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Alvaro Siviero


 

Faz alguns dias, ajudei uma pessoa, bom pianista, a melhor interpretar a Sonata n.3 em si menor, Op.58, de Chopin. A performance estava bastante falha, desastrosa´, nem tanto no ponto de vista técnico, mas interpretativo. Analisávamos juntos o último movimento  presto, non tanto: a necessidade de maior ênfase nas linhas melódicas, análise rítmica, a surpreendente coda (agora em si maior), entre outros detalhes. E aí veio o disparo: “Alvaro, não me sinto verdadeiro interpretando dessa forma. Posso me soltar? Preciso ser eu mesmo, autêntico”. Fiquei pensativo. Aquela tentativa da Sonata de Chopin, interpretada diante de mim, transformava-se em rio caudaloso, sem margens definidas, que encharcava tudo.

Muitos músicos – e também pessoas de diversas profissões – acreditam que fazendo o que se fizer, desde que seja autêntico, será valido. O importante é que esteja de acordo com o que você é, pensa e sente. Tem que sair de dentro. Não se reprima, repressão faz mal. E confunde-se espontaneidade com autenticidade, dois conceitos muito diversos. A confusão, pelo que pude verificar muitas vezes, não é só de palavras, mas de idéias; e isso é muito perigoso, porque as idéias determinam a conduta.

A espontaneidade é uma janela que mostra o que carregamos em nós: o que temos dentro vê-se pelo que sai espontaneamente para fora. Se for preguiça, vai sair preguiça. Se for rancor, vai sair rancor. Se for fofoca, sai fofoca. Se for amor, sai amor. Se for arrogância, sai arrogância. E a música fabricada por essa pessoa, o que é incrível, revela tudo isso… No palco, o artista se desnuda. Nada há, talvez, mais espontâneo em nós do que os nossos desejos, bons ou ruins. Confundindo autenticidade com espontaneidade, será lógico pensar que a atitude mais “autêntica” é a de seguir os nossos desejos, sejam eles quais forem. “Seja autêntico – diriam alguns espontâneos – e não se reprima. Você tem vontade de berrar? Berre. Tem vontade de beber? Beba”.

Não há ninguém que seja “autêntico” e mais nada, só autêntico. Um adjetivo assim isolado, pendurado no ar, não tem sentido. Por isso, quando alguém diz: “Eu quero ser autêntico”, deveríamos perguntar: “Você quer ser um autêntico quê? Um autêntico trabalhador? Um autêntico irresponsável? Um autêntico criminoso? Um autêntico homem? Um autêntico bicho?”.

Ontem, depois de dedicar horas preparando um concerto que em breve farei, fui ao armário de partituras. Busquei o álbum das sonatas de Chopin. E comecei a ler, com calma, todas as indicações dadas pelo autor…

 

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Talvez alguns ainda não o  saibam, mas no último 31 de janeiro de 2011 uma histórica sentença jurídica decretou ser a cela n.4 a verdadeira cela que abrigou o compositor Frederic Chopin quando de sua passagem em Valldemossa, cidade localizada na ilha de Maiorca, a maior das Ilhas Baleares (Espanha), durante o inverno 1838-1839 . Até então pensava-se que a verdadeira cela era a de n.2.
http://www.abc.es/20110201/cultura-musica/abcp-engano-mayor-celda-chopin-20110201.html

Desfrutando da companhia da escritora George Sand, Solange e Maurice – os dois últimos filhos de Sand - Chopin finalizou e revisou neste local  o seu Scherzo n.3, Prelúdios, Polonaises, entre diversas outras obras. George Sand, em sua obra Um inverno em  Maiorca, retrata este período com enorme realismo.  Aconselho vivamente a leitura. 

Tive a honra de ser o pianista convidado a realizar o primeiro recital oficial dentro da verdadeira cela (n.4). O recital representou o encerramento do Congresso sobre Interculturalidade promovido pelo Instituto Ramón Llull (www.ramonllull.net). O evento, fechado, contou com a presença de personalidades de diversos países, representantes culturais e membros da ONU.  É muito difícil descrever o que se sente neste momento. Enquanto eu tocava, um enorme quadro de George Sand e outro de Chopin, ao meu lado, me observavam atentamente.  Janelas, à minha esquerda, levavam meu olhar  a paisagens incríveis. Tive a oportunidade de observar diversos manuscritos do autor e, inclusive, ver a roupa que ele utilizou em seu último recital: um colete de cor azul marinho, com forro de cetim branco. Surpreendeu-me verificar que, por exemplo, o manuscrito do Estudo Op.25 n.2 não corresponde a nenhuma das diversas edições que conheço… (aos pianistas interessados posso explicar exatamente isso). Firmei o livro da Cartoixa. 

Em breve estará sendo lançado o DVD da apresentação, contando com um making of que inclui tomadas de diversas ruas desta pequena cidade que é Valldemossa, a cerca de 15km de Palma, a principal cidade da ilha. A vida sempre nos reserva momentos como esse!

Abaixo um pequeno trecho, gravado por um amador, dos momentos de ensaio, de reconhecimento do piano. Recordar é viver!

Aos interessados, fotos aqui

 

  

 

 

 

 

 

 

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Peço perdão por me prolongar na análise mas, após recital que realizei faz pouco, uma amiga, grávida de nove meses, veio efusivamente cumprimentar-me. O marido, orgulhoso, a acompanhava. Ao encontrá-la fiquei sem ação: eu tinha clara consciência de que o teatro poderia se transformar em maternidade a qualquer momento. Eufórica, ela descrevia todas as reações do bebê durante minha execução: os fortes “chutes” que o bebê havia dado durante as Polonaises Op.44 e Op.53 de Chopin, a tranqüilidade e calmaria durante a interpretação do Noturno de John Field… Confesso que não consegui prestar muita atenção no restante, tal minha aflição, perplexidade.

Estudos comprovam que, a partir do 4º mês de gestação, o feto já pode escutar. A batida do coração da mãe é o primeiro contato com o som rítmico, auxiliando-o a formar-se harmonicamente. Sabe-se hoje que sons de baixa freqüência tranqüilizam o bebê e que, por outro lado, a agitação vai em crescendo diante de sons agudos: o cérebro da criança assimila tudo isso, ao mesmo tempo que se estrutura. A voz aguda, por exemplo, é captada com maior facilidade pelos bebês, explicando o timbre agudo cômico que muitos adultos utilizam para conversar com recém-nascidos: tudo científico. Surge assim, além da comunicação pelo tato, uma nova forma de comunicação da gestante com o filho: a música (processo conhecido por Estimulação Precoce).

Em Londres, com o método da Estimulação Precoce, uma gestante utilizou a obra Primavera, de Vivaldi, para comunicar-se com o filho. No 5º mês de gestação o bebê já começava a responder aos estímulos. Surpreendentemente, quando a obra atingia o movimento Inverno, a resposta cessava. Outras vezes, aumentando-se o volume, o bebê começava a “chutar” com mais força. Anos mais tarde, já no período escolar, verificou-se a enorme facilidade lingüística desta criança, assim como sua invejável capacidade de reter palavras complicadas. Hoje é um orador e leitor voraz. A música que ele mais gosta? A Primavera, de Vivaldi. Em Madrid, uma professora utilizou música clássica nos momentos de troca de conteúdos das aulas, bem como durante intervalos entre atividades pedagógicas. Ao final do 3º trimestre era possível deixar a sala de aula por alguns breves minutos: todos os alunos permaneciam nos seus locais, serenamente trabalhando.

Uma criança possui milhões de neurônios ainda não inteiramente conectados nas zonas de sinapses nervosas, à espera de estímulos que os integrem no circuito neuro-cerebral. Através do método da Estimulação Precoce influenciamos diretamente no desenvolvimento da mente, não somente no aspecto físico (o som que incide no ouvido e provoca uma reação psicomotora), mas na ativação e desenvolvimento do próprio pensamento.   As estatísticas mostram que, como tendência geral, os bebês expostos à música tendem a ser mais tranqüilos, com um sentido de curiosidade mais aguçado e com inteligência e imaginação mais criativas. Facilitando as conexões neuronais facilitamos a aprendizagem. Músicos como Bach, Mozart e Beethoven, a título de exemplo, asseguraram que seu amor à música era proveniente, em grande parte, do ambiente musical em que viveram.

A ciência define os hemisférios direito e esquerdo do cérebro como locais onde se hospedam, respectivamente, a capacidade musical e de linguagem. Como aprendemos a falar ouvindo, existe, como é razoável, uma relação entre esses hemisférios. Dom Campbell, em sua obra O efeito Mozart para crianças, vai além afirmando que, além da relação lingüística, a música conecta a parte racional do homem com a sua vertente emocional: alegramo-nos com a música alegre e protestamos diante da música desagradável, assim como trabalhamos de modo mais dinâmico e ágil com música rápida. Aos que tocam algum instrumento, afirma também o estudo, há maior facilidade de manifestar opiniões e pontos de vista. A influência musical comprovou, em adultos,  um desenvolvimento lingüístico e habilidade motora superiores à média, maior desenvolvimento da capacidade espacial, maior desenvolvimento e educação afetiva entre a parte racional/emocional e ampliação da capacidade de concentração.

Minha amiga está perdoada!

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  • Quem faz

    Alvaro Siviero é pianista, especializado em Educação Multicultural pelo Lesley College e graduado em Física pela USP.

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