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Alvaro Siviero

21.outubro.2011 10:04:39

“Sou autêntico”. E Chopin estremeceu.


 

Faz alguns dias, ajudei uma pessoa, bom pianista, a melhor interpretar a Sonata n.3 em si menor, Op.58, de Chopin. A performance estava bastante falha, desastrosa´, nem tanto no ponto de vista técnico, mas interpretativo. Analisávamos juntos o último movimento  presto, non tanto: a necessidade de maior ênfase nas linhas melódicas, análise rítmica, a surpreendente coda (agora em si maior), entre outros detalhes. E aí veio o disparo: “Alvaro, não me sinto verdadeiro interpretando dessa forma. Posso me soltar? Preciso ser eu mesmo, autêntico”. Fiquei pensativo. Aquela tentativa da Sonata de Chopin, interpretada diante de mim, transformava-se em rio caudaloso, sem margens definidas, que encharcava tudo.

Muitos músicos – e também pessoas de diversas profissões – acreditam que fazendo o que se fizer, desde que seja autêntico, será valido. O importante é que esteja de acordo com o que você é, pensa e sente. Tem que sair de dentro. Não se reprima, repressão faz mal. E confunde-se espontaneidade com autenticidade, dois conceitos muito diversos. A confusão, pelo que pude verificar muitas vezes, não é só de palavras, mas de idéias; e isso é muito perigoso, porque as idéias determinam a conduta.

A espontaneidade é uma janela que mostra o que carregamos em nós: o que temos dentro vê-se pelo que sai espontaneamente para fora. Se for preguiça, vai sair preguiça. Se for rancor, vai sair rancor. Se for fofoca, sai fofoca. Se for amor, sai amor. Se for arrogância, sai arrogância. E a música fabricada por essa pessoa, o que é incrível, revela tudo isso… No palco, o artista se desnuda. Nada há, talvez, mais espontâneo em nós do que os nossos desejos, bons ou ruins. Confundindo autenticidade com espontaneidade, será lógico pensar que a atitude mais “autêntica” é a de seguir os nossos desejos, sejam eles quais forem. “Seja autêntico – diriam alguns espontâneos – e não se reprima. Você tem vontade de berrar? Berre. Tem vontade de beber? Beba”.

Não há ninguém que seja “autêntico” e mais nada, só autêntico. Um adjetivo assim isolado, pendurado no ar, não tem sentido. Por isso, quando alguém diz: “Eu quero ser autêntico”, deveríamos perguntar: “Você quer ser um autêntico quê? Um autêntico trabalhador? Um autêntico irresponsável? Um autêntico criminoso? Um autêntico homem? Um autêntico bicho?”.

Ontem, depois de dedicar horas preparando um concerto que em breve farei, fui ao armário de partituras. Busquei o álbum das sonatas de Chopin. E comecei a ler, com calma, todas as indicações dadas pelo autor…

 

comentários (10) | comente

10 Comentários Comente também
  • 22/10/2011 - 09:45
    Enviado por: F.S. Monteiro

    Ótimo tema, infelizmente muito mal tratado, em geral. E, como todo tema controverso, todos têm um pouco de razão. A pergunta genérica seria: numa interpretação, quanto se deve ouvir do compositor, e quanto do intérprete? A resposta genérica seria: depende. Depende da música, do compositor, da época, do local e do intérprete.

    Quem se propõe a tocar música clássica tem o dever de se informar o melhor possível sobre o que vai tocar. Só depois disso o intérprete terá o direito de “se soltar”, “ser autêntico”, etc. Mas não esqueçamos que, assim como existem obras musicais que envelhecem, a interpretação também evolui.

    Se você vai tocar Chopin no Brasil, provavelmente vai conhecer muito pouco do que deveria para fazê-lo. E se vai ouvir Chopin no Brasil por um pianista brasileiro, prepare-se para tudo. Desde uma interpretação sublime até um febeapá.

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    • 24/10/2011 - 08:42
      Enviado por: Alvaro siviero

      Olá Fábio, você é músico?
      Entendo sua posição. Somente a finalização do seu comentário colocou o nosso povo brasileiro na berlinda. Será que isso não pode ocorrer em qualquer lugar do mundo, com qualquer nacionalidade? Não acredito que artistas internacionais sejam superiores. Você acha que são?

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    • 25/10/2011 - 08:26
      Enviado por: F.S. Monteiro

      O último parágrafo do comentário anterior queria dizer que o nível interpretativo dentro do Brasil é (ou era, já que não posso garantir a atualidade da minha impressão) muito heterogêneo. Quem tem a felicidade de morar perto de um polo cultural, com bons professores e acesso à informação necessária, estará em vantagem contra o resto. Isso independente de talento.

      Claro que em todos os países o nível interpretativo vai variar também. Mas arrisco a palpitar que, entre os países que cultivam o repertório clássico, o nosso seria um dos de maior variação qualitativa. Então temos, por um lado, intérpretes de Chopin como Arnaldo Estrella ou Nelson Freire (só pra citar dois). E por outro, intérpretes como o que vc. descreveu.

      Sou músico, sim. E, justamente por isso, não leve muito a sério minha opinião ;-) Abs.

      “Tão logo lidamos com pessoas, o racional encontra seu limites, e o caos acaba vencendo.” (H. M. Enzensberger)

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  • 22/10/2011 - 13:49
    Enviado por: Carlos Luzzi

    O assunto é dígno de longa conversa. Acredito que grande parte do conceito de interpretação musical de peças de outras épocas vem da transmissão de geração a geração desses conceitos, seja de forma escrita ou pela experiência sonora. O estudo extensivo sobre a cultura da época proporciona uma melhor recriação de intenção do autor, o que em geral se espera ne maioria dos casos. Me pergunto o que ocorreria ao se mostrar a música escrita a uma pessoa conhecedora da notação musical, mas totalmente desprovida do senso estético que temos, alienígena. Provavelmente o resultado iria de longe diferir com relação á interpretação considerado correta. Me pergutno também, se a interpretação que ouvimos hoje é a mesma das executadas nos SEC. 18 por exemplo. Acredito que não, mas não dá pra saber ao certo.

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    • 24/10/2011 - 08:37
      Enviado por: Alvaro siviero

      Carlos, entendo sua colocação. A verdade interpretativa, no entanto, é única. Se não há verdade, a interpretação não convence.
      Abraço!

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  • 04/02/2012 - 19:30
    Enviado por: Nádia Basílio

    Olá, gostei do artigo. Sou pianista intérprete e já fui aluna da Escola de Belas Artes do Paraná. Quando interpretamos, ali não há nada pessoal a não ser a técnica adquirida, que está a serviço de nossa busca. E o que buscamos? Aquilo que o compositor sentiu no momento de sua criaçâo. Nada reflete melhor esse fato que a peça de confronto ou a emoção dos ouvintes (ou falta dela) num recital. Não há o que discutir: o verdadeiro pianista tem uma comunicação direta com Deus e consegue captar a música de maneira perfeita, nunca sendo “ele mesmo” diante do piano. De nós mesmos, repito, temos apenas a técnica. Como Álvaro Siviero comentou: só a verdade convence.

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    • 14/02/2012 - 22:29
      Enviado por: Alvaro siviero

      Nádia, consigo agora alguns minutos para comentar sua posição. Imagine um casal de namorados apaixonados, e um deles diz ao outro que o ama. Esta declaração traz alegria ao amado, não é verdade? No entanto esta frase foi dita não simplesmente para dar essa alegria ao outro, mas para também manifestar algo que se sente.Pois bem, assim é na música. Queremos dar alegria ao compositor, sendo fiéis àquilo que foi sua idéia original, mas isso não é suficiente quando falta a pessoalidade na interpretação, você concorda? O intérprete domina o compositor, quando o compositor domina o intérprete. A técnica é somente instrumento – concordo aqui com você – para realizar essa união. O que você acha deste ponto de vista, diferente do seu?

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  • 08/02/2012 - 00:24
    Enviado por: Isabela Bisconcini

    Olá, Alvaro, vou palpitar nesse assunto controverso, mesmo não sendo música (aliás, sendo totalmente leiga no assunto), por ter achado o tema muito interessante e por conseguir ver um paralelo com a língua, em tradução e interpretação.
    Duas coisas me chamaram a atenção no texto: o uso que você fez das palavras “espontâneo” e “autêntico” e a questão da “interpretação”. Quanto às palavras, intrigada, fui ao dicionário e encontrei que espontâneo é o “que se realiza sem premeditação, como que por instinto, por si mesmo; de per se”, ao passo que autêntico é aquilo que é “verdadeiro, legítimo, genuíno”. E aí chegamos à outra questão: a interpretação. Quando trabalhamos como intérpretes/tradutores somos bons se conseguimos captar e transmitir da melhor maneira possível – da forma mais cristalina possível – o pensamento, a ideia, a intenção de quem fala ou escreve, o autor. E somos maus intérpretes/tradutores se nos colocamos no texto do autor (oral ou escrito), nos derramando, dizendo o que ele não disse, exatamente como você falou acima. Mas em interpretação, privilegia-se o conceito e não as palavras que foram usadas; assim, é lícito trocar-se completamente as palavras, usando as que, na sua língua, melhor exprimam a intenção original do autor. Mesmo assim, já vi interpretações que variam muito em significado dependendo do nível de entendimento do tradutor, não se podendo atribuir erro à tradução, mas sim, compreensões diferentes (e possíveis); entendimentos diferentes mesmo, em graus de sutilezas mínimas (que às vezes viram enormes) dependendo da visão do tema e de mundo de quem traduz. Então, inevitavelmente, o filtro (subjetivo) do intérprete entra.
    Mas, voltando ao “autêntico”, a questão é: a quem ser fiel e “verdadeiro”?… No caso, trata-se de ser fiel ao autor, ao compositor, e não a si mesmo. Como numa tradução! Nunca tinha pensado que havia uma semelhança entre o intérprete da língua e o intérprete de uma obra. Mas é ainda curioso porque em música popular é possível uma pessoa regravar uma música e dar a sua interpretação dela, e até torná-la “melhor” do que a gravação original. (Sabendo que “melhor” ou “pior” é algo totalmente subjetivo!) Mas é permitido à pessoa criar!..

    Gostei muito das colocações de todas as pessoas, vi que foram bem técnicas, e invejo os músicos que falam direto com Deus, como disse a Nádia. Ainda assim, o que entendi é que cada um ouve de Deus algo diferente.

    E, por falar em texto, gosto muito do seu!

    Abraço,

    Isabela

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    • 14/02/2012 - 22:21
      Enviado por: Alvaro siviero

      Isabela, muito interessante sua colocação. Fez-me pensar. Mas te adianto que a música é recriação, onde a pessoalidade do intérprete é necessária neste processo. Compositor e intérprete trabalham juntos (um sem o outro não existiria). Mas adentrar-se nesta explicação aqui, neste espaço é, por assim dizer, impossível. O autor de um livro não necessita, necessariamente, do intérprete. A obra de um compositor, sem o intérprete, se transforma em um amontoado de papéis sem sentido. Será que consegui traçar linhas gerais para sua reflexão? Vamos nos falando, OK? Um abraço

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  • 16/02/2012 - 00:53
    Enviado por: Isabela Bisconcini

    Sim! Concordo que esse é um tema complexo demais para se destrinchar assim! E concordo com você sobre a necessária pessoalidade do intérprete (embora seja difícil de entender o contorno entre poder recriar, mas não poder se derramar, né?). Mas, como havia dito, uma tradução também passa inevitavelmente pela pessoalidade e subjetividade do tradutor. É que eu nunca havia pensado que um pianista (ou intérprete de uma obra musical) pudesse ter algo de semelhante com um tradutor.
    E quanto ao autor de um livro não precisar necessariamente de um intérprete, um livro requer que, para lê-lo, se domine aquele código no qual ele está escrito e se o compreenda. Assim, se dominamos o código, recriamos o livro ao lê-lo, e o intérprete somos nós mesmos (ainda que não seja necessária uma leitura dramática!.. rsrs). Entendo o que diz, mas, no fim das contas, os dois são código/texto (como também a matemática, por exemplo) que requerem “alfabetização” na linguagem. Embora, no caso, a música seja a linguagem das emoções. (Revi há pouco tempo o filme O Carteiro e o Poeta; é lindo como para se entender uma poesia também é preciso ir se “alfabetizando” na linguagem, exatamente como o carteiro vai fazendo, e se ampliando e se transformando.)

    E achei muito bonito: “O intérprete domina o compositor, quando o compositor domina o intérprete”. Tem uma fusão alquímica mesmo, né?

    Ah! A questão do espontâneo e do autêntico, então… nossa! Isso dá pano para muitas mangas… rsrs.

    Um grande abraço, Alvaro!

    Isabela

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  • Quem faz

    Alvaro Siviero é pianista, especializado em Educação Multicultural pelo Lesley College e graduado em Física pela USP.

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