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Alvaro Siviero

Era tal o domínio e conhecimento que Beethoven possuía sobre Mozart que, em muitas de suas composições, o próprio Beethoven afirmava não saber se em suas obras estava criando algo novo ou plagiando o músico austríaco. O grande desejo de Beethoven era o de ser aluno de Mozart.

A relação entre os dois músicos vai além do meramente musical. Max Franz, irmão mais novo do imperador José II e de Maria Antonieta,  filhos da imperatriz Maria Teresa, era um apaixonado por música e por Mozart, em quem pretendia investir sólido patrocínio. Mas a Mozart não lhe interessou o posto de mestre capela de Bonn. A negativa de Mozart foi o provável motivo que o fez investir em um talento local: Beethoven. E com este apoio,  então com 16 anos, o jovem Beethoven fez sua primeira viagem a Viena onde, após assistir uma apresentação de Mozart afirmou: “Mozart toca bem, mas muito picado, sem legato“. Essa afirmação foi-nos transmitida através de Czerny, aluno de Beethoven.

Esse embasamento histórico vai ao encontro das declarações do pianista Nelson Freire, como atesta João Luiz Sampaio, em recente entrevista publicada no Estado (leia íntegra). O concerto n.20 para piano, de Mozart, interpretado por Freire, era um dos concertos preferidos de Beethoven. “Não é por acaso, Beethoven já está ali nessa obra, ainda que de forma embrionária”, afirmou o pianista. Pois bem, Freire interpretou Mozart com a visão beethoveniana, dando à performance um caráter mais romântico, com a utilização de rubatos , pedal generoso e legatos. O rondo final recebeu do pianista accelerandos assumidos em algumas retomadas de tema. E Freire assumiu esta responsabilidade. O primeiro contato com esse concerto de Mozart, declarou Freire, foi na juventude, em uma apresentação da pianista Guiomar Novaes, de quem é fã declarado.

A platéia, que lotava a Sala São Paulo, em delírio, aplaudia o pianista. Vê-se que Freire está acima do bem e do mal. Tem carisma musical. Ao final, como uma dedada de mel aos presentes e agradecimento à pianista Guiomar Novaes, veio o inevitável: o seu Gluck-Sgambatti.

E Mozart e Beethoven, juntos, tornaram-se mais próximos do que nunca.

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Enquanto alguns desanimam com as naturais dificuldades da vida, outros se tornam fortes e seguros. Amadurecem. O sofrimento, sempre, é experiência pessoal e intransferível. Podemos unir-nos ao sofrimento alheio, podemos dar conforto aos que passam por um mal momento e até podemos buscar sentir a dor que outros sentem. Mas não podemos viver essa dor.

Beethoven experimentou o sofrimento em larga escala. Seu nome, Ludwig, sempre lhe traria à memória a breve vida de seu irmão mais velho, também Ludwig, que havia falecido inesperadamente antes do nascimento daquele que se tornaria o grande músico. Não sei se algum dos leitores carrega a afetuosa e dolorosa experiência de possuir o nome de um irmão falecido. Algo tocante… e emocionalmente exigente. Como se isso não bastasse, Beethoven perdeu também 3 irmãos menores, os mais jovens, sendo que antes do falecimento do último – a caçula a quem Beethoven nutria especial carinho –  também faleceu de modo repentino sua mãe, de tuberculose. Seu pai, um bêbado inveterado, não deixou outra opção a não ser transformá-lo em arrimo de família dos outros dois irmãos menores, os únicos sobreviventes. Tudo isso quando o jovem Ludwig contava apenas 16 anos de idade.

Um dos grandes sonhos de Beethoven era ter estudado em Viena com Mozart. O desejo não se concretizou devido ao falecimento da mãe. O jovem Ludwig, que já se encontrava na cidade austríaca, foi obrigado a retornar a Bonn para cuidar dos irmãos. Anos depois, quando retorna a Viena para realizar seu sonho, é Mozart quem desta vez vem a falecer. Paralelamente, de modo crescente, se inicia o processo da surdez. A obra recolhida no vídeo abaixo, retirada de célebre cena do filme O Segredo de Beethoven, foi composta quando o autor praticamente não mais escutava.

Há não muito tempo atrás, decidi reproduzir entre diversos amigos e pessoas conhecidas, uma interessante pesquisa realizada em universidade americana no âmbito da psicologia. Queria certificar-me do que havia lido. Na pesquisa, diversas pessoas foram entrevistadas, das mais diversas idades e classes sociais, se aceitariam entrar em uma “máquina” que teria a capacidade de exterminar todo e qualquer tipo de sofrimento ou dificuldade que pudessem vir a experimentar na vida. A entrada nesta “máquina” ocorreria de modo irreversível, ou seja, aqueles que entrassem nunca mais experimentariam a dor humana. Como na pesquisa americana realizada, nenhum de meus entrevistados  – mais de 50 pessoas – aceitou a proposta. Insisto: ne-nhum. E ficou claro para mim que o sofrimento faz parte da vida. Retirá-lo seria deixar de viver. Seria somente existir.

Pessoalmente, estou convencido que o pequeno Ludwig transformou-se em Beethoven por ter vivido o que viveu. E essa é a gênese de sua música. As dificuldades somente se transformam em problemas para os que cultivam uma personalidade problemática. Sempre é possível fazer com o limão uma limonada.

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16.setembro.2011 01:41:49

Beethoven, um negro?

O livro Beethoven – A Música e a Vida, escrita por Lewis Lockwood, um dos grandes especialistas em Beethoven da atualidade, contém declarações de diversas pessoas que tiveram a sorte de conviver com o compositor alemão. Muitos dos depoimentos recolhidos jogam luz sobre um aspecto curioso.

A família Fischer, proprietários da casa onde Beethoven cresceu, em Bonn, relata: “Era homem baixo e forte, de ombros largos, pescoço curto, cabeça grande e nariz redondo, com tez escura. Ele sempre se inclinava um pouco para frente ao caminhar”.

Em outros diários: “Era baixo e de aparência comum, de rosto feio, avermelhado e cheio de marcas. Seu cabelo era muito escuro e caía, desarrumado, em torno do rosto. (…) Suas roupas eram ordinárias, não muito diferentes da moda daqueles dias. (…) Falava com um sotaque forte e de uma maneira bastante comum. (…) Seu rosto, de expressão resoluta, exibia marcas, talvez de varíola”.  A análise de sua máscara mortuária revela também a existência de lesões e sulcos.

O editor da revista Pride, dedicada à comunidade africana e antilhesa do Reino Unido, afirma ser evidente a existência de um complô com a finalidade de ocultar a origem negra de Beethoven. Shabazz Lamumba, autor do artigo, afirma se tratar de um desejo dos brancos em se apropriar do compositor. Lamumba cita, ainda, a descrição do antropólogo Frederick Hertz que, em seu livro Raça e Civilização, descreve a pele morena e o nariz largo do gênio de Bonn.

Sabe-se que os antepassados paternos de Beethoven eram flamengos e que, devido ao cabelo espesso e pele morena, o compositor era muitas vezes chamado por seus amigos de “espanhol”. Teorias afirmam que Beethoven descenderia de escravos emigrados das colônias holandesas da América Central (em particular, da colônia de São Domingos). A dominação espanhola nos Países Baixos – com a anterior dominação moura na Península Ibérica durante a Idade Média - mostra não ser impossível que corresse nas veias do compositor certa porção de sangue ibérico ou, em última instância, mouro, remotando às supostas origens africanas do músico.

Pessoalmente, atrevo-me a afirmar que causou-me surpresa as feições que encontrei na máscara mortuária do compositor quando tive a oportunidade de vê-la em Heiligenstadt, Viena. Por curiosidade, busquei no Google mais informações sobre o assunto… outra surpresa!

Será que onde há fumaça há fogo?

Abaixo, o último movimento da Sinfonia n.5 em dó menor, Op.67. O famoso início da obra (o célebre tchã-tchã-tchã-tchããããã), não pode eclipsar o que se encontra neste último movimento: Beethoven na mais pura fonte, repleta de profundo heroísmo revolucionário, de contestação. 

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Peço perdão por me prolongar na análise mas, após recital que realizei faz pouco, uma amiga, grávida de nove meses, veio efusivamente cumprimentar-me. O marido, orgulhoso, a acompanhava. Ao encontrá-la fiquei sem ação: eu tinha clara consciência de que o teatro poderia se transformar em maternidade a qualquer momento. Eufórica, ela descrevia todas as reações do bebê durante minha execução: os fortes “chutes” que o bebê havia dado durante as Polonaises Op.44 e Op.53 de Chopin, a tranqüilidade e calmaria durante a interpretação do Noturno de John Field… Confesso que não consegui prestar muita atenção no restante, tal minha aflição, perplexidade.

Estudos comprovam que, a partir do 4º mês de gestação, o feto já pode escutar. A batida do coração da mãe é o primeiro contato com o som rítmico, auxiliando-o a formar-se harmonicamente. Sabe-se hoje que sons de baixa freqüência tranqüilizam o bebê e que, por outro lado, a agitação vai em crescendo diante de sons agudos: o cérebro da criança assimila tudo isso, ao mesmo tempo que se estrutura. A voz aguda, por exemplo, é captada com maior facilidade pelos bebês, explicando o timbre agudo cômico que muitos adultos utilizam para conversar com recém-nascidos: tudo científico. Surge assim, além da comunicação pelo tato, uma nova forma de comunicação da gestante com o filho: a música (processo conhecido por Estimulação Precoce).

Em Londres, com o método da Estimulação Precoce, uma gestante utilizou a obra Primavera, de Vivaldi, para comunicar-se com o filho. No 5º mês de gestação o bebê já começava a responder aos estímulos. Surpreendentemente, quando a obra atingia o movimento Inverno, a resposta cessava. Outras vezes, aumentando-se o volume, o bebê começava a “chutar” com mais força. Anos mais tarde, já no período escolar, verificou-se a enorme facilidade lingüística desta criança, assim como sua invejável capacidade de reter palavras complicadas. Hoje é um orador e leitor voraz. A música que ele mais gosta? A Primavera, de Vivaldi. Em Madrid, uma professora utilizou música clássica nos momentos de troca de conteúdos das aulas, bem como durante intervalos entre atividades pedagógicas. Ao final do 3º trimestre era possível deixar a sala de aula por alguns breves minutos: todos os alunos permaneciam nos seus locais, serenamente trabalhando.

Uma criança possui milhões de neurônios ainda não inteiramente conectados nas zonas de sinapses nervosas, à espera de estímulos que os integrem no circuito neuro-cerebral. Através do método da Estimulação Precoce influenciamos diretamente no desenvolvimento da mente, não somente no aspecto físico (o som que incide no ouvido e provoca uma reação psicomotora), mas na ativação e desenvolvimento do próprio pensamento.   As estatísticas mostram que, como tendência geral, os bebês expostos à música tendem a ser mais tranqüilos, com um sentido de curiosidade mais aguçado e com inteligência e imaginação mais criativas. Facilitando as conexões neuronais facilitamos a aprendizagem. Músicos como Bach, Mozart e Beethoven, a título de exemplo, asseguraram que seu amor à música era proveniente, em grande parte, do ambiente musical em que viveram.

A ciência define os hemisférios direito e esquerdo do cérebro como locais onde se hospedam, respectivamente, a capacidade musical e de linguagem. Como aprendemos a falar ouvindo, existe, como é razoável, uma relação entre esses hemisférios. Dom Campbell, em sua obra O efeito Mozart para crianças, vai além afirmando que, além da relação lingüística, a música conecta a parte racional do homem com a sua vertente emocional: alegramo-nos com a música alegre e protestamos diante da música desagradável, assim como trabalhamos de modo mais dinâmico e ágil com música rápida. Aos que tocam algum instrumento, afirma também o estudo, há maior facilidade de manifestar opiniões e pontos de vista. A influência musical comprovou, em adultos,  um desenvolvimento lingüístico e habilidade motora superiores à média, maior desenvolvimento da capacidade espacial, maior desenvolvimento e educação afetiva entre a parte racional/emocional e ampliação da capacidade de concentração.

Minha amiga está perdoada!

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  • Quem faz

    Alvaro Siviero é pianista, especializado em Educação Multicultural pelo Lesley College e graduado em Física pela USP.

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