. Sua capacidade chamou a atenção da pianista argentina Martha Argerich, com quem realiza frequentemente concertos. A pressão das competições e do rigor que, infelizmente pode ocorrer em algumas esferas da música clássica, fizeram com que Gabriela abandonasse temporariamente o piano. Mas toda paixão, cedo ou tarde, pede aos apaixonados um reencontro. E Gabriela voltou aos palcos.

É esse esplendor que estará no Brasil para duas apresentações neste final de semana; no Rio de Janeiro (Theatro Municipal – dia 05, 16h) e São Paulo (Sala São Paulo, dia 06, 17h).

 

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  • Quem faz

    O pianista Alvaro Siviero (www.alvarosiviero.com) já atuou como solista diante da London Festival Orchestra, Budapest Chamber Orchestra, Prague Philharmonic Orchestra, I Musici Montreal, Salzburg Chamber Solists, entre outras, além de extensa atuação como recitalista e camerista. Especializado em Educação Multicultural pelo Lesley College, Siviero é também graduado em Física pela USP.

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