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Alvaro Siviero

Dança Húngara n.5, Budapest Philharmonic Orchestra, Tomomi Nishimoto (regente)

O contato inicial de Brahms com a música húngara ocorreu quando o compositor alemão era ainda bastante  jovem, de modo natural, dado que no século XVIII era muito comum dar à arte musical uma característica húngara, dançante. Diversos compositores – Haydn, Beethoven, Schubert, Weber, Liszt, entre tantos outros – dedicaram-se a esse estilo de improvisação musical cultivada pelos ciganos, utilizando bruscas alternâncias de passagens lentas e rápidas. A identificação de Brahms com o gênero foi tal que, em 1869, aos 36 anos de idade, ele não somente decidiu mostrar ao mundo 10 de suas composições do gênero, escritas em versão para piano a quatro mãos, mas também realizou extensa turnê pela Alemanha com o violinista húngaro Eduard Reményi executando ao piano, de cor, várias das árias ciganas com as quais Reményi encerrava seus concertos.

O susto veio quando Reményi acusou Brahms de ter furtado, plagiado, melodias tradicionais folclóricas para a composição dessas 10 danças húngaras. Confuso, o próprio Johannes Brahms esclareceu que já havia deixado muito claro ao editor de que nenhuma dessas melodias era sua: ele somente havia, usando as palavras do autor, dado “forma e equilíbrio” às melodias ciganas, não atribuindo sequer número de Opus às obras e mandando imprimir a palavra “arranjadas”, em destaque, na partitura. Todos sabiam que a Dança Húngara n.1 estava apoiada na tradicional “Isteni Czardas, de Sarkozy; a de n.2 na “Emma Czardas”, de Mor Windt; as conhecidíssimas n.5 e n.6 baseavam-se, respectivamente, na “Batfai Emlek” e na “Rosza Bokor”…

Acusado injustamente de plágio e sentindo-se desafiado, Brahms, em 1881, decide compor mais 11 danças, sem recorrer a “fontes” húngaras, mas somente ao estilo húngaro. Essas novas danças, de elaboração mais complexa, mesmo que com efeito menor que as primeiras, foram consideradas pelo autor como as melhores, conferindo um hungarismo de um povo criado em conjunto com a natureza.

Sem sobra de dúvida, a extrema popularidade do conjunto das 21 danças húngaras foram forte propulsor para a consagração final do autor, mesmo este já sendo reconhecido como responsável da elevação do gênero sinfonia à sua perfeição máxima.

Fica agora a dúvida: o que levaria o violinista húngaro Reményi a atacar o amigo de tal forma?

Abaixo, a Dança Húngara n.1, uma de minhas preferidas, em versão para orquestra (Budapest Philharmonic Orchestra com regência de Tomomi Nishimoto) e a versão original para piano a 4 mãos, com as pianistas Yuja Wang e Khatia Buniatishvili. Vale conferir!

 

 

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Dizem que paixão não correspondida mata. Já vi gente chorando, emagrecendo ou perdendo a razão de seguir adiante. Há crimes passionais. O que vocês aconselhariam a um homem que se apaixona pela mulher de um grande amigo? Pois bem, esse homem foi Brahms. A mulher, Clara Schumann, a esposa do pianista, professor, compositor e jornalista Robert Schumann.

Em 1853, aos 20 anos de idade, Brahms aterrissou em Düsseldorf com o intuito de levar diversos de seus manuscritos ao grande Robert Schumann, conhecido em toda Europa pelas críticas musicais que publicava no jornal Neue Zeitschrift für Musik, de grande circulação. Todo jovem compositor necessitava um Schumann a seu lado. E Schumann, vendo em Brahms o músico que as salas de concerto esperavam, recebeu-o em sua família, um lar feliz, estruturado, que contava com sete filhos. Não era relação de interesse. Era o início de uma amizade, que se estreitava. Inesperadamente, em 1856, após um período de grave enfermidade mental, Robert Schumann falece, em um manicômio, aos 45 anos de idade.

Clara, uma mulher decidida, de têmpera, de beleza marcante, então com 37 anos, havia sido impedida do privilégio de visitar o marido durante o período em que esteve internado, pensando que sua presença não contribuiria à restituição mental de seu marido. Mas nada poderia ter sido pior a Robert que essa ausência: ela era sua musa, seu apoio, sua amiga. Brahms, que visitava o amigo com frequência, tornou-se fonte de conforto para Clara, uma pianista contada entre os virtuoses de seu tempo. Certamente Brahms via na saudável família o que ele nunca havia tido: uma relação sólida, embasada em verdadeiro amor.

Com a morte de Robert Schumann, Brahms sente-se no dever de continuar em Düsseldorf como apoio, mas também em tentativa de aproximação. Este período estende-se por mais de dois anos… Mas a independente e nada carente Clara, que sempre amou o marido, decidiu para sua vida algo diferente: ser a mãe de seus filhos e, em memória de Robert, realizar recitais divulgando as obras do amado.  Ponto final.  Brahms nunca se casou. Morreu um ano após a morte de Clara, introspectivo, de um câncer no fígado. E assim é sua obra.

Quando realizo concertos sempre penso em uma história, mesmo que irreal, que me motive, que seja um fio condutor em minha interpretação. Mas essa história, baseada em dados reais, é a que estará em minha mente quando, no Teatro Guaira (Curitiba) e Sala São Paulo (SP), interpretar, no próximo mês de novembro, o colossal Concerto n.2 para piano e orquestra, de Brahms. Esse concerto, extensamente revisado pelo autor é, para muitos, a história desse amor não realizado: é um confessionário.

No longo primeiro movimento, Brahms conta a sua história, toda: e o pus da ferida é exposto de forma incontida. Sabe aquele sentimento que surge quando você se encontra diante de alguém por quem está apaixonado e, ao mesmo tempo, sabe que a pessoa nunca será sua? Desespero? Depressão? Perda de sentido para as coisas? O segundo movimento (assista ao vídeo em anexo, Barenboim-Celibidache-Munique) é um grito de desespero, de quem tenta alcançar o bem desejado, mesmo sabendo que, talvez, nunca o consiga. É a paixão que se põe em pé, pedindo ajuda. O terceiro movimento tange a dor de quem agora já tem a certeza de que o impossível é, de fato, impossível. Letárgico, doído, contido, este movimento tem um dos mais belos solos de violoncelo, instrumento de corda que reflete em seu timbre o dado histórico. O quarto movimento, inédito em um concerto para piano, é a visão de quem vê que a vida deve ser adiante e que o passado deve se tornar passado, mesmo que a duras penas.

Lembro-me da primeira vez em que eu estive no túmulo de Brahms, em Viena. Pedi permissão a ele para contar essa história, algum dia. Não me sentia preparado a fazê-lo. Ainda não me sinto… Mas qual é a pessoa que tem preparo para se adentrar dentro de tamanha dor alheia?

Sintam-se convidados a estar presente neste momento! Terei a honra de ser o solista de tamanha obra na estréia da Orquestra Sinfônica do Paraná na Sala São Paulo. Momento duplamente histórico.

Dia 20 de novembro – Teatro Guaira (Curitiba) – 11h
Dia 27 de novembro – Sala São Paulo (São Paulo) – 17h

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  • Quem faz

    Alvaro Siviero é pianista, especializado em Educação Multicultural pelo Lesley College e graduado em Física pela USP.

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