Ainda nos dias de hoje, no âmbito da saúde, quando alguém sofre de algum tipo de indisposição gástrica, aparece um doutor que, após informar-se dos sintomas e causas do mal-estar, ordena: “Mostre a língua! Tire a língua!”. E da língua esbranquiçada, ou sulcada, às vezes avermelhada, surge o diagnóstico acertado. Pois bem, quando o assunto é relacionamento humano, mostrar a língua é o mesmo que deixar ver o coração. As palavras – com suas mil tonalidades, cargas, intenções e acentos – são um retrato falado do que trazemos dentro. Quem não se lembra do sentimento de gratidão que nasce quando alguém nos estimula com palavras de otimismo e conforto após um erro cometido? Quem não se sente cativado diante de um conselho desinteressado e verdadeiro? É a língua a serviço do bem.
Pelo contra-exemplo, quem pratica a maledicência, mais do que jogar luz sobre aspectos negativos dos outros, evidencia o que traz dentro de si. Na realidade, evidencia o que é. Esta prática, infelizmente comum em alguns ambientes, é um dos frutos mais baratos da inveja: uma tentativa de diminuir o brilho alheio que incomoda. Como não se consegue subir tenta-se abaixar o outro. O livro O Imbecil Coletivo, de Olavo de Carvalho, narra de modo divertido alguma dessas situações. No entanto, a maledicência nada tem de divertido por ter sua origem na baixeza humana (desde uma vingança até um desejo de hegemonia profissional) ou, simplesmente, na ausência de conteúdo intelectual: não se sabendo sobre o que se falar, fala-se do capítulo da novela, ou sobre a celebridade do dia, critica-se algo que nos desagradou e, em clima de conversa girada em torno de fofocas e tititis – pensam eles – prolongam-se relacionamentos “amistáveis”, mas que não se sustentam. E o que somos deep inside fica cada vez mais envidenciado.
Certa vez, um amigo afirmou nunca se basear no que os outros lhe falavam para tirar conclusões sobre pessoas ou fatos: suas opiniões baseavam-se em suas próprias observações. Como diretor de uma grande empresa que era, não queria receber nenhuma informação prévia sobre seus funcionários. Poucos dias depois, coincidentemente, empreendi uma longa viagem profissional. Assim que cheguei ao aeroporto, um músico que me esperava, em uma espécie de arranque de insegurança pessoal e profissional, dirigiu-me uma enxurrada de comentários muito pouco edificantes sobre diversos músicos, muitos dos quais conheço. Enquanto ele fazia suas análises, algumas bastante ácidas, percebi como algumas pessoas, entre duas formas de se dizer a mesma coisa, são capazes de optar pela forma mais antipática. Durante toda aquela cascata de maledicências fiquei calado. Eu não o conhecia em profundidade e, diante de meu silêncio, após um certo tempo, o tema da conversa mudou. Pensei: se esta pessoa vem me falar mal de outros, quem me garante que algum dia não fará o mesmo sobre a minha pessoa a terceiros? Lembrei-me da sábia atitude daquele meu amigo empresário: de que devemos pensar por conta própria. Hoje, com a perspectiva do tempo e contando com a verdade dos fatos, surpreende verificar como este músico caminha cada vez mais para o anonimato.
É evidente que, se falamos mal de alguém, é porque antes pensamos mal. E dentro deste quadro, em efeito dominó crescente, não é de se estranhar que à maledicência e à crítica, acrescente-se a mentira, transformando a maledicência em calúnia. Dizem-se e escrevem-se aberrações sem fundamento, baseadas em simples suspeitas, ou no que “se diz” (isto é, no que alguma pessoa mal intencionada comentou).
Como em Hamlet, “há algo de podre no reino da Dinamarca”. E a podridão não está fora. Está dentro. Mas cada um faz da própria vida o que quiser. Fica o convite.
2012
2011